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A mulher-estrela

Numa noite muito bonita, com o céu cheio de estrelas, um rapaz estava sentado com seu amigo conversando e olhando para o céu. Tinha uma estrela muito brilhante e bonita e o jovem falou que se ela fosse uma mulher, ia casar com ela. No outro dia, o rapaz e seu amigo foram caçar pássaros na floresta com os amigos. Ele escutou um pássaro cantando e foi procurar o que era e, para sua surpresa, não era um pássaro, mas uma linda jovem. Seu cabelo era comprido e preto e sua pele muito clara. Ele perguntou quem ela era e ela respondeu: 'Você me chamou lá no céu, falou que se eu virasse mulher, você ia se casar comigo!' O rapaz pegou a mulher estrela e a levou para casa. Para que ninguém descobrisse sobre ela, ele pegou uma grande cabaça e escondeu a mulher dentro. Depois, jogou cinza em volta para ver se alguém ia pisar perto. De dia, o rapaz ia caçar e voltava à noite, onde ficava por muito tempo conversando com sua mulher. A mãe do rapaz escutava que ele estava conversando com alguém, mas quando perguntava quem era, ele dizia que não era nada. No outro dia, quando o rapaz foi caçar, sua mãe olhou dentro da cabaça e viu Kanheti [a estrela] escondida. Ela pegou a mulher e falou: 'Vou arrumar você para ficar igual a gente.' Cortou seu cabelo [tonsura] e fez pintura com jenipapo e urucum. Enfeitou a moça com miçangas e ela ficou muito bonita. O rapaz voltou da caçada preocupado e foi direto olhar a cabaça. Viu um monte de rastro em volta, nas cinzas e foi perguntar para sua mãe quem tinha mexido nas suas coisas. A mãe falou que tinha encontrado sua nora escondida na cabaça e que a enfeitou. Eles tiveram um filho. Quando a criança era pequena, o povo estava passando fome, porque tinha pouca caça. Kanheti falou para seu marido: 'Faz cesto bem grande para mim que eu vou lá no céu buscar comida com meu pai para a gente.' O marido fez um cesto para Kanheti. Ela falou: 'Agora me leva até uma wague [pau d'arco], puxa e solta, assim eu vou para o céu.' Ele ficou muito preocupado, achava que ela não ia mais voltar. Ela falou que não precisava se preocupar, pois agora eles tinham um filho e ela não ia abandonar o filho. Foram até a árvore e ela pediu para o marido esperar com o filho que ela já ia voltar. O marido puxou a árvore até ela dobrar e Kanheti subiu na sua ponta. Quando ele soltou a árvore, Kanheti voou para o céu. Depois de um tempo, ela voltou com o cesto cheio de comida. Trouxe pitu assado [o primeiro nome para batata-doce, hoje chamada yat], abóbora, massa de mandioca, kupá, inhame. Todos comeram da nova comida e gostaram muito. Então, ela falou: 'vou de novo e agora vou buscar as plantas para a gente fazer uma roça.' Quando ela voltou, pediu para o marido roçar uma parte e ela plantou as mudas. Depois ele colocou fogo e tudo brotou. O pessoal não sabia o que aquilo era: 'O que foi que ela plantou? Está cheio de cipó!' [Disseram]. Mas eram as novas plantas, batata-doce, abóbora, inhame, mandioca e kupá. Quando ficou maduro, chamou a sogra e ensinou como preparar os novos alimentos. Assim, todos aprenderam a plantar a roça e preparar as novas comidas que foram trazidas do céu pela Kanheti.

178 De acordo com Barbosa Rodrigues (apud LÉVI-STRAUSS, 2010, p. 253), as plêiades desaparecem na Amazônia em maio e reaparecem em junho, "anunciando as cheias, a muda dos pássaros e a renovação da vegetação."115 Para o Mẽtyktire,

o desaparecimento deste aglomerado estelar, também neste mesmo período, indica sua descida em espiral, girando como se fosse uma serra circular multicorte formada por uma nuvem de besouros corta-paus (Hoplistonychus bondari), cujas asas carregam sinais da sua própria constelação.116 Sua tarefa aqui embaixo é

trabalhar na roça do homem-Sol, derrubando-a, preparando-a, para logo em seguida subir e anunciar a vez da comunidade. "Primeiro vem ngrôt [plêiades/besouro] trabalhar na roça do Sol, depois ele sobe e avisa que chegou a nossa vez." Comentou Bedjaj. Assim como o besouro, que após derrubar sua roça e depositar seus ovos com ajuda de um pau de cavar, para que haja, na sequência, uma espécie de cozimento da semente pelo calor do sol, é também o Kayapó. Até pouco tempo atrás, durante os dois primeiros meses da estação seca, ele limpava um pequeno pedaço de floresta, derrubando as árvores maiores com o seu machado de pedra. Hoje, porém, com a introdução de novas ferramentas de corte, entre elas, o machado de ferro e a motosserra, o tempo dedicado para abertura de uma roça de subsistência abreviou-se consideravelmente, aumentando o tempo de exposição ao sol da madeira ali ceifada, melhorando a qualidade da queima com sua desidratação quase que por completo, depositando maior quantidade de nutrientes no solo e acelerando ainda o tempo de eclosão de algumas sementes ali jaz adormecidas, carentes de luz. O plantio das primeiras culturas, especialmente aquelas com algum tipo de ramagem celestial, como as da narrativa em estudo, ocorre logo após a derrubada. Durante os dois meses seguintes, queimam o mato já seco para aproveitar as chuvas do final de setembro e de outubro, abrindo espaço para as ramagens prestes a se espalhar, e adubando-as ao mesmo tempo. Somente após isso, é que se planta o milho e as outras espécies domesticadas ou adquiridas posteriormente.

115 Na mitologia grega, as Plêiades são as sete irmãs, filhas de Pleione e Atlas. Perseguidas por Órion, um gigante caçador atraído pela beleza das moças, recorreram a Zeus que as transformou em estrelas dentro da constelação de Touro. Seis delas tiveram filhos com os deuses, mas Mérope acabou se casando com um mortal, e por isso ela não pode ser vista.

116 "A razão do besouro atorar as árvores jovens e arbustos é para que sirvam de alimento para as larvas ao apodrecerem [...]. Ele deposita os ovos na madeira ou sob a casca da ponta que será cortada [...]. Então, após alguma ventania a ponta se quebra, cai no chão e apodrece." Disponível em:<http://www.ra-bugio.org.br/ver_especie.php?id=850>. Acesso em: 05 fev. 2017.

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