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4. RESULTAT AV ANALYSEN

4.6 T RYGGHET

Maingueneau (2006, p. 250) explica que a cena enunciativa define o estatuto da fala. Ele diz que um texto é o lugar por excelência de manifestação de um discurso em que a fala é ―encenada‖. Qualquer discurso tem o objetivo de convencer e o faz construindo uma representação da sua própria situação de enunciação, que presume um enunciador, um destinatário, um momento e um lugar que o torna legítimo, isto é, a sua cena enunciativa. Esta cena de enunciação se instaura por meio de três planos que se interpenetram: a cena englobante, a cena

genérica e a cenografia.

A cena englobante exige do interlocutor a capacidade de reconhecer o tipo de discurso que o interpela (religioso, publicitário, televisivo, ecológico, literário, por exemplo) para que ele possa determinar sobre o que fala e qual é a sua finalidade. Esta cena depende dos discursos que circulam em determinadas sociedades e em determinadas épocas. Ela está em função do fim para o qual o discurso se organiza, já que estes estão atrelados a vários setores sócio-históricos. É, portanto, o caráter institucional do discurso.

A cena genérica legitima não só o enunciador, mas também a enunciação como um todo, ou seja: tem a ver com o tipo de gênero no qual o enunciado se inscreve: um debate, um panfleto, uma carta, etc. A cena genérica possibilita a identificação do enunciado, assim como assegura a comunicação, pois o gênero é partilhado pelos membros de uma coletividade que, ao adotarem regras pré- estabelecidas e aceitas mutuamente, definem-se como legítimos participantes do discurso. Unida à cena englobante define o quadro cênico do texto.

Já a cenografia se refere à enunciação construída pelo próprio texto, caracterizando-o por definir as condições de um enunciador, de um co-enunciador, a topografia (lugar) e a cronografia (tempo). É ela que, inicialmente, chama a atenção do interlocutor, colocando o quadro cênico em segundo plano: o interlocutor não lê (ou ouve) o tipo ou gênero de discurso, mas sim a cenografia – fonte simultânea do

discurso e de tudo que é produzido por ele. Considerada parte do posicionamento, a cenografia se constitui como um elo de articulação da obra e do mundo. Ela engendra um discurso e é, ao mesmo tempo, engendrada por ele; legitima um enunciado, e é por ele legitimada. Como afirma Maingueneau (2006, p. 253):

[...] a cenografia está tanto a montante como a jusante da obra: é a cena da fala que o discurso pressupõe para poder ser enunciado e que em troca ele precisa validar através de sua própria enunciação. A situação no interior da qual a obra é enunciada não é um quadro preestabelecido e fixo; ela está tanto a montante quanto a jusante da obra porque deve ser validada pelo próprio enunciado que permite manifestar. Aquilo que o texto diz pressupõe uma cena de fala determinada que ele precisa validar mediante sua própria enunciação.

A cenografia, da mesma forma que o posicionamento, mantém uma relação muito próxima com o gênero discursivo, pois é exatamente como um ritual discursivo instituído por um gênero que o co-enunciador se depara, e não com o discurso diretamente. E, quando falamos de cenografia, devemos deixar bem claro que, dependendo do gênero, esta poderá sofrer uma maior ou menor variação. Temos, por exemplo, gêneros cujas cenografias não são suscetíveis de variação, como é o caso das bulas de remédio e da lista telefônica. Outros, como os textos literários, exigirão escolha de cenografias variadas. Nessa última categoria, podemos incluir as toadas, objeto de nossa pesquisa.

Assim, todo enunciado implica as circunstâncias de sua produção, ou seja, uma situação de enunciação que não corresponde necessariamente às circunstâncias empíricas de produção do enunciado, mas sim ao universo de sentido que o discurso constrói por meio da enunciação. Dessa maneira, o acesso à cenografia de um discurso se dá por meio da dêixis discursiva. A dêixis, contudo, não define apenas as coordenadas espaciotemporais implicadas em um ato de enunciação, ela define também, no nível discursivo, o universo de sentido que um posicionamento constrói através de sua enunciação. Não se trata, pois, de uma referência à situação de enunciação, ou seja: ao momento e ao espaço em que uma formulação foi materializada. Trata-se de verificar em que medida as expressões utilizadas nessa formulação remetem à cena que o discurso constrói para autorizar sua enunciação (MAINGUENEAU, 1984, p. 93). Nesse caso, a dêixis pode ser vista como mais um plano do discurso submetido às regras que regem o funcionamento da semântica global de um determinado posicionamento. São essas regras que

definirão o espaço-tempo no interior do qual um determinado discurso se legitima. O universo de sentido criado e/ou pressuposto pela dêixis discursiva engloba quatro dimensões: o locutor ou enunciador, o destinatário ou coenunciador, a cronografia (o tempo), e a topografia (o espaço). Cada posicionamento enfatizará mais ou menos um desses elementos, segundo os condicionamentos de sua semântica global.

Para a Análise do Discurso, na vertente assumida por Maingueneau, as instâncias de enunciação são formuladas em termos de lugares discursivos, em que os falantes se inscrevem a partir de uma topografia social preexistente. Assim, "um lugar da enunciação [é] afetado por determinadas capacidades, de tal forma que qualquer indivíduo, a partir do momento que o ocupa, supostamente as detém". (MAINGUENEAU, 1993, p. 37).

O reconhecimento de um discurso como autorizado depende, portanto, da legitimidade atribuída a cada falante, através do lugar discursivo que ele ocupa em determinada situação comunicativa, uma vez que toda produção linguística é um ato de discurso enunciado a partir de uma instituição. Como consequência, os interlocutores se inscrevem, no discurso, assumindo determinados papéis cujas falas pressupõem instituições capazes de atribuir-lhes sentido. Assim, o conceito de cenografia surge novamente como um recurso importante para a análise discursiva à medida que pode revelar a maneira como o sujeito constrói sua própria inscrição e a de seu coenunciador no discurso.