• No results found

A presença do catolicismo na região que compreende o Estado de Rondônia, bem como em toda a Amazônia, foi desde o início, marcada por fortes dificuldades. Presença antiga que se deu através da atuação dos missionários, mas insuficiente para um bom atendimento do povo, como mostra novamente aqui GRECCHI (2005), Arcebispo de Porto Velho:

No primeiro quartel do século XX surgiram as primeiras prelazias e o início da organização eclesiástica e pastoral na Amazônia ocidental. A Igreja atendia os paroquianos nas poucas paróquias ao longo dos grandes caudais e alguns poucos missionários tinham contato com os povos autóctones.

Trata-se da presença dos religiosos – e mais tarde de religiosas – que atuaram na evangelização, apesar das dificuldades da região. Presença essa que se estendeu ao longo da história, sempre marcada pela profecia e pelo testemunho, em alguns casos até através do martírio45.

O aumento populacional em Rondônia veio intensificar os desafios. Os problemas vivenciados pela população mais pobre desafiam a ação pastoral, uma vez que a evangelização exige a denúncia das injustiças, enquanto o Reino de Deus é anunciado, como bispos do Brasil já afirmaram:

Evangelizar é anunciar a Boa Nova como fonte de esperança no meio de tantos conflitos que surgem no coração do homem e na sociedade desigual, impedindo a realização do projeto de Deus. Evangelizar é suscitar a esperança de um novo milênio de justiça e paz46.

A Igreja de Rondônia tem um desafio a ser diante dos pobres, através da conscientização e incentivo às pastorais sociais que atuam nas comunidades, apesar das tendências espiritualistas também presentes em sua caminhada. Os testemunhos proféticos de diversos/as leigos/as, padres, religiosas e religiosos têm sido notáveis na luta pela vida dos pobres rondonienses, pois entendem que o Evangelho lido e vivido deve servir de estímulo e prover as necessidades do povo, como acena FABRIS:

O Evangelho não favorece nem justifica um tipo de otimismo que diz: como Deus prevê [quer dizer: ‘provê’] o alimento para os passáros [quer dizer: ‘pássaros’], assim fará Deus para o homem. Ele não provê o alimento: há homens e mulheres que morrem de fome ou que não têm proteção. A situação trágica do homem permanece” (FABRIS, 1992).

45 Ibidem, p. 202.

46 CNBB. Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil – 1999 a 2002: documentos da CNBB, 61. São Paulo: Paulinas, 1999, p. 15.

Se por um lado houve passos significativos no campo da conscientização dos direitos do povo, por outro, a situação das comunidades indica que a complexidade do cenário rondoniense supera as condições da Igreja no que se refere à sua presença junto do povo. Inúmeras são as comunidades que permanecem distantes das paróquias, não apenas em questão de espaço, mas também no que se refere ao acompanhamento pastoral. Mesmo sendo notável o número de leigos/as capacitados/as para o desempenho de diversos trabalhos nas comunidades, bem como da presença de diversas congregações femininas, não se pode negar a necessidade de um clero mais numeroso, diante de crescente demanda, como mostra ANTONIAZZI:

Confrontando os dados do Anuário Católico de 1977 com os dados de 2000, para a diocese de Porto Velho (capital de Rondônia) temos, em 1977, 33 presbíteros para 112.208 habitantes (média de 3.400 habitantes por presbítero); em 2000, temos 42 presbíteros (aumento de 27%) e 496.755 habitantes (média de 11.827 habitantes por presbítero, um aumento de 342%). É claro o desgaste da presença pastoral da Igreja Católica em Rondônia nesse período. (ANTONIAZZI, 2004).

Já a CNBB em seu projeto Igrejas-Irmãs na Amazônia - A Igreja alarga a sua tenda47

cita que a população da Arquidiocese de Porto Velho compreende 750.000 habitantes divididos em 28 paróquias, numa superfície de 84.696 Km2. Relata ainda que a região conta com 38 padres e 85 religiosos distribuídos em 620 comunidades eclesiais nas áreas rurais e urbanas, podendo contar com dois projetos “irmãos”, um de Novo Hamburgo-RS e outro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

A clareza dos números expressa uma visão de Igreja populosa, mas carente. Na maioria dos casos, é um povo espalhado em pequenas comunidades, sendo que no meio rural, o difícil acesso e as longas distâncias entre uma comunidade e outra aumentam ainda mais as dificuldades. A sobrecarga dos trabalhos é inevitável, e as comunidades rurais acabam por ficar em segundo plano, uma vez que na cidade os fiéis estão mais concentrados, e basta uma igreja matriz para absorver todo o tempo de um padre, como mostra ANTONIAZZI (2004):

...Quando o pároco tem vários milhares de católicos ‘praticantes’ para cuidar, além de outros que ainda procuram certos sacramentos, como o casamento para si e o batismo para os filhos, o trabalho pastoral de rotina (especialmente a administração dos sacramentos) se torna tão pesado, que impede ao pároco de cuidar das novas exigências do seu público potencial. Pior: o pároco é inclinado a recusar toda novidade na ação pastoral, porque não suporta mais trabalho e particularmente o trabalho desgastante de lidar com o novo, o desconhecido, que exige mais preparo e muitas vezes a paciência da aprendizagem na base de “ensaio e erro”. Numa sociedade em rápida mudança, em que há necessidade de lideranças inovadoras, o trabalho pastoral está correndo o risco da perda de qualidade.

Com apenas duas, três ou quatro visitas anuais do padre, as comunidades correm o risco de perder o estímulo da caminhada, favorecendo o desânimo e, consequentemente, o esvaziamento de muitas delas, como expressa ANTONIAZZI (2004):

...nossos párocos, mesmo os mais abnegados, não dão conta de acompanhar, a não ser precariamente, a massa dos católicos que não praticam regularmente e mantêm apenas contatos esporádicos com a comunidade eclesial. Isto facilitaria o êxodo de católicos tradicionais para outras igrejas ou religiões.

Conclui-se que a Igreja em Rondônia está diante de uma missão muito exigente. E nesse contexto a presença das mulheres é insubstituível e decisória. Há a necessidade de que Igreja se faça mais presente junto aos povos indígenas, que desempenhe com maior eficiência os seus trabalhos pastorais e esteja de modo geral, mais próxima do povo. Porém, grandes limitações impedem que as suas ações possam ter maior eficácia na promoção da vida e no sustento da fé de seu povo.