A investigação levada a cabo neste último ano surgiu da necessidade de implementar no Pontão, desde o seu primeiro dia de funcionamento, uma política institucional e práticas consequentes que pudessem ter efeito sobre a desresponsabilização familiar (ainda que preventivo, dado que o CD estava no seu início). Especificamente, queríamos promover relações entre as famílias, a instituição e os idosos que pudessem beneficiar, mutuamente, os respetivos contextos e atuar sobre a qualidade de vida destes adultos mais velhos.
Esta necessidade surgiu do facto de atualmente existirem cada vez mais idosos institucionalizados (Carta Social, 2013). As problemáticas institucionais, mais concretamente a desresponsabilização familiar e a quebra das redes de sociabilidade, colocam em causa o envelhecimento bem-sucedido que todos os idosos desejam experienciar (Sousa et al., 2004).
Como tal, uma vez que reverter o aumento da institucionalização não pareceu um desafio possível de alcançar, o que se pretendeu foi que o Centro de Dia do Pontão fosse uma instituição cuja filosofia de intervenção permitisse desconstruir as problemáticas institucionais e, acima de tudo, que promovesse a relação: Idosos, Família e Instituição.
Para tal, foi traçado para esta investigação um objetivo geral a atingir que se dividiu em cinco objetivos específicos:
1. Promover uma melhor relação entre os idosos, as suas famílias e a instituição 1.1 Implementar uma política de funcionamento aberta à comunidade;
1.2 Compreender as famílias e as dinâmicas familiares dos idosos; 1.3 Aproximar e envolver as famílias na vida institucional;
1.4 Tornar a instituição numa extensão das dinâmicas comunitárias; 1.5 Diminuir a desresponsabilização familiar.
Importa agora perceber em que medida estes objetivos foram ou não possíveis de alcançar e se permitiram conseguir o objetivo geral da investigação. Inicialmente, foi criada uma política de funcionamento institucional de abertura à comunidade, em especial aos familiares dos idosos. Esta política de funcionamento, tal como já foi referido e anteriormente explicado, resultou numa filosofia institucional baseada em três pressupostos fundamentais: abertura à comunidade; aproximação comunitária; voz ativa
88 na instituição. Através desta filosofia de intervenção, conseguiu-se desde o início do funcionamento do centro de dia, aproximar e envolver as famílias na vida institucional e, ainda tornar a instituição numa extensão das dinâmicas comunitárias.
Posteriormente, foi fulcral conhecer as histórias de vida dos idosos para compreender as suas dinâmicas familiares. Só se compreende a forma como familiares e idosos se relacionam, se conhecermos as estórias das pessoas. Tal como Paúl (1997) defende “só as histórias de vida nos permitem compreender a dinâmica relativa às redes sociais de apoio informal” (p. 155). Há medida que fomos conhecendo as estórias das pessoas, fomos compreendendo a forma como interagem em família e no contexto institucional. O facto de estarmos disponíveis para conhecer as famílias, sem julgarmos as suas dinâmicas familiares, levou a que também os familiares estivessem disponíveis para colaborar com a instituição.
Como é possível constatar, todos os objetivos estão inevitavelmente interligados, pois através da política de funcionamento aberta à comunidade, foi possível compreender as famílias e as dinâmicas familiares dos idosos, aproximar e envolver as famílias na vida institucional e, ainda, tornar a instituição numa extensão das dinâmicas comunitárias. Esta filosofia institucional é uma antítese da desresponsabilização familiar, pois se os familiares estão envolvidos na vida da instituição é porque não são ausentes na vida dos seus familiares idosos. Constatou-se, desta forma, que no CD do Pontão não existe desresponsabilização familiar e que esta filosofia de intervenção é promotora de uma melhor relação entre os idosos, as suas famílias e a instituição.
É possível concluir que os objetivos foram todos alcançados, visto que toda esta política de funcionamento institucional retrata, não só, as medidas propostas por Born (2002) para colmatar a problemática da desresponsabilização familiar, como o modelo de ECC (Envolvimento, Colaboração, Capacitação) sugerido por Elizur (1996), para integrar as famílias na vida institucional e facilitar o relacionamento entre famílias e profissionais de uma instituição.
As medidas propostas por Born (2002), estão refletidas na essência da política de funcionamento do CD do Pontão. Abrir a instituição à comunidade permite manter as redes de sociabilidade e aproximar os familiares da instituição. Através da capacidade de dialogar democraticamente com idosos e familiares, promove-se o envolvimento das famílias na vida institucional e a responsabilização familiar.
Colocar em prática estas medidas requer ter em conta o modelo ECC de Elizur (1996). Este modelo possibilitou trabalhar o envolvimento dos familiares com vista a
89 participarem na vida institucional e, por conseguinte, colaborarem com a instituição na prestação de cuidados aos idosos. Há medidas que tiveram como consequência a criação de laços entre os familiares e a instituição. Foi-se construindo uma relação de confiança que levou ao trabalho em equipa (família e instituição) e à partilha de tarefas relacionadas com o quotidiano dos idosos. Envolver os familiares na vida institucional dos idosos foi fundamental pois os familiares sentiam que, embora os seus idosos estejam institucionalizados, a sua presença é fulcral para o bem-estar dos idosos.
O caminho nem sempre é fácil, pois os profissionais das instituições têm a tendência de julgar as atitudes dos familiares, sem sequer conhecerem a história das famílias com quem trabalham. É necessário conhecer os idosos, conhecer as suas estórias, conhecer os familiares, ter uma atitude democrática e compreensiva e, muitas vezes, ter uma postura informal, pois raramente nos sentimos descontraídos para falar de nós próprios num contexto formal.
Nem sempre é possível envolver as famílias na vida institucional dos idosos, como mostra, por exemplo, o caso do Sr. Francisco. Dificilmente as instituições conseguem resolver problemas familiares de outrora, daí a importância das abordagens biográficas que nos permitem conhecer a história das pessoas e compreender a forma como se relacionam.
Para aproximar as famílias é necessário mostrar que a instituição tem a porta aberta para as receber, que são fulcrais no bem-estar do idoso e na vida da instituição. Chama-se a atenção para o propositado uso do verbo “mostrar” pois “dizer” não fará a diferença, as palavras têm de pressupor uma ação para que as famílias possam entender e sentir que são parte integrante da instituição. Os nossos resultados mostraram que, no caso do Centro de Dia do Pontão é fundamental, na nossa opinião, desconstruir três estereótipos:
1. Não é verdade que exista desresponsabilização familiar no nosso Centro de Dia.
Todas as dinâmicas familiares são fruto da forma como os elementos da família se relacionam entre si desde há muito tempo atrás. Não são os contextos institucionais que levam à desresponsabilização familiar, mas sim as próprias dinâmicas familiares, acessíveis a partir das estórias das famílias, que influenciam de forma nítida os formatos específicos, a ausência ou presença, do apoio familiar (Paúl, 1997).
90 2. Estar institucionalizado não pressupõe, necessariamente, uma quebra ou
“encolhimento” das redes de sociabilidade.
É possível criar formas de relacionamento humano que melhoram a vida dos idosos, mesmo estando institucionalizados num centro de dia. Se as instituições trabalharem as suas filosofias de intervenção com o intuito de serem extensões da vida dos idosos, possibilitam que estes mantenham as suas relações e, até, que possam alargar as suas redes de sociabilidade (Zimerman, 2000).
3. As instituições não afetam necessariamente o bem-estar físico, psicológico e social das pessoas.
Os contextos institucionais podem e devem ser espaços de aprendizagem, nos quais os idosos possam reinventar as suas relações e a si próprios como seres humanos (Ribeirinho, 2013).
O Centro de Dia do Pontão é um exemplo de que isto é possível. Esta investigação permitiu contrariar estes estereótipos que nos parecem demasiado comuns e, quiçá, repetidos até à exaustão sem nenhuma base investigativa. São vários os casos nesta investigação em que os idosos alargaram as suas redes sociais, depois de estarem institucionalizados. Também já foram referidos exemplos em que a redução dos conflitos familiares aconteceu depois da institucionalização, melhorando, assim, as relações entre os idosos e as suas famílias.
Tal como Born (2002) refere, se as instituições trabalharem conjuntamente com os idosos, os seus familiares e a comunidade em geral, conseguem manter as redes de sociabilidade dos idosos e aproximar os familiares da instituição. Contribuindo, assim, para o bem-estar dos idosos.
Criar uma instituição de raiz com esta filosofia institucional, pressupõe que seja mais fácil alcançar os resultados pretendidos, como foi o caso do Centro de Dia do Pontão. Porém, parece-nos possível construir, em todos os contextos institucionais, uma filosofia de funcionamento que envolva os familiares na vida da instituição e, por conseguinte, que os aproxime dos seus idosos. Contudo, é necessário que as direções, os responsáveis técnicos e todos os colaboradores que trabalham nas instituições estejam disponíveis para o fazer, conscientes de que essa disponibilidade significa trabalhar com dedicação e, seguramente, com pressupostos diferentes.
91 Este era um projeto de investigação-ação e, de facto, a escolha do método de investigação não poderia ser outra. Com base na IA foi possível recolher toda a informação mas, mais importante ainda, compreender o contexto em estudo, ou seja, compreender a forma como os idosos e as suas famílias de relacionam (Bogdan & Biklen, 1994). Ao longo de 12 meses foram, ainda, testadas medidas para aproximar as famílias do contexto institucional.
Neste sentido, consideramos que este ano significou o encerramento de um primeiro ciclo de investigação-ação. Chegada a fase da avaliação (última fase de um ciclo de IA - planificação, ação, avaliação) conclui-se que a investigação não termina aqui. Assim, é fundamental apresentar as nossas recomendações à instituição, para que se possa trabalhar para planificar a próxima fase da vida institucional (2º ciclo da investigação- ação). De forma sintética, as recomendações, que serão apresentadas brevemente à Direção do Pontão, são as seguintes:
1. Manter a política institucional de abertura à comunidade.
2. Transformar as entrevistas de admissão em minientrevistas biográficas. Desta forma, começaríamos a conhecer as estórias dos idosos desde logo, obtendo elementos necessários à adaptação do trabalho da equipa.
3. Manter o atelier de Histórias de Vida. Este permite, não só, conhecer as estórias dos idosos, como promove a partilha de estórias entre o grupo, o convívio harmonioso e, por conseguinte, a aproximação entre os idosos.
4. Manter as atividades de caráter familiar (almoços entre famílias, comemoração de datas festivas, entre outras que promovam a participação dos familiares).
5. Manter a isenção de horário de visitas. 6. Ter em conta as sugestões dos familiares.
7. Não cair na tentação de alagar o horário de funcionamento até às 20:00h (procedimento comum nalguns contextos institucionais, em que os idosos só regressam a casa depois do jantar).
8. Disponibilizar apoio especializado às famílias cujos familiares idosos têm demência.
Um dos desafios mais prementes das instituições que apoiam idosos é a integração de pessoas com demência. No CD do Pontão existem cinco pessoas que sofrem de diferentes tipos de demência. Cada vez mais os familiares procuram apoio nas instituições, quer para os seus idosos quer para a própria família. As famílias
92 revelam uma enorme carência de competências pessoais e técnicas para lidar com a demência. Por sua vez, também as instituições têm várias limitações no que se refere ao apoio que presta a estas famílias.
9. Manter uma estrutura de recolha de informação permanente (que, no 2º ciclo da IA, até poderá ser assegurada por outros atores sociais), para que se institucionalize, também procedimentos de investigação, como forma de conhecer a realidade social de forma aprofundada. Se a partir daqui, não tivermos a preocupação de recolher e tratar a informação original, não saberemos ao certo o que está a acontecer, nem como melhorar o nosso contexto, em particular.
Como todas as investigações, também esta investigação teve as suas limitações. Primeiramente, a dificuldade em conciliar a vida pessoal e a vida profissional com a investigação. A capacidade de gerir o tempo e as angústias que foram surgindo durante a investigação foi sendo trabalhada e amadurecida com o passar do tempo.
Seguidamente, importa referir uma outra dificuldade sentida ao longo de toda a investigação: distinguir e separar o papel de responsável pelo centro de dia, do papel de investigadora. Se, por vezes, a junção de ambos os papéis foi positiva e produtiva para a investigação, outras vezes criou alguma desorientação na distinção das tarefas a realizar e da postura a manter. Levou, ainda, a um cansaço extremo pois durante 1 ano o tema da investigação esteve sempre presente no dia-a-dia profissional e pessoal da investigadora. Por último, foi ainda sentida a falta de tempo para aprofundar o conhecimento sobre a realidade em estudo. Muito mais poderia ter sido feito, se o tempo não fosse tão curto.
Desta forma, ressaltam outras linhas de investigação a abordar de forma a melhorar a realidade social do CD do Pontão. Por exemplo, conhecer as estórias de vida dos colaboradores de forma a perceber porque interagem de determinada forma no contexto profissional e, mais concretamente, com os idosos. Ou, ainda, melhorar a formação dos colaboradores da instituição com o objetivo de: desmistificar estereótipos associados à velhice e à institucionalização; promover boas práticas institucionais; promover relações profissionais saudáveis entre a equipa, entre a equipa e os idosos, e, ainda, entre a equipa e os familiares dos idosos; por último, conscientizar para a importância do trabalho que desenvolvem na vida e no bem-estar das pessoas idosas.
Este trabalho de investigação-ação foi fundamental, não só para desmistificar a ideia de que os contextos institucionais conduzem necessariamente à
93 desresponsabilização familiar, como ainda para alertar as instituições para a necessidade de compreenderem as estórias das pessoas (idosos e familiares) com quem trabalham. A presente investigação contribuirá, desta forma, para o desenvolvimento do Pontão como instituição promotora de relações saudáveis entre Idosos-Família-Instituição.
94
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