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5. DATA

5.3 P ROPENSITY S CORE M ATCHING

Em ciências sociais, [...] o fato de que importantes grupos sociais têm interesse em manter a ordem existente e em impedir toda transformação social age sobre a própria natureza do pensamento histórico e sociológico. Exigindo uma ciência social livre de todo preconceito, afirmando consciente e abertamente o caráter histórico e passageiro da ordem social atual, exprimindo a esperança de submeter a vida social à consciência e à ação do homem e dar-lhe instrumentos intelectuais para realizar os valores humanos universais. (GOLDMANN, 1978, p.70). O referencial teórico-metodológico do presente trabalho é baseado no conceito de produção do espaço, de Henri Lefebvre (1974), que considera o espaço como produto e condição para a reprodução das relações sociais, ultrapassando a concepção tradicional do espaço como receptáculo das ações humanas. Essa reprodução leva em consideração o plano vivido nas ações cotidianas, a apropriação do espaço, e tem a dimensão do lugar como principal escala de análise.

Na concepção lefebvriana, o espaço é produto das diversas relações que nele se estabelecem, sendo marcado por contradições inerentes ao modo de produção capitalista. A dialética tem valor como método neste trabalho por explicitar a lógica das relações humanas. Utiliza-se assim o método dialético por se mostrar mais adequado para a compreensão da dinâmica socioespacial dos espaços públicos de

lazer, ao permitir a análise das complexas relações que se estabelecem no espaço urbano.

Demo (1995, p.97) considera a dialética como o método mais apropriado para o estudo da realidade social. O autor considera que “as realidades sociais não são apenas complexas; são sobretudo complexidades polarizadas. São campo magnetizado onde qualquer presença provoca ação e reação”. Ainda, para Demo (1995, p. 97), a “unidade de contrários” é a propriedade do método dialético mais importante, já que “na história, as faces sempre dialogam, porque são atores. Dialogam dialeticamente, ou seja, no campo eletrificado do conflito, em que entendimento e desentendimento são partes integrantes da totalidade comunicativa”. O autor destaca a importância de analisar o cotidiano para compreender as contradições da realidade, ao afirmar que

é fundamental ver a unidade de contrários também na cotidianidade. A sabedoria popular pode cometer erros científicos graves, mas sabe mais que a ciência que a felicidade humana é totalidade conflitiva, pois o cotidiano, de si, é triste. É monótono. Não é da gargalhada que se vive todo dia. (DEMO, 1995, p. 99)

Portanto, as camadas populares conhecem de perto a opressão que se manifesta no espaço urbano. Durante os trabalhos de campo foi possível observar a insatisfação das pessoas com os serviços de transporte público, com a precariedade na manutenção dos espaços públicos, com a violência urbana e com a desigualdade social. Além disso, existem formas mais sutis de dominação na análise da dinâmica socioespacial em Limeira, tais como a dominação política, a manipulação da mídia e o controle do espaço por grupos hegemônicos.

Essa situação pode se reverter se a dialética for tomada como prática social, na qual os indivíduos se relacionem dialeticamente nas mais diversas situações, analisando criticamente as múltiplas formas de produção e reprodução das relações sociais. Adotar a dialética nas ações e reflexões cotidianas certamente contribuirá para uma melhor compreensão da realidade socioespacial. Nesse sentido, Demo (1995, p. 124) esclarece que:

Dialética de verdade é aquela que habita a ‘verdade’ do cotidiano, que aninha a unidade de contrários no canto de cada choupana, que perpassa os sentimentos mais profundos e comuns do comum dos mortais. Dialética não pode restringir-se a grandes vôos históricos, em que ninguém vive, ama e chora, mas deve acalentar os desejos, teorias e práticas do dia-a-dia mais corriqueiro. Somente assim a revolução se torna cotidiana.

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Também nesse sentido de superação das opressões e visando elucidar as contradições inerentes à sociedade capitalista, Lefebvre (2009, p. 63) considera que “é preciso analisar dialeticamente toda atividade humana”. Para o autor,

o método dialético permite estudar os fatos históricos e sociais tais como são, ao representá-los sem deformações que os tornem ‘inteligíveis’, de tal modo que sejam acessíveis à pesquisa metódica e racional. Ele não apresenta qualquer axioma além da ligação dos fatos com suas contradições, suas interações e seu devir. (LEFEBVRE, 2009, p. 118)

Assim, a análise dos espaços públicos sob a visão dialética permite uma compreensão mais crítica da realidade socioespacial, com análise das múltiplas contradições que se desenvolvem na produção do espaço urbano. Nesse contexto Goldmann (1978, p.70) afirma que “perguntar se as ciências sociais devem ser dialéticas ou não é simplesmente perguntar se devem compreender ou deformar e mascarar a realidade.”

A dialética considera “a existência de classes sociais e o conflito/contradição entre elas, a transformação da sociedade e a emancipação dos indivíduos, e que os fenômenos só podem ser compreendidos quando vistos como totalidades.” (ANTONIO FILHO e DEZAN, 2009, p. 89)

Portanto, na presente pesquisa, a abordagem dialética serve como método para elucidar conflitos e contradições que se manifestam na produção e reprodução cotidiana do espaço público em Limeira. O método dialético permite uma análise mais completa da realidade socioespacial, pois leva em consideração tanto a materialidade dos espaços públicos como as práticas sociais que neles se desenvolvem. Goldmann (1978, p.66) salienta que “o pensamento dialético acentua o caráter total da vida social. Ele afirma a impossibilidade de separar seu lado material do seu lado espiritual.”

A abordagem geográfica na análise dos espaços públicos deve levar em consideração essas duas dimensões, como destaca Gomes (2006, p. 172):

um olhar geográfico sobre o espaço público deve considerar, por um lado, sua configuração física e, por outro, o tipo de práticas e dinâmicas sociais que aí se desenvolvem. Ele passa então a ser visto como um conjunto indissociável das formas com as práticas sociais. É justamente sob esse ângulo que a noção de espaço público pode vir a se constituir em uma categoria de análise geográfica.

A análise dos espaços públicos pela Geografia pode contribuir para a construção de uma realidade socioespacial urbana mais justa e democrática. A ciência geográfica permite unir a análise da materialidade espacial com as relações sociais que se desenvolvem nesse espaço, por meio de uma análise socioespacial.