No teatro, os signos do lugar dizem respeito a todos aqueles elementos postos em cena que trazem significações relacionadas ao espaço da ação. Os signos do lugar podem constituir-se através da iluminação, da própria fala dos atores, que podem indicar verbalmente o lugar onde acontece a trama, através de elementos de cena como plaquetas, mas principalmente através do cenário.
O campo do cenário é quase tão complexo quanto o de todas as artes plásticas. De acordo com Kowzan:
A tarefa primordial do cenário, sistema de signo que se pode também denominar de dispositivo cênico, decoração ou cenografia, é a de representar o lugar: lugar geográfico (...), lugar social (...), ou os dois ao mesmo tempo (...). O cenário ou um de seus elementos pode também significar o tempo: época histórica (...), estações do ano (...), certa hora do dia (...). Ao lado de sua função semiológica de determinar a ação no espaço e no tempo, o cenário pode conter signos que se relacionam com as mais variadas circunstâncias (KOWZAN, 1977, p. 73).
No texto dramático Vau da Sarapalha, poucas indicações de cenário são oferecidas. O que se encontram são algumas referências à “mata”, a um “carro de fogo”, à “casa”, a um “pilão”, a um “fole”, a “potes” que se quebram, a uma “mesa”, a um “oratório”, a um “tronco”, a um “lago” e a uma “tranqueira”, que dentro do contexto do texto dramático, entende-se que seria uma “porteira”, indicando a entrada da fazenda. Estes termos presentes nas rubricas do texto dramático estão dispostos em enunciados referentes às ações dos personagens, não havendo, portanto, rubricas específicas para as indicações de cenário.
Na encenação, muitos desses termos são traduzidos através do uso de objetos que os representa. Para representar a “tranqueira”, por exemplo, temos uma cerca feita com gravetos em formato circular com uma abertura para a passagem dos personagens. Dentro da cerca há: um pedaço de tronco de árvore, um jardim, uma plataforma de madeira cheia de potes de barro, panelas de barro, bacias de barro, tachos, sacos grandes que parecem estar cheios de alimentos, um oratório cheio de velas e um fole. A plataforma com todos esses adereços nos indica que aquele espaço representa uma cozinha. Fora da cerca aparece ainda uma bacia de barro cheia de água, que em uma das últimas cenas do espetáculo representará o lago onde a personagem Ceição irá fazer um ritual de limpeza da água. A iluminação, em alguns momentos, serve para recortar o lugar onde a cena está acontecendo, ora iluminando a cozinha, ora o tronco e ora o lago onde Ceição purifica a água.
Muitos objetos que constituem o cenário em Vau da Sarapalha são em formato de círculo: a cerca, o jardim, o tronco, os potes de barro, a bacia que representa o lago, etc. Essa circularidade vai está presente em outros tipos de signos no espetáculo, como veremos mais adiante.
Esse cenário deixa de ser um amontoado de objetos a partir do momento que a atriz Soia Lira e os atores Everaldo Pontes, Nanego Lira, Servílio de Holanda e Escurinho entram em cena.De acordo com Fischer-Lichte (1999), o lugar tem a capacidade de dar a entender suas funções práticas as quais ficam mais evidentes a partir das ações físicas dos atores. É preciso, apenas, que um ator entre e interprete para que o lugar se torne teatral, deixando de cumprir as funções além do espetáculo para cumprir aquelas que dizem respeito à situação na qual se encontra o personagem interpretado. Dessa forma, espaço e ação estão inevitavelmente interligados.
Para Pavis (2005), o espaço da representação é inseparável de dois outros elementos que são o tempo e a ação:
Um não existe sem os dois outros, pois o espaço/tempo dramatúrgico, o trinômio espaço/tempo/ação, formam um só corpo atraindo para si, como que por imantação, o resto da representação. Ele se situa, além disso, na intersecção do mundo concreto da cena (como materialidade) e da ficção imaginada como mundo possível. Constitui um mundo concreto e um mundo possível no qual se misturam todos os elementos visuais, sonoros e textuais da cena (PAVIS, 2005, p. 139).
Ainda de acordo com Pavis (2005), cada um desses elementos, se considerados isoladamente, produz uma arte que não é teatro. Para ele, sem espaço, o tempo seria pura duração, produzindo a arte musical, por exemplo; sem tempo, o espaço se tornaria uma arte pictória; e sem tempo e sem espaço, é impossível haver o desenvolvimento da ação. Segundo suas palavras:
A aliança de um tempo e de um espaço constitui o que Bakthin, no caso do romance, denominou cronotopo, uma unidade na qual os índices espaciais e temporais formam um todo inteligível e concreto. Aplicados ao teatro, a ação e o corpo do ator se concebem como o amálgama de um espaço e de uma temporalidade: o corpo não está apenas, diz Merlau-Ponty, no espaço, ele é feito de espaço – e, ousaríamos acrescentar, feito de tempo (PAVIS, 2005, p. 140).
Ou seja, se uma atriz entra em cena e começa a realizar movimentos de quem está cozinhando, o local pode tornar-se uma cozinha. Se disser “sou uma enfermeira”, o mesmo local pode vir a tornar-se um hospital. No mesmo sentido, uma mesa de refeição pode tornar-se uma mesa cirúrgica. Um espaço ou um objeto indicam as atividades que tem a possibilidade de serem feitas nele e com ele, mas não as exige ou as determina categoricamente.
Outro aspecto importante sobre o signo espacial é a função significativa dos objetos como constituidores de lugares dramáticos. A própria palavra pode indicar o lugar. Algo pode existir no lugar sendo mencionado verbalmente. É o que acontece em Vau da Sarapalha quando o personagem Argemiro afirma: “Tapera do arraial... Deixaram largado o povoado inteiro: casas, sobradinho, capela; três vendinhas, o chalé e o cemitério...” (VASCONCELOS, 1992, p. 9). Aqui, através da fala de Argemiro, o espectador passa a ter mais informações sobre o local em que se desenrola a trama: um lugar abandonado pela antiga população por causa da malária, onde os poucos elementos de urbanidade foram devastados pelo abandono.
Há também em Vau da Sarapalha signos icônicos que fazem parte do cenário e que representam o lugar da trama. Os signos icônicos são objetos que são similares aos reais, ou partes dos objetos reais, mas que não são os reais. São usados para contar uma história que aponte para eles. São como fotografias de objetos usados fora da cena. Em Vau da Sarapalha, é o caso do jardim feito com minúsculas flores de plástico e o barquinho que é representado por uma cuia de lata.
O signo icônico não é um signo arbitrário, como o signo da palavra, que não tem qualquer similaridade com o objeto que representa. Ao contrário, o signo icônico é motivado por uma relação de semelhança.
O objeto teatral é um objeto no mundo, em princípio idêntico (ou funcionalmente
semelhante) ao objeto do “real” não teatral, do qual é ícone. Trata-se de um
objeto situado em um espaço concreto, que é o espaço da cena. Se for verdade que todo signo icônico é duplamente motivado, se podemos dizer, na medida em que é ao mesmo tempo a mímeses de alguma coisa (o ícone de um elemento especializado) e um elemento em uma realidade autônoma, concreta (ÜBERSFELD, 2005, p. 98-99).
Com base em Übersfeld (2005), podemos afirmar, ainda, que todo signo cênico é motivado, havendo nesse procedimento uma gradação: mais idêntico, menos idêntico. Há na encenação Vau da Sarapalha signos que são mais idênticos aos reais, como os potes de barros da cozinha e menos idênticos, como o jardim representado por pequeninas flores de plástico. Entretanto, o público, ao absorver esses signos não se preocupa se são reais ou falsos. Em Vau da Sarapalha, ao usar-se um pilão em cena, por exemplo, o público o considera como o signo de uma cozinha ambientada em um meio rural, não se preocupando se o pilão é verdadeiro ou falso.
O cenário, dessa forma, real ou não, mais idêntico ou menos idêntico, tem a função de, a partir da visualidade, criar informações a respeito do lugar, da época e da própria personalidade e situação vivida pelos personagens. O cenário é um elemento importante para a concretização do espetáculo teatral e mais do que ornamentação e decoração é uma técnica de organização e significação que atua ambientando e ilustrando o espaço/tempo da ação dramática, criando e transformando, dessa forma, o espaço cênico.