5. METHODOLOGY
5.5 S TUDY S ELECTION P ROCEDURES AND I NCLUSION C RITERIA
Os DPI representam para a indústria musical mainstream uma forte fonte de receitas e por isso será expectável a sua campanha constante con- tra a pirataria através da partilha de ficheiros peer-to-peer, a qual representa grandes prejuízos para as grandes editoras e as grandes estrelas da música. Ainda assim, a partilha de ficheiros gratuitos de música via internet repre- senta para os artistas independentes (que têm pouco interesse nos direitos de autor) uma oportunidade real e efectiva para a circulação das suas mú- sicas na internet, mesmo que se trate de cópias não pagas. Este aliás tem sido o factor-chave de sucesso de alguns novos artistas emergentes na es- fera de produção independente.
Apesar de o fenómeno da música independente se ter tornado uma questão central nas indústrias e nos mercados musicais contemporâneos, está longe de ser um fenómeno recente, modificando progressivamente de forma significativa as representações sobre a noção de música indepen- dente. Estas duas premissas estão relacionadas com a ideia de que é pos- sível assumir a existência de uma indústria da música independente desde o início dos anos 50 (distribuição e marketing), mas também com o fenó- meno da emergência e da crescente popularidade dos artistas indepen- dentes. O que é essencial observar, considerando os desenvolvimentos históricos mais recentes, é que o papel crescente da indústria fonográfica independente trouxe visibilidade e um novo significado ao modo de pro- dução envolvido neste sector, dissolvendo progressivamente as fronteiras que até aqui existiam entre as majors e as editoras independentes.
Nesse contexto é possível assumir estas transformações, considerando o facto de a crise na indústria da música se ter tornado mais prejudicial para grandes empresas e grandes estruturas do que para os pequenos edi-
tores, presumindo que as suas características em termos de estrutura orga- nizacional (mais pequena e flexível) estariam também mais bem prepara- das para responder aos desafios dos novos mercados, bem como tendo em consideração o seu espírito mais inovador e a maior capacidade de serem criativas e capazes de gerar e atender a novas situações de mercado (veja-se, a este propósito, por exemplo, Benhamou 1996; Caves 2000). Neste quadro emergem dois eixos explicativos possíveis, e complementa- res, para explicar este fenómeno: por um lado, o fortalecimento de edito- ras e artistas independentes, que viram na internet e na consequente des- tituição dos DPI uma maneira de melhor atingir os seus públicos e de promover os seus catálogos e músicas; por outro lado, a consolidação de um novo hype nos modelos de produção musical em torno dos artistas e das editoras independentes, que tem ajudado o marketing desses artistas, e o desenvolvimento de segmentos de mercado dinâmicos. Esta última questão pode ser bastante delicada, considerando o facto de ela poder ser facilmente (mal) entendida numa dupla perspectiva: música independente como género musical?, ou música independente considerando a sua filo- sofia organizacional e funcional?
Contudo, a pesquisa lançada para sustentar uma definição estável deste conceito de música independente tem representado uma tarefa relativamente complexa e sem grande sucesso, razão pela qual parece inevitável estabelecer um ponto de partida em relação a alguns conceitos básicos. O ponto de par- tida será a definição de que é possível aceder na popular e muito conhecida enciclopédia online Wikipedia, que apresenta uma definição que em última análise, reflecte as perspectivas apresentadas anteriormente:
[...] é um termo usado para descrever géneros, cenas, subculturas, estilos e outros atributos culturais na música, caracterizados pela sua independência em relação às grandes editoras comerciais e pela sua abordagem autónoma, do género «faça você mesmo» à gravação e à publicação.
Não é nosso propósito alargar-nos aqui sobre este debate quanto ao que é ou não é música independente (indie). Ainda assim, é necessário questionar, ou mesmo recusar, a ideia de música indie como uma simples definição de um género musical específico, pelo menos considerando o contexto do presente capítulo e os seus principais objectivos. A ideia sub- jacente à primeira parte da definição anterior conduz-nos a uma definição mais simbólica de música independente. Por outro lado, a segunda parte da mesma definição desloca-se muito mais em direcção às nossas intenções neste artigo, isto é, assume a música independente como sendo algo ca- racterizado por ter esquemas de operação distintos dos das editoras majors,
e por se caracterizar pela produção de música que não está enquadrada nos contextos mainstream, diferenciando-se dos objectivos comerciais das grandes editoras. Portanto, assumimos esta última concepção, não tratando este conceito como um género musical, mas antes como um modo de or- ganização da produção artística que se estabelece nas margens dos princi- pais mecanismos de promoção da música comercial orientada para o pú- blico de massas.
Conforme nota Neves (1999), a produção independente pode ser en- tendida como uma opção ou como um recurso face à falta de interesse das editoras. No fundo, representa suportar todos os custos de produção e riscos económicos relacionados com os investimentos respectivos.
Ainda assim, é importante notar que, apesar da aparente fragilidade do sector independente, ele tem revelado algumas dinâmicas interessantes no panorama musical, mostrando a sua eficiência organizacional na pro- moção e no envolvimento de algumas das mais importantes bandas e car- reiras musicais.2Os fenómenos hype têm-se tornado mais significativos,
com alguns exemplos paradigmáticos que surgiram na «esfera» indepen- dente. Na próxima secção tentaremos explorar algumas razões para o su- cesso do negócio da música independente.