• No results found

2. Methods

2.1 Sampling

Edwin Henry Landseer nasceu em 7 de Março de 1802, na Queen Anne Street, número 33, em Londres, filho mais novo de John Landseer (1769-1852) e Jane Potts (1774-1840). O pai foi um reconhecido gravador, que trabalhava com pintores britâ- nicos de renome do século XIX e, curiosamente, já o avô havia sido ourives e, por conseguinte, também ele ligado às artes.

Dos seus treze irmãos, apenas sobreviveram Thomas (1795- -1880), Jane (1795-1831), Charles (1799-1879), Anna Maria (1805-71), Jessica (1807-80) e Emma (1809-95). Desde cedo que Edwin acompanhou com bastante interesse o trabalho do pai, já que John Landseer teve a preocupação em promover o gosto pela arte junto de todos os seus filhos.

Charles, por exemplo, conciliou o talento para a pintura com uma carreira profissional dedicada à diplomacia. Numa das mis- sões diplomáticas que integrou, chefiada por Sir Charles Stuart4 e cujo “objectivo era defender os interesses da Grã-Bretanha no Brasil” (Terenas 188), Charles chegou mesmo a visitar Lisboa. Dessa viagem resultaram algumas aguarelas de conhecidos monumentos da capital portuguesa, como a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e o Aqueduto de Alcântara.5

Em Londres, ainda hoje se podem encontrar alguns quadros de Charles Landseer, nomeadamente no Victoria and Albert Museum, expostos ao lado das telas do seu irmão Edwin, sen- do Charles mencionado sempre como “[the] elder brother of Sir Edwin Landseer”. O destaque que conferimos a Charles justi- fica-se, sobretudo, pelo facto de os dois irmãos terem pintado algumas telas em conjunto. Em quadros como, por exemplo,

Maria (1836), verificamos curiosamente que o retrato do cão fi-

cou a cargo de Edwin.6

A vivência no seio da família Landseer garantiu a Edwin a possibilidade de aprofundar o talento que desde cedo demons- trou para as artes e incentivou-o a prosseguir os seus estudos

artísticos numa das Academias de arte mais reputadas em todo o mundo. Proporcionou-lhe ainda os contactos necessários para o início da sua carreira profissional.

Sir Edwin Landseer começou o seu percurso artístico a re- tratar membros da alta aristocracia britânica. Porém, rapida- mente a sua obra seguiu o rumo da pintura animalista, em que o pintor inglês, substituindo, de certa forma, as pessoas pelos animais, colocou estes últimos como figuras centrais dos seus quadros. Tal reconfiguração visava ainda conferir sentimento e emotividade aos animais. O artista vitoriano procurou sem- pre transmitir a dimensão emocional dos animais retratados, evidenciando a proximidade existente entre o ser humano e as outras espécies, tal como se verifica na tela The Old Shepherd’s

Chief Mourner, de 1837 (Figura 1).

Fig. 1 — Edwin Landseer, The Old Shepherd’s Chief Mourner, óleo sobre tela, 45.7 x 61 cm, 1837, Victoria and Albert Museum, Londres © V. & A. Images, Victoria and Albert Museum, Londres. [Imagem a cores na página 313]

Na sua pintura animalista, Landseer teve a preocupação de representar tão fielmente quanto possível todos os movimentos,

gestos, expressões e posições dos animais, bem como a textura do pêlo, que foi frequentemente retratada de modo a provocar no espectador aquele impulso básico de querer tocar na tela para sentir o pêlo, como se de algo real se tratasse (Figura 2). Assim, tendo como objectivo desencadear esses desejos e sen- sações no público, Edwin Landseer pretendia justamente que a sua obra não se destinasse a ser apreciada apenas por uma classe social privilegiada.

Fig. 2 — Edwin Landseer, Lion: A Newfoundland Dog, óleo sobre tela, 149.8 x 195.6 cm, 1824, Victoria and Albert Museum, Londres © V. & A. Ima- ges, Victoria and Albert Museum, Londres. [Imagem a cores na página 314]

Sob o ponto de vista do enquadramento dos seus “protago- nistas”, Landseer alternou a representação de paisagens com a de locais domésticos, garantindo, assim, que os animais retrata- dos estivessem sempre, de alguma forma, no seu meio natural. Por outro lado, quando representados em ambientes familiares, a intenção do artista era de garantir, uma vez mais, a proximidade com todos os públicos, independentemente da classe social.

Embora Edwin Landseer tivesse conseguido, de facto, as- segurar a transversalidade do público-alvo através da pintura

animalista, devemos, no entanto, conferir um destaque particu- lar à relação de proximidade estabelecida com a Família Real, nomeadamente com a Rainha Victoria (1819-1901) e o Príncipe Albert (1819-1861).

A aquisição dos seus trabalhos por parte dos monarcas, que muito os apreciavam, constituiu uma das maiores fontes de rendimento de Landseer, o qual foi contratado para pintar os animais de estimação da Rainha e do Príncipe Consorte, permi- tindo-lhe privar com o casal real tanto no Castelo de Windsor como na estância de férias de Balmoral. Sir Edwin tornou-se, assim, um dos poucos pintores vitorianos que conseguiram es- tabelecer uma relação muito próxima com a Família Real, che- gando mesmo a receber visitas da Rainha Victoria e do Príncipe Albert no seu atelier, em Londres.

A proximidade com a aristocracia garantiu-lhe a presença nos círculos sociais da alta sociedade britânica, o que contri- buiu para alargar a sua rede de contactos entre os membros das classes mais favorecidas, que passaram a desejar possuir quadros animalistas do pintor que privava com a monarquia inglesa. Rapidamente, passou “a ser moda” ter um quadro ani- malista de Landseer nas residências particulares das famílias mais abastadas da sociedade vitoriana.

Edwin Landseer dedicou-se à representação de várias es- pécies animais, não só em telas, mas também em esculturas. Relativamente a este último caso, destacamos os célebres leões colocados em Trafalgar Square que simbolizam, no espaço na- cional, a hegemonia britânica no mundo. Ainda nos nossos dias, os leões de Trafalgar Square se mantêm como uma referência no contexto da paisagem da memória da capital londrina.

Sublinhamos, assim, a intenção do artista de contribuir para a afirmação do poder britânico, não só através da escultu- ra, mas também da pintura, de que o quadro The Monarch of the

Glen (1851) constitui um exemplo paradigmático. Apesar de ter sido encomendada para a “Refreshment Room” da Câmara dos Lordes, juntamente com outros dois quadros, a tela acabaria por ser vendida a coleccionadores privados. Mais tarde, tornou- -se a imagem de marca de empresas particulares, como a A. &

F. Pears e a John Dewar and Sons Limited, as quais associaram

o quadro de Landseer à cultura escocesa através da represen- tação do veado, habitante e senhor da paisagem das Highlands.

Nas suas frequentes viagens às Highlands, onde privou com

Sir Walter Scott,7 Landseer estudava os movimentos dos ani- mais de grande porte e respectivos comportamentos em situa- ções específicas, como por exemplo, em caçadas, perseguições e em processo de demarcação de território.

Em síntese, podemos afirmar que as características definido- ras da singularidade da pintura animalista de Sir Edwin Landseer, sublinham a forma como a emotividade patente nas suas obras foi susceptível de interpretações multímodas, garantindo, as- sim, a transversalidade do público-alvo. Simultaneamente, evi- denciam a dupla intencionalidade do artista na transmissão de imagens nacionalistas, não só através da especificidade da Escócia, mas também da hegemonia britânica no mundo no sé- culo XIX. Veremos em seguida de que modo Landseer influenciou os pintores animalistas portugueses, nomeadamente Tomás da Anunciação e Moura Girão.

3. Landseer em Portugal: os Casos de Tomás