Entende-se o teatro como um sistema semiótico entre vários outros, que tem a função de criar significados. Tudo que existe no mundo é percebido pelo homem como um significante que corresponde a um significado. O teatro é realizado pelo homem, sendo, desta forma, um sistema semiótico produzido culturalmente e que se utiliza de outros sistemas culturais que produzem signos, como o da moda, o da arquitetura, o da música, etc. Tais signos aludem, indicam ou representam algo e são percebidos pelos sentidos. O signo possui, de acordo com Morris (1976), três dimensões: a sintática (relação do signo com outros signos), a semântica (relação dos signos com os objetos que ele representa) e a pragmática (relação do signo com o receptor). Essas três dimensões do signo podem ser evidenciadas melhor quando, diante de um signo, o substituímos por outro signo, ou substituímos aquilo que ele representa ou substituímos o sujeito que o recebe. Em cada uma dessas substituições haverá mudanças no seu significado.
Visto por meio de uma construção de sentido, a linguagem teatral fica bastante evidente quando determinados signos se relacionam entre si com aquilo que representam e para as pessoas que o produzem e o percebem de forma diferente de cultura para cultura, tanto no seu aspecto espacial como temporal. Tendo como aporte as três dimensões do signo no processo de construção de significado explicitado anteriormente e utilizando o conceito oferecido por Fischer-Lichte (1999), compreender-se-á a linguagem teatral nessa pesquisa, como sendo o resultado de um processo em que A interpreta B diante de C.
Em cada cultura há variantes de tempo e de espaço que evidenciam determinadas regras e que conduzem a constituição do sentido dos seus textos culturais. Há, também, invariantes que guiam a composição de sentido em cada situação. Chamaremos de “código” o resultado do conjunto dessas regras. Para Fischer-Lichte (1999), o processo de construção de significado varia de acordo com a constituição das regras determinadas pelas variantes culturais de tempo e espaço, tanto na sua produção como na sua recepção.
O teatro, sendo um sistema cultural, deve ser visto dentro do seu contexto cultural. Um espetáculo apresentado é entendido a partir da leitura de quem o vê. No seu processo de interpretação e recepção entra a relação entre o código cultural e o código teatral. As partes que constituem o objeto teatral organizam-se em elementos estruturados em
unidades maiores e menores, organizadas de maneira hierárquica, relacionando-se de forma diferenciada com o todo. Alguns desses sistemas são observados de forma mais evidente, outros de forma menos perceptível. As variantes culturais de espaço e tempo relacionam-se e constroem sentidos que nunca serão percebidos de forma homogênea e o grau de diferença varia de objeto para objeto. Dessa forma, o teatro não é percebido da mesma maneira por todos os espectadores ao mesmo tempo e em todos os lugares. No caso específico do espetáculo Vau da Sarapalha, cada pessoa o reconhecerá de forma diferente e as variantes vão continuar atuando a cada vez que os espectadores o assistirem.
Assim, de acordo com Fischer-Lichte (1999), o teatro cria significados a partir ou sobre códigos culturais internos e externos. O código cultural interno está relacionado à manifestação e o externo a como essa manifestação interage com outras manifestações já apreciadas anteriormente. Dessa forma, o código cultural interno independe do externo tanto no acontecimento de sua produção como no de sua interpretação. Essa relação entre código interno e externo explica, também, o fato de um espetáculo de teatro realizado em um determinado tempo e espaço adquirir novos significados quando apresentado em outros lugares e em épocas diferenciadas.
Essas características confirmam o conceito de teatro já mencionado nessa pesquisa: no teatro, A interpreta B diante de C. Esse conceito básico envolve três tipos de relações: 1) A – B: em que o foco está na construção que o ator faz do personagem; 2) B – C: onde há a discussão da recepção do espetáculo e onde o público constrói o sentido diante da obra; 3) A – C: onde se pensa sobre a produção teatral, a história do teatro, as políticas públicas culturais, os patrocínios, etc. Esta pesquisa irá deter-se em questões relacionadas ao item 2, mais especificamente no que se refere à análise do espetáculo e a construção do seu sentido a partir do código teatral.
O código teatral tem uma ação diferente dos demais códigos culturais, pois mobiliza signos que pertencem a diversos sistemas culturais. O código teatral reúne diversos outros códigos, como o da pintura, o da literatura, a mímica e os gestos da vida cotidiana. Os signos que atuam no teatro podem atuar em outros sistemas. Segundo Übersfeld (2005), não existe signo teatral, mas signos provenientes de outros sistemas culturais que são utilizados no teatro e no cinema. O signo não é teatral em si, mas tem o poder de se tornar teatral pelo código cultural e só entende os signos mobilizados pelo teatro quem consegue ler tais signos quando utilizados fora dele. O teatro reflete, dessa
maneira, a realidade da cultura. Ao oferecer novos usos significativos para os elementos dos vários sistemas que as culturas dispõem, reorganizando esses elementos por meio do código teatral, o teatro permite à cultura confrontar-se. Segundo Fischer-Lichte (1999, p. 31): “o teatro se converte em um modelo da realidade, em que o espectador confronta seus significados. O teatro, nesse sentido, pode ser entendido tanto num ato de auto- representação como de auto-reflexão de uma cultura”.
Para Ficher-Lichte (1999), a teatralização dos signos apresenta três características essenciais: os signos teatrais não podem ser apresentados distantes de seus produtores, no caso, os atores; há uma constante atualização dos signos, pois em cada nova apresentação ela se refaz e os próprios espectadores, a cada nova sessão, ressignificam a peça; tem relações muito estreitas entre produtores e receptores. Para que aconteça teatro, é necessário que haja um encontro de seres humanos. Ator e espectador dividem um com o outro a empreitada da construção do sentido. De acordo com Ubersfeld, essa teatralização dos signos, o que se constitui como uma representação teatral, depende do procedimento de comunicação:
[...] a representação teatral é um conjunto (ou um sistema) de signos de natureza diversa que depende, se não totalmente, pelo menos, parcialmente, de um processo de comunicação, uma vez que comporta uma série complexa de
emissores (numa ligação estreita entre si), uma série de mensagens (ligação estreita e complexa entre si), de acordo com códigos extremamente precisos, um
receptor múltiplo, mas situado num mesmo lugar (ÜBERSFELD, 2005, p. 9).
A representação é constituída por um conjunto de signos verbais e não verbais e organizada numa série complexa baseada na lógica emissor-mensagem-receptor. A encenação, própria da arte teatral, é uma articulação de diversos sistemas de signos que são compartilhados com o público, ou seja, é o resultado da tessitura de diversos conjuntos simbólicos que juntos concretizam a cena, envolvendo os cenários, o trabalho de atrizes e atores, os figurinos, a iluminação e até mesmo o público, visto que teatro só existe na presença de expectadores. O signo no teatro, dessa forma, não deve ser entendido como a unidade mínima, visto que ele só é teatral na sua relação com os demais signos e códigos. De acordo com Pavis (2005), um espetáculo teatral não pode ser decomposto em unidades mínimas, pois isto prejudicaria a compreensão do seu todo:
A representação teatral não é passível de ser decomposta, como as línguas naturais, em uma série limitada de unidades ou fonemas cuja combinatória
produzisse todos os casos de figuras possíveis. [...] Uma tal localização minuciosa só tem interesse se evita deixar de lado indícios úteis à compreensão; não explica o funcionamento dos signos e a unidade mínima não é ou não é mais a pedra filosofal que decomporia o espetáculo como que por encanto (PAVIS, 2005, p. 10 - 11).
No próximo tópico deste capítulo, trataremos de diversos sistemas de signos que compõem o espetáculo Vau da Sarapalha, procurando compreender as partes que constituem o todo desta obra teatral, mas sem deixar de ter em mente que esses sistemas de signos apenas constituem significados quando compreendidos em articulação uns com os outros, visto que uma expressão facial de um ator, por exemplo, não está desvinculada de sua voz, dos seus movimentos gestuais, da iluminação e de todo o restante do contexto. Cada elemento do espetáculo teatral tem as suas conexões com os demais elementos e estabelece combinações e relações culturais dentro do espetáculo e além dele.