Foto 77: Besouro serra-pau depositando seus ovos, Itaiópolis, Santa Catarina. Disponível em: <http://www.ra-bugio.org.br/>. Acesso em: 10 jan. 2017
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Há mais: a vida civilizada requer não apenas o fogo, mas também as plantas cultivadas que esse mesmo fogo permite cozinhar. Ora, os indígenas do Brasil Central são agricultores primitivos, que não poderiam, apenas com machados de pedra, derrubar as árvores da floresta. Eles têm de recorrer ao fogo, mantido durante dias ao pé dos troncos, até que a madeira viva se tenha aos poucos consumido e ceda ao golpe de ferramentas rudimentares. O fato de esse 'cozimento' pré-culinário da madeira viva levantar um problema lógico e filosófico resulta da proibição de cortar a madeira 'viva' para fazer lenha (LÉVI-STRAUSS, 2010, p. 181).
A narrativa da mulher-estrela, de alguma forma, estanca o sentimento de culpa que "obriga o homem a queimar a madeira viva, a fim de obter as plantas cultivadas que ele se permitirá cozinhar apenas num fogo de madeira morta" (LÉVI- STRAUSS, 2010, p. 182).117 Esta, uma espécie de antialimento vegetal, o único
consumido antes da introdução das técnicas agrícolas, passou a ser um tipo de combustível permitido, desde que o fogo da onça fora trazido, em forma de brasa, para dentro da aldeia. Lukesch (1976, p. 95) nos conta que, por bastante tempo, os homens não tiveram sorte nas caçadas e as mulheres tampouco encontravam frutos silvestres. Todos, inclusive Umajoroti, a mulher celeste transformada em ser humano por meio de uma realização cultural, passavam fome, tendo somente para comer madeira podre à guisa de legume. Vendo toda aquela calamidade, ela se ofereceu para buscar, lá em cima, em sua antiga morada, diversas variedades de comida cultivada, bem saborosas, preparadas, à semelhança da caça abatida, com o fogo de cozinha. Seu marido, sem outra opção de escolha, acabou concordando e fazendo, a pedido, um cesto bem grande para que ela pudesse carregar durante sua viagem. Em seguida, partiram em direção ao cerrado à procura de uma árvore de pau d'arco (Tabebuia serratifolia) para que ela pudesse ser lançada a partir de uma plataforma bastante flexível e resistente. Ele estava preocupado, achando que ela não mais voltaria, mas Umajoroti o tranquilizou dizendo que os dois tinham um filho em comum e, por isso, não os abandonaria. Então, ele puxou a árvore até que ela se dobrasse por inteiro e a mulher-estrela foi atirada ao ar, voando alto até o Céu. Já era meio dia quando, triste, falou para si mesmo: "Minha mulher me abandonou." Já queria levantar-se para ir embora, quando, atrás de si, ouviu uma
117 "Consequentemente, apenas a madeira morta é um combustível permitido. Violar essa prescrição significaria cometer um ato de canibalismo em relação ao mundo vegetal" (LÉVI-STRAUSS, 2010, p. 182). "Muitas vezes, quando ocupado em derrubar uma árvore na floresta, fui abordado por nativos que passavam, com o seguinte comentário: 'Kei te rawake koe i to tipuna i a Tane' (Você está se metendo com o seu ancestral Tane)" (BEST apud SAHLINS, 2001, p. 185).
181 voz: "Aqui estou de volta!" Ela havia voltado com o cesto cheio de comida trazendo
pitu assado [o primeiro nome para batata-doce, hoje chamada yat], abóbora, massa
de mandioca, kupá e inhame. Na aldeia, todos comeram da nova comida e gostaram muito. Aí ela disse, de acordo com Bedjaj: "vou de novo e agora vou buscar as plantas para a gente fazer uma roça. Quando ela voltou, pediu para o marido roçar uma parte e ela plantou as mudas. Depois colocou fogo e tudo brotou". Segundo ele, ninguém sabia o que era aquilo que ela tinha plantado. Diziam: está cheio de cipó! Mas logo perceberam que se tratava das novas plantas, trazidas do alto por Kanheti. Quando tudo ficou maduro, chamou a sogra e a ensinou como preparar os novos alimentos. Assim, todos aprenderam a plantar a roça e preparar as novas comidas com o auxílio do fogo de cozinha.
A mulher celeste, transformada em ser humana, heroína cultural, traz do Céu as valiosas plantas úteis. A exemplo de como ela se casa com um homem na Terra, lá, ela semeia as plantas do Céu, por ela própria representadas, depois de ter ensinado ao marido a fazer a primeira roçada. Fazer roçada, na língua Caiapó, quer dizer puru diri = gerar a superfície da roça. Com um pau de cavar, a mulher abre a terra e nela desce as mais importantes plantas de bulbo do Céu. E a terra dá à luz, produzindo muitos frutos. Segundo o exemplo mítico entre os Caiapós hodiernos, fazer a roçada continua sendo tarefa masculina; o homem encarrega-se da derrubada das árvores, limpeza do mato, retirada e remoção dos galhos das árvores gigantes, que ficaram incólumes. Também é o homem que se encarrega da queima dos troncos e galhos e da limpeza da roça, em fins da estação de seca. Mas o plantio e os cuidados das plantas constituem tarefa eminentemente feminina. A mulher também se encarrega da colheita, na qual é auxiliada pelo homem, apenas nos trabalhos mais pesados (LUKESCH, 1976, p. 99).
Estrela autoriza a pequena derrubada, livrando o Mẽtyktire de qualquer descomedimento em relação ao mundo vegetal. Ele, então, (re) organiza o seu cosmos reflorestando a superfície desmatada com as novas espécies de plantas vindas do alto, cujo manejo é atividade exclusivamente humana, diversificando ainda mais a floresta nativa. De modo idêntico à fêmea do besouro serra-pau, Umajoroti transmite ao companheiro cada passo da nova atividade de subsistência. Primeiro ela ensina a fazer o roçado, derrubando os troncos maiores para dentro da área delineada, aceirando o perímetro que se formou, para só depois abrir a terra e depositar suas sementes com o auxílio de um pau de cavar. Nos dois casos acima, o pré-cozimento fica sob a responsabilidade do homem-Sol, e somente no segundo é que ocorre o cozimento propriamente dito, e por duas vezes. Na
182 primeira, o cozimento da semente plantada, preparada com o fogo de cozinha, separa o homem do demiurgo celeste, morador do mundo de cima; na segunda, o cozimento da semente colhida, preparada também com o mesmo fogo, separa o homem dos outros animais, moradores da floresta, comedores de coisas cruas.
Em uma pequena horta de batata-doce que havia sido reservada para o uso do deus, um sacerdote maori realizava um casamento sagrado, digno de seu lendário colega do bosque de Nemi. Plantava os primeiros montes (puke, também 'mons veneris') da safra do ano e seus movimentos eram acompanhados da frase 'esteja grávida, esteja grávida' (kapiti, 1913; Johansen, 1958). O sacerdote estava desempenhando o papel do deus Rongo (-marae-roa, ≅ Há., Lono), aquele que originalmente trouxera a batata-doce dentro de seu pênis desde a pátria espiritual, para engravidar sua esposa (Pani, o campo). Durante o período de maturação da planta nenhum estranho podia perturbar a horta. Mas chegando a época da colheita, a posse de Rongo era contestada por um outro deus, Tũ (- matauenga) ancestral do homem 'enquanto guerreiro tapu' – em uma batalha que é lembrada como sendo a origem da guerra. Um segundo sacerdote, representando o papel de Tũ, usa um galho bruto da árvore mapou, [...] remove e amarra e novamente enterra as primeiras tuberosas da batata-doce. Assim fazendo mata Rongo, o deus, pai e corpo da batata- doce, ou então o adormece, para que os homens possam fazer a colheita para seu próprio uso (SAHLINS, 2003, p. 147).
A hora de queimar fica por conta do "especialista em magia para as roças" (LEA, 2012, p. 230). É ele quem diz quando e como queimar, estipulando qual o melhor horário e a melhor estratégia a serem adotados. Quando procurado por seus serviços, reúne-se com o responsável pela queima para orientá-lo a respeito, ministrando suas primeiras instruções. Seu pagamento é feito em parcelas de alimento já preparados, de preferência aqueles que lembram, de alguma forma, boa comida e fartura (como, por exemplo, mel de abelha ou carne de quati), que é justamente para multiplicar os estoques vindouros e acelerar a produção. "Ele só come depois de passar remédio na roça." Informa-me Bedjaj. Então, no dia e hora combinados, dirige-se até as proximidades da área derrubada e ali, ao lado do encarregado da roça e dos demais companheiros que por ventura o acompanha, entoa cânticos específicos. Depois disso, autoriza o início da queima enquanto aguarda, à distância, o resultado final. O fogo é colocado, inicialmente, na direção contrária do vento e, aos poucos, é distribuído por todo o perímetro, de modo a aumentar a área acerada, levando a combustão mais para o meio. They then set the fires and await with branches of palms and banana brava […] to beat out any flames that come too close" (POSEY, 1985, p. 143).
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Foto 78: Roça sendo aberta com o uso do fogo, aldeia Piaraçú, 2016.