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S AMMENLIGNING OG VERIFIKASJON

4 MODELLERING I NOVAFRAME

4.11 S AMMENLIGNING OG VERIFIKASJON

Um medo de ter que encarar a morte sem ter deixado nenhum legado àqueles que ficam. Um receio, não da morte em si, mas da impossibilidade de continuar existindo através dos seus. Um entendimento de que a vida nada mais é do que um breve intervalo de tempo, uma curta passagem por esse mundo. E, enquanto se faz a travessia, é imprescindível, se fazer viver nas pessoas, se fazer existir pelos seus, é esse o único modo de durar na terra. Era assim que a liderança da Ywyty Guaçu definia a vida. Era nesse sentido que caminhavam muitas de suas narrativas e falas, sempre ligadas àquilo que ele define por continuidade da cultura ou sua luta 36, como ele mesmo se refere ao falar de sua trajetória de vida, que aconteceu e ainda acontece em busca de maiores benefícios e direitos para seus filhos e netos e em defesa de todos os parentes tupi guarani do estado de São Paulo. Antonio Awá percebe a vida e sua existência como um momento de passagem. Para ele, durante essa passagem, é necessário dedicação para deixar algo para os mais novos.37 Ensinar os mais novos através das vivências experenciadas,

mas também pela via das palavras, por meio dos conselhos e outros tipos diversos de enunciados. Aconselhar como um modo constante de atualizar comportamentos e de se fazer presente sempre, através das palavras e das pessoas.38

Contou-me que desde muito pequeno almejava ser uma liderança, por isso acompanhava o seu tio Bento Samuel (liderança do antigo aldeamento do Bananal em Peruíbe/SP) a muitas reuniões. Atualmente ele não se considera apenas o cacique39 da Ywyty Guaçu, mas um

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Há um constante e importante uso da palavra luta nos enunciados trazidos nesse texto, sobre o qual falarei mais adiante.

37 Deixar algo pode ser entendido aqui como conquistas materiais, tais como benefícios para a aldeia (escola ou

posto de saúde) e também, no âmbito dos conhecimentos, daquilo que ele costumar chamar tradição. Conforme apontou Clastres (2003) a respeito da figura do chefe ameríndio, ele é aquele que se dispõe sempre a serviço de um coletivo.

38 Os enunciados de Awá serão aqui apresentados por suas características na articulação de fins coletivos buscados

“dentro” da Ywytu Guaçu, na forma dos omongeta (aconselhamentos) e das broncas, quanto para aqueles buscados “fora” (enunciados mobilizados na interface do diálogo com os não indígenas).

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representante na articulação política de todas as aldeias tupi guarani do estado de São Paulo. Esses e outros motivos, me parecem, tornam sua vida política e sua trajetória na construção da liderança assuntos interessantes para entender não só a situação da aldeia na qual ele atua como liderança, mas também das demais famílias tupi guarani que vivem em diferentes territórios no litoral e interior paulista.

Nascido aos 12 de dezembro de 1953, hoje com 63 anos, não se acha velho, pois segundo ele, velho é o nosso passado. Awá, como um dos Tupi Guarani mais velhos que vive no litoral, nasceu no Bananal ou aldeia de Peruíbe, como chamavam. Sua mãe, Luzia Samuel dos Santos, já falecida, veio do Mato Grosso do Sul. Contam os mais velhos que vieram caminhando e fixaram-se nas proximidades de onde fica hoje a aldeia do Bananal. Naquele tempo, andar era imperativo. Não havia necessidade de se fixar nos lugares e as fronteiras eram inexistentes. Uma época em que chegar, ficar ou andar, eram escolhas possíveis. Naquele tempo era só a tupizada! Antigamente não tinha parada, acabava a caça e eles andavam, não tinha problema de demarcação de terra, era só chegar e ficar [...] não tinha fronteira para o índio.

Foi no Bananal que Awá começou a “ser feito chefe” (GUERREIRO, 2011), convivendo e acompanhando lideranças como João Gomes e seu tio Bento Samuel (antigos caciques) em suas viagens e reuniões, começou a se envolver com questões referentes àquilo que ele chama de coisas de política que define como assuntos ligados à regularização fundiária, a garantia de direitos nas áreas de saúde, educação, entre outros, o que envolve diálogo com não indígenas. Awá viveu durante sua infância e sua adolescência no Bananal. Foi lá que se casou e teve seis filhos.

As lideranças (apesar de suas dinâmicas pessoais e de suas diferentes personalidades como escreveu Waud Kracke, 1978) estão muito ligadas a viagens, conexões, ampliação das redes e a procura de novas alianças (OAKDALE, 2014). Quem muito anda, muita história tem para contar e Toninho Awá, como também é conhecido, não foge a esse perfil. Contavam-me que ele ia e voltava, como um andarilho. Era um costume de família e que seus pais se comportavam do mesmo modo. Os caminhos percorridos por Awá são parte do seu processo para tornar-se uma liderança. Suas viagens são componentes do seu tornar-se. O seu caminhar conecta-se diretamente com a formação da sua pessoa e reflete em seu enorme esforço, observado em muitos de seus enunciados, conforme veremos, na produção de pessoas tupi guarani, na transformação das crianças em adultos (através da educação e do cultural). É

pessoa que atua como chefe de aldeia. Em menor proporção, eles usam liderança e chefia, mesmo porque que liderança pode estar associada a ações mais pontuais e a mais pessoas, por exemplo, os xondaro, pajés, etc.

porque, sempre meu plano de trabalho foi esse [...] a respeito da cultura indígena, né? Uma preocupação constante com o tornar-se um Tupi Guarani crescido, que se explicita através das muitas sessões de conversas que acontecem quase que diariamente na Ywyty Guaçu. Essas falas, ora são recebidas como broncas, ora como aconselhamentos (omongeta), a depender do tom que Awá oferece a elas. Para ele, são reuniões as quais ele chama de nhanhemoimba, querendo dizer juntar a nós todos.

Antonio da Silva Awá, ao falar sobre si, sobre suas experiências e pretensões, busca falar para todos. Para os Tupi Guarani, para os Guarani Mbya40 e para os jurua (não indígenas)

que vivem na aldeia. São falas carregadas de efeitos que mostram o funcionamento da dinâmica dessa liderança, que “[...] se apoia na habilidade narrativa para exercer seu poder de agenciamento” (OAKDALE, 2014).

Os conhecimentos explicitados através das experiências cuja comunicação acontece por meio das narrativas em reuniões que buscam direcionar e atualizar maneiras de existências são o modo de operar da figura de Awá. O encontro com ele foi, ao mesmo tempo, uma captura que culminou na condução de meu próprio tema de pesquisa. Ele é como um fazedor de pessoas e de lugares (na formação de aldeias) na construção de uma paisagem mais ampla, a das aldeias tupi guarani do litoral. Ao mesmo tempo em que é parte dessa paisagem, ele é construído por ela e também a constrói, criando uma interconexão constante entre ele e o coletivo.

Em momento anterior mencionei que quando, pela primeira vez, decidi fazer pesquisa entre os Tupi Guarani da Ywyty Guaçu, Antonio Awá declarou que não tinha a intenção e tampouco o interesse em receber pesquisadores em sua aldeia. Tentei conversar com ele por diversas vezes ao telefone, mas o recado era sempre o mesmo. Diziam-me (pessoas que moravam em outras aldeias e funcionários da Fundação Nacional do Índio - Funai) que desistisse, pois o cacique da aldeia não voltaria atrás em sua decisão.

Desse desencontro, modo pelo qual se deu nosso primeiro encontro, comecei a refletir sobre o que teria essa liderança de tão característico e singular, uma vez que todos falavam dela sem indiferença. Conhecer melhor Antonio da Silva Awá converteu-se em um dos objetivos de minha pesquisa, o que só aconteceu no momento em que trabalhei no Grupo Técnico (GT) responsável pelos estudos da área via Funai. Apontar alguns efeitos sucedidos desse encontro me pareceu fundamental.41

40 Há coresidência entre famílias tupi guarani e famílias guarani mbya na aldeia Ywyty Guaçu.

41 Na dissertação de mestrado não houve um aprofundamento dessa questão, abordada em diversos momentos,

Dessa vez, na ocasião do campo para o doutorado, o contato e a ida até a aldeia aconteceram de forma rápida e tranquila. Bastou uma conversa por telefone com Cristiano (vice-cacique), que me fez alguns poucos questionamentos em torno das minhas intenções de pesquisas. Em março de 2014 cheguei à aldeia, onde permaneci até julho do mesmo ano.

Na ocasião da realização dos estudos de fundamentação da área, Awá nos recebeu com muito entusiasmo. No momento da pesquisa referente ao meu doutorado, quando cheguei à Ywyty Guaçu, ele não se encontrava na aldeia. Havia um rumor de que ele nem moraria mais ali. Não era somente Awá que não se encontrava na área nesse período. Todos os homens haviam viajado para Curitiba/PR a fim de se reunirem com o então coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Litoral Sul da Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), Paulo Camargo, em uma manifestação que reivindicava melhorias nos projetos e ações voltados à saúde indígena. Quando todos retornaram, Awá não estava com eles. Ao questionar sobre sua ausência, seus filhos me diziam desalentados que não sabiam se o pai voltaria, mas nunca diziam o porquê. Quem respondia pelo cacique em sua ausência era Cristiano, seu filho e também vice-cacique. Certo dia, antes da chegada dos rapazes, eu estava conversando com algumas pessoas quando uma delas, depois de atender a um telefonema, começou a dizer que as pessoas diziam as coisas sem saber, falavam inverdades, como por exemplo, a de que Cristiano, conhecido por Kiki, era o novo cacique da aldeia. Espalhavam calúnias sem antes consultarem a verdade, pois se Awá não fosse mais a liderança da Ywyty Guaçu ele não teria organizado o movimento de ida até Curitiba, que reuniu 26 aldeias. Inconformada, a pessoa sugeriu que procurassem nas redes sociais para que vissem as fotos de Awá no movimento em Curitiba. Lembrei-me que, antes de iniciar o campo, haviam me dado essa mesma informação, de que a liderança da aldeia teria sido assumida por Cristiano. Quando conversei com Cristiano sobre a possibilidade de me receber na aldeia para realização de um novo campo, certifiquei- me dessa informação, a qual foi prontamente negada por ele. Com a chegada dos que estavam em Curitiba, notei que a presença de Awá no movimento e na aldeia ainda parecia ser forte e essencial. Um de seus filhos contou com empolgação à sua mãe sobre a atuação do pai na viagem. Ele relatava a bravura do pai, o olhar destemido diante do jurua e seus gestos corajosos e, ao mesmo tempo, descontraídos. Com entusiasmo o rapaz ia descrevendo à mãe o que ele chamou de o jeitão do pai e exclamava que ela precisava ter visto a cena na qual os olhos bravos do cacique revelavam algo próximo a uma transformação. Referiu-se, ainda, às cenas jocosas, nas quais o pai brincava com as pessoas, mesmo diante de um assunto sério.

A senhora precisava ver o pai, com aquele jeitão dele, sabe? Bravo, ele olhava assim para o Paulo Camargo, batia a mão na mesa [...] a senhora precisava ter visto, ele fica muito bravo, vi no olho dele. Parece que ele se transforma! Ele também brincou com a procuradora falando que não era pra ficar limpando unha e catando piolho, isso é coisa da cultura de índio... [risos]

Em sua descrição, o rapaz se refere ao seu pai como alguém que se transforma, ao ficar bravo, mas também que brinca diante da situação. Ele parece o admirar por ele ser capaz de conjugar, em um mesmo enunciado, uma fala dura com uma fala branda que, como veremos adiante, é uma característica comum nas narrativas de Awá.

Na manhã seguinte, ao levantar-me, disseram que Awá se encontrava na aldeia. Um de seus filhos foi buscá-lo em São Sebastião, município vizinho de Ubatuba. Fui conversar com ele. Falamos sobre a questão do relatório de identificação da área, sobre as reuniões em Curitiba e sobre saúde, não só sobre o contexto político atual que envolve a saúde indígena, o qual tem tomado boa parte das reflexões e ações de Awá como veremos, mas sobre os nossos problemas pessoais de saúde. Ele me contou sobre uma dificuldade que teve no coração e sobre a cirurgia que realizara, além da diabetes que agora o acometia. Perguntou sobre a minha saúde, pois notou que eu estava com uma aparência diferente de quando estive pela primeira vez na aldeia e contei-lhe acerca do meu tratamento. Ao acabarmos esse assunto, Awá deu um longo suspiro e finalizou nossa conversa dizendo: É bom ter você por aqui. É bom.... Vou ficar por aqui também, para dar uma força para essa molecada...

Em instantes, a figura brava e agressiva pela qual Awá era conhecido, desmantelara-se na minha frente, ao falar de forma branda e tranquila sobre seus problemas de saúde e sua preocupação com os filhos e netos na elaboração de novos projetos. Quem falava comigo naquele momento era um senhor aparentemente já cansado e apreensivo com o futuro de sua comunidade e de seu povo tupi guarani, como ele mesmo dissera.

Antonio Awá e sua ex-esposa Nifa não vivem mais juntos, embora ambos continuem residindo na mesma TI. Ela mora com sua nora (que também é separada do marido) e seus netos. Foi na casa de Nifa que fiquei hospedada nas ocasiões das visitas ao campo.Ele, nesse período, morava com Fabiano, um de seus filhos ainda solteiro. Em pouco tempo Awá começou a construir a sua casa e Fabiano casou-se com Laís (jurua) que, após o casamento, mudou-se para a aldeia. Awá mudou-se para sua nova casa.

Cheguei a conjecturar que a separação do casal poderia ter sido o motivo que o levou a não residir na aldeia por um tempo. Ao longo dos dias em campo, as coisas foram ficando mais claras e pude compreender outras razões para sua saída e para seu retorno àquela área. O reencontro com Toninho Awá e o contato com suas memórias e narrativas produziram alguns efeitos indispensáveis aos argumentos desta etnografia.

Durante a minha primeira estadia na Ywyty Guaçu, na pesquisa sobre os limites territoriais, logo pude observar um contexto característico da realização da pesquisa de campo. Awá afirmava querer registrar todos os acontecimentos de nosso trabalho, pois isso funcionava como uma maneira de transmitir para as gerações futuras como aconteceu o processo dos estudos para definição da área, além de promover o reconhecimento em diversos outros aspectos por parte dos Guarani Mbya que vivem na região e dos não indígenas. Assim, o uso da câmera fotográfica e o registro de imagens eram habituais. No decorrer da pesquisa, a câmera fotográfica e a filmadora permaneceram ligadas quase que o tempo todo, registrando o trabalho que o GT realizava na área. O anseio pelo registro, produção, veiculação e armazenamento das imagens, vídeos, reportagens, textos e etc. que falavam sobre as histórias da aldeia, era constante.42 No primeiro e no último dia em que a equipe do GT esteve na aldeia, Toninho Awá

pediu para que pronunciássemos uma fala que delineasse um pouco sobre nossas expectativas e impressões acerca do trabalho desenvolvido, para que isso ficasse registrado em vídeo. O cuidado com as imagens e com as gravações aparecia em várias ocasiões: quando pediam para ligar ou desligar o gravador de acordo com o que queriam dizer, quando enfatizavam o “direito de propriedade e autoria” ao repassarem suas fotos digitais, dentre outros contextos.

Isso não aconteceu somente durante meu primeiro campo na Ywyty Guaçu em 2010. Quando retornei à aldeia para a pesquisa de doutorado em 2014, o anseio por registrar permanecia e, talvez em maior proporção, em virtude do acesso nas redes sociais e da existência de internet na área. Justamente, devido a essa importância, a captura de imagens não deveria ser feita de forma aleatória por não indígenas. Certa vez, durante uma visita dos alunos de uma escola de São Paulo à aldeia, eu estava registrando alguns momentos quando uma criança me chamou do lado para me alertar que ouvira Awá falar que eu não deveria estar fotografando tudo. A partir daí, compreendi que seria mais apropriado que eu apenas fizesse imagens do

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Há um arquivo de fotos e reportagens sobre a aldeia, desde sua formação até os dias atuais e um blog disponível na internet, que conta um pouco sobre a história da aldeia, além de uma página na rede social Facebook. Os perfis particulares nas redes sociais são atualizados quase que diariamente com as atividades coletivas que acontecem na aldeia (escola, opy, posto de saúde, roça) e fora dela (viagens e reuniões) Para consultar o blog, acesse:

lugar e das pessoas que lá moravam quando fosse solicitada por elas, o que não representava exatamente um empecilho, já que isso acontecia com muita frequência. Por diversas vezes Awá requisitava que eu registrasse e tirasse fotos das reuniões e dos encontros que aconteciam dentro e fora da terra indígena (em ocasiões nas quais eu os acompanhava); da plantação de café, de campanhas de vacinação na aldeia e em outros episódios diversos. Em algumas ocasiões requisitou que eu gravasse as crianças cantando para que ele pudesse ouvir e analisar se estava bom e se elas haviam evoluído com os ensaios. Quando turistas chegavam a fim de conhecer a área, Awá deveria ser sempre comunicado, caso contrário, não poderiam tirar fotos. Além disso, as pessoas me pediam para que eu revelasse as fotos tiradas durante o trabalho em campo, dizendo que gostariam de pôr em um quadro. Em todas as casas (especificamente as dos Tupi Guarani) e na escola notei que há emoldurados com muitas fotografias.43

Em uma dada manhã, enquanto eu estava ao redor de algumas pessoas que conversavam à vontade, fixei meu olhar no balanço do parquinho onde as crianças costumam brincar. Naquele momento não havia criança alguma (ao menos que eu pudesse ver) brincando. Observei que um dos balanços estava balançando sozinho há alguns minutos. Notei que a cadência do balançar se modificava e apenas dois deles balançavam, o terceiro balanço permanecia imóvel, o que me levou a pensar que não era o vento que os movia. Comentei com Fabiana (filha mais velha de Awá e diretora da escola) o que estava vendo e ela não disse nada, apenas olhou para Jaxuka (mulher Guarani Mbya que trabalha na merenda da escola) e perguntou: É? Jaxuka respondeu que sim com a cabeça. Fabiana então olhou para mim e falou: Anhangwe de mitangwe (Alma/Espírito de criança). Corra, ligue a máquina e vá filmar!

Embora eu tivesse manifestado extremo receio a esse pedido, eu o fiz. Quando chegamos próximo ao balanço com a câmera ligada, em poucos segundos, ele cessou o movimento. Awá, que estava por perto, não disse nada, apenas observava. O vídeo foi visto repetidas vezes por muitas pessoas, inclusive as crianças, que eram as mais curiosas. Mais tarde uma mulher puxou o assunto contando que isso era comum, uma vez que agora eles estavam fazendo muito mborai (canto-reza) o que, segundo ela, chama os mortos. Comentei com Toninho sobre o que ocorreu e perguntei se poderia ser alguém que morreu e que estivesse com saudades da aldeia, talvez Pará (que morava na aldeia com suas filhas, mas que se mudara para TI Boa Vista, também em Ubatuba, onde falecera recentemente) ao que, imediatamente, ele

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respondeu em tom de reprovação pelo o que eu havia dito: E morto lá tem saudade menina? É criança morta brincando...

Conversar com Awá era sempre uma surpresa para mim; nunca soube desvendar bem o seu temperamento. A atmosfera dos ânimos na Ywytu Guaçu caminhava lado a lado com o seu humor, com maior ênfase nos momentos dos encontros em espaços coletivos, onde os enunciados iam ao encontro desse humor, mas não somente. Era comum, nos dias em que ele estava bravo, ver as pessoas se mobilizando com mais afinco para os trabalhos comunitários, tais como, varrer a oca, limpar o pátio, entre outros. Minha tentativa de compreensão e sistematização em torno dos afetos que regem os enunciados de Awá não me parece restringir- se a uma análise psicologizante dos seus comportamentos, no limite, elas me remetem mais a uma gramática dos afetos em termos de quais são esses enunciados e do que eles provocam, e, ainda, de quais são suas implicações para além da pessoa que os enuncia, no caso, Awá.44