Como dissemos, a teoria de Darwin, embora recepcionada por especialistas de forma ampla e inquestionável, aceita, em alguma medida, certos desacordos. Um deles, que nos importa especialmente, é sobre a existência da seleção de grupo. Trata-se de saber, se, “além dos indivíduos, populações inteiras e mesmo espécies também poderiam ser alvos de seleção”638. Nestes grupos, algumas características representariam mais do que a soma daquelas
atribuíveis individualmente a cada integrante; vale dizer que o conjunto teria determinadas aptidões inexistentes se considerado apenas um de seus membros639.
Como bem apontou Kropotkin, acima mencionado, a luta pela sobrevivência não significa apenas um cenário no qual haja competição entre organismos. Há casos vários em que a cooperação é elemento chave para a sobrevivência640.
Wilson – reconhecido no cenário acadêmico pelos estudos realizados sobre insetos sociais641 – é um grande entusiasta da seleção de grupo. Em uma de suas mais recentes obras, A Conquista Social da Terra, o autor promove uma ampla discussão a respeito deste ponto controverso, propondo a revisão de conceitos tradicionais ligados à teoria da evolução, como apontaremos mais adiante.
A vida social avançada na Terra é muito bem sucedida, embora não tenha surgido com tanta frequência. Talvez dela, entretanto, possamos extrair relevantes lições, dado o seu alto grau de sucesso. Os insetos sociais que povoam nosso planeta existem há pelo menos 100
636 CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. São Paulo: Cultrix, 2006, p. 182. 637 Ibid., p. 182.
638 MAYR, Ernst. Isto é Biologia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 271. 639 Ibid., p. 272.
640 ODUM, Eugene P.; BARRET, Gary W. Fundamentos de Ecologia. São Paulo: Cengage Learning, 2011, p. 288.
milhões de anos, como é o caso de cupins642-643. Estes insetos mostram-se extremamente
relevantes na evolução da vida, servindo, inclusive, à evolução de outras espécies – estimularam o surgimento de mecanismos de defesa, serviram de alimento, estabeleceram simbioses relevantes, etc.644
Segundo Wilson, “os animais do ambiente terrestre são dominados por espécies com sistemas sociais mais complexos”645 – a chamada eussocialidade. Grupos destes animais
caracterizam-se pela divisão de trabalho, de modo que alguns membros assumem funções muito específicas, muitas vezes em prejuízo próprio, mas em benefício da colônia – como é o caso das formigas. Além disto, há animais de gerações distintas vivendo no mesmo ninho. Esta forma de organização possui vantagens significativas se comparada a outros indivíduos atuando no mesmo espaço de forma autônoma. Por exemplo, colônias eussociais podem ter aos mesmo tempo indivíduos buscando alimento e outros defendendo o ninho, além de conseguirem promover a vigilância, técnicas de ataque e a própria gestão dos recursos alimentares obtidos de forma muito mais eficaz646. As colônias constituem verdadeiros superorganismos,
compostos não por células, mas organismos647, nos quais há uma composição extremamente
harmônica e coordenada.
Se por um lado 2% das espécies de insetos conhecidas são eussociais (de um total de um milhão, aproximadamente), “esta minoria domina o restante dos insetos em número, peso e impacto sobre o meio ambiente”648. Estima-se que o peso total de todas as formigas existentes
no planeta seja equivalente ao peso total de todos os seres humanos vivos649.
Deslocando estas colônias especificamente para o contexto da evolução, a partir do momento da constituição de grupos eussociais, a seleção passa a atuar em prol de grupos. Como dissemos acima, certos traços surgem a partir das diversas interações identificadas dentro do grupo – “esses traços incluem a cooperação na expansão, na defesa e no aumento do ninho, na obtenção de comida e nos cuidados à prole imatura”650. Fosse um inseto não social, deveria
efetuar todas estas ações solitariamente.
642 WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 24.
643 Só para se comparar, os primeiros ancestrais do homem como o conhecemos hoje, os denominados hominídeos, organizados de forma social, surgiram há três milhões de anos (WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 143).
644 Ibid., p. 25. 645 Ibid., p. 137. 646 Ibid., p. 138-139. 647 Ibid., p. 187. 648 Ibid., p. 139. 649 Ibid., p. 147. 650 Ibid., p. 176.
Para Wilson, a seleção natural “costuma ser multinível”651, vale dizer, atua “em genes
que determinam os alvos652 em mais de um nível de organização biológica, como célula e
organismo, ou organismos e colônia”653. Um grupo formado passará a competir com indivíduos
solitários e outras colônias compostas por membros daquela espécie654.
O altruísmo – entendido como “qualquer tipo de comportamento animal em que um indivíduo realiza ações que beneficiam outro, aparentemente às custas dele mesmo”655 – tem
intrigado os evolucionistas e pesquisadores, dentre os quais Wilson, por estudar insetos tão afetos à tal característica – os já mencionados eusossociais. A grande questão é: como estes grupos se formaram ao longo de milhões de anos de evolução?656
A literatura muito bem assentada até os dias de hoje sempre se fundou na teoria da aptidão inclusiva – “também denominada teoria da seleção de parentesco”657 – para explicar tal
indagação. O termo “aptidão inclusiva” objetiva, em alguma medida, ir além do conceito de aptidão de Darwin, mencionado anteriormente, para incluir a transferência do genótipo não só à prole, mas também a indivíduos com grau de parentesco658. Segundo Wilson, tal teoria
“sustenta que o parentesco desempenha um papel central na origem do comportamento social”659. E continua o autor, afirmando que “quanto maior o parentesco entre indivíduos de
um grupo, maiores as chances da espécie que formou tais grupos de evoluir para a eussocialidade”660. Em uma síntese muito despretensiosa, eventual sacrifício em prol de
parentes significa, no limite, um sacrifício em prol da sua própria carga genética, pois são os seus genes perpetuados mesmo com a sua aniquilação.
Esta tese ganhou relevo para justificar a eussocialidade em alguns insetos, sobretudo pela presença neles de uma característica muito peculiar – ao menos entre os insetos sociais
651 WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 199.
652 Ainda segundo Wilson, o alvo da seleção “é o traço, ou combinação de traços, codificado pelas unidades de hereditariedade e favorecido ou desfavorecido pelo ambiente”, sendo exemplo “a propensão à hipertensão e a resistência às doenças nos seres humanos [...]” (WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 199)
653 Ibid., p. 199. 654 Ibid., p. 209.
655 ART, Henry W. Dicionário de Ecologia e Ciências Ambientais. 2ª ed. São Paulo: Editora UNESP, p. 21. 656 Neste capítulo, recorreremos, com alguma frequência, a matérias de jornais e revistas, de forma complementar à obra de Wilson. Basicamente duas razões nos levaram a adotar tal sistemática. Em primeiro lugar, a teoria inovadora de Wilson que passamos a discutir é muito recente e ainda com pouco reflexo na literatura especializada. Em segundo, a linguagem acessível possibilita uma aproximação mais ampla ao assunto para aqueles que, como nós, não possuem formação nessa área específica.
657 WILSON, Edward O. Op. cit., p. 204.
658 Cf. LEHRER, Jonah. Gentileza em família: Uma disputa em torno da genética do altruísmo e da origem da
bondade. Revista Piauí, São Paulo, jul. 2012. Disponível em <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao- 70/questoes-de-sociobiologia/gentileza-em-familia>. Acesso em 25 out. 2014.
659 WILSON, Edward O. Op. cit., p. 204. 660 Ibid., p. 204.
conhecidos até a consolidação da tese na literatura científica. Trata-se da haplodiploidia. Em alguns insetos, as fêmeas originam-se por meio de óvulos fertilizados e os machos por meio de óvulos não fertilizados. Na reprodução destes insetos – quando há fertilização de óvulos (portanto formando-se fêmeas) –, os cromossomos dos machos (possuem um único conjunto de cromossomos, metade daqueles encontrados nas fêmeas, pois herdados exclusivamente delas) são transferidos na integralidade às filhas (fêmeas), que são somados à metade dos cromossomos das mães (fêmeas possuem dois conjuntos de cromossomos, o dobro de cromossomos dos machos). Irmãos em geral possuem, em média, 50% de cromossomos iguais; porém entre insetos haplodiploides, as irmãs possuirão 75% de genes idênticos entre elas – e apenas possuirão 50% dos genes das mães. Some-se a isto o fato de grande parte das fêmeas serem inférteis, transformando-se em operárias e sacrificando-se em prol da rainha, “máquina de fabricar irmãs”661 – segundo a teoria até então prevalecente, as irmãs garantiriam a
perpetuação de seus genes662.
Embora Wilson tenha sido um grande defensor desta teoria, começou a perceber que ela possuía falhas significativas – na sua visão. Em primeiro lugar, descobriram-se espécies de insetos eussociais que não eram haplodiploides e mais, muitas espécies de insetos haplodiploides não evoluíram para a eussocialidade – que continuava rara.
Wilson formulou uma nova teoria para tentar explicar este modelo de evolução – o altruísmo, que leva à formação de grupos eussociais. Para o autor a eussocialidade é tão rara porque exige o cumprimento de uma série de etapas na evolução (“pré-adaptações”), nada havendo com a antiga seleção de parentesco. O surgimento de uma determinada característica essencial é que vai possibilitar o surgimento de outra e assim por diante, até o estágio final. “A origem evolutiva de qualquer sistema biológico complexo só pode ser corretamente reconstruída se vista como a culminação de uma história de estágios acompanhada do início ao fim”663. Dentre estas etapas, Wilson menciona: (i) formação de grupos, entre indivíduos
normalmente solitários; (ii) acúmulo de traços que favorecem a eussocialidade, como cuidado com a prole e construção de um “ninho defensável”; (iii) surgimento dos alelos eussociais, por meio da mutação ou “imigração de indivíduos mutantes de fora”, que levarão anão dispersão dos membros dos grupos; (iv) “identificação das forças ambientais que impelem a seleção de
661 Cf. LEHRER, Jonah. Gentileza em família: Uma disputa em torno da genética do altruísmo e da origem da
bondade. Revista Piauí, São Paulo, jul. 2012. Disponível em <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao- 70/questoes-de-sociobiologia/gentileza-em-familia>. Acesso em25 out. 2014.
662 WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 204-207. 663 Ibid., p. 223.
grupo”, como, por exemplo, “a defesa contra inimigos”; (v) o último passo seria a seleção de grupo entre os sistemas eussociais664.
A tentativa de Wilson é aplicar esta teoria, com algum temperamento, à evolução social do homem, o que não nos interessa neste trabalho em razão da proposta inicialmente estabelecida. Disto, vale apenas a menção que o autor faz à evolução da natureza humana, que surge como o resultado de um ajuste equilibrado entre a seleção em nível de grupo e em nível individual. Para tanto, se vale de uma “regra férrea”665 da evolução: “indivíduos egoístas
derrotam indivíduos altruístas”666, dentro de um grupo (sujeitos “bonzinhos” são facilmente
aniquilados por indivíduos egoístas); por outro lado, “grupos altruístas derrotam grupos de indivíduos egoístas”667.
[...] O equilíbrio das pressões da seleção não pode pender para nenhum dos extremos. Se a seleção individual dominasse, as sociedades se dissolveriam. Se a seleção de grupo dominasse, os grupos humanos pareceriam colônias de formigas.
Cada membro de uma sociedade possui genes cujos produtos são visados pela seleção individual e genes visados pela seleção de grupo. Cada indivíduo está ligado a uma rede de outros membros do grupo. Sua própria sobrevivência e sua capacidade reprodutiva dependem em parte de sua interação com outros na rede. O parentesco influencia a estrutura da rede, mas não é a chave para sua dinâmica evolutiva, como erroneamente postulado pela teoria da aptidão inclusiva. Pelo contrário, o que conta é a propensão hereditária a formar a miríade de alianças, favores, trocas de informação e traições que constituem a vida diária na rede.
Embora a teoria apresentada por Wilson tenha se pautado em modelos matemáticos668,
muita controvérsia se fez na literatura especializada669. O debate está formado e prosseguirá
664 Todas as referências de WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, passim (p. 223-227).
665 WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 293. 666 Ibid., p. 293.
667 Ibid., p. 293.
668 E o fez com o apoio dos pesquisadores Martin Nowak e Corina Tarnita (Cf. LOPES, José Reinaldo. Cientista
de Harvard vê humanidade mestiça. Jornal Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 mar. 2013. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2013/05/1287620-sumico-de-tucano-prejudica-arvores-da-mata- atlantica.shtml>. Acesso em25 out. 2014). Para Tarnita, “os testes matemáticos feitos por ela, a aptidão inclusiva só pode ser aplicada em circunstâncias biológicas muito específicas, que quase nunca existem.”. Ainda segundo a reportagem mencionada, “para testar a teoria de Wilson, Nowak e Tarnita desenvolveram um modelo matemático. Fizeram simulações computacionais comparando o desempenho de rainhas eussociais com o de rainhas solitárias e concluíram que a eussociabilidade aumentava em oito vezes a taxa de natalidade de uma rainha e reduzia em dez vezes sua taxa de mortalidade. Uma vantagem competitiva dessa magnitude poderia explicar por que a eussociabilidade gera tamanho êxito. Por outro lado, o modelo também documenta as barreiras à evolução da eussociabilidade, já que ela normalmente exige um conjunto de mutações incomuns e condições ecológicas muito específicas” (todas as citações de: LEHRER, Jonah. Gentileza em família: Uma disputa em torno da genética do
altruísmo e da origem da bondade. Revista Piauí, São Paulo, jul. 2012. Disponível em <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-70/questoes-de-sociobiologia/gentileza-em-familia>. Acesso em25 out. 2014).
669 Dawkins publicou uma resenha com críticas fortes ao estudo de Wilson (Cf. DAWKINS, Richard. The descent
of Edward Wilson. Prospect Magazine, Inglaterra, 24mai. 2012. Disponívelem<http://www.prospectmagazine.co.uk/magazine/edward-wilson-social-conquest-earth-
evolutionary-errors-origin-species/#.UfnoqRjJZEI>. Acesso em25 out. 2014), pronta e objetivamente respondida. Mais do que isso, uma carta subscrita por mais de 100 cientistas foi enviada à renomada revista Nature, condenando um artigo publicado por Wilson em conjunto com Nowak e Tarnita na mesma revista, apresentando
ainda por um bom tempo. Daí, indagarmos, qual a razão para a apresentação de toda esta teoria e a controvérsia por trás dela? Simplesmente para salientar o caráter absolutamente relevante da cooperação no contexto das relações ambientais. E o caso dos insetos eussociais é bastante ilustrativo – embora não sejam em grande número de espécies (se considerado o número total de espécies), seu grau de sucesso no “domínio” do planeta é inegável, como apontamos, quer pelo tempo de presença na Terra, ou pela sua pujança se comparado em quantidade de exemplares. A cooperação é significativa para o sucesso em muitos casos, até mesmo para a sobrevivência, o que poderia, segundo Wilson, ser aplicado à evolução dos homens. Aqui importa menos o porquê da existência do altruísmo, importa mais a constatação da sua existência e do seu sucesso.