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5.4 The role of small firms in cluster evolution – the dynamic view
A prática comunicativa, o ato de fala ou, se vamos nos ater a uma linguagem teórica mais leal ao corpo de debates desta tese, o ritual discursivo, incorpora, em suas facetas, uma gama de curiosidades para as ciências sociais. Se vista de perto, a história das disciplinas que compõem a área reverberam em um conjunto sólido de tentativas de compreender a realidade social por meio do texto. Desde a fundação de suas inquietações mais básicas, a sociologia fez uso do texto, do material relatado, como instrumento de sua reflexão básica. E se é possível alegar que Marx ou Durkheim beberam de
estudos estatísticos e exames de movimentações econômicas para além da textualidade, é ainda mais prático afirmar que os documentos escritos constituíram a espinha dorsal de suas formas de apropriação e redefinição de seus objetos. A narrativa estava lá, nas etnografias consultadas pelo segundo ou nas longas listas de historiografia movimentadas pelo primeiro. O texto permitiu conceber um sentido de unidade e um começo metodológico para a produção de um saber que buscava concretizar a experiência do abstrato.
Mas este apontamento não é simplesmente instrumento de justificativa ou de legitimação do presente trabalho: ele revive uma historicidade das reflexões sobre nossos modos de lidar com o histórico, por meio do relato e, construir, a partir daí, uma postura de atualização sobre o dito anterior, sobre seu eventual tom sacro em superação. É como se, ao manter-se sempre direcionado a uma ruptura com sua fundação, o saber sociológico buscasse uma significação nova para o ato de contar a história.
No Ceará, porque também no Brasil, o passado e sua existência tem permanecido fragmentado graças a uma realidade de instituições históricas (e historiográficas) fragilizadas: sua responsabilidade de memorial é partilhada com esforços privados (como o Instituto do Ceará) e por meio do corpo de universidades em suas limitações de estrutura. Nosso mecanismo público de registro, preservação e, sobretudo, difusão do passado e dos processos é representado por uma história entrecortada de museus colocados em segundo plano, deixados como entretenimento secundário31. E se é verdade que tal sistema existe e persiste em estados como Rio de Janeiro ou São Paulo (não sem dificuldades) ou ainda (para citar o Nordeste) em Pernambuco ou Bahia, é perceptível também que o Ceará não acompanha os mesmos passos de produção de um aparelho de história. Nossa tradição intelectual não é desprezada pelo pensamento social brasileiro: José de Alencar, Araripe Júnior, Capistrano de Abreu e Tomás Pompeu são apenas alguns dos nomes clássicos que permeiam o imaginário da intelligentsia. Contudo, sem deixar de lembrar o vínculo desses nomes com o Sudeste, mas sem pressupor que isso seria o único elemento causal de sua notoriedade, é importante que
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“Mal cuidados, museus “escondem” história do Ceará””, Jornal O Povo, 15/09/2013. Disponível em
http://www.opovo.com.br/app/opovo/cotidiano/2013/09/14/noticiasjornalcotidiano,3129508/mal- cuidados-museus-escondem-historia-do-ceara.shtml
destaquemos as desestruturações (ou não-estruturações) dessa aparelhagem como indício do significado das posições do Estado diante da prática de comunicar. E, se o leitor percebeu que estão misturados aqui historiadores formais e ficcionistas, é porque essa mesma aparelhagem cultural, nos termos trabalhados neste estudo, tem vínculos, antes de mais nada, com os exercícios intelectuais que reveem passado e promessa de futuro como imaginários: reais ou não os discursos parecem ter o poder de sedimentar seus conteúdos criando formas que são, ironicamente, reprodutoras do não-dito e confirmadoras de seu poder. Em outras palavras, a condição histórica do Ceará, no tratamento da comunicação do passado ou da referência ao presente, tem como elo de ligação a política imaginante (que produz fatos) e seu caráter de universalização por meio da definição pela fala e da definição pelo silêncio (da fala quando um documento oficial, um boato sobre a oposição, uma crítica ao governo federal ou um elogio ao mesmo; do silêncio quando uma negativa em falar dos limites do que é realizado, quando da negativa de debater politicamente ações públicas ou quando assume decisões de gestão à revelia de movimentos sociais organizados).
No século XIX, com as sucessivas crises econômicas e as alternadas tentativas de fundar uma industrialização precária, o Ceará produziu um sistema de dominação que aturdia a prática comunicativa. A imprensa, representada por iniciativas empresariais ou por grupos operários (para citar apenas duas faces) existia como mesa de discussão tímida (graças aos poderes constituídos) ou limitada (pelo grau de analfabetismo regional). Nesse vácuo de fala pública, de fórum discursivo impresso, o discurso migrava para a praça, para uma existência de embate que, quando muito, levou, já no século seguinte, a destituição de Nogueira Acioly. Foi esse o cenário no qual amadureceu um coronelismo sem necessidade de voz, onde o controle político não tinha como precedente ou base uma legitimação intelectual de grande forma.
O fim dos anos, 1920 já recortados pelas novas disputas no seio da República e das forças que um dia criarão o Estado Novo, assistiam a uma emergência midiática diferente.O jornal O Povo, movimentado intelectuais contrários ás elites agrárias demarcadas, representa esse novo momento. Não se trata de negar a influência histórica de jornais também críticos como Ceará
Socialista,A Voz do Graphico e O Combate, mas de atestar a antiguidade de
um meio de comunicação e de pensar sua fundação como parte da fundação de um cenário. Um cenário elaborado em torno do redimensionamento do campo de escrita e de leitura, avivados pela emergência de uma burguesia em desenvolvimento. Pensando desse modo, nos atemos ao sentido de uma nova configuração de escritores-leitores, de um sistema de comunicados e consumo de notícias.
As transformações das décadas seguintes, após os anos 1930, agravarão a realidade desses sistema de escrita e dividirão, aos poucos e de maneira tímida, o poder de debate político. Ainda que com o advento do rádio e, mais tardiamente, o da TV, o cenário de impressos cearenses é um caminho necessário para compreender a transição de uma fragmentação e efemeridade dos discursos públicos falados para a produção de uma memória discursiva mais permanente – mesmo que tal permanência seja vaga, dados os limites técnicos da preservação e da já mencionada cultura museógrafa rarefeita no estado. Em cinquenta anos, os movimentos de estruturação desses mecanismos caminhara a passo lentos, administrados pela emergência e aparição de uma industrialização real e pela urbanização dela decorrente. O Ceará – mais precisamente Fortaleza, assistiria uma mudança no modelo de reporte e publicização dos acontecimentos, direcionado para o consumo de notícias e para o embate discursivo mais aparelhado – com participações de leitores em seções de periódicos e com a difusão de espaços de opinião dentro dos mesmos. Ali, pontuados personagens da sociedade civil passaram a compor uma mesa de falas e proposições, trazendo pautas e convocando reflexões em meio a quadros sempre mais espaçosos de fatos narrados sem autor.
É possível dizer que a prática de historicizar e remontar passado e presente tenha acompanhado o conjunto de mudanças técnicas como consequência das novas demandas de consumo informativo? A resposta para essa pergunta é uma armadilha: de um lado, o determinismo limitado da atribuição material a todo universo de mudanças nos ritos da prática; do outro o extremo oposto da reusa em reconhecer as relações entre o inventado e o curso social de opções de invenção. Em terceiro lugar, a posição ambígua: a tentativa de síntese que afirmaria que a força da produção comunicativa no
Brasil e no Ceará estavam entrelaçadas com a especificidade técnica, induzindo, em contrapartida, inovações a cada nova demanda simbólica (assim, o impresso, o rádio e a TV não apenas teriam influenciado a criação de espaços de fala e contação, como também teriam sido gerados e estimulados pelas contínuas buscas por alcance e resposta do rito de reportar e relembrar). Talvez o corte necessário a essa análise nos leve para um passo de quebra menos apaziguador ao reconhecer e defender que os sistemas simbólicos de comunicação, pelo menos no Ceará, articularam-se com um mercado de forças políticas muito mais do que com um capitalismo modernizador. Entre os anos 1880 e 1920, a Belle Époque configurou espaços fechados para o discurso (com a necessidade de letramento, apenas as elites compunham das armas práticas e simbólicas para participar efetivamente dos debates da política, mesmo quando esses eram orais e presenciais). A raridade dos movimentos sociais no começo do século XX atesta uma condição de dominação e hegemonia dos proprietários de terra e de seus representantes. Entre os anos 1920 e 1960 a lenta conversão do mundo urbano cearense atraiu novas iniciativas de imprensa e consolidou algumas das bases de um palco de falas. Ainda assim, temos aqui um labirinto de desenvolvimentos parciais quando o assunto é a ampliação da esfera pública da comunicação política. Nas décadas do regime militar veremos uma digressão a mais, representada pelo controle dos meios de comunicação e da presença de vigilância intelectual mesmo no ambiente universitário. Por fim, a emergência da modernização industrial (ainda nos 1970, mais sobretudo após o fim da Ditadura) arejou a comunicação, levando ao patamar de negócio. Os grupos políticos ligados a Tasso Jereissati, carregando a promessa de transformação estrutural, cuidaram também de erigir um sistema de comunicação privado que aplicou-se ao tom dos mercados do sudeste brasileiro. Esse capítulo recente nos devolve à questão inicial: o cenário comunicativo, especialmente em sua faceta massiva, migrou através das elites centralizadoras, negando, inúmeras vezes, o sentido de mudança competitiva que a mídia traçou nos grandes centros econômicos. Nossa comunicação dependeu de fatores materiais e criações contextuais, mas o fez dentro dos limites de um poder político constantemente nuclear e familiar. Em outros termos: o cenário de nossa historização não pode ser compreendido
fora do campo de articulações simbólico-materiais que a própria política instaura, reforça e verbaliza.
A cada nova formação ou figuração de eventos e contextos o sentido de contar histórias ganhou elos e novas extensões sem, contudo, abandonar sua formulação privada e de gestão do saber (e as condições pensadas até aqui, no quadro da comunicação de imprensa, não nega a existência de outras – como o ambiente intelectual já mencionado ou ainda o difuso universo das comunicações do cotidiano, difíceis de serem apreendidas em qualquer pretensão de totalidade).