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CONCLUSIONS AND FUTURE WORK

In document Master thesis (sider 63-111)

Assumindo tudo isto e reconhecendo o papel fundamental dos gate- keepeers e dos processos de mediação na provisão e consumo dos produtos criativos, como podemos então relacioná-lo com as contemporâneas mu- danças de paradigma que descrevemos nas secções anteriores? E como po- demos ligar isto às motivações dos diversos tipos de agentes envolvidos?

4Tal como todos os consumos «económicos» deviam ser também vistos, embora

A nossa ideia-chave sobre isto é que os processos de mediação não ten- dem a ser eliminados e restringidos, antes tendem a tornar-se mais impor- tantes e fundamentais, à medida que estas mudanças vão acontecendo. Na verdade, apesar de potencialmente termos todas as músicas disponíveis num terminal com acesso à internet, o facto é que elas não são igualmente acessíveis para cada consumidor e que não haverá nunca igualdade de con- dições de acesso para todos os consumidores, pela própria natureza destes produtos e pelo crescimento das condições de acesso ao mesmo.

É claro que as condições de acesso directo não são semelhantes (as condições tecnológicas não estão disponíveis em todos os pontos do es- paço, as pessoas têm diferentes restrições orçamentais, diferentes com- petências para trabalhar com elas), mas mesmo que assim não se fosse, estes consumos também não tenderiam a ser semelhantes. As pessoas têm diferentes stocks de capital cultural, diferentes competências e capa- cidades para descodificar os conteúdos artísticos, e o crescimento expo- nencial do acesso aos produtos culturais, por si só, não redefiniria direc- tamente os seus padrões de preferência nem estimularia todos os tipos de consumos de bens culturais. As pessoas ficariam cada vez mais «per- didas», sem referências, sem saber como escolher, para onde olhar, en- frentando um mar crescente de conteúdos culturais, a uma distância de um clique nos seus computadores, televisores ou aparelhos de áudio. Então, os gatekeepers são cada vez mais cruciais para filtrar, seleccionar, organizar, reinterpretar a informação e para a transmitir ao potencial con- sumidor, partindo de uma oferta ainda mais ampla e diversificada de novos produtos e artistas.

Mas evidentemente há espaço para o desenvolvimento de novos es- paços de intermediação, novos processos de gatekeeping, e outras formas de articular a oferta e a procura na indústria musical. Vários exemplos têm sido notados nos últimos anos, como já aconteceu anteriormente ao longo da história, quando se alteravam as condições técnico-económicas de pro- visão desses bens. Assistimos ao desenvolvimento de novos motores de pesquisa e ferramentas de provisão on-line, que se adaptam às exigências dos consumidores e são progressivamente personalizadas; comunidades virtuais organizam-se em torno de interesses mais gerais ou específicos, incluindo a música, é claro; blogues são usados para disseminar informa- ção e alguns deles são tão legitimados, para determinados consumidores, como um gatekeeper convencional dos media seria; novos mecanismos de promoção e estratégias de marketing são colocados em prática, aprovei- tando o potencial destes novos media bem como as mudanças de hábitos dos consumidores. Em tudo isto, a intermediação ainda é a chave, e novas

oportunidades surgem aqui, algumas delas aproveitadas pelo mercado, outras desenvolvendo-se com base noutras formas de regulação.

Por exemplo, se considerarmos a página Web «oficial» de um artista, um blogue de um crítico ou jornalista de renome, uma página no MyS- pace, ou mesmo um perfil pessoal numa comunidade virtual (remetendo para as preferências pessoais e as referências culturais do seu titular), todos eles estão a desempenhar o papel que os tradicionais gatekeepers culturais costumavam executar. É claro que o seu grau de legitimação junto do uti- lizador comum pode ser muito diverso, e que o seu poder de influência é substancialmente diferenciado (criando até mesmo espaço para novos mercados de intermediação...), mas isso é o mesmo que, em menor grau, ocorria em outros processos de mediação. Da mesma forma, se observar- mos, por exemplo, o Amazon, o E-bay ou outros retalhistas culturais on- -line, notamos também o refinamento dos processos de intermediação e a articulação entre procura e oferta, pela adaptação do processo de venda e da plataforma ela própria ao cliente, tentando adaptar-se e personalizar- -se com base nos seus gostos e históricos de pesquisas anteriores. Mesmo os motores de busca (incluindo os que são especializados na música ou noutros downloads de conteúdos culturais), pela sua própria natureza, ten- dem a promover e seleccionar alguns conteúdos (mais populares) em de- trimento de outros, assumindo uma filtragem e um processo de selecção. Em todos estes processos, sem dúvida, os gatekepeers culturais geram valor: eles adicionam valor aos produtos culturais e aos artistas. Mas o que é que eles ganham com isso? Para alguns deles será evidente que haja mo- tivações económicas na sua acção, e resultados directos da mesma (por exemplo, quando um editor ou uma loja on-line traça perfis individuais para fins de marketing), mas outros podem ter motivações de carácter mais intrínseco, de uma perspectiva cultural ou artística. Por exemplo, a maioria dos links de música em páginas web pessoais ou de grupo (por exemplo, no MySpace) são adicionados pelos seus utilizadores como forma de expressão cultural ou identitária ou como parte de um perfil pessoal. Eles não bene- ficiam directamente disso, em termos económicos, mas apenas no campo da sua satisfação pessoal e das motivações intrínsecas.

Assim, é de certa forma estranho que o debate sobre as mudanças na indústria da música tenha sido polarizado apenas na questão dos direitos de propriedade intelectual. É claro que isso cria valor e que parte desse valor era tradicionalmente potenciado (e multiplicado) através dos pro- cessos de intermediação tradicionais, nos quais os gatekeepers desempe- nham um papel importante. Agora, que a desmaterialização dos processos de provisão e distribuição questiona o tradicional papel de alguns desses

intermediários (particularmente as editoras), será natural que eles sejam uma das partes mais interessadas na defesa dos direitos de propriedade in- telectual, visando manter o controlo de algo que possa gerar esse valor, num contexto em que a sua função tradicional parece ser cada vez mais dispensável e obsoleta.

O seu papel como produtores de um bem físico tangível pode estar a chegar ao fim, mas eles têm o potencial e os recursos para manter um papel fundamental nesta indústria. Eles têm sido os produtores e guardiões de símbolos, buzzes e tendências, ao longo dos anos, tanto nos mercados main - stream (com investimentos cada vez maiores em marketing e promoção) como nos nichos de mercado independentes. Se se querem manter no ne- gócio, precisam de explorar este potencial e de apostar em outras dimensões dos processos de gatekeeping, em paralelo com uma quantidade crescente de pequenos agentes e processos difusos que, todos os dias e em toda parte, vão sendo assumidos e legitimados como gatekeepers, e se encontram tam- bém filtrando, seleccionando e promovendo, junto de uma cada vez maior diversidade de consumidores diferenciados, os conteúdos musicais. Na verdade, o papel desses agentes na construção do valor, a sua con- tribuição para adicionar valor a um conteúdo cultural, é muitas vezes subes timado e parece ser mantido substancialmente longe do debate sobre os direitos de propriedade intelectual. Provavelmente, necessitamos de uma abordagem muito mais integrada na análise destas questões e de uma mudança de foco dos DPI para outros aspectos fundamentais na criação de valor nos conteúdos culturais.

Nota conclusiva

Neste capítulo procurámos analisar as implicações da ofensiva dos DPI e dos contramovimentos com ela relacionados no cluster da música, em vários domínios que vão desde as motivações dos músicos aos efeitos entre os gatekeepers culturais. Esta dupla tensão sobre os DPI é cada vez mais evidente em todas as diferentes esferas da indústria da música, desde os diversos agentes envolvidos na cadeia de produção até à esfera do con- sumo, com resultados assimétricos e com reacções por parte de dois mun- dos musicais completamente diferentes. Enquanto a esfera de produção mainstream (e todos os agentes relacionados) tende a ser bastante agressiva em relação à nova filosofia de partilha gratuita de arquivos, os produtores e criadores independentes continuam a explorar as potencialidades do mundo digital em rede.

Estava fora do âmbito deste capítulo avaliar como será o futuro do cluster da música. No entanto, a luta que ocorre hoje em torno dos direitos de propriedade intelectual já mostra algumas mudanças nas relações entre os diferentes agentes. Nos dias de hoje, os músicos beneficiam de uma clara alavancagem nas suas negociações com as grandes empresas editoras, dadas as alternativas (baratas) que têm para criar, realizar e distribuir o seu trabalho. Esta nova relação de poder entre as editoras e os músicos pode bem resultar numa partilha mais equitativa das receitas e no crescimento da autonomia criativa.

Embora as alterações estruturais e os desafios tecnológicos estejam a afectar toda a indústria, parece que os agentes mais estruturados e con- vencionais tendem a registar mais dificuldades, e os independentes dão a impressão de se terem mais facilmente adaptado às mudanças. Isso acon- tece nos processos de criação e produção, na distribuição, e até mesmo em outros processos de gatekeeping. Alguns dos grandes intermediários tra- dicionais na indústria (como as editoras e os meios de comunicação de massas generalistas) são também os mais afectados por essas mudanças, muito mais do que acontece em franjas independentes, onde novos gate- keepers e novas formas de intermediação cultural têm vindo a ser desen- volvidas e aproveitadas de forma eficiente por artistas e estruturas inde- pendentes, que ganham vantagem pela sua flexibilidade, menor escala e, sobretudo, menor aversão ao risco.

Os agentes-chave tradicionais têm de se adaptar a novas formas de agir e a um novo paradigma de produção, distribuição e consumo dos bens culturais. O seu papel tradicional na selecção, filtragem e fornecimento de informação e na construção de valor simbólico tem vindo a ser ques- tionado, pelo menos na forma tradicional de o fazerem. Assim, se quise- rem manter esse papel, estes agentes terão de se adaptar à nova realidade e jogar com as novas ferramentas.

Naturalmente, isto relaciona-se com a questão da definição dos direitos de propriedade e o debate sobre DPI. Até agora, estes agentes foram dos mais beneficiados pela atribuição dos DPI, o que explica a sua posição como grande defensores dos mesmos. Eles podem ter uma participação fundamental aqui, com os artistas, e têm beneficiado, numa relação bas- tante simbiótica, da construção e manutenção de símbolos e convenções, trabalhando uma construção mútua de valor acrescentado que aproveita a artistas e a gatekeepers. Agora esse esquema está a ser questionado de vários lados e a defesa das posições no mercado tem sido essencialmente feita em torno da questão dos DPI. Mas o papel dos gatekeepers na adição de valor aos conteúdos culturais continua subestimado e parece perma-

necer substancialmente desconsiderado no debate em torno dos direitos de autor. Isto conduz-nos à necessidade de uma análise aprofundada des- tas questões, provavelmente mais focada em outros aspectos da criação de valor, ao invés de assumir que a chave para os problemas associados às mudanças estruturais no sector estaria na questão dos direitos de proprie- dade intelectual.

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Vera Borges

Pedro Costa

Susana Graça

Capítulo 9

Dilemas económicos e desafios

In document Master thesis (sider 63-111)