Fonte: trabalho de campo (fevereiro/2012)
Essa grande variedade de usos favorece o que Jacobs (2000) defende: os espaços públicos representam mais segurança aos seus frequentadores quando existe uma multiplicidade de usos e atividades, favorecendo a circulação de pessoas e inibindo a presença de pessoas que possam cometer atos violentos no local.
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O Parque da Cidade é o espaço público da cidade de maior referência para a população que pratica atividades físicas. Observa-se a co-presença de pessoas em variadas faixas de idade e com diferentes formas de apropriação. De acordo com os dados obtidos na aplicação dos questionários, os principais usos no parque são: observar as pessoas, caminhar, brincar com crianças, contemplar a paisagem.
Observa-se que o Parque da Cidade é mais frequentado nas primeiras horas da manhã e no final da tarde, principalmente por aqueles que praticam atividades físicas, com predomínio de caminhadas, já que o parque não dispõe de muitos equipamentos urbanos com essa finalidade. Aos finais de semana a frequência no parque é maior que durante a semana, pois soma-se aos praticantes de atividades físicas um grande número de famílias que levam seus filhos para passear e brincar naquele espaço.
Às margens do Parque da Cidade há o anel viário que circunda a cidade e facilita o acesso ao parque por aqueles que possuem automóveis. Embora existam linhas de ônibus que passam pelo local, observa-se que não são tão expressivas, tendo em vista o sistema radial de transporte público da cidade. Isso de certa forma limita o acesso ao Parque da Cidade por aqueles que não dispõem de automóvel ou não tem condições de usar o transporte público, seja pelo custo financeiro, seja pelo tempo de deslocamento.
Assim, observa-se que o Parque da Cidade é frequentado durante os dias úteis principalmente pela população que mora nos bairros mais próximos e por aqueles que utilizam veículo próprio. É válido ressaltar que os bairros das imediações são hoje valorizados pelo mercado imobiliário, e se tornaram ainda mais disputados com a criação de novos empreendimentos neles instalados nos últimos anos, como o novo campus da Unicamp e a própria criação do Parque da Cidade.
Serpa (2005) argumenta que a instalação de parques públicos contribui para a valorização do espaço urbano e favorece um processo de substituição da população das áreas requalificadas. Assim, a implantação desses parques são álibis para explicar as grandes operações de requalificação urbana nos bairros afetados. O autor justifica a instalação de parques públicos como álibis ao destacar:
álibis, porque os parques públicos sempre representam e expressam valores éticos e estéticos, que ultrapassam largamente seus limites espaciais. Qualquer que seja a época, esses valores estão sempre presentes no discurso oficial e nas políticas públicas aplicadas às cidades: higienismo, pacifismo, beleza estética. (p. 113)
Toda a diversidade de atividades que se desenvolvem no Parque da Cidade não atende parte da população limeirense que dele não pode usufruir. Observa-se assim, uma menor diversidade de classes sociais no parque, já que camadas populares são menos assíduas no local. Desse modo, o Parque da Cidade representa um espaço segregado na medida em que somente determinados grupos sociais costumam frequentá-lo. Esse parque não recebe a população de toda a cidade que deseja se apropriar dos espaços públicos, tendo em vista uma série de fatores, como a sua localização, nas proximidades de uma região valorizada da cidade, longe portanto de bairros mais populares e com grande densidade de moradores, que precisariam pagar o transporte público por não terem automóveis particulares. Além disso, parece haver a construção de uma barreira simbólica que impossibilita o acesso ao parque de moradores de camadas populares provenientes de bairros periféricos. Como bem ressalta Serpa (2004, p.32) “os usuários privatizam o espaço público através da ereção de barreiras simbólicas, por vezes invisíveis.” O espaço público é modificado e fragmentado entre diferentes grupos sociais, transformando-se em espaços segregados em função do nível social que dele se apropria. Nesse sentido, Serpa ressalta que:
Em um mundo onde a cultura transformou-se em lazer e diversão, existe uma distância mais social que física, separando os novos equipamentos públicos daqueles com baixo capital escolar, o que mostra que segregação espacial e segregação social nem sempre servem para designar a mesma coisa. [...] o problema da democratização do acesso não se resume a uma repartição espacial equitativa dos equipamentos que permitiria, em tese, chances de utilização equivalentes a todas as categorias sociais [...] Vemos que a aplicação dos conceitos/noções geográficos de distância e acessibilidade acabam por colocar em questão a esfera pública, o espaço público, na cidade contemporânea. Afinal, estamos diante de espaços verdadeiramente públicos ou de espaços concebidos e implementados para um tipo específico de público? (SERPA, 2004, p.33-34)
Observa-se assim que seu nome, ‘Parque da Cidade’, não condiz com a realidade social da maioria de seus frequentadores, que possui boas condições financeiras. Os pobres da cidade não costumam frequentá-lo certamente pela distância física de seus bairros de moradia e pela presença de barreiras simbólicas, como o status de ser um parque destinado à população elitizada.
Compara-se agora o Parque da Cidade, localizado em porção central privilegiada de Limeira com o Parque do Lago, situado em bairro popular da porção
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sul da cidade. Analisando o rendimento mensal per capita dos setores censitários nos quais os parques estão inseridos, observa-se uma nítida desigualdade socioeconômica entre eles. Nos setores censitários do Parque da Cidade, 10,79% dos domicílios tem renda per capita superior a 5 salários mínimos contra 1,66% do Parque do Lago. O contraste social torna-se evidente quando se compara a renda per capita de até 1 salário mínimo, onde o Parque da Cidade possui 16,51% dos domicílios contra 47,18% no Jardim do Lago. (gráfico 7).
É válido considerar que a renda per capita no município de Limeira é mais baixa se comparada com os municípios da região, como Campinas, Americana, Piracicaba e Rio Claro. De acordo com o PNUD (2013), 61,59% da população ocupada em Limeira tem rendimento de até dois salários mínimos.
Gráfico 7 - Parques urbanos: rendimento domiciliar per capita
Fonte: Censo 2010
No Parque do Lago, a população que o frequenta é proveniente, sobretudo, do Jardim do Lago e do Jardim Aeroporto, bairros populares da porção sul da cidade (carta imagem 4). Esse espaço público assume a função de um parque urbano e é conhecido pelos seus usuários como Parque do Lago. Entretanto, no cadastro municipal essa área é denominada “Praça Gino Archimedes Battiston”. Em entrevista realizada com a Secretária Municipal de Planejamento, ocorrida durante a gestão municipal anterior, não se soube explicar os motivos para o local ser denominado praça embora seu grande tamanho e morfologia, inclusive com dois portões de acesso e tela em sua volta, seja de um parque urbano. Certamente seu nome impróprio se deve à proposta de algum vereador da cidade que, desconhecendo as diferenças entre parque e praça, optou por assim denominá-la.
Carta imagem 4 - Localização do Parque do Lago
O Parque do Lago foi criado pelo Poder Público com o esforço da comunidade local, que se mobilizou para que nos últimos anos a Prefeitura
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Municipal criasse alguns equipamentos para a recreação, como quiosques, bancos, brinquedos para as crianças e duas lagoas que contribuem para a beleza local.
É válido destacar a importância da participação popular nas ações que levaram às melhorias na área. De acordo com entrevista realizada com uma líder comunitária, a área onde o parque está instalado era, há cerca de dez anos atrás, abandonada pelo poder público, tendo mato alto, despejo de lixo e entulho, além de apresentar problemas com usuários de drogas. Foi com a criação da Associação dos Moradores do Jardim Aeroporto que a situação começou a mudar, quando se mobilizaram para que melhorias fossem realizadas no local. Atualmente, o parque oferece condições básicas para apropriação da comunidade. Observa-se que a criação do parque trouxe muitos benefícios para a população local, que mora em bairros densamente povoados em sua volta.
Não obstante o Parque do Lago ter recebido uma melhor infraestrutura nos últimos anos devido à cobrança popular, ainda faltam muitas demandas da população, como a criação de uma pista de caminhada e o calçamento do parque (foto 9). Embora a atuação da líder comunitária seja exemplar ao promover atividades físicas com os usuários do parque todas as manhãs, ainda faltam mais ações do poder público para dinamizar ainda mais esse parque. Durante o ano, poucas são as vezes que as diversas secretarias municipais realizam alguma atividade recreativa no parque.