• No results found

3 Safety Requirements

In document The Safety of Systems (sider 184-189)

O conhecimento consiste em um dos elementos fundamentais da evolução humana. Foi por meio desse que o homem deixou seu estado nômade para o sedentário.

O conhecimento sobre as armas, a agricultura, o clima, as cartas de navegação, os astros, enfim, os conhecimentos religiosos, científicos, populares, filosóficos, produziram a base dos relacionamentos e da evolução da sociedade, da economia, da tecnologia, promoveu o sustentáculo necessário ao desenvolvimento da sociedade.

Hobsbawn (2002) considera que alguns eventos foram marcantes e facilitadores à produção do conhecimento. O autor argumenta que houve pelo menos duas revoluções industriais: a primeira iniciada na segunda metade do século XVIII, caracterizada por novas tecnologias, como a máquina a vapor, o tear, o processo Cort em metalurgia e a substituição de atividades manuais pelas máquinas; a segunda ocorreu aproximadamente cem anos depois, tendo como destaque o uso da eletricidade, o motor de combustão interna, o surgimento de produtos químicos baseados em conhecimentos científicos, a fundição do aço, o início das tecnologias da comunicação, como a difusão do telégrafo e a invenção do telefone, entre outros artefatos. Entre tais fatos há continuidades e diferenças cruciais. A principal destas reside na importância decisiva do conhecimento científico para sustentar e guiar o desenvolvimento tecnológico a partir de 1850.

Para Stewart (1998) e Sveiby (1998) o conhecimento tornou-se um recurso econômico vital para as organizações, sendo considerado o principal ingrediente de tudo que é produzido, feito, vendido e comprado. Reis Velloso (2002) argumenta que no atual momento da sociedade globalizada o conhecimento é considerado o fator de produção por excelência, determinante no progresso e na riqueza das nações. Para Lee e Choi (2003), uma variedade de estudos sobre conhecimento, processos de conhecimento e arquitetura de gestão do conhecimento tem levado pesquisadores a investigarem como esse ativo é gerenciado e quais as vantagens da sua gestão. A conclusão mais evidente é de que o conhecimento está transformando as velhas regras sobre estratégias e fundamentos de competição da economia industrializada, substituindo os recursos naturais por ativos intelectuais.

Sob uma abordagem científica acerca das diferentes concepções de conhecimento, convém ressaltar que na filosofia ocidental, duas são as principais correntes epistemológicas que abordam as formas de aquisição do conhecimento, o racionalismo e o empirismo. Esse é um debate presente na academia, onde inúmeros autores procuram trazer à tona abordagens sobre essas escolas filosóficas e o próprio entendimento dos seus principais pensadores sobre o tema. O quadro 2 apresenta definições sobre conhecimento cunhadas por diferentes autores.

Quadro 2 - Visão do conhecimento na filosofia ocidental.

Filósofo Definição

Platão (427-347 a.c)

Os seres humanos aspiram idéias eternas, imutáveis e perfeitas, que não podem conhecer por meio da percepção sensorial, mas sim apenas por meio da razão pura.

Aristóteles (384-322 a.c)

O conhecimento é sempre ocasionado pela percepção sensorial. John Locke

(1632-1704)

Compara a mente a uma tabula rasa, uma folha de papel sem conteúdo. Somente as experiências podem proporcionar idéias à mente, sendo possível adquirir conhecimento por indução a partir de experiências sensoriais.

Immanuel Kant (1724-1804)

O conhecimento parte do pensamento lógico do racionalismo e da experiência sensorial do empirismo em que a mente humana é tabula rasa ativa, que ordena as experiências sensoriais no tempo e no espaço, suprindo-se de conceitos como ferramenta de compreensão.

Georg W. F. Hegel (1770-1831)

O conhecimento começa com a percepção sensorial, que ao se tornar mais subjetiva e mais racional por meio da purificação dialética dos sentidos chega, por fim, ao estágio do conhecimento do espírito absoluto.

Karl Marx (1818-1883)

A percepção é uma interação entre o sujeito e o objeto, ambos estão em processo contínuo de adaptação mútua.

Edmund Russerl (1859-1938)

São colocados de lado o conhecimento factual e os pressupostos analisados sobre um fenômeno, permitindo assim a análise da intuição pura de sua essência.

Martin Heidegger (1889-1976)

Rejeitou o dualismo cartesiano, afirmando que se estabeleceu relacionamento intimo em ter o conhecimento e a ação.

Jena-Paul Sartre (1905-1980)

O mundo se revela pela nossa conduta, é a escolha intencional do fim que revela a realidade.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

A linguagem é um jogo de interação, na qual, várias pessoas participam seguindo determinadas regras, onde o saber é uma ação corporal capaz de proporcionar mudança no estado das coisas.

Fonte: Adaptado de Nonaka e Takeuchi (1997).

Maturana e Varela (1995) consideram que o conhecimento não se configura em um conjunto de fatos e proposições, mas em uma avaliação projetada pelo observador, sobre o comportamento adequado de determinado contexto. Para Davenport e Prusak (1998), o conhecimento é uma mistura fluída de experiência condensada, valores, informação contextual e insight experimentado, que proporciona uma estrutura para avaliação e incorporação de novas experiências e informações. Jarrar (2002) argumenta que o conhecimento é informação combinada com experiência, contexto, interpretação, e reflexão, consistindo em uma forma de informação de alto valor que está pronta para aplicar às ações e decisões.

Morin (2007) considera ainda que o conhecimento consiste em um fenômeno complexo e multidimensional, simultaneamente elétrico, químico-fisiológico, celular,

cerebral, mental, psicológico, existencial, espiritual, cultural, linguístico, lógico, social e histórico. O conhecimento se origina de uma atividade cognitiva, determina uma competência de ação, constituindo-se no saber que intermedia ambos os processos.

Lin (2008, p. 644), afirma que “o conhecimento indica o capital intelectual de uma empresa incluindo: experiência relacionada ao trabalho, perícias, know-how e melhores práticas, que podem ser adquiridas e compartilhadas”.

Lakatos e Marconi (2009) argumentam que apesar da separação metodológica entre os tipos de conhecimento, popular, filosófico, teológico e científico, essas formas podem coexistir na mesma pessoa. Quer dizer, um cientista, independentemente de sua especialidade, pode ser um crente praticante de determinada religião, estar filiado a um sistema filosófico e em muitos aspectos de sua vida cotidiana, agir segundo conhecimentos provenientes do senso comum.

Demo (2011) admite a existência de vários tipos de conhecimento, ao afirmar que o conhecimento científico é apenas uma espécie de conhecimento. Considera que em todo conhecimento científico, apesar de por vezes derrubar tudo o que temos por válido, existe componentes do senso comum, pelo fato de ser esta, uma separação difícil de ocorrer plenamente, mesmo para o mais experiente pesquisador. O conjunto desses conhecimentos articulados metodologicamente permite a explicação da realidade, onde a verdade absoluta perde seu sentido pelo fato de a sociedade ser permanentemente mutante.

Ao conhecimento científico, por muitas ocasiões é imputado o status de responsável pela resposta infalível e verdadeira ao que se pretende investigar, e que muitos cientistas tomam posturas, discursos e agem na direção de tornar esse tipo de conhecimento como superior aos demais. Não se pretende aqui argumentar contrariamente, contudo, há que se reconhecer a importância do conhecimento tradicional na leitura dos cenários organizacionais.

No dizer de Sabourin (2006), alguns autores, como Jean Pierre Darré e Pierre Bourdieu, lutam contra o que chamam de racismo da inteligência. Sabourin (2006, p. 82) afirma:

[...] a superioridade dada na nossa sociedade aos saberes científicos sobre os saberes práticos não está unicamente ligada ao valor intrínseco de cada um desses saberes, ao seu valor epistemológico, mas a uma hierarquia social.

O autor procura reforçar, é que ambos os conhecimentos possuem relação, devem ser percebidos e podem ser articulados nas práticas das orgainzações, da

sociedade, e isso ocorre pelo fato de o ser humano ser dotado de valores, crenças, enfim, de atributos que não são dissociados quando sua realidade é interpretada.

Ao tratarem do caráter complementar que cerca o conhecimento, Nonaka e Takeuchi (2008) consideram que apesar dos conhecimentos tácito e explícito serem retratados como extremos polares, na verdade, são não apenas complementares um ao outro, mas também interpenetrantes. Dessa forma é possível afirmar que existe algum conhecimento tácito no conhecimento explícito e conhecimento explícito no tácito. Os autores argumentam que o conhecimento é criado pela síntese do que aparenta ser oposto, isto é, o conhecimento tácito e o explícito. É importante enfatizar que o ponto inicial do movimento dialético é a tese, seguido da antítese, para então se chegar à síntese.

Para Sousa (2006, p. 144) “o que fica para o senso comum é que esse conhecimento (científico) é distante, especial, talvez quase tão mágico quanto o próprio pensamento mágico”. Uma das consequências dessa prática reside no distanciamento de muitos setores da sociedade, por inúmeros motivos, mas, um dos mais evidentes consiste na sua suposta superioridade, que em resumo, apenas limita o potencial sobre o conhecimento produzido, uma vez que a sociedade é o mais fértil campo de conhecimentos disponíveis à ciência.

É fato que alguns pesquisadores adotam posturas inadequadas perante pessoas que não possuem o mesmo grau de estudos, ou mesmo, de que em certos momentos, a ciência tomou para si a verdade absoluta sobre os fenômenos, promovendo um distanciamento dos demais segmentos da sociedade.

Para Chambers (1984, p.11), é inquestionável que os conhecimentos científicos e os conhecimentos tradicionais são desiguais, mas essa desigualdade não deve ser sinônimo de distanciamento. “É dificil, para alguns cientistas, aceitarem que tenham algo a aprender com pessoas do meio rural ou até mesmo, reconhecerem que existe um sistema de conhecimento paralelo, que é complementar, válido, e, em alguns aspectos, superior ao seu”.

No setor agrícola essa prática foi reforçada pelo modelo que deu suporte a revolução verde, em decorrência, segundo Abou Lteif et al. (2007) pelo fato de o extensionismo rural, baseado nos paradigmas teóricos do modelo de difusão tecnológica, adotou uma postura em campo que partia do princípio que o conhecimento científico é o único conhecimento pretensamente válido.

[...] ainda hoje é muito forte, tanto nos meios acadêmicos quanto para o senso comum, a idéia de que os conhecimentos científicos gerados pelas instituições de pesquisa são os únicos capazes de desenvolver o meio rural e transformar a qualidade de vida do homem do campo, mesmo que a realidade diga o contrário.

Nesse sentido, convém apresentar, na visão de Sousa (2006) os sete equívocos sobre o conhecimento científico são os seguintes:

 O primeiro equívoco sobre o conhecimento científico reside justamente em considerá-lo como único conhecimento válido e confiável porque explica a realidade como ela é.

 O segundo equívoco versa sobre a responsabilidade do conhecimento científico, de ter retirado a humanidade do obscurantismo, mergulhada no pensamento mágico.

 O terceiro equívoco sobre o conhecimento científico baseia-se na ideia de que ele somente pode ser provado se reproduzido em laboratório. Sobre esse equivoco, convém citar que no âmbito do setor rural, há em muitas estações experimentais, no dizer de pesquisadores e extensionistas, diversos trabalhos brilhantes que foram metodologicamente bem conduzidos, que seus experimentos são relevantes, contudo, em ambiente controlado, como o é o laboratório, entretanto, ao ser reproduzido em ambiente natural, ou seja, fora da estação experimental, apresenta inúmeros problemas proporcionados por variáveis não controláveis. Convém ressaltar que Caporal e Costabeber (2002), consideram que, no âmbito da agroecologia, as pesquisas em laboratório e estações experimentais são necessárias, contudo, não suficientes se mantidas distantes da realidade objetiva. Chambers (1984, p. 14) considera que para algumas formas de pesquisa, existem realmente razões validas para que se conduzam os trabalhos em condições controladas, “mas é preciso dizer que essas condições são artificiais, uma vez que deixam de fora os agricultores, seus recursos e problemas”.

 O quarto equívoco sobre o conhecimento científico parte do pressuposto de que a ciência é mais confiável porque está livre do senso comum e da ideologia.

 O quinto equívoco está alicerçado na ideia de que a religião propõe dogmas e o conhecimento científico propõe a libertação.

 O sexto equívoco sobre o conhecimento científico reside no reconhecimento pela sua preocupação com a forma e sua desvinculação com a política.

 O sétimo equívoco sobre o conhecimento científico versa sobre o caráter de expressar a verdade, e que ele é indiscutível.

O desenvolvimento do conhecimento científico depende da inquietação, do debate, da refutação, do contraponto, enfim, a ciência sobrevive graças à capacidade que os pesquisadores possuem de enxergar com diferentes olhares o mesmo fenômeno. Em ciência, considerando que a realidade é mutável pode-se afirmar que a verdade de hoje poderá ser substituída amanhã, decorrente da inerente condição da percepção dos indivíduos acerca das mudanças no seio da sociedade e das mudanças que efetivamente esses projetam sobre ela.

Essa abordagem se faz necessária pela complexidade, dinamicidade, e pela dialética que consiste a realidade no meio rural. Nesse contexto atuam, entre outros atores, as organizações de extensão rural, em uma incessante troca de experiências e conhecimentos com seu meio.

Assim, os argumentos apresentados por Sousa (2006) permitem refletir acerca da complementaridade necessária do conhecimento, presente nos conhecimentos da extensão rural, pelo próprio papel que lhe foi conferido no fluxo do conhecimento, entre a pesquisa agrícola e a produção, e pelo fato de que no bojo de suas relações, os técnicos extensionistas se deparam com todos os tipos de conhecimentos, crenças, valores, inclusive, alguns aparentemente conflitantes.

Ferreira e Coelho (2007) reforçam ao argumentar que a agricultura, de um modo geral, opera tanto no mundo natural como no mundo social, onde os conhecimentos, pensamentos, experiências e sentimentos devem se complementar e não se opor. Nessa perspectiva, a interdisciplinaridade passa a ser indispensável às organizações, principalmente por atuar em ambiente tão diverso e complexo, necessitando de diferentes olhares sobre a realidade.

No contexto das organizações de extensão rural, Simon e Moura (2006) consideram que essas organizações devem adotar uma abordagem interdisciplinar, baseada em trabalhos já desenvolvidos e nos diversos olhares sobre a realidade, elementos que subsidiam a teoria e a praxis das novas experiências.

Caporal e Costabeber (2002, p14) consideram que:

A ênfase no saber local exige que o conhecimento do extensionista não continue sendo considerado como o único válido. A compreensão que os grupos ou as comunidades desenvolvem conhecimentos próprios, derivados de suas experimentações e segundo suas necessidades históricas e modos de vida específicos, determina que a nova extensão rural passe a adotar uma nova prática.

Sob o ponto de vista da presente tese, trata-se de uma abordagem baseada no uso intensivo do conhecimento pelas organizações, considerando a interação do conhecimento tácito e explícito, científico e tradicional.

Nesse contexto, sob o enfoque do desenvolvimento sustentável, Abou Lteif et al. (2007, p.4) considera que “a nova proposta de ATER exige das partes envolvidas na interação, sobretudo dos técnicos extensionistas, a cooperação necessária para conferir credibilidade na fala, ação e experiência do outro”. Baseada nessa proposta, o extensionista rural deve modificar radicalmente seu comportamento e forma de interagir com o outro.

Para Nonaka e Takeuchi (2008) os conhecimentos são complementares, interdependentes, contextuais e sua fragmentação pode significar uma ameaça enquanto fator limitante da leitura do ambiente organizacional. Complementam afirmando que a chave para liderar o processo de criação do conhecimento fundamenta-se no raciocínio dialético, que transcende e sintetiza as contradições do ambiente organizacional e social.

De fato, principalmente em função da possibilidade de acesso permitido pelas novas tecnologias, há muitos agricultores atuando em redes de troca de conhecimentos, possibilitando certa independência com relação ao técnico extensionista, nos permitindo afirmar que a falta de proximidade entre esses atores consiste em um fator limitador ao desenvolvimento com conhecimento organizacional.

Pelo apresentado, Nonaka e Takeuchi (1997, 2008) concordam que os conhecimentos científicos e tradicionais são complementares, assim como o são, no âmbito das organizações, os conhecimentos tácitos e explícitos.

Finalmente, torna-se pertinente citar Ávila, Rodrigues e Vedovoto (2008, p.110) ao afirmarem que:

Das várias funções do conhecimento, a descoberta do conhecimento é muito importante, uma vez que ela gera progresso social com a produção do novo conhecimento, por meio da criatividade e originalidade.

Destaca-se que Ávila, Rodrigues e Vedovoto são pesquisadores que atuam no espaço rural e que a citação agrega valor à relação entre pesquisa e extensão, pois ambos atores (pesquisadores e extensionistas) convivem em um fértil campo de conhecimentos, onde a complementaridade dos conhecimento contribui para o desenvolvimento do ambiente, portanto, os impactos do distanciamento entre

ambos, talvez não seja significativo na dinâmica do ambiente, prejudica apenas eles mesmos e suas organizações.

In document The Safety of Systems (sider 184-189)