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Disponível em: <http://www.apolo11.com/>. Acesso 31 dez. 2016

97 Disponível em:<http://www.24horasnews.com.br/tecnologia/ver/indigenas-morrem-em-grave- acidente-na-br-163.html >. Acesso em 31 dez. 2016.

117 Estavam todos preocupados com o andamento da Bemp em Piaraçú. Ano passado, durante o mesmo ritual realizado, naquela oportunidade, na aldeia kapoto, um dos participantes bateu com a ponta do mastro no chão (ou na cabeça), antes de colocá-lo no buraco previamente preparado para sua fixação. Era um dos envolvidos no acidente, confirmando o que parece ser uma crença entre eles. "Se os troncos se quebram antes de serem erguidos verticalmente, significa que um parente de um dos portadores vai morrer" (LEA, 2012, p. 325). Outro Mẽbêngôkre que também se descuidara naquele mesmo episódio havia morrido, dias antes, de picada de cobra. Todo cuidado, a partir daquele momento, era pouco. Chegamos em Piaraçú dois dias depois do ocorrido e não demorou meia hora para acontecer o que acabei classificando como reunião de emergência entre as lideranças que comigo viajaram (a saber, Bedjaj e Yobal, caciques de Piaraçú e Kapoto, respectivamente) e os integrantes da casa dos homens, com todos os interditados assistindo do lado de fora. A primeira fase já havia ocorrido em maio, logo no início da estiagem. Lamentavelmente, não pude acompanha-la por conta dos trâmites, demasiadamente demorados e controversos, junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), CEP/UnB (Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Brasília), CONEP (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e FUNAI.

A Bemp é uma cerimônia de nominação que, via de regra, acaba contendo uma de iniciação. Inicia cerca de um ano antes das comemorações propriamente ditas: tempo suficiente para que seja feita uma grande roça pela mãe do homenageado, depois que seu tio, irmão de sua mãe, ou seu avô, pai do seu pai ou de sua mãe, anuncia sua intenção de passar adiante seu nome, propriedade intangível da matricasa onde nasceu. Primeiro faz-se uma roça e quando estiver pronta para a colheita, começa a festa. Formaliza-se o anúncio cobrindo a criança homenageada com um tipo comum de pano ou colocando-a sobre uma esteira de palha e, assim, todos ficam sabendo quem irá receber os "'nomes autenticamente bonitos' (idji me kumre)" (LEA, 2012, p. 241). Feito isto, dá-se início à primeira fase do ritual com os acordos de casamento. A escolha do futuro genro é tarefa quase que exclusiva da mãe da noiva, que auxiliada pelas mulheres da Casa e pelo pai

118 biológico da menina,98 vai até a morada do pretendido e anuncia sua escolha de

uma forma bastante inusitada e intimidadora, batendo com a borduna na porta da Casa ou passando o facão pelas paredes, dando tiros para o alto, et cetera, ameaçando quem se atrever a interferir na sua proclamada escolha. "Aí, novamente, torna a revelar-se a influência da mulher nos assuntos da família, pois de direito, ela pode exigir: 'Quem quiser casar com minha filha, deve ter passado pela me-i-tük" (LUKESCH, 1976, p. 277).

A mãe do escolhido reúne-se, então, com os homens de sua Casa e sonda quem poderia instruir seu filho durante a cerimônia de iniciação. "O pai do iniciando empenha-se em conseguir um krom-dyo para o filho e, para essa ocasião, o parentesco fictício chega a transformar-se em uma relação verdadeiramente estreita e vital" (LUKESCH, 1976, p. 277). A partir daquele instante, o amigo formal (krabdjwỳ) passa a dedicar-se, única e exclusivamente, ao seu tutelado (mẽ'i-ĩtyk),

atitude considerada relevante pela comunidade que lhe assiste. Os pais biológicos, agradecidos, encarregam-se das provisões diárias, indo à procura de alimento. O local do acampamento (ngo-kaé) é escolhido coletivamente, sempre ouvindo os mais velhos (mẽbêngête). É um lugar, em meio à floresta, repleto de metáforas que

simbolizam a gestação, o nascimento, a transformação, a vida breve e contínua. O nome significa "água, lago", abrigo de água "feito de bonitos arcos redondos de folhas de palmeira" (LUKESCH, 1976, p. 281) e, assim, como um saco gestacional dentro do útero, protege o nascituro das intempéries da vida.

Entre os Jê, o corpo humano parece estar dividido em "aspectos internos, ligados ao sangue e ao sêmen, à reprodução física e aspectos externos, ligados ao nome, aos papéis públicos, ao cerimonial – ao mundo social, enfim (expressos na pintura, ornamentação corporal, canções)" (SEEGER; DAMATTA; VIVEIROS DE CASTRO, 1972, p. 11). Na mẽ’i-ĩtyk, a reprodução social do

indivíduo obedece a mesma lógica e fica sob a responsabilidade do amigo formal, cabendo aos pais mantê-los com o seu alimento tradicional, muitas vezes, deixado de lado, quando decidem imitar o não índio (kubẽ).99 Ali começam a confeccionar

98 "A expressão 'pais biológicos' é usada por falta de uma alternativa melhor. A definição Mẽbêngôkre coincide parcialmente com a definição euro-americana, na medida em que alguns homens que nós classificaríamos como o pai biológico não são reconhecidos como tais pelos Mẽbêngôkre" (LEA, 2012, p. 110).

99 "Em Gorotire, em 1983, assisti à fase final da cerimônia Bemp, incluindo nominação e iniciação masculina (mẽ’i-ĩtyk). Essa última é realizada junto com a Bemp ou TàkàK. A situação dos índios

119 os primeiros adornos, entre eles, a braçadeira de punho (mẽ’inhagob), o colar de

pena (mẽõkretã) e a faixa de uso transversal (mẽarapê kaingàrà), feitos, até

meados do século passado, de retrizes, embiras e tinturas específicas, mas que agora estão sendo substituídos (lamentam os mais velhos) por barbantes de algodão, cordas de seda poliéster e miçangas da República Tcheca. "No passado, os adolescentes masculinos recebiam um batoque labial de madeira, costume que já foi abandonado. Apenas os mais velhos continuam usando o batoque, algo que fazem desde sua juventude" (LEA, 2012, p. 163). A rejeição a esse tipo de adorno é justificada pelos mais jovens como sendo um empecilho na hora de se falar o português, além de ser um procedimento bastante doloroso (como se antes não o fosse também). Aos poucos, a onça vai emudecendo e a arquearia caindo em desuso, perdendo suas funções bélicas depois que Iprere inventou a espingarda.100

Seus equipamentos transformaram-se em adornos e já não lembram mais a braçadeira e a aljava, utilizadas, desde os primórdios, pelo caçador autônomo, autossuficiente, como aquele da Grécia arcaica, que de alguma forma se inspirou em Ártemis, deusa caçadora e senhora dos animais.101

em Gorotire é muito diferente daquela dos Mẽtyktire do Parque do Xingu. Naquela época, os Mẽbêngôkre de Gorotire estavam recebendo 1% (segundo o chefe do posto) do imposto federal de 17% sobre o ouro garimpado nas áreas do projeto Cumaru, situado dentro nas terras da reserva indígena. Para a cerimônia realizada em 1983, os índios fretaram um avião que trouxe gravadores e pilhas para gravarem a cerimônia, além de café, açúcar, bolachas e vinte caixas de refrigerantes. Gastaram Cr$ 2.000.000,00 nas compras e transporte, o equivalente à renda que ganharam no ano anterior com a venda de castanha-do-pará, provenientes de meses de árduo trabalho" (LEA, 2012, p. 323).

100 "A discrepância entre as armas dos índios e dos kubẽ é explicada também no mito de origem da espingarda que uma cobra ensinou Iprere [um herói mítico] a fabricar. O mito narra que um dia Iprere disparou uma flecha em uma anta e seguiu o rastro produzido pelo sangue que escorria de seu ferimento, mas ela conseguiu escapar. Apareceu uma cobra e perguntou a Iprere o que ele estava fazendo. Respondeu: 'Disparo flechas em animais. Consigo matar alguns, mas outros são apenas feridos, como nesse caso, e então corro atrás para conseguir mata-los'. A cobra ensinou Iprere a fabricar uma espingarda para poder matar sem sair do lugar (djam djá = em pé / lugar). Explicou- lhe: 'Quando dispara flechas em animais você precisa correr atrás deles e fica cansado'. Em outras palavras, uma espingarda possibilita mirar e matar se mexer-se. Iprere ensinou apenas o kubẽ a fabricar espingardas [ele estava preocupado que os Mẽbêngôkre pudessem matar todos os kubẽ], deixando os índios com arcos e flechas, embora agora cacem exclusivamente com espingardas adquiridas com o kubẽ" (LEA, 2012, p. 37).

101 Ártemis é deusa da lua, da caça, dos animais selvagens, da região selvagem, do parto, da virgindade e protetora das meninas na antiga religião grega. Foi descrita como a melhor caçadora entre deuses e mortais. Arco e flechas são seus companheiros constantes. Ela era filha de Zeus e Leto, irmã gêmea de Apolo, identificado como o sol e a luz da verdade. Homero refere-se a ela como Artemis Agrotera, Potnia Theron: "Ártemis das terras selvagens, Senhora dos Animais." Os acadianos acreditavam que ela era filha de Démeter, deusa da agricultura. "A qualidade de 'dono dos animais' significa um predicado quase divino no seio de uma cultura de caçadores, como a dos Caiapós" (LUKESCH, 1976, p. 34).

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Foto 17: Caminho para o acampamento daMẽ’i-ĩtyk, aldeia Piaraçú, 2016.