As diferenças de sotaque não criam problema algum, pois cada sotaque tem a sua beleza.
Sophia de Mello Breyner Andresen137
No artigo “Acerca da Festa / do Natal nas crónicas de Horácio Bento de Gouveia”, João David Pinto Correia chama a atenção para o importante tema da relação do português falado na Madeira com a língua padrão na cronística bentiana (2002: 138), extensível, naturalmente, à obra de ficção. Tal assunto já mereceu a análise pormenorizada de Maria Elisete Almeida, em dois trabalhos de síntese (1999, 2002), cujas apreciações merecem ser, pontualmente, revistas ou completadas.
A questão do aproveitamento de um falar regional138 comporta três incidências que se repercutem significativamente na economia global da obra: o valor estilístico, que veremos mais amiúde no ponto seguinte, o factor identitário e o vector linguístico como expressão do poder e do prestígio social.
137 Primeiro Livro de Poesia – Poemas em língua portuguesa para a infância e a adolescência, selecção e posfácio de Sophia de Mello Breyner ANDRESEN, com ilustrações de Júlio Resende, Caminho, Lisboa, 8ª ed., 2003, p. 186.
138 A presente exposição teve como estudos de apoio: Linguagem Regional e Linguagem Popular no Romance Regionalista Português, de Evelina VERDELHO (Lisboa, INIC – CLUL, 1982), apontamentos tirados sobre a leitura do texto da conferência de Lindley Cintra intitulada “Os Dialectos da Ilha da Madeira no Quadro Geral dos Dialectos Galego-Portugueses” e apresentada no “Congresso de Cultura Madeirense” em 1990, “Recensão crítica: Francis Millet Rogers – Insular Portuguese Pronunciation: Madeira, sep. do vol. XIV, nº 3, de Julho de 1946, pp. 235-253, da Hispanic Review, Filadélfia (E.U.A.)” por Eduardo Antonino PESTANA, em Ilha da Madeira, II – Estudos Madeirenses (Edição Câmara Municipal do Funchal, 1970: 129-135), O Falar de S. Vicente – Descrição do Sistema Vocálico, de Paula FREITAS (Câmara Municipal de São Vicente, 1994), e, de Maria Elisete ALMEIDA, os seguintes trabalhos: “Particularidades dos falares madeirenses na obra de Horácio Bento de Gouveia” (Colectânea de Conferências, Madeira, Casa-museu Dr. Horácio Bento de Gouveia, 1999, pp. 57-81) e “Antiguidade e Modernidade na Linguagem de Horácio Bento de Gouveia” (Islenha, nº 30, SRTC/DRAC, Jan.-Jun. 2002, pp. 16-24). Foram-nos igualmente muito úteis as indicações da linguista Helena REBELO, da Universidade da Madeira, que em boa hora consultámos, até porque estudou de perto a problemática da escrita de pronúncias e dialectalismos. A referida linguista, em “O Falar de Porto Santo na Escrita de Francisco de Freitas Branco”, lembra que as tentativas de transcrição da linguagem falada comportam problemas teóricos, como: “o das relações entre a escrita e a oralidade, entre os grafemas e os sons, […], o da primazia de um nível de língua sobre outro, o das relações entre as chamadas língua culta e língua popular, […]” (in Livro de Comunicações do Colóquio “Escritas do Rio Atlântico”, Depto. de Cultura da Câmara Municipal do Funchal, 2002: 53). Da mesma autora, v. também “A escrita do falar do arquipélago da Madeira em textos do século XX. Quatro propostas”, em Actas do VIII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, Santiago de Compostela (no prelo).
Em termos artísticos, a linguagem regional madeirense139 – ou “dialectos”, no plural, de acordo com a conclusão a que chegou Lindley Cintra num texto de conferência inédito, intitulado “Os Dialectos da Ilha da Madeira no Quadro Geral dos Dialectos Galego-Portugueses”140 – vai, naturalmente, enriquecer a paleta de materiais expressivos. Ao explorar o arcaísmo e o regionalismo, Horácio Bento, por um lado, procura adequar melhor o discurso à verdade histórica e social da personagem no intuito de informar, dar a conhecer o falar da sua terra, revivendo-o, num tempo em que as ilhas eram, por assim dizer, “desconhecidas”, na expressão consagrada de Raul Brandão; pelo outro, elabora novas soluções semânticas e formais no exercício da linguagem literária, criando um idiolecto literário capaz de representar a cultura madeirense, de dar expressão à “madeiridade”, isto é, à condição do ser ilhéu, à insularidade historicamente assumida pelos madeirenses, com o empenho de quem pretende desenvolver o conhecimento do arquipélago.
Do ponto de vista linguístico, a variação a que uma língua está sujeita leva-nos a reflectir sobre as particularidades linguísticas referentes ao lugar a que um indivíduo pertence, porque isso é parte estruturante da identidade do seu ser e diz muito acerca da posição que ocupa, quer no espaço linguístico, quer na escala social. Pois, como lembra Mário Vilela141, em Metáforas do Nosso Tempo:
Temos, por um lado, a afirmação “patriótica” de que a “pátria da língua” se exercita e se pratica no “falar correctamente” e, por outro lado, a afirmação “humana de que é apenas
139 Não pretendemos aqui entrar na discussão que levou Paiva Boléo a considerar inexacta a designação de “dialecto”, usada por J. Leite de Vasconcelos ao referir-se às diferenças linguísticas existentes em Portugal, e propor a de “falares” (por ex., o falar minhoto, beirão, algarvio), reservando a primeira apenas para o riodonorês, o guadramilês e o mirandês, onde as diferenças são mais significativas (Cf. M. Paiva BOLÉO, “Unidade e Variedade da Língua Portuguesa”, separata da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, tomo XX, 2ª série, nº 1, 1954, p. 22.). Entendemos o termo “dialecto” em sentido lato, e empregaremos “falar”, “dialecto” e “variedade regional” como se fossem sinónimos.
140 Esse texto foi lido publicamente por João David Pinto Correia, “na impossibilidade de o autor estar presente na sessão”, no “Congresso de Cultura Madeirense”, no dia 28 de Dezembro de 1990. Cf. Nota Prévia de João David Pinto Correia a estudo intitulado O Falar de S. Vicente – Descrição do Sistema Vocálico, de Paula FREITAS, Câmara Municipal de São Vicente, 1994, p. 8.
141 Cf. Mário VILELA, “O Ensino da Língua na encruzilhada das normas”, em Metáforas do Nosso Tempo, Coimbra, Almedina, 2002.
com a palavra que o homem se posiciona no mundo e se afirma como pessoa, finalmente, a afirmação pragmática de que é necessário encontrar a palavra certa para as diversas situações comunicativas. […] / Há neste conjunto de posições dois aspectos essenciais: o primeiro aspecto é o que podemos designar como a mapeação da realidade através da língua, seja através do mapa lexical e do roteiro mental da nossa categorização da realidade, seja através da carteação dos figurinos configuradores dos nossos mitos colectivos. O segundo aspecto é já mais problemático e exige uma integração de dados bem mais complexos. (VILELA 2002: 304)
Esta tomada de consciência leva a questionar a relação de forças que pode haver entre os que impõem a norma e os que têm que se adaptar a ela para poder lutar, de armas iguais às de terceiros, contra as vicissitudes escolares, jurídicas ou administrativas no meio social. Na verdade, a obra bentiana, como todo o romance regionalista, problematiza o que acabámos de expor, em torno dos seguintes aspectos: marca identitária, situações de comunicação verbal, relações e tensões sociais, o uso de linguagem regional e popular como recurso literário.
As marcas fonéticas, morfológicas, sintácticas e lexicais que caracterizam o falar das personagens populares indicam, claramente, a tentativa, por parte do autor, em sugerir, sem nunca cair na tentação de ser por demais demonstrativo, um falar da costa norte, o da zona da Ponta Delgada142, característico dos falantes não instruídos. Seguem, então, alguns dos traços mais significativos, de acordo com a obra bentiana, que funde linguagem popular e linguagem regional.
Além das habituais particularidades fonéticas da linguagem popular, tais como a atracção (“auga” por água, “Antóino” por António), a epêntese do -b- (“cambra” por câmara), a metátese (“galatrixa” por lagartixa, “prove” em vez de pobre), a interversão (“Gracês” por Garcês), a síncope (“xicra” por xícara) e a adição de sons (“leises” por leis, “tracises” por tracis), dados como traços gerais do português popular ou rústico, são igualmente visíveis, na escrita bentiana, as persistências arcaicas. Tal é o caso da
142 A crónica bentiana intitulada “Respigos de Fonética no Linguajar da Gente — Freguesia da Ponta Delgada” publicada no Diário de Notícias do Funchal, na sua edição de 7-II-1960, vem confirmar o que acabámos de adiantar. (v., por ex., CN, 59-62)
prótese do a-, coexistindo normalmente as duas formas (subir / assubir, assuceder / suceder, prantar / aprantar) e o da aférese de d- (espedir / despedir, esbulhar / desbulhar). São de referir também a desnasalização e a redução do ditongo final -em presente em vocábulos como “home” (homem) e de vocábulos terminados em -agem: “viage” (viagem). Assinale-se a síncope de -m- e nasalização do u em “ũa” e “algũa”, bem como a conservação de l- original de “los” / “las” em determinados contextos, a exemplo de: “Dali a bocado todo los três pássaro c’os barris às costas” (AM, 68). Comuns a outros dialectos do português, encontrámos algumas ocorrências da chamada “troca do v pelo b”.
Ainda no âmbito das formas de feição arcaica, apresentam-se vários fenómenos. Nas desinências verbais -am, que ocorrem na terceira pessoa do presente e, com mais frequência, no imperfeito e no perfeito, dão-se uma desnasalização e uma redução: “espio” (espiam), “viero” (vieram). Vale a pena frisar que, neste caso, a terminação do perfeito é, etimologicamente, legítima: “unt” ter-se-ia transformado em “om” que, por sua vez, se desnasalizou (v.g. “lauda(ve)runt> louvarom > louvaro). O romance Canga dá-nos um exemplo disso: “Ui fiscales dos ingenhos nunca mais verom” (C, 189). A desinência que surge no presente, em verbos regulares, será de formação analógica. É fenómeno que ocorre em vários dialectos brasileiros ou açorianos ou de países africanos de expressão portuguesa, como no exemplo de Macandumba de José Luandino Vieira: “Onde que o Mangololo interrompeu-lhe logo-logo: como é ele ia oferecer jogo a um acabado daqueles, onde que ia embora encontrar o dinheiro para lhe pagar, nem que era vigésimo de aproximação só? Ele, José Lamba, que ia vender um bilhete premiado num batujuca daqueles, conhecido e reconheido morando na casa leia da mulher do outro?” (2005: 59), ou então, no exemplo tirado de Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio: “Na dospensa da Criação Velha ainda lá stão duas que servim na mordemia, que me nã
déixum mintir” (7ª ed., 1994: 119). Em sílaba fechada por <r> nas palavras oxítonas, ocorrem <á> ou <é> ou <ê> sem a vibrante, com ligeiro prolongamento da vogal, como nalguns falares dos Açores e do Brasil: “A Luísa qué sê mai do que é” (LM, 46) e “A casa dos Curados arranjá vimes” (TV, 14). Sucede ainda a monotongação do ditongo eu (fechado) que se identifica com <ê> fechado: “ê” (eu), “tê” (teu). O mesmo se verifica em S. Miguel e no Alentejo. Dão-se mudanças de timbre: em > im e om > um: “imprestei-lhe” (emprestei-lhe); “cum” (com), “acunteceu” (aconteceu), “vuntade” (vontade). Estas substituições, em contexto idêntico ao das formas distinguidas, têm sido observadas em várias regiões do continente. O timbre presente no grafema <u>, em sílaba átona, substitui o em “uvir” (ouvir) e o timbre <i> ocorre em sílaba pós-acentuada final, em palavras de diferentes categorias morfológicas, normalmente grafadas <os>, quando a palavra seguinte é iniciada por consoante: “– Eu e o Josia vami dando o nosso dia fora...” (C, 146) (vamos); “nossi” (nossos); “tanti” (tantos). Segue-se o fenómeno que aponta para uma evolução original, ignorada nos dialectos do continente, traço que se pode considerar geral em toda a ilha, é o da ditongação de <o> antes de <a> em <aua>: “– Baua rapariga é ela!” (TV, 13).
Ocorrem no texto bentiano algumas especificidades que estudos linguísticos, nomeadamente aqueles em que Lindley Cintra se baseou no trabalho já referido, registaram como sendo características de áreas mais limitadas da Madeira. Dá-se a transformação do ditongo final <ou> em <ua> que ocorre muitas vezes na desinência verbal da primeira pessoa do presente do indicativo dos verbos “ser”, “ir” e “estar”, a exemplo de “sua” (sou) e “vua” (vou), bem como na da terceira pessoa do pretérito perfeito dos verbos em -ar: “Mas a filha caminhua pa’u Brasil, casua e tá milionaira” (LM, 19). Regista-se a ditongação do <é> aberto em <ia>, como nos exemplos: “ia” (é),
“auga-pia” (água-pé) “cafia” (café). Segundo Deolinda Bela de Macedo143, os dois casos que acabámos de apresentar produziam-se predominantemente nas freguesias do Norte da ilha.
O <s> implosivo – ou seja, em posição final de sílaba – do português padrão, com valor de palatal, transforma-se em [i], quando posicionado antes de consoante não labial ou não gutural. O mesmo <s>, em final de sílaba e precedido de semivogal [j], deixa de ser pronunciado, constituindo-se o ditongo [aj]. Assim sucede com o advérbio de quantidade mai (mais) e o de lugar atrai (atrás), com a locução “ai vezes” (às vezes) e com as formas verbais de 3ª pessoa do presente do indicativo dos verbos “haver” e “fazer”: “Se eles são ricos, isso a mim nã fai minga” (TV, 13); “A Luísa qué sê mai do que é” (LM, 46). Não muito frequente é a forma rapai que alterna com o substantivo “rapaz”, nas mesmas posições referidas para as formas verbais. Sucede o mesmo com o ditongo grafado <ui>, quando surge em artigo definido, em contracção de preposição e artigo: “coida dui nossi filhos” e com o ditongo grafado <ei>, quando surge na contracção de preposição e artigo, em adjectivo e, ainda, na adversativa mas, como exemplificamos: “– Arturo, vai te divertindo nei festas doutrei freguesias com outrei raparigas” (TV, 13); “– Era bom, era… mei nã pode ser” (C, 69)”. Adianta Eduardo Antonino Pestana que é “fenómeno que se verifica em todas as camadas sociais de todas as povoações da ilha” (PESTANA 1970: 130). Tal não sucede nas falas das personagens bentianas em posição dominante, o que mostra bem o processo algo artificial e tendencioso desse recurso. Nesse tempo (sê-lo-á ainda?), o modo de falar de cada concelho ou freguesia era, ao que parece, como bilhete de identidade que indicava a origem geográfica do falante. Em Torna-viagem, Horácio Bento ilustra esse
143 Cf. Subsídio para o Estudo do Dialecto Madeirense, Dissertação para o exame de Licenciatura por Deolinda Bela de MACEDO, Lisboa, Junho de 1939, pp. 8 e 9. [dactiloscrito]
conhecimento empírico no diálogo seguinte: “– Donde ia? / – Pela fala não ia da Boaventura. / – Deve de ser dui lados do Arco! – obtemperou a Inês” (TV, 27).
Confrontemos outras tentativas de registo dos falares da ilha distintas das que Horácio Bento costuma assinalar. Por exemplo, no conto “O Homem Que Comia Névoa” (1964), Ernesto Leal insiste em particularidades fonéticas que parece situar algures no interior montanhoso da ilha (em imaginário lugar inspirado na topografia e toponímia do Curral das Freiras, da Penha de Águia e de Santana)144: “– Aqueilho é o filho da Rosaria?” e “– Amecês já sabem que vão abrir camuinho para a camionete de horário vuir até à venda do Jordão?”. No excerto transcrito, o contista sublinha a forma como se pronuncia a vogal <i> e a influência que tem sobre as consoantes vizinhas. De facto, o <i> tónico é transformado num som velarizado, entre o <e> de “metade” e o <a> de “para” e esse mesmo <i> vem a palatalizar a consoante lateral que o acompanha, como indicia a ocorrência de “Aqueilho” por “aquilo”.Outras vezes, o <i> ditonga em <ui> e ouve-se “camuinho” por “caminho”, à semelhança do que também notaram Luiza Helena Clode e José Victor Adragão, em Madeira145, ao registarem “voínho” por “vinho”. Numa “crónica literária”, Francisco de Freitas Branco apresenta o falar porto- santense como segue: “Ê tanho esta ideia comeio […]. Ê nam gosto de sêre rigorosa e o poema, às vezes, a gente dá um bocadeinho de rigôre no poema; e ao mesmo tempo dá- se aquele rigôre e ao mesmo tempo a gente aleveia” (BRANCO 1995: 270). São observáveis os seguintes traços fonéticos: a síncope de -g- em contexto intervocálico
144 Apesar de explanar uma geografia com toponímia fantasiosa, um conjunto de referências insertas na descrição evoca a zona do Curral das Freiras: “Dentro dos caixões que esperam vez, o Pica-Malhetes seca castanhas. Quem for por negócio a casa do Pica-Malhetes, ou compra castanhas, ou compra caixão, ou compra as duas coisas. Partindo lá de baixo, do fundo da cratera extinta, onde a aldeia nunca vê o sol e onde mora gente extraordinariamente forte de nevoeiro em nevoeiro, de parreira em parreira, vai-se sucessivamente apanhando mais sol, um pouco mais de sol, ao redor do dia. Quer no Curral do Inhame, a aldeia fundeira, quer na Portela das Mantas ou na Cancela das Agulhas, as duas povoações cimeiras, sitas a leste e a oeste da bocarra verde que foi vulcão, a névoa iça-se ou descai ou ondula em dança leve e garrida por entre avenca, musgo e feto.” (LEAL 1964: 68).
145 Cf. Madeira, de Luiza Helena CLODE e José Victor ADRAGÃO, Lisboa, Editorial Presença, 1989, pp.196-197.
(fenómeno raro no continente, registado apenas em Idanha-a-Nova, de acordo com Lindley Cintra, mas audível em zonas a leste da ilha), a ditongação do <i> tónico em <ei>, a paragoge de <e> em final de palavra depois de <r> ou <l>, provável alongamento e fechamento de vogais, assinalado pelo acento circunflexo. No conto “Zé Paulo” (1992) de Irene de Mendonça e Freitas, a autora esboça uma aproximação ao falar dos pescadores de Câmara de Lobos: “– Olhe, dê-me daí um café quente que tainho os osses gelados” e “– Antão arranje um quarte de pão com espauda”. No romance Pernas Ceifadas, de Maurício Melim Teixeira, cuja acção se desenrola no Funchal dos anos setenta, lê-se também: “– Digraçada, ia ũa pobre de Criste, o estaferme do home fai-lhe a vida negra!” (TEIXEIRA 1975: 104). No livro A Festa, transpõe Lídio Araújo, em “revéspera146 de festa”, a seguinte fala de uma popular de Câmara de Lobos: “– E o cumpadre ’tá cuma parece? […]. A sua patraoa, a cumadre, ela ’tá melhorzeinha dos beicos de papagaie? (ARAÚJO 2002: 43-44). O traço fonético comum e relevante nos exemplos acima apresentados é descrito por Eduardo Antonino Pestana do seguinte modo: “o e fechado é o valor normal do o átono final na […] povoação de Câmara de Lobos, como nas demais povoações vizinhas dessa freguesia: São Martinho, etc” (PESTANA 1970: 131). Em artigo publicado na revista Das Artes e da História da Madeira, adianta Alberto Figueira Gomes que “freguesias há onde se regista uma nítida propensão para dar emissão nasal a certas vogais puras (Câmara de Lobos); noutras localidades, as vogais são mais abertas e acentuadas (freguesias de noroeste)” (GOMES, 1º vol., 1949: 207). Vem a esse propósito dar António Ribeiro Marques da Silva o seu testemunho:
Não é verdade que em S. Martinho, no Funchal, a pronúncia do “o” final se transforma em “e” mudo, ao contrário do que sucede nos restantes espaços dessa bela baía? E em Câmara de Lobos ou Machico não existe também uma marca de diferença de pronúncia,
146 Antevéspera do Natal.
muito ressaltada pelos contadores de anedotas? No Norte da ilha parece-me haver certa continuidade dialectal. Digo isto porque conheço bem a maneira de falar dos habitantes de S. Jorge agora muito perto de Ponta Delgada, mas há alguns anos bem separados devido às poucas estradas e às contingências orográficas. Assim considero muito bons os registos de falas dos camponeses [patentes na obra bentiana], tão semelhantes aos que me habituei a ouvir desde criança, na minha terra natal.” (SILVA www.uma.pt/hbento/msilva_lmarta.html, 2002)
Embora carecendo de rigor científico, os exemplos apresentados indiciam fortemente a existência de variedades locais que estudos linguísticos parcelares e descritivos, como aqueles que temos vindo a citar, confirmaram. Além disso, a consulta de falantes e observadores com formação académica e sensibilidade para questões da linguística nativos da ilha, a exemplo de António Ribeiro Marques da Silva, garantem existir ainda diferenças a nível regional, apesar de se ter perdido a nitidez de outros tempos com a mobilidade social, os acessos físicos e as práticas comunicativas da nossa era.
Contudo, Horácio Bento não chega ao ponto de aprofundar e registar essas diferenças. Notámos, por exemplo, não haver marcas do habitual fenómeno ligado aos falantes da zona de Câmara de Lobos, sendo aí o <e> fechado o valor normal do <o> átono final, no caso do romance Lágrimas Correndo Mundo, quando parte da acção e das personagens principais pertencem ao Estreito de Câmara de Lobos e ao Funchal. Isto prova o artificialismo do processo, ao reduzir, aparentemente, a variação fonética relativamente à língua padrão, mas mantendo os traços característicos do falar das freguesias do Norte da ilha. Por exemplo, estranhámos a não-ocorrência (ou são, no mínimo, raríssimos os exemplos) de dois traços fundamentais que costumam caracterizar o “falar madeirense”, nomeadamente a palatalização da consoante lateral <l> em <lh> quando precedida de <i> tónico e a ditongação da vogal <i> tónico em <ai> ou <ei>. Não sabemos até que ponto a personagem fala como no Funchal ou como na costa norte. Apesar das inexactidões na reprodução objectiva de falares, que se