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4.3 Evolution of high-tech industries in Oslo 23
Para os fins deste trabalho o feito é um conceito que aponta para as ações descritas e evidenciadas pelo Executivo como importantes intervenções na realidade social e em seus problemas imediatos – é, desse modo, a transcrição simbólica de uma ação politicamente dotada de valor presumido. No sentido das ações noticiadas do Estado, ele ganha sentido como diálogo e anteparo de uma imagem de planejamento, porque registra ações interventivas que tem algum custo de organização e execução. O feito, portanto, reescreve a dinâmica da intimidade estatal – uma intimidade que enfim é sigilo, característica histórica dos governos. Ele é como uma forma de exposição e contabilidade de sua racionalidade: cada ação, cada mudança praticada pelo Executivo é um eco de sua capacidade de fazer, de sua organicidade e potencial de estruturar os recursos públicos na forma de realizações úteis. Ainda assim, os feitos não explicam-se, meramente como descritores de ações isoladas (como abertura de postos de saúde) ou de um conjunto de coordenações prévias (como programas de crédito agrário): eles visam atestar a personagem-Estado, sua dinâmica de interlocução prática, seu reinado de ação e possibilidades de ação – como já dissemos, como uma espécie de currículo-vitrine.
Na notícia acima, o texto é acompanhado por uma imagem aparentemente sem relação. Mas economia e qualidade de vida são colocadas
sob um mesmo prisma: a criança, demarcada em um lugar de lazer, como garantia de uma sociedade que alcança estas metas. As notícias observadas ao longo desta pesquisa, instrumentalizam modelos e ideações diversas, mas algumas destacam-se.
Por exemplo, o padrão de reificação da tecnologia e de seus impactos. O tecnológico é uma coisa, uma estrutura, uma operação, uma benfeitoria. O acesso a bens de produção, a infraestruturas e a sistemas de financiamento atrela uma cadeia de recursos capazes de transpor as dificuldades temporais das populações em tese atendidas. Mas junto a isso, a esta esforçada produção de sistemas de atendimento propalados, declarados, a notícia preenche de silêncio os diálogos de aprovação e reprovação, o sentido de resposta dos sujeitos afetados pelos feitos. As falas desses sujeitos desaparecem ou aparecem raramente. Imbuída de um mecanismo de validação por meio da aura da práxis, de utilidade, a informação mantém vazias as locuções de reação (ou seja, o lugar simbólico e textual no qual os demais sujeitos, que não os agentes estatais, emitiriam juízos sobre o que acontece).
A expropriação da fala que é parte do mecanismo da notícia é parte do quê? Quais os elementos que os textos mostram e que apontam, de algum modo, o contato com essas zonas de silêncio? A resposta mais pontual e direta para isso, advinda de um exame do discurso como fenômeno há muito observado pela Teoria Social, remete a um exame das noções de autor e da máxima anulação de sua existência no plano da socialização: a desautorização a qual somos remetidos ao nos deparar com o mundo do não-dito ou do dito sem validade. Desautorização que é, justamente, essa negação da autoria e não só da autoridade.
A construção de cada um dos métodos de visualização (desde a notícia até a referência das ações públicas) passa pela já mencionada autoria institucional: a secretaria pode estabelecer-se a autoria do texto (e não apenas do feito). Da mesma forma, personagens centrais são convocados e nomeados no sentido de validação e valorização do executado ou daquilo que será realizado. Mais de uma vez, indivíduos isolados ou representantes de grupos sociais afetados surgem com falas complementares e validadoras. Nesse mesmo caminho, contudo, o passo no qual a totalidade dos sujeitos afetados
pelas intervenções estatais desaparecem no corpo dos textos informativos está marcado aqui, na consideração de seleções práticas de conteúdo.
Tais seleções, incorporadas como registros tipicamente parciais e recortados classificam as notícias como janelas de conteúdo mantidas pela plena adesão – como se todos concordassem com o dito ou narrado. Em outras palavras, o modelo de desautorização (que nesse caso ganha um significado de negação de autores) dá ao texto informativo um caráter de substância objetificada e, assim, inquestionável. Não há, no diálogo do texto, rejeição alguma, questionamento algum, retomada alguma. Trata-se, sobretudo de uma petrificação contínua do ocorrido ou do projeto, isolado, no limite do discurso, como uma inspeção vaga sobre aquilo sobre o qual se fala; uma vigilância falsa, mas ainda assim registrada, sobre o poder inerente de uma ocorrência cujas testemunhas escassas reforçam a verdade do dito justamente por serem escassas.
A notícia remete aqui a uma autoria vaga, mas dotada de personagens que, no texto, desempenham todos os papéis, menos o de autores do
comunicado. Eles são externos e isentos, no que ela busca provocar, ainda
que dotados de lugar e sentido: “a iniciativa demonstra a preocupação do Governo Estadual”.
As teorias de formação apontam para os conflitos latentes na formação do Estado interventor – sem deixar a centralidade da história colonial de lado (HOLANDA, 1999) e o longo trajeto do patrimonialismo a ela associado. Assim, a expressão do planejamento estatal, como prática específica da modernização e racionalização instituídas com o século XVIII, estabelece o progresso e a lógica da organização social como fundamentos da existência dos órgãos diversos, de uma divisão do trabalho público voltada para a centralização. No caso brasileiro, a dinâmica de apoio dos grupos sociais mercantes e das classes lucrativas (FAORO, 2001) impõe um modelo de burocracia conservadora que fará do poder público uma força de contenção e um aparato anti-liberal duradouro. Essa contradição fundamental, que não funciona como unanimidade interpretativa – já que existirão leituras que ligarão o liberalismo à americana ao desenvolvimento do corpo de funcionários e do Estado como apoiador daquele – serve-nos para examinar uma fenda da história estatal. Essa fenda, essa lacuna diversamente abordada, é a origem do racionalismo como instrumental da máquina em meio às transformações práticas do mercado, da produção, da circulação de bens e recursos e das forças produtivas em seu aspecto pleno. Assim, mesmo sabendo da pluralidade interpretativa do tópico, ligo-me a esta vertente para observar o passado circunscrito que ela examina.
Para Faoro (idem, ibidem), nosso Estado e seu corpo burocrático emergem, ainda no período colonial, como locais de poder contínuos e duradouros, funcionando não apenas como provedor das condições de avanço da economia mercante, mas também como lugar de oposição a inovações e à ascensão da economia liberal como um todo. Tal resistência criava-se por meio de um sistema de favores, cargos, empregos, pensões e centralizações legais, que estimulavam a dependência de grupos sociais enriquecidos pelo comércio
internacional, assim como pela escravidão e por modos arcaicos de gestão da produção.
A manutenção dessa centralidade gestora estava ligada não apenas a relação pragmática e dependente entre colônia e metrópole: dava sustentáculo à uma cultura da segmentação do poder que era uma cultura de aliados – dito de outro modo: ali estavam as bases de um clientelismo antigo, reforçado pela porosidade entre o público e o privado escolhido pela Coroa.
Com o passar dos séculos e a garantia da independência política, o Brasil assistiria a sequência e herança desse modelo – aparado e ressignificado no decurso de outras forças e tendências. O século XX, produzido como eco de um republicanismo frágil, fará do planejamento uma retomada das forças conservadoras e liberais antes em disputa. Assim, cento e trinta anos depois da chegada de D. João VI, o Estado Novo incutirá uma relação de racionalidade renovada: invertendo a lógica da prioridade e dando margem para a entrada no liberalismo relativo, ainda que apadrinhando pelo Estado-criador, pelo Estado-estruturador (CARVALHO, 2004).
Entre a Era Vargas e as primeiras estruturações do Plano de Metas, no fim dos anos 1950, os ritmos do planejamento mudaram: consolidação do mercado interno, reforço das estruturas cambiais e uma política de infraestrutura capaz de atrair investimentos estrangeiros são o espelho de um projeto modernizador em termos brasileiros.
O histórico de exposição estatal no Ceará remete a uma dinâmica de publicações recentes, voltadas sempre a instauração de uma imagem das gestões que as organizaram. De forma simplista é possível dizer que a centralidade do markenting político, redescoberto nos termos modernos na “Era Tasso”, não é suficiente para explicar esse continuum: a operação da auto- imagem pública no Ceará precisará, com o passar das décadas de 1990 e 2000, de recursos técnicos que apenas a última cuidou de fornecer efetivamente, na forma da difusão da Internet. Não porque a TV já desempenhasse essa força, mas porque as novas ferramentas de rede imprimiram acessos mais duradouros e de caráter imediato a ação de apresentar.
Como dito antes, para os fins deste capítulo, a Secretaria do Planejamento do governo Cid é o objeto primário da análise – mais uma vez,
na forma de seu noticiamento. Ela representa, oficialmente, o braço organizador da gestão, assumindo publicamente esse caráter de coesão, de integração e de ênfase na planificação como identidades institucionais.
Vários aspectos das estratégias de exposição já foram mencionados no capítulo anterior. Cabe-nos aqui pensar um pouco mais sobre alguns deles e descobrir, sob sua superfície, a existência de outros. O primeiro crivo, nesse sentido, não poderia deixar de ser a auto-imagem estatal na produção de seus
elencos, as personas comunicadas que desempenham o papel de referenciar
os feitos, liga-los a gestão ou personalizar, sob determinadas regras, a ação estatal como ação governamental,
Novamente, a figura do governador é a primeira a ser mencionada. É a primeira porque, da forma como é representada no conjunto de materiais, ele destaca-se como uma “raridade valorizada”, aparecendo, curiosamente, pouco nas narrativas (no contexto, vale lembrar, das notícias da SEPLAG). Quando surge, surge como uma fala que quer determinar o valor do informe. Sua citação é um movimento de afirmação que fecha o conteúdo básico do comentário, dando apenas espaços para adendos. A fala aparece, portanto, como agregador dos temas e como palavra de encerramento. A confirmação do personagem-de-governo é posta, ainda que outros elementos distraiam sua
produção (a foto descontraída, a menção a outras figuras antes de qualquer referência ao mesmo).
Junto ao governador está o próprio Governo. Como já mencionamos (no capítulo anterior), ele é invocado em momentos de despersonalização da máquina e da gestão, fazendo às vezes de Estado sem rosto. A Secretaria é alocada como sua representante, mas ainda de modo a manter o tom institucional da cena.
O governo é o executor das mudanças, mas ainda é o personagem provedor das racionalidades, das acelerações e dos atendimentos de prazo. Ele configura-se como um agente de uma inteligência social, que participa, junto com organismos internacionais (como o Banco Mundial), nacionais (como a SUDENE) ou locais (como a Assembleia) de projetos integrados, enfatizando sua integração nos comunicados. Como antes, os números, o valor, a dimensão dos acordos e a máxima amplitude dos mesmos por meio de dados e comparações cria vínculos entre a máquina sem face e a ideia de eficiência e abrangência relacionada ao quantitativo.
A SEPLAG tem o papel enfatizado, o que remonta a outra característica recorrente: o tratamento da auto-imagem setorial. Mas, junto a isso, a percepção, no caso da SEPLAG, de seu papel de centralização tecnológica – demarcação de um campo simbólico sobre a qual a secretaria atua, como um tipo de inteligência ou racionalidade a que todo símbolo presumido de
racionalização se conecta. O que nos leva ás notícias que movimentam o espírito do “tecnológico”:
A validação tecnológica, junta a invocação do governo federal como agente de apoio e garantia dos informes. O retorno de convocação de personagens icônicos, que reforcem o valor-do-feito, também está presente.
Cabe uma reflexão sobre esse retorno, no caso do planejamento. As figuras-chave surgem aqui como uma exposição da multiplicidade de relações entre poderes e instâncias, tornando o conteúdo um eixo, um nexo de seriedade a se presumir. Nesse sentido, a política é relembrada como vínculo entre forças e representações, ainda que em um simbolismo pontual, desprovido de continuidade ou desprovido ainda de referência à sociedade civil. A política das personalidades emerge como mapa da figuração necessária – dos agentes necessários para enfatizar a pluralidade de participações e aceites oficiais no tema abordado.
O tópico é expandido quando a relação entre planejamento e ciência entram na pauta de temas da Secretaria. O tom de desenvolvimento da ideia de que este é um assunto que cabe à SEPLAG, na medida de seu papel na compreensão da economia aparece e reaparece nos momentos de descrição da participação do governo em espaços também plurais (onde outras instituições, internas ou externas ao Executivo, estão presentes).