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Repensar o cristianismo tem como objetivo fundamental revolucionar a caricatura de um velho paradigma religioso, que foi construído ao longo do período pré-moderno e, desfazer posturas mal interpretadas a respeito do cristianismo na Modernidade. Com uma interpretação teológica pré-moderna o cristianismo se posicionou de forma fechada a tudo o que estava ocorrendo na cultura moderna. A leitura pré-moderna da Bíblia realizada pela própria Igreja foi deturpando a imagem de Deus, que foi completamente distorcida. Segundo Queiruga, o esforço que se deve fazer é para mostrar que Deus se apresenta como amor e não como terror. É necessário que se faça uma leitura global do cristianismo, qual não é nada fácil, pois exige uma hermenêutica teológica para que se faça uma interpretação clara para os dias atuais. Pois, “Deus como rival, a religião como opressão do ser humano, parecem constituir, de uma forma ou de outra, o motor definitivo de todo ataque ao cristianismo ou de todo abandono do mesmo” 71.

Devido à forma de como o cristianismo foi apresentado tornou-se para muitos uma carga, uma prisão e não liberdade por amor; e a maioria dos

71 Idem.

cristãos parece consentir com este diagnóstico72. Segundo Queiruga, a pregação do Evangelho é um termômetro que define a teologia, é na pregação que os temas e as pautas fornecem orientações marcando profundamente a vida humana e constituindo a matriz hermenêutica da qual se interpreta a presença de Deus na história. A maneira de interpretação e leitura da Sagrada Escritura constrói as doutrinas tão difundidas, entre elas a cruel e legalista do pecado original, que condena a existência humana com o duro castigo pelo pecado que não cometeu. Doutrina que continua dominando o pano de fundo da vivência espontânea, e muitas vezes da própria reflexão teológica. Segundo o autor, para entendermos o reflexo e as conseqüências de tudo isso cabe tão somente interpretarmos a situação institucional da Igreja73.

Pois, a Igreja enquanto instituição no fazer-se na história – organizar-se – e ao se defender no mundo, foi contaminando-se com o poder. “A consciência dos fiéis foi sendo educada num ambiente de dominação, de imposição, de obrigação”74. Segundo Queiruga, a contaminação da Igreja no

mundo do poder possibilitou a formação de uma imagem invertida de Deus que se apresentou a nós em Jesus de Nazaré e ficou gravada no subconsciente coletivo. Essa imagem foi emergindo de baixo para cima, contaminando os diversos níveis da consciência religiosa, que possibilitou uma religião triste e desiludida, quando não opressora.

Desde o nascimento da era moderna, parece correr pelos sulcos mais profundos da (sub) consciência ocidental a obscura convicção de que Deus seja enorme presença

72 Cf. Ibid. p. 29.

73 Cf. Ibid. p. 30-31. 74 Ibid. p. 31.

opressiva, cuja eliminação se torna necessária para que o ser humano possa crescer livremente e expandir-se sem impedimentos ao sol da vida e do progresso.75

Segundo Queiruga, os mestres da suspeita surgem introduzindo suas filosofias na cultura moderna deixando claro que Deus é uma carga negativa para a existência humana76. O cristianismo sempre aparece como negativo como se ele fosse o responsável pelo sofrimento humano, quando na realidade o sofrimento é fruto normal da existência finita e da liberdade condicionada do ser humano. Trata-se na verdade, segundo ele, de um mal-entendido, pois o que está no fundo da Modernidade é uma experiência que promove o movimento do Iluminismo no qual a afirmação de Deus equivaleria à negação do ser humano77 e uma convicção profunda que habita o fundo comum da

consciência cristã de que Deus é “uma presença exigente que torna mais incomoda a existência e mais pesada a vida, que impõe obrigações duras e difíceis, que pode manifestar-se em castigos obscuros, dolorosos e inexplicáveis”78.

O cristianismo e Deus são percebidos como inimigos da humanidade, ou seja, Deus aparece como grande “monstro sagrado” em busca de adoradores. A criatura é diminuída, negada, enquanto a grandeza de Deus é alimentada. Diante das posturas anti-moderna da cristandade e devido a uma teologia pouco fiel à experiência fundante da fé cristã, o cristianismo tornou-se alvo de duras críticas e rejeições desde o início da Modernidade. Queremos reforçar aqui que a convicção da oposição Deus-homem foi postulada e defendida por

75 Ibid. p. 32.

76 Cf. Ibid. p. 33. 77 Cf. Idem.

Creio em Deus Pai. 1993, p. 30-31.

78 Idem.

grandes expoentes do pensamento moderno como Karl Marx, Nietzsche, Freud, entre muitos outros. No qual Queiruga argumenta dialogando de forma incisiva para mostrar que esse fator tem origem no fechamento do cristianismo às conquistas da Modernidade e que provocou efeitos devastadores. Entretanto, se faz urgente desfazer essa imagem negativa para resgatar o verdadeiro cristianismo à sociedade moderna.

Marx viu no cristianismo de sua época uma religião de um mundo do “faz de conta”, que ocultava dos governados os reais interesses dos governantes. Essa corrupção da razão por interesses de classes, sendo consciente ou inconsciente, era o que ele denominava ideologia. O cristianismo funcionava como uma ideologia, dando legitimidade a estruturas sociais e políticas injustas. Todos os que trabalhavam sem discernimento dentro de um sistema eram vitimas de uma falsa consciência que poderia ser transformada somente por uma ação política em solidariedade com a classe trabalhadora industrial.

Nesse contexto ele faz sua famosa referencia à religião como sendo “o ópio do povo”. “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, a alma das condições desalmadas. Ela é o ópio do povo”79. Para Marx a religião cristã era um modo de enfrentar a constante dor das condições desumanas. Nesse sentido o cristianismo era incapaz de libertar o homem das causas do seu sofrimento. Esta religião ajudava apenas a diminuir a dor da existência. O cristianismo em si não era a causa do sofrimento, mas por tornar tolerável o que era intolerável, ele minava a vontade de lutar por uma diferente ordem das coisas.

79 MARX, Karl & ENGELS, Friedrich.

Contribucion a la crítica de la filosofia delderecho de Hegel. Edicion preparada por Hugo Assmann & Reyes Mate. Salamanca, 1974.p. 304.

Marx, sob a influência de Ludwig Feuerbach80, veio a crer que a critica a religião é o fundamento para toda crítica social, uma vez que as pessoas religiosas são as que com maior probabilidade aquiesce a qualquer forma de inversão social e desse modo obscurecem a realidade. Não apenas o cristianismo é um jogo nas mãos daqueles que controlam, segundo seus próprios interesses, o modo como a sociedade funciona, mas ele acalenta o crente para que tenha conformidade social, passiva, desviando a sua atenção das causas reais da miséria e da opressão. O cristianismo se tornava um inimigo da liberdade, da autonomia humana. Teria que ser vencido, para o bem da humanidade. Segundo Queiruga, “Marx introduziu em amplas áreas da consciência mundial a convicção de que para construir uma cidade verdadeiramente humana era preciso eliminar pela raiz a alienante hipoteca cristã”81.

Nietzsche em suas obras82 realiza uma denúncia global e a condenação total do mundo moderno, por vê-lo como um desenvolvimento do cristianismo. Rejeita o cristianismo como sendo a religião dos fracos. A modernidade conduziu ao niilismo, ao esvaziamento do homem cuja potência total foi projetada no universo divino pelo cristianismo, nada mais restando ao ser humano que a sua fraqueza e a sua miséria. O mundo moderno é em si mesmo um processo de decadência, essa é essencialmente perda dos valores supremos, desaparecimento das normas absolutas, donde se segue que nenhuma hierarquia pode ser respeitada.

80 Cf. FEUERBACH, Ludwig.

A essência do cristianismo. Campinas, SP, Papirus, 1997.

81 QUEIRUGA, Andrés Torres.

Recuperar a salvação. p. 33.

82 NIETZSCHE, Friedrich.

A genealogia da moral. São Paulo, Brasiliense, 1988; O anticristo.

Rio de Janeiro, Ediouro, 1985; A gaia ciência. São Paulo, Cia. Das Letras, 2001; Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro, Editora Bertrand Brasil, 1989.

Os temas de Nietzsche se resumem na recusa da moral cristã. Sua nostalgia, de querer buscar seus modelos no passado, na Antiguidade romana e no Renascimento italiano, é uma resistência à Modernidade, é uma denúncia a ilusão modernista, um ataque contra a idéia de sujeito. A Modernidade não tem nada a oferecer, o que resta mesmo é um ataque ao cristianismo, ou mais precisamente o fenômeno “cristão moral”, reduzindo-o a uma manifestação de degenerescência. Ao analisar o fenômeno da “morte de Deus” oriundo da racionalização moderna, nos revela com contundência as consequências que a Modernidade implicou ao homem. Nietzsche faz uma profunda análise do cristianismo revelando os seus instrumentos e mecanismos de subjugação do homem, declarando-o como corrupção do homem e o mito do progresso como mito moderno83. O trágico, segundo Queiruga, da evolução da consciência

histórica moderna em relação ao cristianismo é que este acabou sendo vivenciado e interpretado como uma proposta opressiva, hostil à vida e até provocadora de dissensões, perseguições e guerras, ou seja, ressentimento que envelhece84.

Freud desenvolve um ataque mais sistemático contra a ideologia da Modernidade. Aventura-se por caminhos ainda mais críticos. A religião é feita para pessoas infantis. Ela impede a maturidade humana, ao veicular uma idéia de Deus, substituto da figura paterna. Freud substitui a unidade do ator e do sistema, da racionalidade do mundo técnico e da moralidade pessoal pela ruptura entre o indivíduo e o social. De um lado o prazer, do outro a lei, coisas completamente opostas. Explícita uma visão pessimista sobre a natureza humana, em sua obra Mal estar na civilização, além de ser guiada por instintos

83 Cf. Idem.

O anticristo. p. 20-22.

84 Cf. QUEIRUGA, Andrés Torres.

– e não pela razão – a essência humana seria má e agressiva por natureza. O clima no qual Freud vivia era de descrença na ciência e no progresso humano85.

Ao refletir sobre a religião, Freud vê na sua origem um sentimento filial de culpa, um esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o pai por uma obediência a ele que fora adiada. Por isso, as idéias religiosas são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos.

A crítica da Modernidade marcada por Freud possibilitou a procura da liberdade do indivíduo, não escondendo seu pessimismo e sua rejeição das ilusões modernistas, sobretudo da perigosa pretensão de identificar a liberdade pessoal com a integração social. Faz nascer o sujeito pessoal num mundo secularizado onde ele corre o risco de ser esmagado por sua culpabilidade ou por identificações sociais e políticas alienantes.

Desse modo, a face mascarada do cristianismo foi deliberadamente propagada. Uma religião, rival da humanidade, não é para ser levada mesmo a sério, precisa ser combatida e negada. O que ocorreu de fato é que o cristianismo foi sendo percebido, cada vez com mais intensidade, como o grande obstáculo à afirmação da autonomia humana. Na realidade, Queiruga constata de fato que existe uma convicção, presente no pensamento ocidental moderno, de que Deus é considerado, por alguns, como uma carga negativa para a existência.

85 Cf. FREUD, Sigmund.

Basta um contato superficial com a cultura moderna e contemporânea para perceber quanto ela está profunda e totalmente embebida destas idéias, continuamente repetidas e combinada de mil maneiras e com milhares e diferentes acentuações. O fundo é sempre o mesmo: Deus é instintivamente rechaçado como carga negativa para a existência: porque não deixa ser (nas formas mais elevadas do ateísmo) ou porque não deixa desfrutar (nas formas mais vulgares dele). Deus é o ‘olhar’ sartriano frio e implacável, que prega o homem feito inseto, em sua angustia impotente; é o ‘moralismo’ gideano ou neo- nietzscheano, que priva o homem dos ‘alimentos terrestres’ ou do ‘êxtase’ dionisíaco.86

Para Queiruga a convicção de que Deus está em oposição ao ser humano – e daí o ateísmo ou rejeição de Deus – tem sua origem num problema histórico relacionado com a rejeição do cristianismo, a saber, o fechamento do cristianismo às mudanças que foram configurando a Modernidade87. O cristianismo mediante o regime de cristandade, se fechou às

descobertas e os avanços da Modernidade nascente, renunciando a interpretar a experiência da fé dentro dos moldes do novo paradigma. Aqueles que estavam empenhados nas mudanças provocadas pela Modernidade vincularam o cristianismo “a um marco passado e autoritário, impermeável ao novo talante crítico e oposto à busca, de uma nova liberdade, tanto individual quanto social, tanto cientifica quanto religiosa e política”88. O cristianismo acaba entrando em oposição às aspirações e aos valores da Modernidade, por isso passa a ser rejeitado como algo que estaria em contradição ao

86 QUEIRUGA, Andrés Torres.

Recuperar a salvação. p. 33-34.

87 Cf. Idem.

Creio em Deus Pai. p.31.

desenvolvimento do ser humano. E por estar vinculado ao cristianismo, “Deus”, o símbolo central, passa a ser rejeitado e a ser considerado um obstáculo para a realização humana89. Contribui ainda para essa rejeição, a imagem de Deus apresentada pelo cristianismo pré-moderno, enquanto sistema de cristandade, para legitimar o poder, a autoridade e outros interesses da hierarquia eclesiástica.

Queiruga mostra que a presença de Deus na vida de muitas pessoas é vivida sob as vestes do temor e do medo. “Logo, não é de estranhar que o imaginário cristão continue envenenado por expressões como ‘Deus castiga sem pau nem pedra’, ou ‘de Deus ninguém escapa’”90. Deus é concebido como

juiz que incute medo, como uma presença opressora que torna a vida mais pesada e mais incomoda, porque impõe o cumprimento de certos mandamentos alheios ao interesse humano. Essa visão de Deus diz respeito a uma convicção profunda – crença – que é alimentada pela pregação, de um Deus rival ao ser humano que tem como causa, por exemplo, com a nossa incapacidade de falar bem de Deus. Quando falamos de Deus acabamos introjetando nele o pior de nós mesmos: vontade de poder, afã de domínio, espírito de castigo e de vingança. Mas a causa principal consiste na falta de adequação ou no desajuste entre a fé cristã e a Modernidade, ou melhor, na falta de uma interpretação moderna da fé. Em outros termos, o problema está no desencontro entre religião e a cultura moderna. Para Queiruga, Deus precisa ser repensado, para se evitar o mal-entendido construído na trajetória da Modernidade e superarmos a visão pré-moderna do cristianismo.

89 Cf. Ibid. p. 55-60

90 Idem.

Diante disso se faz necessário recuperar o sentido original, para que a fé possa se tornar intelectualmente significativa e possa ser vivida e praticada culturamente, definindo claramente um dos eixos decisivos sobre os quais se deve articular a atual preocupação teológica91. A linguagem religiosa deve ser

articulada de forma que possa fazer com que o homem moderno compreenda o verdadeiro significado do cristianismo no mundo.

Com essa preocupação, Queiruga cria algumas categorias centrais como: maiêutica histórica; teocentrismo jesuânico; inreligionação e a pisteodicéia, para que o cristianismo seja entendido pelo homem moderno e que a imagem de Deus não seja deturpada pelas conquistas da Modernidade. É possível analisar a pluralidade das religiões, pois elas são entendidas como manifestações de um único Deus, a partir da acolhida que conseguem fazer. Os conceitos de Queiruga são paradoxais: apontam para a igualdade ontológica na diferenciação antropológica, para um sagrado comum, mas referendado incomumente em Jesus. Eles exigem, para sua maior inteligibilidade e fundamentação, uma lógica do contraditorial: capaz de manter o equilíbrio da experiência dos cristãos e a complementaridade dos seus antagonismos. Capaz de preservar o antagonismo real da fé cristã, porque remete sempre a um outro nível de realidade – onde está o amor como caridade e serviço à vida, que nos perpassa e ultrapassa a todos, que religa os aparentemente opostos.

Trabalharemos no próximo capítulo essas categorias criadas por Queiruga para a abertura ao diálogo.

91 Cf.Ibid. p. 10

CATEGORIAS CENTRAIS DA TEOLOGIA DE QUEIRUGA PARA UM CRISTIANISMO MODERNO

Neste capítulo visamos uma apresentação das novas categorias criadas por Queiruga como forma de analisar o cristianismo pré-moderno e apontar para uma nova tradução e releitura da experiência cristã. Essas categorias criadas por Queiruga: maiêutica histórica, universalismo assimétrico, inreligionação e teocentrismo jesuânico, são profundamente importantes para entendermos seu pensamento teológico. Os novos referenciais conceituais exigem um novo reposicionamento religioso que seja capaz de traduzir o especifico da proposta cristã, desvinculando a idéia de pensamento da perspectiva da cultura medieval. Colocando-nos o desafio de repensar o cristianismo dentro de uma nova linguagem e de uma nova teologia que possa atender o homem moderno dentro de suas necessidades. Também observamos que Queiruga nos traz questões centrais como repensar a cristologia, o mal, a salvação e a ressurreição em uma sociedade moderna.