5. WHO OWNS HUMBO FOREST?
5.7 S TATE AND NGO RELATIONSHIP
Todas as meninas apresentaram de alguma forma a idéia da mestiçagem como ícone das relações étnico-raciais brasileiras, que não são aparentemente hostis, mas implicam na violência da discriminação. A idéia de que somos todos „morenos‟ é colocada pelas meninas em oposição à de que elas são negras. De acordo com Munanga (1999), o sonho de ser reclassificado como branco enfraquece nos mestiços, como no caso dessas meninas, o sentimento de solidariedade ou mesmo relativa identificação, como seria de se esperar caso não houvesse preconceitos, com os negros indisfarçáveis. Estes, por sua vez, são levados a interiorizar os preconceitos negativos contra eles forjados e a projetar sua salvação na assimilação dos valores culturais do mundo branco dominante. Tanto os mulatos, quanto os chamados negros „puros‟ caíram na armadilha de um branqueamento ao qual nem todos terão acesso, abrindo mão da formação de sua identidade como excluídos (Munanga, 1999).
De fato, estas meninas evitam se reconhecer como negras, o que nos mostra que elas já receberam, aos 10 anos de idade, muitas pistas negativas de que realmente o são. Elas classificam a si mesmas e, muitas vezes, às pessoas de sua família nuclear como „morenas‟
para fugir deliberadamente da negatividade percebida em ser negro. Rafaela, por exemplo, afirmou que gostava do fato de ser fruto de uma mistura racial entre seu pai e sua mãe, mas, para se salvar da „negatividade‟ da origem do pai negro, ela fez questão de salientar que a família de sua mãe era toda branca. Logo em seguida, Rafaela voltou atrás e assumiu que a família de sua mãe tinha, na verdade, a cor “morena”, mostrando como é fácil reclassificar “moreno” na categoria branco, mas nunca na categoria negro. Leila fez questão de afirmar que não existia nenhum negro em sua família, embora ela mesma já tivesse discriminado o próprio irmão chamando-o de “preto” numa atitude completamente pejorativa com relação aos negros. Leila salientou que em sua família só existiam “morenos”, mas não negros. Com isso, percebemos que a idéia da mestiçagem atua, desde a infância, como mecanismo de negação da negritude e multiplicador da ideologia do branqueamento, reforçando a tese apresentada pelos autores do livro Psicologia Social do Racismo (Carone & Bento, 2002) acerca de estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil.
d‟Adesky (2005) observou que a classificação „moreno‟ se constitui em oposição à categoria negro. Ela gira em torno desta última pela tonalidade da pele, mas se afasta para se aproximar e se assemelhar à categoria branco pela textura do cabelo. O deslizamento do pólo negro para o pólo branco realiza-se, em parte, pela valorização das características do fenótipo branco que lhe são atribuídos. Na fronteira, o indivíduo é percebido como quase branco. E ele mesmo pode se fingir de branco, como, por exemplo, na brincadeira que muitas meninas negro-mestiças fazem de colocar uma fralda no cabelo para fingi-lo liso. Nesse estágio-limite, não é mais o mulato que faz a ponte entre as categorias branco e negro da classificação racial, mas sim o moreno.
A classificação racial no Brasil é cromática, ou seja, baseada na marca da cor da pele, e não na origem ou no sangue. Dependendo do grau de miscigenação, o mestiço brasileiro pode atravessar a linha de cor e se reclassificar ou ser reclassificado na categoria “branco”. A ambigüidade é a principal característica do racismo brasileiro, e o mestiço simboliza plenamente essa ambigüidade e indefinição. Ele é “um e outro”, “o mesmo e o diferente”, “nem um nem outro”, “ser e não ser”, “pertencer e não pertencer”. Essa indefinição conjugada ao ideário do branqueamento dificulta tanto a sua identidade como mestiço, quanto a sua opção por uma identidade negra. A sua opção fica adiada, pois espera, um dia, ainda ser branco pela miscigenação e/ou ascensão social (Munanga, 1999).
A negação das características de negritude por parte das meninas também encontrou um forte respaldo na crença de que negro é sempre o outro, mesmo que seja muito próximo
como o pai, mas não o “eu”. Elas tentaram evitar que a negritude penetrasse em seu sistema de self, como algo que iria trazer muitos prejuízos, no sentido da desvalorização, para as concepções de si. Assim como na configuração da identidade nacional brasileira, talvez a negritude sempre apareça no sistema de self dessas meninas como uma ameaça, como oposição ao posicionamento “sou morena, perto de branca”, que foi criado para se defender do sentimento de inferioridade incutido pelo racismo. O ideal do branqueamento é fator decisivo na auto-classificação. De acordo com d‟Adesky (2005), a caracterização cromática expressa desejos e valores, além da cor propriamente dita. Desejo de ser branco, desejo de não ser negro, desejos de aparentar branco. E, na medida em que esses desejos representam valores como poder e beleza, eles manifestam uma relação hierarquizada entre um elemento (branco) do conjunto étnico-racial e as outras categorias (negro, jambo, sarará, etc.) desse mesmo conjunto. E do ponto de vista do dominado (negro), essa multiplicidade de categorias cromáticas lhe permite estrategicamente, e “mediante simbolismo de fuga, situar-se o mais próximo do modelo tido como superior, isto é, o branco”, como argumenta Kabengele Munanga (1999).
Todas as meninas negras também afirmaram que gostariam de ter a pele mais clara, na tentativa de se aproximar cada vez mais do pólo branco. Bianca, por exemplo, disse que gostaria de ficar menos tempo exposta ao sol para que sua pele pudesse ser mais clara, e colocou seu ideal no desenho, quando assumiu que coloriu sua pele numa tonalidade mais clara que a real. Leila e Paula destacaram a diferença percebida entre as tonalidades da parte interna e da parte externa do braço, talvez ainda para atribuir à ação do sol sua cor de pele escura. Isto nos mostra mais uma tentativa de se aproximar do pólo branco de classificação racial com vistas à valorização social.
d‟Adesky (2005) aponta o negro como vítima de uma dupla negação. A primeira é alicerçada na desvalorização social, que o considera fora dos padrões estéticos dominantes. Sendo assim, o negro é negado em sua aparência externa, rejeitado por não se enquadrar, parcial ou totalmente, no ideal estético dominante. Nesse sentido, o negro pode ser tanto o mulato, o sarará, o tição, quanto o jambo, o moreno, todos, em grau variado, vítimas desse tipo de discriminação. A segunda forma de negação é baseada na desvalorização da história do negro e na negação de reconhecimento da igualdade de valor intrínseco entre as culturas africana e ocidental. A população negra é induzida, por falta de meios e informações, a rejeitar, em parte ou no todo, a especificidade de suas origens culturais e históricas. Os negros são vítimas de um reconhecimento inadequado da identidade de grupo. Essa negação de
identidade que lhes reflete uma imagem depreciada constitui um dano real. De tal sorte, que alguns chegam a interiorizar essa imagem desprezível deles mesmos, tornando-se uma das armas mais eficazes da própria opressão. Na verdade, o que o autor conclui como dupla negação são dois aspectos de uma mesma realidade histórico-cultural, sem a compreensão da qual dificilmente será possível mobilizar processos de desconstrução de preconceitos e reconstrução de significados em torno das relações étnico-raciais brasileiras.
Utilizando mecanismos de negação da própria negritude desde cedo, essas meninas têm sua vida atravessada pela crença de que o racismo existe enquanto fenômeno relacionado ao outro que é negro, mas não as afeta porque elas se consideram apenas “morenas”. Esta ambigüidade discursiva não as isenta do sofrimento decorrente do preconceito, porque todas mencionaram envolvimento em situações em que foram vítimas (ou até perpetradora, no caso de Leila) de discriminação étnico-racial, o que mostra o quanto o racismo afeta diretamente suas vidas.
Todas essas meninas utilizaram, ainda, para minimizar o sentimento de inferioridade causado pelo preconceito e pela discriminação, a estratégia de supervalorizar o que chamamos de “beleza interior”. Ou seja, ser uma menina educada, bem comportada e inteligente tem mais valor do que uma boa aparência, porque para ter uma boa aparência elas teriam que ser brancas, e elas não o são. Na pergunta sobre quem venceria um concurso de beleza imaginário em sala de aula, todas as meninas se referiram em seu discurso inicial aos aspectos da branquitude da vencedora do concurso. Entretanto, acabavam por destacar, em seguida, alguma habilidade ou qualidade psicológica da colega, ou seja, uma valorização de uma “beleza interior” em detrimento da aparência para determinar a vencedora do concurso. Com isto, parece que se davam conta de que, caso utilizassem apenas a aparência física como critério de beleza, elas ficariam em terrível desvantagem diante das colegas brancas. Estratégias deste tipo atuam como “redentoras da imagem de si” (“Saving face strategies”), e têm sido observadas em estudos que buscam descrever e analisar o autoconceito e categorias afins (e.g. Freire, 2008). Sua função principal é minimizar, para si e para os demais, avaliações negativas referentes a si próprio (a).
No geral, as meninas demonstraram muitas críticas a suas características de negritude. Principalmente Rafaela, que tem mais características de negritude associadas, como a cor da pele escura, o nariz largo, os lábios grossos e o cabelo crespo, apresentou duras críticas a cada uma destas características.