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6 Cluster Evolution and Policy

6.2 The role of policy in cluster evolution

O trabalho aqui produzido é, propositalmente, marcado também pelo “ensaísmo”, se por ensaísmo entendermos, o leitor e eu, a contínua observação dos diálogos e contradiálogos teóricos que o campo da sociologia política fecunda, explora e articula ao abordar temas como Estado, desenvolvimento e público. É uma visão do panorama histórico de um grande número de ideias e propensões; de disposições e práticas discursivas que guiam a ordem das falas e das estruturas de fala no que podemos chamar de modernidade. Falando sempre de e por meio da mecânica complexa do discurso sobre a “totalidade”, avanço no sentido de desnaturalizar nosso próprio exercício de minimização da amplitude das falas abertas – falas que se referem a muitas coisas, indo além de campos empíricos com limites claros. Exercício nosso, de cientistas sociais, cada vez mais propensos a entender a realidade dentro da esfera de nossos empirismos legitimadores e de nossos campos onde dominamos ou pensamos dominar as perícias do vivido pós- pesquisa. Compreendo e defendo que é assim, na contracorrente de nossas epistemologias do profundo, que insisto na arqueologia das falas amplas, classificadas em seus vazios ou em suas limitações. É uma aventura contrária: tomar o discurso sobre o todo como parte a ser analisada e como parte que analisa. Tarefa árdua também da sociologia do conhecimento: captar as variações e os ruídos que as afirmações do poder (vazadas ou não do saber sociológico) reproduzem no próprio campo de exame filosófico-social onde habitamos, nós,constantes pesquisadores do simbólico.

O desenvolvimento tornou-se uma metáfora planejada. Se ainda não o é planejado nos moldes das vontades e anseios da modernidade dos séculos XVIII e XIX, o é, cada vez mais, como significante, como palavra. Ele representa os anseios não realizados de uma modernidade performática.No estado do Ceará, talvez como amostra do que ocorre no Brasil, essa modernidade atuada, pintada e esculpida como ideia, remonta o desenvolvimento por conta de um longo trajeto de reposições de capitais práticos da política – indo da tradição ao futuro racionalizado das propagandas

de Estado. A era das mudanças, tema tão debatido e clássico para a sociologia cearense, deixou ecos ainda em diálogo: uma sucessão pautada em reacordos entre empresários, classes urbanas e partidos de esquerda. Mas desta vez o quadro traz os silêncios de indefinições que não são locais: a estabilidade econômica pós-plano real e a última década de novos projetos sociais abrangentes e eleitoralmente significativos tem confundido a face das legendas partidárias e de suas auto-imagens. Quais as novas faces da política? Encerrada fora deste ciclo de definições, por sua vez, a sociedade civil encara um sistema perito de produções de conceitos, projetos e definições sobre o Estado e ela mesma. Ainda que partícipe, de várias formas da produção política e ainda que longe de configurar uma personagem amorfa, fica a pergunta sobre sobre real relação com todo um mundo de publicações nem sempre interativas de fato, apesar das expectativas sobre a Internet e a “cibercultura”.

Desde os anos 1980, o Ceará enfrentou uma lógica nova no que toca os usos da política e da imagem. E nesta virada de década, essa herança de estratagemas de sentido e esse imaginário retroalimentado por anos, reapareceu na gestão Cid Gomes como – e já sugerimos isso antes – uma linguagem. Uma linguagem para definir o Estado e uma linguagem para definir o que ele faz e deve fazer – como um sutil (ou nem sempre sutil) manual normativo de condutas imaginárias e executoras.

A proposição clássica (de Lévi-Strauss, mas não apenas dele) de que a política implica em relações culturais muito semelhantes ao universo das mitologias religiosas tem, arrisco-me a dizer, três signos: o poder como centro temático; a criação de uma memória valorativa e positiva, difusa no imaginário comum; e a consolidação de uma espécie de sistema bárdico33, no qual os feitos das personagens centrais são repassados e romantizados em tons

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O bardo ou menestrél era a típica figura medieval das artes nômades e da contação de histórias. Cantor, músico e bobo, ele representou um lugar social de oralidade, tradição e comunicação em épocas nas quais os recursos impressos ainda eram limitados a uma elite eclesiastica. Para os fins desta tese, bárdico é um adjetivo para um ato comunicativo, difusor, mas também simbólico e mítico. É assim que defino essa propriedade da política como mitologia.

diversos, mas, de algum modo, ligados a consagração de um ou mais acontecimentos – quando não de uma Era.

Essa hipótese teórica cria uma necessidade de recursos de observação e o presente trabalho buscou concentrar-se em ferramentas para refletir sobre o terceiro signo acima descrito – um signo de imaginários, de modos de registro, de operação de temas, assuntos e histórias.

A produção social do Estado e do governo – em suas existências como máquina, como poder, como instrumento de inteligência e definição – inquieta as ciências sociais no que elas tem de efetivamente teórico: a pesquisa sobre uma realidade institucional concretiza-se como abstração, porque o Estado é também coisa simbólica. A ideia de legitimidade é um exemplo dessa existência alegórica. O que é legítimo, para todos os sentidos práticos, é um aura de cultura, tradição ou carisma(WEBER, 2004).

Assim, o desfecho temporário de meu exercício de observação começa no entendimento de que os esforços da política cearense tem forte conexão com uma história recente de novas legitimidades. Na micro-história do estado, o desempenho da modernização era parte desse jogo de aprovação interna (para a população local) e externa (para grupos sociais e econômicos, bem como para instituições nacionais e internacionais). Ao longo de trinta anos, o Ceará produziu uma gama de novos signos do que é a máquina pública, do que ela deveria ser – um movimento de produção com doses de um anti- tradicionalismo instituído. Essa formação de ideário atravessou processos eleitorais, mudanças na economia e até mesmo a perda de poder da esfera estadual (com a municipalização do controle dos recursos). Ainda assim, ele inverteu lógicas antigas em certas instâncias e as manteve em outras (como ainda pretendo discutir mais a frente). De qualquer forma, no longo trajeto de recuperação dos sentidos de uma política de redemocratização e “modernização conservadora”, o Ceará foi um palco onde o governo repensou imagem, identidade cultural e composição dos discursos sobre si, enquanto falava de futuro, de progresso, de desenvolvimento. Um desenvolvimento marcado pela necessidade de criar as bases de uma realidade industrial moderna e pautado na consolidação de uma sociedade dotada de aparelhos funcionais para a resolução de “dramas sociais” diversos. É precisamente

nesse acervo de proposições, realizações afirmadas e planificações classificadas que nos deparamos com um panteão de poderes e estratégias que tendem a remarcar a prática cultural em ambientes políticos que giram em torno da ideia do moderno e de suas múltiplas industrializações (materiais, simbólicas e mistas).

É possível dizer, grosso modo, que as alianças entre um empresariado já não tão novo e uma classe urrbana-intelectual que engloba militantes de esquerda, figuras acadêmicas e profissionais liberais de inúmeras esferas contribuiu para a formação de um grupo político que vem, também com posicionamentos e alianças no âmbito federal, conquistar independência prática e imagética do grupo tassista original. Ainda assim, convém pensar que no caso cearense esse processo não vem ocorrendo facilmente ou mecanicamente e o que observamos aqui são alguns dos passos culturais dessa tentativa: um conjunto de ritos e novos mitos, produzidos por novos recursos, devorando velhas formúlas para criar novos personagens, incluindo um novo personagem-governo.

Dessa maneira, a intersecção entre política e comunicação chama a pesquisa para passagens estreitas, uma vez que o turbilhão de conteúdos e formas advindas de um noticiamento massivo, nos coloca diante de uma realidade superpovoada de objetos. Faz sentido, assim, que as considerações últimas do presente trabalho sejam sobre a prática sociológica diante da especificidade desse modelo renovado (e híbrido) de discurso político contemporâneo.

O tratamento do problema de analisar um discurso começa no estatuto da aproximação: o discurso é, nos termos sociológicos básicos, um campo, um lugar de acontecimentos a investigar? Como tratar e estabelecer uma reflexão contínua sobre esse objeto que é, em primeira instância, imaterial, não- palpável, distante de qualquer vivência imediata, esquivo ao diálogo (porque é afirmativo), imune à seduções ou subornos da imagem do pesquisador real?

Retorno ao problema inicial para desnudar suas consequências. Para todos (ou quase todos) os efeitos, fiz uso da compreensão de que as ciências sociais tratam do discurso e, mais precisamente, do texto, desde sua fundação. As pesquisas clássicas e as deduções a que elas levaram tinham como

materiais básicos o texto (ainda que o texto de pesquisa, ainda que o texto historiográfico, ainda que o texto etnográfico, lidavam com a produção característica do texto feito por outros). Somado a isso, a sociologia comunicativa, impressa nos trabalhos documentais de Norbert Elias (1994ª, 1994b, 1998, 2006) e a arqueologia de imaginários de Michel Foucault (1999, 2001) estabeleceram um par de ferramentas que, como apresentado antes, criou em mim o entendimento da vida social do discurso e da expressão escrita. Em suma, uni, para os propósitos de uma epistemologia necessária, os subsídios para o tratamento de um objeto usual, mas pensado sempre como pouco usual.

Esse objeto, cuja encarnação presente é, de fato, a notícia, carrega graves contornos de código. Lidar com esses códigos a partir de fora, de fora de seu mundo de regras e produção, buscando entender justamente essa externalidade, essa visão de quem não tem acesso aos meandros da produção do dito, assume ares de uma cartografia da publicidade política – com todas as limitações que uma cartografia assim possui, espécie de navegação de cabotagem34 que é.

Lidar com o noticiamento estatal, é assumir, além dos obstáculos da imaterialidade do texto, as complicações de um sistema de produção de signos fechado, perito, administrado e validado na medida mesma de um afastamento do público leitor (porque o segredo é a base de todo recalque da arbitrariedade das verdades sociais, como sugere Bourdieu [1996]). Aliás, o estatuto de segredo do Estado, o estatuto de apartação dos meios de produção do que se faz dentro dele, constitui, em si, outro paralelo desses desafios de construção do objeto e de operação do mesmo.

Mas voltemos por um instante a noção de vida social do texto. Ela é importante – e aqui defendo sua importância – porque ela está dotada, pelo que percebo, de um sentido de relação. Ela é a relação que é produzida entre textos, para a fabricação de definições sobre o mundo. Os textos conversam entre si e isso é mais do que uma referência à língua, nos termos de Saussure (2006). Isto indica uma proximidade do objeto por excelência de uma sociologia

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Navegação próxima à costa. A metáfora se refere a uma visão que nem vislumbra os interiores da terra, nem os limites do alto mar.

do conhecimento: as condições nas quais ideias são estabelecidas artesanalmente, em longos períodos de tempo. Não é uma questão de generalização afável, que atribui a todo conjunto de textos esse poder. Aqui, procurei examinar uma série de formas de expressão política e acabei me deparando com um possível meio de produção da definição.

Por que “possível”? Por que o discurso político engendra-se no tempo e nas respostas. A presente pesquisa foi atrelada a entender parte do processo de instauração dessa relação, mas seu fim precisa ser um objeto seguinte (um estudo de recepção, um conjunto prático de buscas pelas consequências das notícias). Ainda assim, julgo possível afirmar que os desenhos de uma lógica produzida para definir, para ditar o que é o Estado e qual é seu papel, pode ser sentida nessa família de textos.

A notícia,em seu universo de segredos, de lacunas, de informações protegidas por seu valor político ou material, é uma porosidade decidida (no sentido de uma contenção do que deve ou não passar) – ainda que não seja possível falar, a partir daqui, de um amplo quadro conspiratório que racionaliza

toda a informação. No máximo, é possível deduzir a intencionalidade em

racionalizar e criar padrões informativos; é possível conceber que o noticiamento estatal não é o produto desconexo de informações diversas. Há padrões na publicação dos informes, como vimos. E, se os padrões não são suficientes para observar essa intencionalidade, penso que o esforço público do Executivo cearense em acessar uma maior gama de canais modernos, nos últimos quatro anos, seja um reforço à tal tese.

De que tese, afinal, estamos falando? Se no primeiro momento chamo a atenção para essa relevância sociológica do texto (em uma insistência quase militante da necessidade de incorporar métodos e escopos à sociologia que tento realizar) é porque me aproximo da descrição dos elementos fundamentais defendidos até aqui. A saber: a modernização dos meios de comunicação estatais tem levado a um par de interesses, que começa na legitimação da própria modernidade e termina na “glamourização” das realizações do governo

por meio da manutenção do controle da afirmação e da definição.

A defesa da modernidade aparece na valorização de seus instrumentos simbólicos (a razão, o calculável, a mudança, a perícia, a tecnicização). O

glamour dos feitos é o ponto mais central: ele existe na medida em que o agravamento do processo de defesa do moderno torna-se um modelo, um arquétipo, um instrumento de ratificação das ações de um governo historicamente embasado na ideia de modernizar. A glamourização é criada, assim, na conexão fortíssima entre o poder técnico da imagem (fotográfica ou narrada) e o poder político da autenticidade de um site público sob a aura do “oficial”.

Como dito, entre os anos 1980 e 2000, a realidade cearense foi inundada por projetos modernos e de modernização, alicerçados na clássica oposição entre jovens empresários e antigos coronéis. O balanço virtual dessa batalha arquertípica registra uma reforma nos mercados simbólicos do imaginário político local, mas também dirige nosso olhar para o plano maior da política no Brasil: fruto de uma redemocratização

Como vimos rapidamente, a chamada Era Tasso redefiniu relações com o marketing político e com o uso de novos recursos de comunicação eleitoral (NOBRE, 2009). Mas o corte de mudança do imaginário foi mais longe ao elevar à categoria central o debate sobre o Estado como ator racionalizado dos processos, como força de mudança local – um modelo interpretativo criado e recriado de modo retroativo pelas propagandas políticas durante todos os mandatos de Tasso e Ciro Gomes.

As aproximações e a experiência de movimentar essa arqueologia de sentidos políticos esclarece, por mais que neguemos, como sociólogos ou como sujeitos políticos, nossa naturalização diante do documental. Uma naturalização que carece de rompimento na medida de seu papel e lugar de poder e de meio de produção de poder. A reação diante dos discursos públicos ainda precisa de observações mais cuidadosas umas vez que as próprias ciências sociais estão, aparentemente, cada vez mais inseridas no jogo das publicações (da imprensa ou da própria academia), como agentes de legitimação de verdades interessadas, afirmações de amplo impacto ou como meros instrumentos de um entretenimento pontual movido por um mundo da comunicação hipertextual, onde os falantes são detentores do tema importante oudo tema curioso.

Encravado em uma condição imaginária tradicional, preservacionista e muitas vezes folclórica, o Ceará ganhou contornos de modernidade técnica e “competitiva” a partir dessa nova ordem de símbolos e falas – herdadas pelo novo momento de Cid Gomes e seus aliados. Mas não estamos falando de mudança inerentemente positiva: o novo quadro cruzou o antigo e instaurou-se (ou vem instaurando-se) como uma ordem controladora, que caracteriza e legitima práticas sob a bandeira quase invencível – em termos de valor – do desenvolvimento. Este, que tornou-se fala central de todo discurso político e econômico no século XX, com oscilações de critérios e significados, dada a polissemia produzida. Desenvolvimento ainda que, no caso cearense, é também reprodução de ideias nacionalizadas e antes importadas dos EUA e da Europa, em uma longa esteira de fabricações de imagem. O desenvolvimentismo e o neodesenvolvimentismo que colocam o Estado como protagonista da mudança e da estabilidade, ainda vivem, contudo, em um espaço de informações centralizadas. O acesso às formas públicas de produção da definição ainda não é discutido, porque convenciou-se, em parte do senso comum, que a máquina executiva é o porta-voz das falas oficiais da sociedade, pelos anos determinados de um mandato. Enquanto isso, no campo das produções de símbolos, de informes e de saberes oficiais, lacunas, não- ditos e expressões convenientes aos produtores continuam sendo veiculados sem concorrência política oficializada e institucional. É como se, para os efeitos de nossa memória e de nossa narrativa política, os oradores fossem incubidos de deter todas as palavras reais, todas as preces efetivas, todas os segredos do passado e do presente, todas as promessas e elaborações de futuro.

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