Horácio Bento de Gouveia é um cultor da língua porque escreve num português saboroso e vernáculo, até quando forja neologismos. O próprio autor sublinha isso, numa entrevista cedida ao Diário de Notícias (29-X-1980), sobre Torna-viagem, quando afirma: “Pode a obra, do ponto de vista da sua efabulação, não ter condições de um grande romance, mas pelo menos tem esta qualidade: está escrito no génio da língua”. Este é, aliás, um dos aspectos mais apontados pela crítica. Mais do que “bem escritos”, os seus livros revestem-se de uma poética singular e múltipla, telúrica e realista, elaborada e meticulosa, regional e universal, onde a justeza expressiva da linguagem verdadeiramente clássica não deixa de ser moderna.
Mais do que ficcionista, Bento de Gouveia é um prosador que procura transcender o quotidiano em construções frásicas e lexicais, num dizer que se destaca pela originalidade e alto grau de elaboração, por vezes barrocas. Cultiva o anacronismo no uso de expressões e formas lexicais: arcaísmos populares e literários (“plaga”, “tristura”, “exabundante”), para lhes dar novo vigor, tais como os relativos variáveis (“os quais”, “do qual”), palavras ou expressões caídas em desuso, quais “viajores” (LM, 230), “soledade”, “sosismo” (M, 184), “às carreiras” (AM, 21; TV, 222; LM, 20, 34 e 151-152) em vez de “a correr”, “à ilharga” (passim), “cramar” (LM, 172) para ‘lamentar’, a locução prepositiva “passante de” (C, 180, 250) “com o sentido de ‘pouco depois’150, e neologismos de forma e de sentido, de carácter popular ou erudito, como adiante se verá.
A nível estilístico, os arcaísmos de forma ou lexicais são significativamente mantidos por Horácio Bento de Gouveia porque, segundo cremos, favorecem uma
conotação “madeirense” (baseada no português do tempo dos descobrimentos e do povoamento da ilha) e representam uma marca de literatura vernácula (ao prestar homenagem aos clássicos da Literatura Portuguesa). Seguem alguns exemplos, talvez consagradores dos reflexos da oralidade madeirense e cuja ortografia pode surpreender o leitor moderno: “té o pôr-do-sol” (C, 223) em vez de “até ao pôr-do-sol”, “inda” em vez de “ainda”, “em derrota de” (C, 297; TV, 201) ou “em direitura de” para “na direcção de”, “na revolta de” (C, 102, 104) para “na volta de”, “assentar” (LM, 294) em vez de “sentar”, “até o” em vez de “até ao”. Evita frequentemente as amálgamas das formas como “disso”, “dos”, “numa”, “nalgum” ou “pelo”. De registar, ainda, que Horácio Bento recorre ao apóstrofe em “d’oravante” (C, 182), num assomo de purismo etimológico, e escreve “buate” (M, 61), aportuguesando o termo francês boîte. O escritor madeirense hesita entre a construção dita “ordem directa” (sujeito predicado complemento) e a dita “indirecta” (predicado sujeito complemento). Repare-se, igualmente, na estrutura idiomática, com “que” copulativo, do tipo “anda que anda” (C, 36) e “chove que chove” (LM, 155), cuja frequência revela ser do agrado do escritor, tanto mais que Aquilino era também useiro e vezeiro nela. É uma das expressões recorrentes que parece traduzir uma certa ideia de rotina, de passar do tempo, de repetição inelutável, um pouco como o tiquetaque do relógio de parede, que pauta o ritmo de leitura do texto narrativo. Note-se a preposição “com” em construções muito do gosto de Horácio Bento que indiciam ora “um sentido de causalidade”, como no enunciado: “a mulher morria de pena com ver na mão do senhorio o feijão muito verde” (C, 129); ora uma “relação de simultaneidade”, equivalente a uma construção de gerúndio, a exemplo do seguinte passo: “E a voz do Pena agonizava com estrugir nas furnas das rochas altas…” (AM, 19). Segundo Rodrigues Lapa (1984: 261), estas construções eram já frequentes no período clássico. Concordamos com Maria Elisete
Almeida, quando adianta, relativamente ao efeito estilístico, que “morrer com ver marca mais o carácter obsessivo das imagens repetidas, que se sucedem no espírito da camponesa, do que o uso duma preposição clássica tal como por, de, ou a que traduzem a causa mas não a companhia” (ALMEIDA 2002: 22). Esta construção é também usual na escrita de Aquilino Ribeiro.
A morfologia e a sintaxe têm também as suas particularidades como recursos estilísticos de que se vale o escritor. Acrescenta, por exemplo, como nota Maria Elisete Almeida (1999: 72-73), o reflexivo “se” para imprimir, em verbos de movimento como em “partiu-se com o seu tio” (LM, 57) e “desembarcar-se” (LM, 270), “profundidade psicológica e incapacidade de decisão ao sujeito da acção”. Como se vê, o idiolecto literário de Horácio Bento é conservador e, por vezes, um tanto afectado, a exemplo do seguinte enunciado: “Lá se achava ele coloquiando com uma mulher duvidosa”151 (LM, 182) e nem sempre isento de clichés, como prova a frase: “Um mundo de promessas se escapou da boca de ambos” (C, 230).
No entanto, procura também ser inovador ao introduzir a mescla vocabular que corresponde à imagem do português que se fala na ilha, com termos como “lapeira”, “bilhardar”, “mundiça” ou “pimpinela”. Só que o escritor madeirense vai mais longe e estiliza o material linguístico de que dispõe. Inspira-se, ao mesmo tempo, nos modelos canónicos da Literatura-Pátria e no que o espírito do lugar tem para lhe dar, quer como expressão erudita, quer como popular. Reproduz uma linguagem popular da Madeira, com todas as suas características lexicais, morfo-sintácticas, semânticas e até fonetizantes, mas sem intenções preconcebidas de quebrar a unidade do idioma relativamente a Portugal continental. Bento de Gouveia não cessa de testar, deste modo,
151 O itálico é nosso.
os recursos da língua portuguesa, explorando novos conjuntos coerentes de vocabulários.
É de pôr em relevo a particular preferência, dada, em palavras inovadas, ao prefixo des-, “como processo de negação do conteúdo sémico do lexema primário”152, muito produtivo no português do Brasil como no português de África. Tal uso serve para expressar, com economia, a antítese da noção habitual a que a palavra remete. É o caso de substantivos, tais como o “desmesmo” (CI, preâmbulo) ou “desimporte”153 (AM, 222; M, 133, 171, 243, 286), que se deve entender como “a indiferença assumida e não distraída”, o “desentusiasmo” (AM, 222) e o “desbulício” (LM, 20). Quanto a verbos, encontram-se “desreflectia” (AM, 174), “descivilizar-se” (M, 197), “desmergulhou-se” (LM, 293). Relativamente a adjectivos, respigam-se “despremiados” (M, 338), “desadorável” (M, 137), “descaritativas” (TV, 194), “desfamiliar” (LM, 63), “despremiados” (M, 338). Note-se, finalmente, a substituição do enunciado “Não mais se esqueceria a decepção que tinha naquela tarde.” (I, 135) por “Não mais se deslembrava da decepção que tivera naquela tarde (C, 178). O neologismo “deslembrar” dá maior realce à ideia de que algo não sai mais da memória do que o banal “esquecer”. Outros prefixos há que o inspiram: “olhos eschamejantes” (M, 225, 343), “escogitar (TV, 29), cujo aditamento do prefixo prolonga as sonoridades sibilantes palatais, e “a ardência que hoje nos insepara!” (M, 274), cuja sinonímia não será “a ardência que hoje nos une”, mas algo como “a ardência que hoje nos liga e funde intimamente”.
Quanto aos processos formativos, observamos opções muito próprias que conferem assinalável expressividade a termos regionalmente marcados, mais não exclusivos da ilha, tais como o sufixo -ança – “a imaginativa não tinha parança” (TV,
152 Cf. Mário VILELA, Metáforas do Nosso Tempo, Coimbra, Almedina, 2002, p. 310.
153 Não é neologismo de autor, é termo que a imprensa local empregava nos anos 20 e 30 do século passado.
37), a “lidança das coisas” (TV, 224), “na privança154 do casal inglês” (LM, 68) – e o sufixo –ença – “batença” (C, 73; TV, 57), “parecença” (LM, 120), “sabença” (AM, 131) (esta última também registada nos Açores, a par de “conhecença” por ‘conhecimento’.
Bastante comum na fala dos populares e, por conseguinte, na expressão das personagens camponesas, o diminutivo –inho é elemento presente nas suas réplicas: ora traduz o valor afectivo posto por quem se refere à coisa designada, ora expressa escassez de meios, ora assinala o tamanho reduzido do objecto de que se fala: “lenhina” (C, 38), “tardichinha” (C, 132) e “semilhinhas” (C, 269). Outro diminutivo recorrente, com valor semelhante, é o sufixo -ola: “terreola” (LM, 39), “fazendola” (LM, 32), “festarola” (LM, 37-38). Também não faltam os aumentativos. Uns indicam maior intensidade, como o sufixo –aça: “raparigaça” (C, 183) e “vergonhaça” (C, 242); o sufixo –ada: “urrada” (C, 73, 286; CI, 266 ou CN, 16), “toada” (C, 40 e passim) “barulhada” (C, 279), “zoada” (C, 28, 286), “chiada” (C, 286), e o sufixo –ão: “falação” (de falaço) (C, 242), “fazendão” (C, 215), “ricações” (de ricaços) (TV, 12), “cachorro mansarrão” (de manso) (LM, 213). Outros designam um colectivo, nomeadamente, o sufixo –al, que, no caso vertente, funciona também como aumentativo, a exemplo de “fazendal” (C, 225, 247, 264, 283, 287): “castanhal” (LM, 96), “pinheiral” (C, 29 e 44; LM, 32), “feijoal” (C, 187, 213), “trigal” (C, 247) e “semilhal” (C, 262). Os sufixos que a seguir apresentamos expressam a noção de grande quantidade com efeito hiperbólico, a saber, o sufixo –ame: “pipame” (C, 120), o sufixo –io: “garotio” (C, 40), “povio” (C, 113), “rapazio” (C, 45, 204, 293), e o sufixo –ume: “pexume” (LM, 40), “pedrume (C, 213), “lenhume” (AM, 66), “canume” (AM, 121), “linhume” (LCM, 96), “negrume” (C, 283), “ardume” (C, 50). A avaliar pelo uso que Horácio Bento faz deles, esses sufixos deviam ser muito produtivos na fala dos populares.
154 O termo ocorre de novo em (LM, 210).
Note-se como escolhe e compõe certas palavras, em Luísa Marta, com palavras terminadas em “-bundo”, tais como “moribundo” (LM, 277); “a Luísa meditabunda” (LM, 257); “as árvores gemebundas do jardim” (LM, 175) – este último adjectivo muito do gosto de Aquilino Ribeiro –, ou começadas com “circun-”, notadamente “circunviu” (LM, 294), “circunjacentes” (LM, 166), “circunvizinhamente” (LCM, 156), “circunvaga a vista” (LM, 273), “circuntornando” (C, 168; LCM, 114), “circunfusas” (TV, 45).
Essa inovação perpassa, por exemplo, na produção de neologismos da sua lavra, tão expressivos quanto as conhecidas composições verbais de Mia Couto, segundo o processo da aglutinação de palavras: “semente que grela e enrubestece com o tempo” (LM, 146) – enrubescer + robustecer –; “Subitaneamente” (LM, 213, 216) – súbito + simultaneamente –; “algurandear” (TV, 233; M, 310) – algures + cirandar (?) –, “não duvidava da universabilidade da sentença” (M, 294) – universalidade + habilidade.
Atente-se no modo como transforma substantivos em verbos, imprimindo à frase energia e movimento, pelo pitoresco e condensado da expressão: “crepusculizou-se o dia” (M, 312); “os olhos de Maria Germana perolaram-se de lágrimas” (M, 333); “cadaverizou-se-lhe a esperança” (LM, 166); “enfrenesiara-se a Luísa com o sucedido” (LM, 152); “a política de neutralidade se diplomaticasse” (LM, 190); “o Pena, o levadeiro elasticava as goelas” (AM, 123); “Aquele ambiente melancolizava-o” (I, 193). Todavia, nem tudo o que parece neologismo o é, porque o autor também cultiva termos raros. Com efeito, relativamente ao enunciado “a casa tremeu e um estrondo enormíssimo ecoou, qual trovão que saísse das entranhas da rocha e fosse estrondejando decompondo-se em novos bramidos” (C, 286), adianta Maria Elisete Almeida que “o verbo estrondejar é um neologismo feito sob o modelo de trovejar ou relampejar e muito mais intenso do que o verbo corrente estrondear” (ALMEIDA 2002: 21). Sem pôr em causa o efeito estilístico que a forma sugere ao amplificar a ideia de estrondo
para um ribombar assustador, certo é que a forma aparece atestada no Dicionário da Língua Portuguesa de Morais e Silva na entrada “estrondar, estrondear e estrondejar” (10ª ed.). Relativamente ao enunciado “o arco, que comunica a rua com o quintal (C, 214)”, Maria Elisete Almeida interpreta a locução “comunicar isto com aquilo” como sendo um neologismo gramatical: “Este emprego do verbo comunicar não é muito ortodoxo, embora seja mais económico do que a forma habitual faz comunicar e não levante problemas de interpretação” (ALMEIDA 2002: 22). Na verdade, é uma construção natural e aceite pelas gramáticas e pelos dicionários, como se pode aferir no Dicionário da Língua Portuguesa de António Houaiss: “a porta comunicava o vestíbulo com o salão”.
Em todo o caso, parece que Horácio Bento terá, de algum modo, inaugurado o que Giampaolo Tonini, numa entrevista cedida ao Tribuna da Madeira (21-XII-2001), notou na poesia contemporânea insular:
Uma profunda pesquisa linguística e estilística orientada no sentido da procura de novos valores no interior do código linguístico e também uma renovação do processo criativo tornado mais livre graças a um menor grau de sujeição em relação à tradição poética portuguesa. (TONINI 2001)
Esta exploração “conduz a soluções formais e semânticas inovadoras”, como observa o estudioso italiano.
A nível de imagens (metáfora ou comparação), registam-se tropos que dificilmente poderiam ter sido imaginados por outro que não um madeirense ou que foram inspirados directamente na experiência de vida na Madeira: “A mulher foi dando filhos como baraço que dá pimpinelas” (C, 183), “calor de rachar tis (C, 182); “– O til mai grosso da serra ao pé daquilo é cuma ũa formiga cumparada a ũa manta” (AM, 61), “ele que sempre tinha sido um carro de bois a andar” (C, 211). “[rapazes e raparigas] alcandorados nas rochas altas como francelhos” (LM, 17); “É um mar de nevoeiro
espesso que vai forrando as formas telúricas e vegetais.” (M, 274); “e até da inocente liberdade do viver como vive a toutinegra que, do alvorecer ao último desmaio do crepúsculo, voeja poisando nos arbustos florescidos, nas boiças ou nos ramitos baloiçantes e enguilhados do pessegueiro.” (LM, 56); “a sexta-feira estava quente como dia de leste na Ilha” (LM, 190); “espertou-lhe um sentimento repelente como a vista de uma lagartixa” (LM, 254); “uma voz é como apupo de búzio” (LM, 17)”; “tal um ressoar de búzio as últimas palavras [...] sentenciaram o inexorável” (LM, 262).155
Certo é que, apesar de alguns preciosismos pontuais, a sua escrita é matéria trabalhada no português vernáculo, na invenção, na sugestão, na musicalidade, no ritmo e na prática discursiva, o que lhe confere uma unidade estilística apreciável. Desse ponto de vista, dir-se-á com Maria Elisete Almeida que:
O romancista soube tirar o melhor partido das singularidades madeirenses, ao usar com sábia dosagem esses traços particulares, que ele entrelaça constantemente com o uso da língua corrente. Donde resulta que, mesmo para um continental, a sua linguagem nunca seja obscura, mas pelo contrário, pitoresca e expressiva. A escolha das expressões reflecte sempre um grande cuidado estético e um incontestável sentido de poesia. (ALMEIDA 1999: 79)
155 Os itálicos são nossos.