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Del 2 – Designløsninger
A Abadia de Santa Maria se localiza na zona norte de São Paulo. É um mosteiro que abriga monjas beneditinas. Neste projeto, Hans Broos explora a força plástica dos materiais, em especial no uso do concreto armado, cujas características tectônicas conferem solidez ao edifício. A pujança plástica assimilada ao uso do concreto armado só faz ostentar mais um importante ponto da nova linguagem: a tensão entre o volume e o sistema de apoios, que concentra seus esforços na relação entre cheios e vazios.68
No momento em que Hans Broos idealizou a concepção arquitetônica da Abadia de Santa Maria ele foi buscar referências na arquitetura moderna de Le Corbusier.
Quando Le Corbusier projetou o convento de La Tourette – França e a Capela Notre Dame Du Haut,
Rochamp – França, o arquiteto pensou na idéia de que o sagrado não pode ser dissociado do plano material. Em alguns desses projetos, Corbusier se associou aos artistas plásticos Matisse e Marc Chagal, por exemplo, para encomendar projetos decorativos artísticos a fim de amenizar a frieza do concreto aparente que muitas vezes se impõem aos seus edifícios.
Para o projeto da Abadia, Hans Broos solicitou a “ajuda” de Roberto Burle Marx para projetar os paineis decorativos do interior da capela e o paisagismo do entorno da Abadia.
68 Idem, ibidem, p. 108.
Ilustrações 204-205 – Abadia de Santa Maria.São Paulo SP. Fotos: José Moscardi
Ao percorrermos o edifício da Abadia, notamos espaços bem planejados, com rampas e pérgulas em meio aos jardins e painéis com motivos geométricos em concreto projetados por Roberto Burle Marx. As obras do paisagista dão um toque especial a este edifício.
“Este tratamento demonstra a preocupação na qualidade de uma arquitetura voltada à vida interior, gerando uma surpreendente vitalidade que contrasta com a austeridade externa do edifício.
A capela é representada por um único volume interno; a grande „caixa‟ que comporta os ambientes é quebrada em sua regularidade e pureza geométrica pelo painel em concreto, projeto de Roberto Burle Marx, que corta o espaço surpreendentemente em uma diagonal que conduz ao altar e define ambientes. A monotonia do envoltório é interrompida e vencida por um elemento que estrutura e confere dinamismo ao espaço. Na capela o concreto é usado de maneiras distintas, como nas paredes de bloco, no piso e na laje nervurada, com suas texturas realçadas pela iluminação zenital, em um ambiente que exala tranqüilidade e força, sendo, há um só tempo, espaço e matéria”.69
As monjas beneditinas solicitaram a Broos um projeto arquitetônico moderno, que vem de encontro à tradição da modernidade brasileira, que já tem em seu currículo vários prédios religiosos modernos avançados – Catedral de Brasília, Capela da Pampulha, Convento dos dominicanos em São Paulo, entre outros. Hans Broos,
69
Idem, ibidem, p. 109.
Ilustração 206 – Convento de Santa Maria de La Torette. Le Corbusie, Eveux 1957-1960 – França
Ilustração 207 – Capela de Notre Dame, 1955, Rochamp, França
de origem européia e que provém de uma família de tradição religiosa acentuada, mantém afinidade com os valores presentes na vida das religiosas e que buscou transmitir a sua arquitetura.
No Brasil o grande marco da renovação foi a Igreja da Pampulha, sem duvida. Portinari foi chamado para decorar com painéis e azulejos decorados e Burle Marx fez os jardins.
O Brasil possui uma tradição em arte-sacra. Neste projeto especifico da Abadia de Santa Maria, Burle Marx foi chamado para criar o paisagismo e os painéis decorativos que deveria conferir ao edifício o tom intimista que se faz necessário à contemplação religiosa. Harmonizando em si o espiritual com o temporal.
O projeto da Abadia está ligado ao programa voltado para o espaço interior como é o caso dessa construção destinada ao uso religioso.
“O partido adotado, com um vazio central – o claustro – já reflete esta noção de espaço e o que se pretende com ele. O claustro é o espaço vital e em torno dele se organizam quase todos os espaços. O prédio se desenvolve em torno deste espaço de convivência, de troca, de relações. Ali novamente a arquitetura se abre para receber a natureza – só que agora a planta não é mais articulada, com braços e extensões para captar a luz; ela volta a ser compacta, como um grande bloco maciço. Em nenhum outro projeto Broos empregou tamanha racionalidade na planta baixa. Praticamente todos os ambientes obedecem a uma rigorosa modulação equivalente nos dois sentidos da planta.”70
Criação dos painéis em auto-relevo
70 Idem, ibidem, p. 111.
Ilustração 208 – Catedral de Brasília, Oscar Niemeyer, Brasília DF
Ilustração 209 – Igreja da Pampulha, Oscar Niemeyer, Belo Horizonte MG
Roberto Burle Marx e seus sócios desenvolveram o projeto paisagístico, mas coube ao titular a exclusividade da criação de painéis com motivos religiosos. Burle Marx se inspirou nos símbolos da Igreja Católica – o cálice, o Espírito Santo, a cruz, os peixes, a palavra latina INRI (Jesus de Nazaré Rei dos Judeus)... – para criar o painel do corpo da capela. Apropriou-se desses símbolos, estilizando-os através de formas geométricas, criando um excepcional painel modular em auto-relevo executado em concreto.
A evolução dos primeiros estudos desenvolvidos pelo escritório de Burle Marx para o painel, até chegar à conclusão definitiva, passou por varias concepções que nos dá uma visão clara do processo criativo desse projeto.
É um painel que integra arquitetura ao meio-ambiente. Conferindo este tom intimista, já falado anteriormente. Sugerindo a quem ali está observando que se trata de um ambiente de contemplação e sagrado. Ilustração 210 – Abadia de Santa Maria.
Ilustração 213 – Estudo para painel da Abadia de Santa Maria, São Paulo SP
Ilustração 212 – Estudo para painel da Abadia de Santa Maria, São Paulo SP Ilustração 211 – Abadia de Santa Maria. Foto:
Ilustração 214 – Estudo para painel da Abadia de Santa Maria, Roberto Burle Marx
Ilustração 215 – Estudo para painel da Abadia de Santa Maria, Roberto Burle Marx
Ilustração 216 – Estudo para painel da Abadia de Santa Maria, Roberto Burle Marx
Características do paisagismo71
No levantamento planialtimétrico do terreno, notamos que este possui vários desníveis, sendo uma topografia irregular, característica dos terrenos localizados na Serra da Cantareira. Hans Broos inseriu o volume da Abadia na cota mais plana e mais alta do lote (ver planta).
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Burle Marx projetou os jardins do claustro e do entorno do edifício partindo de alguns desafios.
Na parte externa, o seu projeto era composto por linhas geométricas curvas que entrelaçavam com os planos, harmonizando a composição com o projeto arquitetônico. Infelizmente esta parte do projeto não foi concluída.
No claustro, o projeto foi seguido à risca. No desenho, Burle Marx contrastou formas geométricas retilíneas criando espaços associados aos desenhos dos pisos, mesclando três tipos de materiais: gramado, placas de concreto pré-moldado e pedra portuguesa nas cores branco e vermelho.
Na entrada principal da Abadia, Broos criou rampas que dão acesso ao hall de espera, deixando vão livre neste interior, para que Burle Marx criasse o jardim integrado ao edifício. Esta entrada prenuncia o que o espectador irá encontrar no claustro.
Para o pátio interno – o claustro, que é descoberto – Roberto Burle Marx criou o desenho do piso em malha utilizando os diferentes tipos de materiais já mencionados. Canteiros com árvores, arbustos e forrações para criar a composição. No espelho d‟água com plantas aquáticas estava prevista uma escultura de cunho sagrado, que não foi realizada. Não podemos nos esquecer que se trata de um jardim voltado para a contemplação das monjas nos momentos de lazer.
Em uma das extremidades da planta retangular situam-se as rampas de circulação. Para quebrar a rigidez geométrica da rampa, Burle Marx utiliza-se de um artifício, usando seixos e criando três canteiros do lado Ilustração 224 – Planta Baixa Abadia de
direito – na verdade, dois canteiros menores inseridos no interior de um canteiro maior, no formato de retângulo. (ver planta).
Segue abaixo a lista de espécies vegetais utilizadas nos canteiros dos jardins da Abadia de Santa Maria. 1. Euterpe edulis – Palmeira Jussara
2. Tibouchina radula – Manacá-da-serra-anão 3. Liriope muscari
4. Ophiopogon japonicus – grama preta 5. Hemerocallis flava – Lírio Amarelo 6. Alternanthera amoena 7. Cassia bicapsularis 8. Tibouchina holosericea 9. Asystasia coromandeliana 10. Rhododendron indicum 11. Zebrina pendula 12. Wedelia paludosa
A finalidade deste jardim é disponibilizar um espaço resguardado para a contemplação das monjas. É um ambiente onde se sugere tranqüilidade e serenidade. Burle Marx utiliza esses conceitos psicológicos para exprimir a força criativa de seu paisagismo.
Ilustração 225 – Projeto paisagístico Abadia de Santa Maria, Burle Marx, São Paulo SP
Neste projeto nota-se a busca da harmonia, das formas materiais representadas pela geometria, pelos volumes, pelas cores, vegetais (arbustos e arvores) dialogando com a finalidade que era o contemplativo (o sagrado) .
Burle Marx não foge da regra máxima do paisagismo que consiste em reproduzir ecossistemas, associando beleza estética, conhecimento de botânica, para um fim especifico – Abadia de Santa Maria.
Ilustrações 226, 227, 228, 229, 230 – Manacá da Serra, liriope, grama preta, alternanthera amoena, lírio amarelo
Ilustração 233 – Abadia de Santa Maria, Hans Broos, São Paulo SP