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5. ANALYSE OG DISKUSJON OM KAMPEN FOR ROM, TID OG SPRÅK

5.3. K UNNSKAPSSYNET

5.3.3 Makt og kunnskap

Estamos em constante aprendizado de nossas experiências, e no armazenamento dessas experiências vamos criando padrões de movimento, comportamento, de seleção daquilo que queremos absorver do exterior etc, condicionando nossa percepção, nossa forma de se relacionar com o outro e conosco mesmo. O BMC e o MA propiciam de forma indireta o reconhecimento desses padrões. Um trabalho de conscientização com foco na percepção de padrões de movimento e de comportamento, talvez possa auxiliar no seu transbordamento e transformação. Pensando nessa possibilidade é que outros dois procedimentos também foram aplicados nesta pesquisa. O primeiro, que intitulei como Mental Verbal e Ação (MVA), consiste em mentalizar um movimento imaginado, descrever verbalmente este movimento e posteriormente executá-lo fisicamente. O movimento pode ser imaginado tanto na sua forma finalizada, quanto no caminho que ele percorre, e a pessoa deve estar atenta ao detalhamento das quatro etapas do exercício: imaginar, mentalizar, verbalizar e executar.

O MVA propõe estimular uma percepção mais apurada do corpo físico em movimento, na medida que ele facilita o contato com os condicionamentos corporais e o reconhecimento do padrão de movimento da pessoa de forma mais direta. Segundo relatos dos participantes, a pessoa que realiza o exercício percebe quando o corpo se movimenta sem que o comando desta ação tenha passado pela etapa consciente da imaginação e mentalização. Ela chega ao entendimento do quanto não possui consciência nem controle sobre as ações corporais, e como essas ações são resultados de hábitos de movimento que adquirimos. Alessandro Brandão, participante da pesquisa, nos fala que

A sensação da conscientização do movimento vinha de maneira muito calma e às vezes irritada, os exercícios de pensar, dizer e fazer me causavam uma irritação enorme, pois eu quase não consegui dominar a minha ansiedade. Mas com a experimentação diária isso foi passando.

O MVA busca estimular a atenção para ‘o que’ a pessoa está realizando fisicamente com o corpo, e ‘como’ ela realiza, fazendo-a perceber mais atentamente sobre os condicionamentos do corpo e do movimento, bem como sobre a qualidade da imagem mentalizada e da verbalização do movimento na interferência da qualidade de execução desse.

O segundo procedimento foi a Associação Livre (AL) de Idéias ou Palavras, técnica utilizada por Freud em seu método de interpretação dos sonhos. AL consiste em descrever verbalmente ou escrever palavras sobre determinado assunto, fazendo associação livre entre elas, como numa colagem de imagens soltas que lhe vêm à mente por associação. 123 A pessoa

deve inicialmente adotar uma atitude imparcial, e renunciar qualquer juízo crítico em relação ao que percebe e verbaliza se colocando na posição de observadora de si. Ela verbaliza ou escreve aquilo que lhe vem à cabeça, numa escrita automática, sem dar tempo para o pensamento racional se formular.

O uso da AL também está vinculado aos métodos de colagem utilizados, por exemplo, nas artes plásticas na escrita surrealista, no cinema, em performances e também no teatro. A colagem, segundo Renato Cohen, caracteriza uma linguagem que em seu processo de criação faz uso da “justaposição e colagem de imagens não originalmente próximas, obtidas através da seleção e picagem de imagens encontradas, ao acaso, em diversas fontes”,124 método semelhante aos processos de AL de Freud. Cohen nos coloca ainda que pelo processo da livre associação a “colagem na performance resgata, dessa forma, no ato de criação,.[...] sua intenção mais primitiva, mais fluida, advinda dos conflitos inconscientes e não da instância consciente crivada de barreiras do superego”.125

O exercício da Associação Livre parece descolar o sujeito da sua lógica de pensamento deliberada e intencional, jogando-o numa possibilidade de lógica aleatória, sem uma ordem definida. As idéias podem fluir sem a tentativa de se moldar a um raciocínio específico, causando no sujeito um estranhamento em relação à construção de sua lógica mental, pois mesmo não possuindo uma lógica coerente imediata, algum tipo de lógica vai se estabelecendo pelas conexões da aleatoriedade e pela interpretação que se tem delas. O exercício parece revelar outro regime do pensamento, que não se apóia numa lógica concreta, mas parte da fragmentação desorganizada do pensar e de conteúdos que ainda não foram estimulados a se expressar. Uma outra regra vai se construindo, delineando um outro lado do sujeito, até então desconhecido por ele. A AL promove um encontro de imagens fragmentadas suscitando uma releitura mais subliminar e menos racional do universo da pessoa. Esta,

123 FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira com

comentários e notas de James Strachey. Trad. Jayme Salomão.Rio de Janeiro: Imago, 1987, p123.

124 COHEN, Renato. Performance como Linguagem. 2ªed. São Paulo: Perspectiva, 2004, p62.

enquanto inserida no processo de estruturação da colagem, “não é um fim em si mesma, mas incita a desmembramentos infinitos, que são as possibilidades de reter o mundo”.126

Tanto o MVA quanto a AL também foram realizados em duplas, onde um observa o outro realizando a tarefa, e em seguida os dois conversam sobre a experiência vivenciada. Inicialmente, com a aplicação desses dois exercícios intencionou-se estimular o intérprete para o reconhecimento de suas estruturas condicionadas de pensamento e de movimento, e de como se dava a influência dessas estruturas na qualidade expressiva do movimento. O MVA e a AL associados à Imaginação Ativa permitem, de certa forma, estar trazendo esta situação. Além disso, os exercícios promovem um distanciamento afetivo do sujeito em relação a si, que passa a assumir um estado de espírito diferente do sujeito que está refletindo, sem envolvimento emocional, na medida em que trata as situações como observador. Colocando- se como observadora da situação a pessoa parece aliviar a tensão gerada pelo processo de refletir sobre determinada situação. Segundo nos fala Freud

o estado de espírito de um homem que esteja refletindo é inteiramente diferente do de um homem que esteja observando seus próprios processos psíquicos. Na reflexão, há em funcionamento uma atividade psíquica a mais do que na mais atenta auto-observação e isso é demonstrado, entre outras coisas, pelos olhares tensos e o cenho franzido da pessoa que esteja acompanhando suas reflexões, em contraste com a expressão repousada de um auto-observador.127

Com essas técnicas buscou-se atenção às conexões entre a forma de estruturar o pensamento e o processo de investigação do movimento. Levar o intérprete a reconhecer seus padrões de pensamento em consonância com os padrões de movimento talvez fosse um caminho para o entendimento dos mecanismos do pensamento e do movimento próprios, facilitando uma atualização desses, no sentido de ampliar as possibilidades expressivas e/ou criativas.

A aplicação da técnica MA e dos exercícios MVA e AL se deu por improvisação, onde a partir do reconhecimento do padrão de movimento e pensamento almejou-se ampliar o vocabulário corporal reatualizando e reorganizando esses padrões para novas possibilidades de realização da ação cênica, tanto do movimento corporal como dos caminhos criativos para

126 Idem, p64.

desenvolvimento das ações. Segundo Helena Katz a improvisação ambiciona “a quebra das cadeias habituais” do movimento, no sentido de “desarticular aquilo que estava estabelecido como formas de conexão habitual no corpo”.128 Dessa forma a improvisação abre o campo

para a experiência das possibilidades, incluindo a possibilidade da desconstrução e reorganização.

O uso dessas técnicas e exercícios objetivou interferir na racionalidade do intérprete, revelando a ele seus condicionamentos corporais e do pensamento, na tentativa então, de levá- lo à compreensão de como cria obstáculos a si mesmo, sejam físicos ou emocionais. A partir do reconhecimento e da compreensão dos condicionamentos e dos padrões pode se abrir uma possibilidade para a investigação da expressividade corporal, trazendo à consciência o conhecimento dos mecanismos dessa expressividade, e como esta compreensão pode ter influências na construção do pensamento, de como se estrutura o pensamento, provocando questionamentos em relação a automatismos, forma de perceber, regras, limites, obstáculos que o intérprete estabelece para si no exercício de criação e interpretação. Podemos observar esse processo, quando Márcia Lusalva, outra participante da pesquisa, nos fala de sua experiência com as técnicas e exercícios:

O processo é isso. O querer saber, a inquietude da pergunta. O processo não é a resposta, no processo não se encontram as certezas, o processo são as questões levantadas. Na verdade nada desaparece nem os padrões, nem os julgamentos. A diferença é que você pode percebê-los e deixar que eles ocupem o espaço que lhes é devido. E se dando conta deles (padrões e características) se percebe também a diversidade de possibilidades e se ampliam os caminhos de criação.

128 KATZ, Helena, O coreógrafo como DJ. In: PEREIRA, Roberto; SOTER, Silvia (org). Lições de dança 1.

Figura 3 - Márcia Lusalva - improviso da frase ‘Eu num quarto branco. É assim...’, realizado após exercício da IA e AL129

Podemos observar que essas técnicas e exercícios apresentados aqui contêm princípios fundamentais que as definem, e que se tornaram os pilares desta pesquisa. A seguir abordaremos mais detalhadamente sobre cada princípio e sua importância para esta pesquisa. No Capitulo 3 falaremos de como o processo criativo foi conduzido e orientado por meio desses princípios.