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Para compreender a forma como os idosos e os familiares interagem em contexto familiar e, por conseguinte, no contexto institucional, é necessário fazer agora referência aos restantes dados obtidos na investigação:

1. Restante análise das entrevistas – focalizando, agora, os denominadores comuns acerca dos fatores que levaram à institucionalização; processo de tomada de decisão pela institucionalização; adaptação ao CD; alterações na vida dos idosos depois da institucionalização, em várias dimensões; alterações das dinâmicas familiares; forma de ligação entre a família e a instituição (anexo 7).

2. Notas de campo – registos das admissões; da integração dos idosos; da interação entre idosos e famílias na instituição; dia-a-dia institucional; relação entre a equipa do CD com os idosos e com os seus familiares (anexo 9).

81 3. Registo de dinâmicas familiares – dados que mostram não só o número de visitas/contactos telefónicos que os idosos receberam no CD, como o objetivo dos contactos (anexo 3).

Todos os idosos vivem com os seus familiares, à exceção do Sr. Miguel, que vive sozinho. Este facto evidencia que, inicialmente, as famílias tentaram assumir os cuidados aos seus idosos no período diurno, sem recorrer a um apoio formal. Mas a incapacidade das famílias serem cuidadoras dos seus idosos levou à única opção: a institucionalização em centro de dia.

Neste sentido, importa referir que os fatores que levaram à admissão dos idosos no CD foram comuns a quase todos, nomeadamente:

 Agravamento do estado de saúde;

 Solidão;

 Isolamento social;

 Conflitos familiares;

 Ausência de estímulo físico, cognitivo e social.

Convém mencionar que a solidão e o isolamento derivam do facto dos familiares dos idosos passarem todo o período diurno fora do contexto habitacional. Os familiares têm vidas profissionais ativas e, nalguns casos, também os netos dos idosos estão ausentes, pois durante este período estão na escola.

As famílias que referiram os conflitos familiares como fator de admissão no CD são as que passavam 24h por dia com os seus familiares idosos, e ainda, os casais idosos que antes da admissão no CD passavam todo o tempo juntos, o que leva mais facilmente ao conflito. Neste caso específico, só as abordagens biográficas permitiram entender a origem dos conflitos familiares (como foi, por exemplo, o caso da D. Constança ou do casal D. Alice e Sr. Simão).

No que se refere à tomada de decisão pela institucionalização, é possível perceber que, a maioria dos idosos teve um papel preferencial, ou seja, exerceu o seu direito na tomada de decisão. No caso das pessoas com quadros demenciais a participação foi passiva, pois não interferiram na tomada de decisão e concordaram com o que lhes foi sendo proposto. Contudo, se os idosos estavam na sua maioria sozinhos durante o dia e, nalguns casos, isolados da vida em sociedade, é compreensível que quando os familiares

82 lhes sugeriram a institucionalização, esta fosse a única opção que tinham para alterar a situação em que se encontravam.

A maioria dos familiares dos idosos está em idade adulta, tendo compromissos profissionais a cumprir. Não obstante, muitas famílias ainda têm os seus elementos mais novos em idade escolar, necessitando também estes de apoio e disponibilidade dos adultos. Desta forma, é quase impossível para as famílias fazer a gestão entre os inúmeros papéis sociais a que estão sujeitos e a prestação de cuidados aos elementos mais idosos da família, que vão ficando cada vez mais sozinhos e sem estímulo social e cognitivo.

Assim sendo, a institucionalização no CD do Pontão foi sentida como a única opção que os idosos e as famílias dispunham. A adaptação ao contexto de CD foi relativamente fácil para a maioria dos idosos (nota de campo 6). Mesmo no caso das pessoas com demência, a integração foi possível através da colaboração entre a família e a instituição. Todos os familiares consideram que os seus idosos estão perfeitamente integrados na dinâmica institucional e, consideram que a institucionalização trouxe benefícios à vida dos idosos. Este facto parece estar ligado à forma como a própria decisão foi tomada, com a participação plena dos idosos. Reed et al. (2003) consideram que a forma como se faz esta decisão é fundamental, influenciando diretamente a disposição dos idosos em relação à institucionalização, e à instituição em si.

A maioria dos familiares dos idosos concluíram que a institucionalização dos idosos lhes trouxe mais vantagens que desvantagens. Todos identificaram melhorias na vida dos idosos em várias dimensões, tais como: saúde; alimentação; cuidados de higiene e imagem; alterações no estado de espírito, sendo este mais alegre; e, ainda, nalguns casos melhoria nas relações familiares dentro da própria família:

Eu acho que mudou um pouco em relação, não digo com a minha mãe, a gente também nunca teve uma relação… continuamos a ter conflitos mas é porque continua a ser teimosa, quer às vezes o impossível na cabeça dela. Com o meu pai a relação melhorou, porque o meu pai entrava muito em conflito connosco. Agora chegam a casa os dois… eles andavam constantemente em conflito um com o outro, mas não podem viver um sem o outro… à tarde vão daqui, que os dias já têm estado melhores, sentam- se, conversam os dois ali na rua. (E3)

83 Entende-se que a melhoria das relações familiares traduz, uma vez mais, a necessidade que as famílias têm de ter um apoio no que se refere aos cuidados com seus idosos. O facto de atualmente estarem institucionalizados no CD, permite um alívio da sobrecarga a que a família anteriormente estava exposta. Desta forma, todos os elementos da família têm objetivos diários a cumprir, voltando a reunirem-se novamente no período noturno.

Estamos a falar de um centro de dia, uma forma de institucionalização a tempo parcial, que idealmente requer o apoio dos familiares fora do período de funcionamento da instituição. O que a priori pressupõe que todos os casos analisados têm suporte familiar. Isto significa que os malefícios gerais da institucionalização total (por exemplo em ERPI) não sejam tão visíveis. Estar institucionalizado num CD, no período diurno semanal, significa que o idoso volta ao seu contexto de residência e continua, não só a manter laços familiares, como as suas redes de sociabilidade. Um exemplo concreto desta realidade foi o aumento das redes de sociabilidade que se verificou no caso dos idosos que estavam em isolamento social e cujas redes estavam cada vez mais diminuídas. No CD conseguiram alargar as suas redes e interagir diariamente com pessoas de diferentes idades (por exemplo o caso do Sr. Miguel, da D. Constança, da D. Aurora, do casal Sr. António e D. Lúcia e do casal Sr. Simão e D. Alice).

O contexto de centro de dia possibilita aos idosos conviver com pessoas de diferentes idades, pois muitas das instituições atuais que integram um CD, integram também uma Creche, como é o caso do Pontão. Desta forma, os idosos interagem diariamente não só uns com os outros, mas também com crianças de várias idades e, ainda, com toda a equipa de colaboradores da instituição.

Dentro do período de funcionamento do CD, os idosos têm assegurados não apenas os serviços comuns como ainda um plano de animação sociocultural, elaborado de forma a permitir aos idosos o seu desenvolvimento pessoal e social.

A equipa do CD trabalha diariamente para garantir toda a qualidade de vida possível aos idosos. Não obstante, a equipa tem ainda a responsabilidade/capacidade de receber e envolver os familiares na vida institucional, tal como refere a política institucional de abertura à comunidade. Exemplo disto são as diversas atividades de animação de caráter familiar que ocorreram durante a investigação, e a adesão dos familiares às mesmas (notas de campo 26 e 29).

84 Os registos das visitas dos familiares à instituição comprovam que quando se realizaram atividades abertas à comunidade, estavam sempre presentes familiares dos idosos, mesmo estas realizando-se durante o horário laboral de muitos familiares.

Com o passar do tempo, os familiares foram-se envolvendo cada vez mais na dinâmica institucional, pois a própria filosofia de funcionamento assim o promoveu. Todos os familiares foram individualmente convidados a participar nas iniciativas, mesmo aqueles que quase sempre recusavam o convite. A persistência da instituição em ter por perto os familiares alcançou muitas vezes os resultados pretendidos. Por exemplo, a filha do Sr. Francisco, que inicialmente se recusou a participar nas atividades, quando convidada a comemorar o aniversário do pai na instituição, aceitou a iniciativa de bom grado.

Os familiares não foram apenas convidados a assistir, como também a participar nas atividades. Por exemplo, na festa do natal foi solicitado a cada idoso que trouxesse um contributo para o lanche partilhado. Todos os familiares dos idosos contribuíram com vários alimentos de forma a termos um lanche diversificado. Os familiares, autonomamente, disponibilizaram-se ainda a: contribuir com adereços para a peça de teatro (muitos fizeram à mão os adereços dos seus idosos); apoiar a equipa a arrumar e limpar a instituição depois da festa (nota de campo 15). Nesta festa estavam presentes quase todos os familiares dos idosos e, obviamente, a felicidade dos idosos era visível.

Um outro exemplo que ilustra o mesmo princípio aconteceu quando comemorámos o Dia do Pai com um almoço surpresa para os idosos. Os filhos esperaram os idosos no refeitório para almoçar sem que os idosos suspeitassem da sua presença. Apenas o Sr. Francisco não teve os filhos presentes nesta iniciativa. Todos os outros senhores tinham à sua espera os seus filhos para um almoço entre pais e filhos (nota de campo 26).

No Dia da Família, as famílias foram convidadas a almoçar no CD e, uma vez mais, foi-lhes pedido que não revelassem a iniciativa aos idosos, de forma a conseguirmos surpreendê-los. A reação dos idosos, quando perceberam que as suas famílias estavam no refeitório para almoçarem juntos, foi muito emotiva. Novamente, à exceção do Sr. Francisco (nota de campo 29), todos os idosos almoçaram com as suas famílias (filhos, netos, noras, esposas, irmãos). Importa referir que estes almoços tiveram sempre um custo de 4€ por cada familiar. Muitos dos familiares, aquando o pagamento, pagaram uma quantia acima da acordada como forma de contribuir para a instituição.

85 Em todas as iniciativas foi visível o empenho das famílias em participarem na vida institucional e a disponibilidade em colaborarem com a instituição. A animação sociocultural foi uma ferramenta utilizada para conseguir levar a cabo a política institucional de abertura à comunidade e promover a relação Idosos-Família-Instituição.

A presença da família na vida institucional revelou-se fulcral em vários aspetos: na integração dos idosos no CD; na complementaridade de apoio entre famílias e instituição; e, ainda, no bem-estar global dos idosos na instituição.

Podemos assim perceber que os idosos do CD do Pontão não carecem de suporte familiar. Prova disso são as 199 visitas que se registaram de setembro de 2014 a abril de 2015 para 13 idosos e, ainda, os 10 contactos telefónicos que os familiares fizeram maioritariamente nos primeiros dias de integração para saber se os seus idosos estavam a adaptar-se. Não esqueçamos que estes familiares vivem com os seus idosos e, no caso dos casais (D. Alice e Sr. Simão, D. Lúcia e Sr. António), as filhas estão constantemente presentes, de forma a prestar todos os cuidados que os pais necessitam.

Acreditamos, assim, que estes dados nos permitem dizer que há uma relação bastante próxima entre os idosos e os seus familiares, no centro de dia. As políticas e práticas institucionais tiveram um importante papel neste quadro relacional, pois promoveram, desde o 1º dia de funcionamento, esta relação.

Perceber que os idosos têm suporte familiar, dentro e fora da instituição, só foi possível a partir do momento que conhecemos as histórias dos idosos e a forma como interagem, naturalmente, em família. A filosofia de funcionamento do CD promoveu, desde a abertura da instituição, o envolvimento das famílias na vida institucional.

De facto, desde setembro que a equipa do Pontão trabalha, quer nas atividades de animação quer no dia-a-dia da instituição, para envolver os familiares na vida institucional dos idosos. Acreditamos que é possível agir sobre as problemáticas institucionais com uma política de funcionamento promotora de relações familiares e sociais. Os dados até aqui apresentados, permitem-nos perceber que no CD do Pontão as famílias apoiam os seus idosos e estão envolvidas na vida institucional, pois a instituição tem a porta aberta para as receber.

Ter a porta aberta aos familiares significou muito mais do que receber as famílias na instituição. Implicou uma intervenção organizada e pensada em várias dimensões, nomeadamente:

 Conhecer e respeitar os familiares;

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 Não exigir aos familiares a sua presença na instituição, mas sim demonstrar a importância do seu papel no bem-estar dos idosos na instituição;

 Criar estratégias para os envolver na vida institucional consoante as especificidades de cada família e de cada pessoa;

 Dar espaço para que tanto os idosos como os familiares possam sugerir melhorias ao funcionamento da instituição;

 Colocar em prática as sugestões dos familiares;

 Estar disponível para os familiares.

De referir que esta disponibilidade requereu uma flexibilização de horário por parte da responsável e da equipa de colaboradoras, pois a maioria dos familiares trabalha e tem horários a cumprir.

A implementação da política de funcionamento dependeu, em grande parte, da postura dos trabalhadores da instituição. A relação que a equipa construiu desde o início com os idosos e com os seus familiares foi baseada no respeito mútuo, na assertividade, na confiança e na empatia. Estes padrões relacionais permitiram uma melhor adaptação dos idosos à instituição e dos seus familiares também. O facto dos familiares dos idosos saberem que contam com o apoio da instituição, constituiu um passo fundamental para garantir a participação dos familiares na vida institucional – em certo sentido, a reciprocidade é fundamental.

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In document Salsa-dance as a metaphor of change (sider 41-54)