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5. ANALYSE OG DISKUSJON OM KAMPEN FOR ROM, TID OG SPRÅK

5.1. HABITUS

5.1.9 Det som ikke kan telles, kan heller ikke måles

Como citado anteriormente, o estudo de terapia do movimento desenvolvido por Mary Starks Whitehouse no final da década de 1950 e início de 1960 era originalmente chamado de Movimento em Profundidade, que consistiu na investigação das conexões entre a psicologia junguiana, por meio da Imaginação Ativa e os simbolismos e conteúdos revelados no movimento corporal. O termo Movimento Autêntico foi posteriormente usado em 1968 por Janet Adler, discípula de Whitehouse e fundadora do Instituto Mary Starks Whitehouse, na Califórnia.

Uma das pioneiras da terapia do movimento na década de 1960, Whitehouse diplomou-se em dança pela Wigman Central Institute em Dresden, Alemanha. Foi aluna da Jooss Ballet School, Bennington Summer School, Martha Graham School e outras. Membro da American Dance Therapy Association, Whitehouse também estudou no C.G. Jung Institute, em Zurique.95

93 PALLARO, Patrizia. Authentic Movement, Essays by Mary Starks Whitehouse, Janet Adler and Joan

Chodorow. London: JKP, 2001

94 No Brasil não se costuma traduzir para o português o termo Body Mind Centering, sendo a sigla BMC

mais amplamente utilizada e conhecida.

Como aluna de Mary Wigman, Whitehouse herda o interesse pela busca do sentido e papel do movimento na dança. Wigman já trazia na formação que oferecia ao dançarino, o ideal de “torná-lo consciente dos impulsos obscuros que estão dentro dele”.96 Defendia que o

dançarino deveria “se pôr à escuta de si mesmo”,97 fugindo de sistemas preestabelecidos e do

adestramento corporal. Incluía métodos de improvisação em sua escola, e tinha como característica respeitar e estimular o material individual dos dançarinos, o que afetava sobremaneira no resultado de seus espetáculos, revelando uma sensibilidade corporal singular de seus intérpretes.98 Essa visão de Wigman em relação ao dançarino e a abordagem da

consciência do movimento, via compreensão dos impulsos internos, tiveram grande influência para o desenvolvimento da técnica do MA de Mary Starks Whitehouse.

Com sua grande bagagem em dança e experiência em psicologia analítica, método de análise formulado por Carl Gustav Jung, Whitehouse agregou a Imaginação Ativa de Jung aos seus estudos do movimento. Procurou analogias entre sua forma de analisar o movimento e o método analítico de Jung. Viu a possibilidade de permitir os conteúdos inconscientes da pessoa se expressarem em movimento.

A Imaginação Ativa visa fazer emergir o inconsciente para então buscar uma comunicação com ele. “É um processo do qual, enquanto a consciência observa, participa sem direcionar, coopera, mas não escolhe, o inconsciente tem a permissão de falar como e quando quiser”.99 O processo é realizado em duas etapas, sendo que na primeira provoca-se o inconsciente, por meio de um estado emocional que deve ser estimulado a se manifestar como uma imagem, um fragmento de um sonho ou uma fantasia, ou mesmo a partir de um sentimento. Em seguida, tenta-se uma comunicação com o inconsciente explorando-o e visando que a imaginação flua sem controle da razão nem juízo crítico. Essa comunicação com o inconsciente pode se dar de várias formas: pela dramatização, por um som, pelo

96 BOURCIER, Paul. História da dança no ocidente. Trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes,

1987, p299.

97 Idem, p299.

98 PALLARO, Patrizia. Op.cit., p74.

movimento, pela escrita, desenho etc. A pessoa deve observar atentamente como esse fragmento de fantasia se desenvolve, dando vazão à imaginação.100

A partir da Imaginação Ativa, Whitehouse desenvolve a técnica do Movimento Autêntico que consiste numa dinâmica realizada em dois grupos, ou em pares, onde uma das pessoas se movimenta livremente num improviso de olhos fechados, enquanto o outro assume papel de observador, testemunha da experiência de seu par. O movente é estimulado a se mover a partir da Imaginação Ativa. Após um tempo determinado, em torno de vinte minutos, a pessoa que se movimentou compartilha sua experiência com seu par, que no papel de testemunha apenas escuta sem fazer julgamentos prévios, ou aconselhamentos. Janet Adler, discípula de Mary Starks Whitehouse que deu prosseguimento aos estudos do MA aprofundando a investigação do papel da testemunha na técnica, afirma que

a testemunha [...] carrega uma grande responsabilidade para a consciência, pois senta-se ao lado do espaço de movimento. Ela não ‘está olhando para’ a pessoa que se move, ela está testemunhando, escutando, trazendo uma qualidade específica de atenção e presença para a experiência da pessoa que se move.[...] a testemunha é responsável pela pessoa que se move, assim como por si mesma [...] ela não atua sua experiência, mas a testemunha.101

O relato da experiência à testemunha pode se dar de várias formas, dentre elas descrevê-la ou desenhá-la. Na técnica do MA é solicitado à pessoa fechar os olhos e esperar, assumindo uma atitude de espera e escuta aberta e tranqüila. A espera aberta no MA refere-se ao momento de uma espera para se escutar o corpo sem expectativas, onde há um momento de exercitar o esvaziamento do desejo e da reflexão sobre o que está sendo vivenciado, abrindo espaço para o corpo se manifestar a qualquer instante sem envolvimento do juízo crítico.102

No decorrer de nossa pesquisa desenvolvemos uma série de variações de exercícios baseando-se na dinâmica utilizada pelo MA. Como exemplo dessas variações utilizamos venda nos olhos, ao invés de somente fechá-los. Inicialmente esse fato não parece desencadear muitas diferenças, entretanto me parece que a pessoa estar de olhos vendados significa, necessariamente, a privação da possibilidade de ver em qualquer situação em que essa pessoa possa se encontrar no momento do exercício. E ela estando somente de olhos

100 Para mais informações sobre Imaginação Ativa ver PALLARO, Patrizia, ibidem, capítulo 21, ou ainda,

HUMBERT, Elie G. Jung. Trad.de Marianne Ligeti. São Paulo: Summus, 2ªed,1985, pp34-6.

101 JANET ADLER in: PALLARO, Patrizia. Op.cit., 2001, pp 142-3. 102 PALLARO, Patrizia. Op.cit, p53.

fechados existe a possibilidade de abri-los quando se sentir ameaçada por algo externo, e talvez isso a impeça de se concentrar mais profundamente no exercício. Outra variação utilizada foi o tempo de realização do exercício, que gradativamente foi aumentando de vinte minutos para uma hora. Além desses, realizamos outros exercícios com olhos vendados como executar seqüências coreográficas elaboradas sem utilização de música, e depois utilizando música. Na primeira opção o intérprete busca experimentar a relação do movimento com o tempo interno e o espaço, e na segunda, ele tenta um diálogo do tempo interno do movimento com o estímulo externo, a música.103

O MA busca provocar um processo de autoconhecimento profundo, partindo de aspectos psicológicos e sua relação com o corpo, trazendo para a consciência conteúdos emocionais internos e ocultos, que afetam e são afetados pela forma de se movimentar da pessoa. Com o Movimento Autêntico, Whitehouse propunha deixar aflorar o movimento partindo da escuta interna, do que o corpo está solicitando a ser feito, não abordando o movimento apenas em direção a um fim, mas considerando-o como um processo de expressão do interno, daquilo que está se processando no físico e na mente. Whitehouse argumentava que na maior parte das pessoas o tempo e o padrão de todo movimento físico é hábito formado, uma atitude automática e inconsciente, realizada quase sempre em direção a um objetivo específico, a um fim utilitário, e que quando esse propósito é abandonado em favor do movimento, de como ele acontece, a pessoa inicia o processo de percepção de si, questionando-se sobre o que está sendo revelado pelo movimento. Whitehouse aponta que o despertar da atenção sobre como nos movemos, nos leva a perceber o nosso caráter e nossos hábitos corporais.104

A improvisação no MA é utilizada como forma de aprendizado do ‘deixar acontecer’, em contraste com o ‘fazer acontecer’. Assim como se processa na Imaginação Ativa, onde a pessoa deve dar vazão à fantasia, à imaginação e ao desenrolar livre de um fragmento de sonho ou memória, o mesmo deve acontecer no corpo, onde a própria imaginação vai interferir em como a pessoa expressa seu movimento. Logo, no improviso a pessoa é levada a se mover a partir dessas imagens que emergem na mente, e não deve ser impedida de se

103 Outros exercícios com uso da venda realizados nesta pesquisa estão descritos no Anexo 1. 104 PALLARO, Patrizia, op.cit, p52.

expressar como quiser. A pessoa não deve forçar a se movimentar, ela se movimenta porque algum impulso interno ocorreu, estimulando-a para ação.

A improvisação, associada ao trabalho de imagem, foi largamente utilizada nesta pesquisa. Um dos exercícios consistiu numa improvisação sobre a frase ‘Eu num quarto branco. É assim...’. Individualmente, cada intérprete deveria se imaginar num quarto branco para então realizar um improviso com base na sensação e imagem trazida por essa frase. Em outro improviso proposto, o intérprete, sendo observado pelos outros participantes, deveria comer um pacote de biscoito sozinho da forma que quisesse. Além dessas propostas ainda tivemos a de cada intérprete fazer um improviso mostrando algo que eu (Giselle) nunca tivesse visto ele fazer, ou ainda improvisar sobre algum desejo específico, etc. As propostas de improvisos trazidas buscaram estimular e provocar a auto-observação e o exercício de deixar fluir a imaginação numa tentativa de fazer o intérprete se desapegar de seus julgamentos e condicionamentos.

Whitehouse descreveu o cerne da experiência do movimento como a sensação de se mover e de estar sendo movido: “Idealmente, as sensações acontecem juntas, é um momento da consciência total do que estou fazendo e do que está me acontecendo”.105 Dizia ser perceptível quando o movimento realizado não estava vinculado a algum tipo de impulso interno consciente, tornando-o gratuito e vazio. Defendia a idéia que qualquer mudança na pessoa (física ou psicológica) só poderia ocorrer, primeiramente, por meio da atenção e consciência da condição atual dessa pessoa e, então, dos possíveis significados dessa condição.106 Sua preocupação estava em integrar as intenções ao gesto, buscar a conexão do impulso interno com a manifestação deste impulso no corpo, fazer da experiência do movimento o caminho para o autoconhecimento. Sua técnica incentivou o desenvolvimento da consciência sinestésica.107

O MA enfatiza a importância de se trabalhar no momento presente, sem planejamentos, expondo-se para as experiências sem se proteger e se apoiar nas situações

105 Idem, p43.

106 Idem, p34.

107 A palavra sinestesia relaciona-se com a psicologia e refere-se à ‘relação subjetiva que se estabelece

espontaneamente entre uma percepção e outra que pertença ao domínio de um sentido diferente (exemplo: um perfume que evoca uma cor, um som que evoca uma imagem)’. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda.

externas ao próprio corpo. A presença corporal é vivenciada pela consciência profunda de ser e estar. Por isso, o Movimento Autêntico também é utilizado como prática meditativa e espiritual, pois pode gerar um estado de presença total do ser.

Nesta pesquisa, o MA foi utilizado como inspiração inicial para o desenvolvimento de vários outros exercícios, visando a aplicação desses no processo criativo em dança. Muitas vezes utilizamos apenas o elemento de vendar os olhos sem a preocupação de provocar o surgimento de alguma imagem, lembrança de sonho ou situação como estímulo para o movimento ou ações corporais. Manter os olhos vendados por 20 minutos, com o comando de se fazer o que se tem vontade, já era um estímulo bastante provocador para o intérprete. Realizado dessa forma, o exercício pareceu proporcionar uma percepção sensória acentuada do corpo. Além disso, durante todo o processo de investigação e experimentação dos exercícios e improvisos, buscou-se uma atmosfera de concentração profunda e atenta, propiciada por esta técnica. Os princípios do não julgamento, da escuta/espera aberta dentre outros utilizados no MA, foram largamente trabalhados no processo. No final desse capítulo estarei descrevendo sobre esses princípios.

Além da tentativa de provocar o intérprete para o autoquestionamento, sobre como ele estabelece suas relações com os outros e consigo mesmo, era imprescindível estimular também uma compreensão mais aprofundada de seu corpo físico, para um entendimento mais efetivo dessas relações. Deveríamos inicialmente sensibilizar o corpo físico para uma escuta ampliada e consciente, com a atenção voltada para os sistemas corporais (músculos, ossos, articulações, fluidos, órgãos etc), dando ênfase à percepção sensorial. Esse caminho se deu principalmente pelo BMC.