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Samfunnsmessige hensyn

In document Kriterier for god kommunestruktur (sider 38-41)

4 Tjenesteyting

4.1 Samfunnsmessige hensyn

O papel relevante dos social media na organização coletiva dos chamados protestos da crise tem sido destacado em diferentes pesquisas: no caso da Primavera Árabe, permitiram o desenvolvimento de movimentos “virais” (Castells, 2013), no 15M de ações conectivas (Anduíza et al, 2012) ou de um “movimento pós-media” (Toret citado por Castells, 2014) ou ainda, tendo em conta as reflexões sobre o Occupy nos EUA, de iniciativas que se desenvolveram segundo uma lógica agregativa (Juris, 2012). Comum a estas análises é o facto de se encaminharem no sentido de considerar que estes dispositivos de comunicação e interação sociais podem ter implicações profundas na natureza e construção dos movimentos sociais e dos protestos das sociedades contemporâneas. No âmbito dos movimentos pela justiça global, as TIC, nomeadamente o e-mail e os sítios da internet eram já observadas como mecanismos de intercomunicação fundamentais entre atores coletivos de diferentes partes do mundo que permitiam uma organização em rede quer no âmbito dos fóruns sociais alternativos, quer da contestação de rua contra as instituições financeiras e políticas mundiais e regionais (Juris, 2012). Mas, atualmente, no recente ciclo de protestos, o desenvolvimento de novos meios de autocomunicação de massas (Castells, 2014), inexistentes ou pouco utilizados no período anterior (como o facebook, o youtube, a realização de live stream ou o uso de smartphones), desencadeou ainda uma difusão mais veloz e instantânea do formato organizacional dos grupos de protesto, particularmente do modelo das acampadas em Espanha e da ocupação das praças e espaços públicos centrais das cidades.

Juris (2012) sugere que, enquanto os movimentos pela justiça global funcionavam em rede, as ações de contestação mais recentes desenvolveram-se num sentido agregativo. Mais do que as ferramentas de comunicação disponíveis no passado, os media digitais concedem a

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possibilidade de o cidadão comum envolver-se mais rapidamente em iniciativas de protesto sem a necessidade de pertencer a organizações formais e, por conseguinte, de uma maior experiência pública do self (McDonald, 2002, 2004, 2006), assim como permitem uma construção mais individualizada dos frames de contestação coletiva (Bennet & Segerberg, 2012). Por exemplo, no caso dos protestos realizados em Portugal, os manifestantes foram frequentemente incentivados a construir os seus próprios cartazes ou, num âmbito mais global, a expressão “nós somos os 99%” propagou-se transnacionalmente e serviu de inspiração a um conjunto de histórias pessoais que se espalharam pelas redes sociais da internet. Contudo, a esta lógica de organização da ação conectiva de redes auto-organizadas assente nas redes virtuais e em laços fracos entre os indivíduos e os atores coletivos (Bennet & Segerberg, 2012) pode estar também subjacente uma maior dificuldade em edificar um processo de contestação e de oposição mais coordenado e duradouro (Juris, 2012).

Se a nível internacional, neste ciclo de mobilizações, as ligações virtuais entre ativistas ultrapassaram a importância dos encontros face a face, a nível nacional também desempenharam um papel fulcral. Foram as relações virtuais, estabelecidas entre indivíduos de diferentes regiões, que permitiram criar níveis de mobilização elevados especialmente nos quatro grandes eventos de protesto. Desde o 12 de Março (2011) até ao 2 de Março (2013) surgiram núcleos de pessoas espalhados por todo o país e internacionalmente unidos para protestar na rua contra as medidas de austeridade. Esta fluidez na organização permitiu que, pelo menos nestes quatro momentos, pudéssemos afirmar que se realizou um ciclo de protestos (Tarrow, 1998; Accornero e Ramos Pinto, 2015), onde estiveram presentes novos repertórios de ação coletiva. Por outro lado, proporcionaram também a alguns jovens que tinham o anseio de participar na organização das manifestações, mas que não possuíam ligações pessoais nas redes do ativismo, tomar conhecimento dos eventos através das páginas criadas no facebook. Assim, os meios de autocomunicação de massas (Castells, 2014) podem estar a transformar as redes de recrutamento dos indivíduos que pretendem associar-se à organização de manifestações e que, no passado, se estabeleciam sobretudo através de relações familiares e de amizade e de conhecimento interpessoais.

Contudo, estas asserções não tornam menos pertinente ou anulam o pressuposto de se considerar que, na sociedade portuguesa, as dinâmicas de constituição dos coletivos estiveram também condicionadas pela experiências de ativismo trazidas de outros ciclos de protesto, muitas vezes adquiridas através das militâncias partidárias, e pela permanência de grupos pré- existentes que moldaram as estruturas organizativas dos grupos e as transformações ocorridas a este nível ao longo do ciclo contra a austeridade (Baumgarten, 2016). Por exemplo, o

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fracasso do processo de construção da Plataforma 15 de Outubro, onde estavam presentes muitos ativistas que já se conheciam de outros momentos de contestação e da convivência política nas mesmas instâncias partidárias, conduziram à opção de certos ativistas formarem posteriormente um grupo de protesto, como o QSLT, que funcionou segundo uma lógica de construção da ação coletiva fechada.

Além disso, como demonstrado no desenvolvimento deste capítulo através dos discursos dos entrevistados, desde o início de todos os processos coletivos, a presença de militantes partidários na organização dos protestos ditou algumas das desconfianças e dos conflitos existentes entre ativistas: desde as jovens que, no Porto, decidiram abandonar a organização dos protestos por se sentirem incomodadas com a presença de militantes partidários, às desconfianças entre membros do M12M, que ditaram o fim do coletivo, à criação de novos coletivos, como os Indignados Lisboa, formados por ativistas grassroots e com uma conceção de construção da ação coletiva inspirada numa lógica apartidária, até às divergências políticas e ideológicas da Plataforma 15 de Outubro e do QSLT. Como se observou, estes não foram os únicos fatores que, na opinião dos entrevistados, impulsionaram hostilidades. Além disso, a maior ou a menor atribuição de importância aos conflitos ideológicos, por parte dos ativistas, depende muitas vezes do lugar e do campo de orientação política ocupado pelos mesmos.

Verificou-se também que, em conformidade com os testemunhos recolhidos, as principais cidades do país passaram por lógicas distintas de organização da ação coletiva e que este fenómeno poderá estar hipoteticamente relacionado com a existência quer de diferentes tradições de ativismo, quer de níveis de implementação díspares dos partidos políticos de esquerda. No contexto do QSLT-Lisboa, os ativistas afirmam que a organização dos protestos nunca foi diretamente subvencionada por partidos, embora alguns reconheçam que a presença de militantes permita, em determinadas circunstâncias, um apoio indireto. Já no contexto do QSLT-Porto, foi assumido por um ativista que houve um apoio direto no 15 de Setembro e no 2 de Março.

Apesar deste suporte, que consoante os contextos pode ter sido mais ou menos indireto, e perante um ciclo de protestos onde se denota uma continuidade ao nível da importância que os “velhos” ativistas e atores coletivos têm na organização das iniciativas, também não é menos verdade que as formas de mobilização refletem novos moldes de conceção e preparação das dinâmicas do contencioso político e social, que partilham algumas das características de outros eventos ocorridos noutros países durante a fase dos movimentos da crise e que se afastam dos modelos de organização da ação coletiva dos partidos políticos e

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das organizações sindicais. Porém, mais uma vez reiteramos que, esta hipótese não invalida que, no caso português, estes atores tenham marcado muitos dos conflitos que se formaram nas relações entre os ativistas que construíram o ciclo antiausteridade.

165 CAPÍTULO 9

ENTRE O REAL E O VIRTUAL: LIGAÇÕES INTERNACIONAIS DOS ATIVISTAS E GRUPOS DE PROTESTO

Como tem vido a ser retratado, múltiplos fatores relacionados com a conjuntura nacional influíram, por exemplo, na convocatória do protesto de 12 de Março e na sua elevada mobilização. No entanto, não é de descurar que se vivia uma época de agitação popular e de mobilização desencadeadas pela Primavera Árabe, onde a juventude e os seus problemas foram o rastilho das sublevações. Em Portugal, também os mais jovens se identificaram com muitas das reivindicações avançadas nos países árabes e estas constituíram-se como mais um motivo para despoletar o 12 de Março.

Dois meses passados, originaram-se as acampadas em Espanha, que se expandiram por diversos países, e o processo de constituição do 15M. Os organizadores do 12 de Março sublinham que foram contactados por jovens espanhóis, afirmando que este lhes serviu de inspiração, com o intuito de tomarem conhecimento de como tinha decorrido a organização da manifestação. Como dissemos, também em Lisboa, e de forma menos expressiva noutros pontos do país, ergueram-se acampamentos de ativistas mas não tão duradouros como em Espanha.

Meses depois segue-se a realização do protesto de 15de Outubro. Este, mais uma vez, partiu de um apelo de ativistas espanhóis para celebrar a existência do 15M em Espanha e para protestar contra as medidas de austeridade. Segundo uma ativista (Madalena), a ideia de agendar o primeiro protesto do QSLT para 15 de Setembro prende-se com o facto de no mesmo dia decorrer uma manifestação em Espanha.

Já o 2 de Março não coincide com uma data de protesto internacional, mas pautou-se pela organização de várias marés de reivindicação à semelhança do que ocorria em Espanha. Também no país vizinho cantou-se a “Grândola, Vila Morena” em eventos de protesto80. Por último, a manifestação de 1 de Junho de 2013 “Povos Unidos Contra a Troika” surge da colaboração de ativistas de vários países no sentido de construir uma ação de protesto concertada a nível internacional.

Sendo que existem vários momentos de contágio internacional e de propagação dos chamados ‘eventos gatilho’ (Della Porta e Kriesi, 2009 [1999]), que contactos e relações mantiveram, a nível internacional, os ativistas portugueses com os seus pares? Será que os

80 Nomeadamente no protesto realizado em 23 de Fevereiro de 2013 contra a privatização do sistema de saúde

(http://www.tvi24.iol.pt/economia---economia/espanha-zeca-afonso-pib-grandola-vila-morena-manifestacoes- economia/1420796-6377.html; acedido a 15 de Junho de 2014)

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indivíduos com biografias de continuidade que, à partida, possuem ligações internacionais de momentos de contestação anteriores, desempenharam uma função relevante na (re)ativação de contactos com ativistas de outros países? Através de que processos e meios se realizaram estas interações? Estamos perante um ciclo de protestos que se caracteriza por uma predominância dos processos de difusão relacional ou não relacional (Della Porta e Tarrow, 2005)? As relações transnacionais entre os grupos de protesto e ativistas de diferentes países foram estreitas e próximas ao ponto de resultarem em plataformas de ação e de reivindicação comuns? Estas questões retratam alguns dos eixos analíticos que procuraremos tratar no desenvolvimento deste capítulo.

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