Quando se analisa projetos de paisagismo, sejam eles relacionados a residências particulares, parques públicos, jardins no entorno de um edifício ou no seu interior, torna-se imprescindível que se analise os volumes arquitetônicos que os circundam ou os envolvem.
Em um paisagismo de uma área destinada a um parque, o autor deve conceber a sua criação levando em conta o entorno paisagístico: a geografia, tanto urbana como rural ou litorânea. O paisagista deverá privilegiar o seu uso, a função social à qual está sendo destinada. Os objetos arquitetônicos ou elementos artísticos – esculturas, painéis, monumentos, entre outros – que ali comporão esse empreendimento tornam imprescindível uma análise de todos esses elementos para poder compor e direcionar a sua criação. Isto muitas vezes inclui a vontade, o desejo de quem encomendou tal projeto. O paisagista não cria para si, nem para um tipo de ideal imaginário de situação artística. Quando projeta sua criação, anteriormente ele a concebe com base em informações concretas da necessidade, da finalidade, da praticidade e para que fim se destina esse projeto. O conhecimento da finalidade, do uso é que vai direcionar a praticidade, a viabilidade dessa ação. O bom paisagista é aquele que observa, estuda e pesquisa a natureza e a própria natureza das coisas em si. Em suma, observando o meio ambiente, chega-se a definição de composição, de seleção e, sobretudo, da descoberta da necessidade de codificar as espécies botânicas para criar esta relação que irá compor o projeto paisagístico.
Para se criar boa estética nesse fazer de paisagismo é necessário da parte do criador uma interação com esse meio botânico, pois somente o conhecimento do uso e aplicação de cores, formas, linhas, planos ou conceitos estéticos não credenciam o projeto ao sucesso.
A pesquisa botânica nesta área é algo muito importante. Envolve um conhecimento da região geográfica, adaptação das espécies nativas ou não, análise do clima, da paisagem em si, da combinação entre incidência de luz solar e sombreamento e o conhecimento da origem das espécies. Isto se faz necessário, pois dependerá dessas condições o sucesso desse jardim, afinal até o substrato utilizado é fator preponderante para a germinação das espécies ali plantadas.
Em um paisagismo urbano, a análise que irá compor o princípio norteador da sua criação deverá contar com toda essa gama de conhecimento técnico e cientifico. O paisagista vai compor a sua criação baseando-se nos seus conhecimentos e na sua genialidade criativa. Burle Marx era um mestre. Tinha um vasto conhecimento de botânica, pesquisava incessantemente as espécies nativas e até mesmo coletou algumas plantas raras e desconhecidas. Conhecia bem o seu trabalho e os meandros que conduzia a sua criação artística. Transitava por varias técnicas no mundo das artes plásticas. O paisagismo era a sua prioridade, sua grande paixão e razão de ser na vida. O sucesso de sua trajetória pode ser observado a partir do seu legado, do interesse que sempre despertou na sociedade e da grande quantidade de adeptos, discípulos que seguem os ensinamentos desse grande mestre do paisagismo. Foi Roberto Burle Marx que inovou no Brasil o conceito de paisagismo.
Falar de paisagismo no conceito burlemarxiano é associá-lo a uma arquitetura, ao meio ambiente, ao meio sócio-cultural. Não há dicotomia em seus projetos. O paisagismo é interligado à arquitetura, ao meio ambiente ou ao meio sócio-cultural e participativo na medida em que compõe a ação criadora da sua obra.
Burle Marx soube criar o casamento perfeito e de sucesso integrando os seus projetos paisagísticos aos projetos arquitetônicos.
A análise do projeto arquitetônico se torna a chave do princípio norteador da criação do projeto paisagístico: a inspiração do paisagista conta e muito, a técnica o instrui a conectar a criação a execução prática do seu projeto.
Uma das características de Burle Marx foi levar em consideração todos estes conceitos citados acima e que foram descritos ao longo desta dissertação.
No caso específico de São Paulo, seu trabalho apresenta características próprias de uma arte urbana que interage com o meio social no qual está inserido. Nas obras paisagísticas estudadas podemos identificar algumas especificidades do modo de trabalho de Burle Marx. Por exemplo, quando se trata de trabalhos realizados na cidade de São Paulo, notamos duas premissas recorrentes.
A primeira é o tratamento dado aos jardins de pequeno porte, caso das residências, onde o paisagista tende a realizar um jardim fechado dentro de um ambiente bucólico, possivelmente com a intenção de que aquele espaço criado se torne um oasis para os seus usuários. Burle Marx gostaria que as pessoas pudessem usufruir a natureza em um espaço de refúgio, “fugindo” do caos urbano.
A segunda premissa recorrente é seu aporte nos jardins de grande porte, tanto os realizados para os órgãos públicos, como os privados. Nestes Burle Marx tende a repetir o seu modus operandi tradicional, ou seja, o paisagismo se integra à cidade por meio dos desenhos dos pisos que se conecta ao passeio público e, conseqüentemente, à cidade.
Em ambos os casos, o paisagista seleciona, para os canteiros projetados, espécies vegetais que se adaptam melhor àquele determinado ambiente.
Nas obras realizadas no interior do Estado de São Paulo notamos que o paisagista adota medidas semelhantes dos casos citados acima. No entanto, observam-se algumas diferenças motivadas pelo meio no qual os jardins estão inseridos. Muitas vezes, os trabalhos paisagísticos são residências, que por sua vez, estão inseridas no meio rural, em fazendas, sítios, onde há presença da natureza no entorno e maiores recursos naturais, diferentemente dos casos dos jardins inseridos na cidade. Em São José dos Campos, nos jardins da Residência Olivo Gomes, Burle Marx faz uso da forma orgânica e assimétrica para a composição do jardim, solução similar à solução dada para os jardins da Residência José Egreja, em Penápolis.
No meio rural, Roberto Burle Marx desenvolve um paisagismo com formas livres fazendo uso da topografia do terreno. Ele estabelece formas geométricas irregulares criando uma composição abstrata que se compõe com os elementos naturais: água, pedra e espécies vegetais. Nestes casos, notamos que o seu paisagismo também se integra com o entorno, como ocorre em seus jardins de grande porte no meio urbano.
O paisagista muitas vezes se repete para que em uma nova etapa ele reapareça com uma criação inovadora, transformadora.