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5. ANALYSE OG DISKUSJON OM KAMPEN FOR ROM, TID OG SPRÅK

5.2 D OXA

5.2.4 ROM i møte med NPM

O BMC está fundamentado na visão do corpo integral, corpo e mente conectados e como expressões mútuas e interativas do ser. Foi desenvolvido pela norte-americana Bonnie Bainbridge Cohen, fundadora da School for Body Mind Centering (1973), em Nova York. Cohen iniciou sua carreira como terapeuta corporal na década de 1960, quando ensinava dança para crianças com paralisia. Em sua formação, teve larga experiência com atividades corporais como a dança, artes marciais e yoga. A partir dessas experiências, pode compreender mais profundamente seus estudos teóricos sobre o funcionamento anatômico do corpo e todos os conteúdos referentes a ele, como os sistemas corporais e o estudo sobre o

desenvolvimento neurológico e psicológico. Diplomou-se na área de analise do movimento pela Laban/Baternief Institute of Movement Studies, em Nova York e Terapia Ocupacional e Neurodesenvolvimento, na Ohio State University. Com essa formação, partiu para uma investigação a fundo das características e possibilidades de cada sistema do corpo.

Cohen afirma que:

O corpo se move como a mente se move. As qualidades de qualquer movimento são manifestações de como a mente se expressa por meio do corpo [...] O movimento pode ser um caminho para observarmos a mente se expressando por meio do corpo e um meio para influenciar mudanças na relação corpo-mente.108

Tomando como referência este pensamento, nesta pesquisa não há como tratar corpo e mente como sistemas separados. Aqui, definitivamente, eles são vistos como sistemas entrelaçados em que tanto o corpo se move como a mente se move, como também, segundo coloca Antônio Damásio, “os processos mentais se alicerçam nos mapeamentos do corpo que o cérebro constrói”.109 Queremos abandonar a concepção dualista do corpo instrumento, que

obedece, e a mente retentora, que conduz, pois, na realidade, as ações do corpo estão imersas num ‘sentido de jogo’, e o BMC parece dar acesso à leitura e entendimento desse sentido de jogo das ações, do sistema inteiro e suas relações.

Baseando-se na afirmação de Espinosa, citado por Antonio Damásio, que “mente- corpo são diferentes aspectos da mesma substância”,110 nosso esforço nesta pesquisa tem sido tentar fugir do condicionamento cultural e histórico da dualidade corpo-mente, buscando incorporar e entender a relação que há entre esses dois aspectos (corpo e mente) da mesma substância. Embora o dualismo se faça presente em alguns momentos, como efeito somente de análise do processo, nossa intenção é de valorizar os dois aspectos numa tentativa de enxergá-los e incorporá-los como uma substância só. Talvez tenhamos que considerar relações hierárquicas, no sentido da ação de um sobre o outro, mas numa relação de devir constante, onde, apesar de um operar mais enfaticamente sobre o outro em determinada situação, não significa que o outro não esteja atuante e interferindo também na ação como um

108 COHEN, Bonnie Bainbridge. Sensing, feeling and action – the experiential anatomy of body-mind

centering. Northampton MA, 1993, p1.

109 DAMÁSIO, Antônio. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. Adaptação para

o português do Brasil Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p21.

todo. Parece ser questão apenas de foco de atenção, em como percebemos e operamos cada aspecto em nós.

O estudo BMC foca no desenvolvimento da consciência corporal profunda, para que possamos ‘incorporar’111 conscientemente cada sistema de nosso corpo, de modo a beneficiar

nossa expressividade. O termo ‘incorporar’, para Cohen, significa tomar conhecimento por meio da experiência cinestésica,112 sensível, de que aquele sistema corporal, aquela parte do meu corpo sou eu. Então, começo a incorporar também as conexões dessas partes, até chegar à compreensão do corpo que sou.113

No BMC, o corpo físico é o ponto de partida. Por meio de estudo anatômico pormenorizado e de sua vivência e prática direta, o BMC envolve o aprendizado cognitivo e experiencial dos sistemas do corpo, esqueleto, músculos, fluidos, órgãos, pele, glândulas endócrinas etc. A partir da exploração do corpo físico como um todo, podemos aguçar a percepção para um universo de sensações, sentimentos, pensamentos, memória e imaginação e incorporá-los e expressá-los com consciência. Podemos também chegar à percepção de como os sistemas corporais afetam e são afetados pelo movimento e pelo comportamento. Cohen acredita que explorando, compreendendo e incorporando esta compreensão dos sistemas do corpo estaremos entendendo melhor o desenvolvimento humano. Talvez esta compreensão possa vir tanto num plano físico como relacional, influenciando nossa forma de expressar. Por exemplo, com a incorporação do sistema esquelético, a mente se torna estruturalmente organizada, proporcionando um suporte básico para nossos pensamentos, uma alavanca para nossas idéias. Já o sistema dos órgãos está relacionado com nossas emoções, desejos e memória de nossas reações internas a nossa história pessoal, além de nos dar um senso de volume e preenchimento interno. O sistema endócrino está relacionado com a tranqüilidade interna, o equilíbrio do caos e a cristalização da energia dentro das experiências arquetípicas. O trabalho sobre esse sistema pode ampliar a intuição, a percepção e a compreensão. 114

111 ‘Incorporar’ foi a tradução para o português mais aproximada do termo embody utilizado por Cohen. 112 A palavra cinestesia relaciona-se com a fisiologia e refere-se ao ‘sentido pelo qual se percebe os

movimentos musculares, o peso e a posição dos membros’. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda.

Dicionário Aurélio básico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p151.

113 COHEN, Bonnie Bainbridge. Op.cit, p63.

Visando essa ampliação pretendida por nós, a educadora do movimento Lívia Marques, especializada em Somatic Movement Education pela School for Body Mind Centering de Massachussets, EUA, ministrou aulas de BMC para o Basirah. Além de trazer a informação teórica sobre cada sistema corporal que iríamos trabalhar, com figuras, desenhos e uma miniatura de um boneco do esqueleto humano, Lívia passava exercícios práticos numa tentativa de nos fazer experimentar cada sistema diretamente. Iniciávamos esses exercícios tentando visualizar cada sistema apresentado nas figuras e desenhos. Com essa visualização focava-se a atenção num sistema específico, buscando sentir sua forma, textura, peso, sensação etc. A partir dessa experiência, Lívia nos sugeria começar a se movimentar mantendo a atenção no sistema trabalhado. Além dessa prática, muitos outros exercícios foram realizados, como por exemplo, a execução de movimentos relacionados aos padrões básicos do desenvolvimento humano como arrastar, engatinhar, rolar, etc.

Figura 2 – Alessandro Brandão - Exercício do sistema dos órgãos115

Segundo Cohen, um importante aspecto do BMC é “descobrir a relação entre o menor nível de atividade dentro do corpo e os grandes movimentos corporais, alinhando o movimento celular interno com a expressão externa do movimento no espaço”.116 O

desenvolvimento do movimento se dá pelas conexões dos sistemas. Embora cada sistema contribua com sua especificidade para o movimento corpo-mente, eles se entrelaçam.

115 Foto de Dalton Camargos tirada em ensaio privado. 116 COHEN, Bonnie Bainbridge. Op.cit, p1.

Por meio do BMC é possível observarmos como o movimento corporal realizado no espaço pode ser afetado, por exemplo, quando levamos nossa atenção para as células, os órgãos, ou fluidos, nos conscientizando mais profundamente de sua forma, função, peso, textura etc. O estudo do BMC se volta principalmente para a percepção do funcionamento desses sistemas, estimulando o desenvolvimento do que Cohen chama de active focusing, que foca ativamente nossa atenção, motivação ou desejo em nós e naquilo que estamos percebendo.117 Podemos constatar o desenvolvimento deste aspecto se dando claramente nos

participantes da pesquisa. É o que nos mostra o depoimento de um deles, Diego Pizarro: Nesse momento, já tendo passado o período de adaptação (às vezes penso que ainda não) e inserção no processo proposto, meu corpo encontra-se “estranho”. Parece que ele não está como sempre esteve em sua relação descompromissada com o espaço. Parece que qualquer movimento, por mínimo que seja, chama a minha atenção para a sua relação com o espaço, com o ar que está sendo deslocado a partir da movimentação até mesmo involuntária.[...]E essa estranheza é tão latente que eu sinto como se meu corpo estivesse mudando de tamanho, talvez porque esteja percebendo-o melhor. Eu me sinto como um bebê que admira sua mãozinha, conhecendo-a e explorando-a, pegando o seu pezinho e admirando-o. Como se as células e os tecidos estivessem transformando-se, e o que está sendo transformado é simplesmente a minha atenção, ou talvez não. 118

Com a experiência do BMC abre-se a possibilidade de se aprofundar e apreender as sensações e a percepção no e do corpo, de forma aguçada, onde o contato com a expressão sensível119 e a compreensão desse mecanismo pode dar ao intérprete uma qualidade de tônus

muscular distinta, afetando seu potencial expressivo do corpo, que mesmo sem se movimentar, parado, traz uma textura diferente, um estado de presença ativa e de ser evidenciados. Não há necessidade de que o corpo, para demonstrar sua expressividade e se fazer perceptível, tenha que se manifestar pelo movimento. Sua existência no espaço e no tempo parece já potencializar sua presença necessária para a cena. O corpo parado já é movimento, parece estar impregnado de sensações afloradas, de expressão sensível, e expressa uma dramaticidade que provém de seu estado de ser, de sua consciência do momento.

117 Idem, p5.

118 O depoimento integral de todos os participantes desta pesquisa encontra-se no Anexo 2.

119 O termo “expressão sensível” que utilizo nessa pesquisa associa-se ao conceito de sensibilidade definida

por Fayga Ostrower. Segundo Ostrower, a sensibilidade está baseada “numa disponibilidade elementar, num permanente estado de excitabilidade sensorial”, que abre uma porta de entrada para as sensações. “Representa uma abertura constante ao mundo e nos liga de modo imediato ao acontecer em torno de nós”. OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 18ªed., 2004, p12.

Como o BMC propõe investigar a fundo os processos orgânicos, entendemos e buscamos nesta pesquisa que, a partir da compreensão desses processos, o intérprete possa transferir esse conhecimento para as ações envolvidas na encenação. A idéia é que o estímulo dado ao intérprete para o exercício criativo, ou de repetição de ações, tenha foco mais na atualização da memória corporal pela percepção e reconhecimento das sensações físicas do momento, do que na tentativa de resgate de memória do passado. Seria como interpretar a memória corporal de acordo com a situação atual numa tentativa de alcançar o punctum cênico da ação. Rolland Barthes define o termo punctum como sendo o detalhe, o ponto sensível, o que punge “uma espécie de extracampo sutil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a ver [...] para a excelência absoluta de um ser, alma e corpo intrincados”. 120 Já Antônio Damásio nos fala que

As imagens não são armazenadas sob a forma de fotografias fac-similares de coisas, de acontecimentos, de palavras ou de frases. O cérebro não arquiva fotografias Polaroid de pessoas, objetos, paisagens [...] Em resumo, não parecem existir imagens de qualquer coisa que seja permanentemente retida [...] sempre que recordamos um dado objeto, um rosto ou uma cena, não obtemos uma reprodução exata, mas antes uma interpretação, uma nova versão reconstruída do original. Mais ainda, à medida que a idade e experiência se modificam, as versões da mesma coisa evoluem. 121

Sendo assim, parece que temos que estar falando de atualização constante da memória corporal pelo exercício da percepção constante das sensações do corpo, pois,

O corpo, tal como é representado no cérebro, pode constituir o quadro de referência indispensável para os processos neurais que experienciamos como sendo a mente. O nosso próprio organismo, e não uma realidade externa absoluta, é utilizado como referência de base para as interpretações que fazemos do mundo que nos rodeia e para a construção do permanente sentido de subjetividade que é parte essencial de nossas experiências. De acordo com essa perspectiva, os nossos mais refinados pensamentos e as nossas melhores ações, as nossas maiores alegrias e as nossas mais profundas mágoas usam o corpo como instrumento de aferição.122

Por meio das técnicas do MA e BMC, que comungam pensamentos similares, buscou- se trabalhar a dimensão física e psicológica da pessoa, numa tentativa de ampliar a

120 BARTHES, Rolland. A câmara clara: Nota sobre a fotografia.Trad. Júlio Castanon Guimarães. Rio de

Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1984, p89.

121 DAMÁSIO, António. O erro de Descartes – emoção, razão e o cérebro humano. Trad. portuguesa Dora

Vicente e Georgina Segurado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p129.

consciência do intérprete em vários níveis. Para a complementação deste processo de conscientização do intérprete também utilizamos alguns exercícios com foco na percepção dos condicionamentos corporais e comportamentais, que serão apresentados a seguir.