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É bom salientar mais uma vez que as bases da teoria da linguista Authier-Revuz encontram-se na concepção de interdiscurso, conceito-chave da AD, na teoria do sujeito construída pela psicanálise Lacaniana e nos pressupostos dialógico-polifônicos de Bakhtin.

Devido ao fato de a Análise do Discurso ser uma disciplina de natureza aberta e estar em relação constante com outros campos do conhecimento, como foi dito, é que estabelecemos uma interface específica entre a teoria das Heterogeneidades enunciativas e a Heterogeneidade das formações discursivas, estudadas principalmente por Michel Pêcheux.

Um dos precursores da AD, Michel Pêcheux, em sua obra “Semântica e Discurso” (1975) escrita no que foi conhecido posteriormente como segunda fase da AD, ao revisar alguns elementos do quadro teórico da AD que havia sido apresentados em 1969, propõe os primeiros esboços da noção de heterogeneidade do discurso por meio da reelaboração do conceito de formação discursiva.

Esse conceito, como já visto, funcionava como “um lugar estrutural fechado” até então, porém, após vários estudos, constatou-se que na realidade essa estrutura é constitutivamente “invadida” por elementos que vêm de outro lugar, isto é, de outras FDs, que se repetem nela, fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais, assim como também pela elaboração da noção de interdiscurso, incluída para denominar o “exterior específico” desta FD, “o todo complexo com dominante” das formações discursivas, intrincado no complexo das formações ideológicas.” (PÊCHEUX, 1993 e 1997).

Desse modo, Michel Pêcheux reconhece que a heterogeneidade, portanto, é que caracteriza a formação discursiva, o que leva a determinar também a natureza heterogênea do discurso.Juntamente com a teoria das heterogeneidades enunciativas de Authier-Revuz, que podemos entrever esse funcionamento de elementos interdiscursivos pela e na língua, de maneira marcada e/ou opacizada. O que nos leva a uma importante conclusão: a de que todo discurso é constitutivamente heterogêneo e que as palavras não são exclusividade de um enunciador e sim reelaborações de dizeres já ditos em algum outro lugar da história e, por isso estão impregnadas de valores ideológicos, que são constantemente modificados quanto ao seu sentido em função do momento, do uso e do lugar discursivo do enunciador. Conforme diz Authier-Revuz:

[...]sempre sob as palavras, outras palavras são ditas: é a estrutura material da língua que permite que, na linearidade de uma cadeia (discursiva), se faça escutar a polifonia não intencional de todo discurso (AUTHIER-REVUZ, 1990, p. 28). O enfoque da linguista, portanto, será compreender de que forma o discurso do outro constitui e determina outros discursos, tendo a percepção da importância da presença do outro para a AD, é que ela busca vincular teorias de enunciação de linha francesa e mergulha nos estudos de complexidade enunciativa instaurada no processo do discurso, priorizando o aspecto heterogêneo como constitutivo do discurso.

Apenas ressaltando mais uma vez que a heterogeneidade revelada de forma explícita na materialidade textual é denominada heterogeneidade mostrada marcada e diferentemente da heterogeneidade constitutiva, ela indica na superfície do texto a presença de outros discursos, de outras vozes que não a do locutor. Já a heterogeneidade constitutiva não indica ou marca linguisticamente no fio do discurso as outras vozes, embora elas estejam implícitas.

Devido ao entrecruzamento de diferentes discursos, que negociam a identidade e a alteridade entre os atos conscientes e os inconscientes no processo de construção discursiva, é que temos a constituição do sujeito discursivo. Num processo que se dá mediante a articulação entre as marcas de heterogeneidade discursiva, mostrada e constitutiva.

Para compor sua Teoria, Authier-Revuz trabalhou também a noção de Sujeito partindo da noção psicanalítica que nega a existência de um sujeito que se constitui como fonte do dizer, ou que pudesse controlar suas palavras autônoma e conscientemente, ou ainda que tivesse total domínio das situações de comunicação. Ela defende que,

Contrariamente à imagem de um sujeito “pleno”, que seria a causa primeira e autônoma de uma palavra homogênea, sua posição [da Psicanálise] é a de uma palavra heterogênea que é o fato de um sujeito dividido (o que não significa nem

desdobrado, nem compartimentado) (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 48-49).

A construção de um Sujeito se dá, portanto, por meio dos atravessamentos de outros discursos que constituem seu dizer, concebendo um sujeito descentrado cujo discurso se constitui de maneira heterogênea. Dominado pelo interdiscurso, entretanto, é importante ressaltar que o Sujeito mantém uma ilusão de que é fonte do seu discurso, de ser a causa primeira do que enuncia, uma vez que desconhece a determinação o inconsciente e do interdiscurso quando diz.

Como consequência dessa ação do inconsciente como porta de acesso para outros discursos, Authier-Revuz compreende o discurso como um campo heterogêneo, pois várias vozes podem ser ouvidas no mesmo discurso, daí ela defender o discurso polifônico, baseada na ideia dialógico-polifônica da linguagem, de Mikhail Bakhtin.

Verificamos, então, que Authier-Revuz promove deslocamentos e reformulações nas concepções de discurso e sujeito, tomando pontos do dialogismo, da Psicanálise e da Análise do Discurso e efeitos dessas teorias nos estudos da linguagem, levando-nos a considerar a presença do outro como forma necessária para que o discurso se construa.

Assim, a constituição do sujeito discursivo, tanto para Michel Pêcheux quanto para Authier-Revuz, se realiza no entrecruzamento de diferentes discursos, ao negociar a identidade e a alteridade entre os aos conscientes e inconscientes no processo de construção discursiva. Assim sendo, esse processo se dá por meio da articulação entre as marcas de heterogeneidade discursiva, constitutiva e mostrada.