• No results found

Rustadveien. Gjellumvann 205-195. Brannvannskart nr. 59

Nesse cenário todo, o que marca profundamente é a vulnerabilidade das mulheres. E a Igreja tem um importante papel nesse contexto, se quiser realmente reverter esse quadro no qual se inserem graves situações de ameaças à vida. Rondônia mantém, atualmente, o segundo lugar no índice nacional de mortes ocorridas por problemas gerados pela maternidade adolescente, perdendo apenas para o Estado de Tocantins. A iniciação sexual, e todos os seus problemas correlacionados, começam muito cedo, levando as meninas à gravidez precoce e à maternidade adolescente/infantil, situação que, na maioria das vezes, é vivida de forma despreparada.

34 Conforme o Jornal Rondonotícias e O Verbo de Rondônia, edições de abril de 2006.

35 Segundo informes dos relatórios anuais de violência contra a mulher, fornecido em agosto/2006 pela então Delegada nomeada.

Os registros da cidade mostram que os óbitos das mulheres aparecem desde muito cedo36. A mortalidade infantil coloca Rondônia como o quarto lugar no ranking do Brasil, e se torna um enorme desafio para a Igreja local, por estar diretamente ligada à miséria e à fome. Quanto à taxa de casamentos, Rondônia e Acre têm as maiores do país (7% por cada 1.000 habitantes)37, e a taxa de separação, em Rondônia, é a quinta do índice nacional (1,1% por 1.000 habitantes, sendo que a média nacional é 0,9%). Mas, Rondônia também tem a maior taxa nacional de divórcio (2,8% por 1.000 habitantes, sendo que a taxa nacional é de 1,2%). Em geral, pode-se dizer que a região norte é um dos lugares onde o casamento estável dura menos, em média 9,9 anos. Falaremos dessa situação num próximo capítulo, no qual será focalizada a situação das famílias e das uniões das pessoas entrevistadas.

Outro desafio da região é que não há políticas de geração de emprego. O que mais emprega e contribui com o Produto Interno Bruto – PIB é o setor público. A maior parte dos pobres do Estado é formada por trabalhador informal e autônomo, e as políticas para a criação de empregos formais são insuficientes para o combate à miséria e à fome. Aí, os incentivos à criação ou ampliação de negócios próprios se tornam muito significativos, e com grande importância para a sobrevivência da população, exigem políticas públicas de curto, médio e longo prazo.

Nesse sentido, pode-se concluir que a pobreza no Estado está fortemente relacionada à desigualdade na distribuição de recursos e, é nesse contexto antagônico e pluriforme e que a Igreja tenta cumprir a sua missão evangelizadora.

Em meio a essas relações é que se contextualizam as igrejas, plenas de sistemas configurativos e significativos, não só para a população autóctone, mas para toda a região amazônica; elas, de certa forma, configuram, também, os conflitos vividos nas estruturas religiosas e, o pior, podem se tornar modelos a serem reproduzidos, sobretudo por alguns grupos oportunistas. Posturas semelhantes a essas acontecem com pessoas ligadas aos governos eclesiásticos e até com as próprias mulheres. Nos últimos anos, houve vários casos envolvendo a Igreja, e foram noticiados nos jornais locais, mais parecendo reproduções de posturas governamentais do Estado e até de modelos de outras regiões.

36 Ibidem

37 Dados dos Relatórios de Ocorrências da Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania da Direção Geral de Polícia Civil de Porto Velho e índice e amostragem fornecida pelo SISDEPOL WEB, acesso em 01/06/2007. Os relatórios encontram-se arquivados com a autora.

4 A ambivalência na estrutura eclesiológica rondoniense

Nesse contexto, é complexo compreender a importância que a Igreja dessa região dá para as demais do Brasil que a beneficia. É mais difícil ainda imaginar a sua missão diante dos conflitos daquele povo. Para quem não se insere no cotidiano e no seu território, é incalculável o emaranhado de relações incertas e, por vezes, perigosas que a Igreja está inserida.

Segundo estudiosos da região, a Amazônia está, atualmente, entre uma das áreas mais pesquisadas do planeta, ao lado da Antártida e dos oceanos, e cresceu fortemente o interesse dos pesquisadores pelas descobertas sobre a natureza e os impactos ambientais. Com eles, aumentam o fetichismo e o fascínio de pessoas “interessadas” pelo povo rondoniense, especialmente as mulheres, subjugadas por muitos fatores, aqui já elencados.

Além dos fatores geográficos, ecológicos e institucionais que sustentam a riqueza da região, há também a natureza da cultura humana, o seu folclore, a sua linguagem, a sua sustentabilidade, a infra-estrutura bio-tecnológica, a monocultura, a bio-diversidade e tantos outros. E a Igreja tem um papel fundamental diante disso tudo!

O povo, ao mesmo tempo em que compreendeu a importância das pesquisas do seu

habitat, sentiu também a necessidade e a dependência de outros estudos, sobretudo nas áreas

das ciências humanas, entre elas a da religião. Isso se confere diante de uma população dominada pela posse da terra, da água, da floresta e que, uma vez “possuída” em toda a sua essência, clama por liberdade e vida.

Por isso tudo, para compreender as pessoas da Igreja da Amazônia, situadas nessa imensa área florestal da Região Norte do Brasil, se torna necessário investigar a sua história, territorialidade e suas relações incertas. Marcada pelas mudanças eclesiológicas do Concílio Vaticano II (1962-1965) e pela Assembléia Episcopal Latino Americana de Medellín (1968), a Igreja da Amazônia sofreu um grande impacto diante dos desafios o final do século XX que, talvez, não fora sentido pelo restante do catolicismo do Brasil.

Com a política voltada para a exploração da Amazônia, a Igreja no Brasil apresentou sinais de vitalidade diante da massa excluída e sofredora pelos demandos poderosos dos planos econômicos para lá voltados38.

Numa assembléia realizada em Manaus em 1972, com dois Regionais brasileiros, algumas prioridades foram elencadas e a expressão máxima sugeriu que nascia uma Igreja com rosto Amazônico. Na época, alguns órgãos foram criados no intuito de ajudar a Igreja local: o IPAR (Norte1), o CENESCH (Norte 1), o CIMI (1971) e a CPT (1975- Goiânia). Novos impulsos foram dados, o que motivou uma caminhada libertadora e mais independente da Igreja local, porém, sempre necessitada da dependência externa, seja da CNBB ou de outras Igrejas locais, principalmente para as grandes decisões, seja nas formações teológicas, composições de seus quadros eclesiásticos ou favores sociais diante do fenômeno do pluralismo religioso ou das novas violências devidas à urbanização.

Em 1997, realizou-se uma Assembléia em Manaus que teve como ponto de partida a avaliação do caminho percorrido desde 1972. Nesses 25 anos de caminhada da Igreja da Amazônia, a igreja rondoniense também decidiu confirmar a sua missão evangelizadora e, diante de uma mística própria daquela realidade, se produziu um novo rosto eclesial, pois a realidade sócio-econômica do local havia mudado39.

Nesse sentido, além dos desafios que já se presenciava no local, outros surgiam e decidiram por um lema: “A Igreja se faz carne e arma sua tenda na Amazônia”, confirmando, assim, a sua missão evangelizadora. Nesse documento mostra-se a relação entre a Igreja que está na Amazônia e as demais Igrejas particulares no Brasil e no Mundo, cuja implicação é uma relação de mão dupla40. Os bispos se mostraram generosos com a Igreja local e decidiram fazer intercâmbios por meio de diversos projetos. Um deles é o Projeto chamado

Igrejas-Irmãs da Amazônia que, dez anos após as palavras dos bispos reunidos em Manaus,

conservam ainda hoje a atualidade profética da Assembléia de 1997, da igreja martirial citada por D. Moacyr Grechi, arcebispo arquidiocesano, em entrevista41:

Porque pessoas se comprometiam no campo da luta pela justiça, a partir de sua fé. Se vivia uma fé pessoal em dois grupos de reflexão e a partir, digamos, da orientação de nossa Igreja, de que não devia circunscrever a comunidade a coisas pessoais, mas devia -se expressar na política e na luta pela justiça. Então... eu posso dizer com tranqüilidade, que aconteceu algo na linha do martírio. Na luta pela justiça, na luta pelo direito dos seringueiros e colonos, foram vítimas dos violentos e poderosos. E esse foi o caso de Jesus. Ele morreu por sua fome e sede de justiça por sua não aceitação de um mundo injusto e discriminador. Eu creio que em alguns casos da Amazônia se pode falar claramente em martírio.

39 Documento da Assembléia dos Regionais Norte I e II da CNBB. Manaus/1997. 40 Texto base da CF. no 309. p. 130

Em uma de suas falas ele alertou sobre a negligência da Igreja rondoniense: “pedimos perdão pela omissão em relação à violência que sofrem os povos da Amazônia, sobretudo, os povos indígenas e os pobres do campo e da cidade, de maneira especial as mulheres”42.

Essa situação não se refere apenas aquele momento do evento, mas se torna uma exigência para toda a Igreja Católica do Brasil na atualidade. E para se pensar nessa perspectiva, a qualificação e a participação das mulheres na Igreja da Amazônia também foi objeto de atenção especial no texto original da Assembléia acima citada:

celebram a benção de Deus que se manifesta na riqueza de nossa biodiversidade e na diversidade cultural dos povos amazônicos; na dedicação das missionárias e missionários e no serviço de leigos e leigas, com uma participação sempre mais qualificada das mulheres43.

Quisemos apontar esses fatores especificadamente, por acharmos conveniente falar do local que optamos em desenvolver a nossa pesquisa de campo, deste trabalho. E explicamos melhor esse objetivo: por verificarmos todos esses conflitos, acharmos que diante deles teríamos condições de contribuir para uma melhor sistematização da pastoral com mulheres naquele contexto. A nossa experiência de trabalho acadêmico na formação do clero no Noroeste da CNBB (cidade de Porto Velho) e acompanhar alguns seminaristas na pastoral, fez com que surgisse uma outra preocupação: deveria se verificar a situação das mulheres nas comunidades ribeirinhas e nas periferias portovelhenses (CEB’s). Daí se optou em conhecer com eles essa realidade mais a fundo e pensar na presença das mulheres na Igreja de Porto Velho, estudando as suas relações e investigando a sua insistência em permanecer nos trabalhos, mesmo sem participar dos processos decisórios daquela Diocese. Alguns dados identificadores daquela Arquidiocese nos mostraram que as mulheres estavam inseridas na seguinte estrutura:

Quadro 1. Dados da Arquidiocese de Porto Velho Arquidiocese de Porto Velho

País Brasil

Arcebispo Moacyr Grechi Superfície 84.696 km²

Tipo de jurisdição Arquidiocese Metropolitana (Região Norte 1)

Criação da diocese 1 de maio de 1925 Elevação a arquidiocese 4 de outubro de 1982

Rito Romano

Dioceses sufragâneas Guajará -Mirim Humaitá Ji-Paraná Lábrea

Endereço Rua Gonçalves Dias, 288 – Centro

Fonte: GLOBO. PORTAL DA AMAZÔNIA. Disponível em: www.portalamazonia.globo.com/

42 Idem nos. 9-11.