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Peace Support, Private Military and Security Companies, and Canada

A obra de Horácio Bento de Gouveia apresenta uma visão panorâmica do que era a Madeira no século XX, designadamente a paisagem natural e humanizada, os principais problemas socioeconómicos e os conflitos morais, bem como a evolução das mentalidades. De entre vários méritos, os romances oferecem a vantagem de explorar os lugares cada vez mais distantes da memória madeirense. Neles, os leitores do continente e de outras paragens podem sempre descobrir certa realidade passada e muitos leitores madeirenses, tanto de ontem, como de hoje, terão razões para se sentirem, eles-próprios, lisonjeados por este reconhecimento. Muitos não imaginavam que a vida dos insulares, de que é exemplo esse falar que lhes é característico e até então estigmatizado, pudesse sequer enriquecer a língua e a cultura portuguesas.

Horácio Bento pinta vários quadros romanceados do quotidiano dos madeirenses na ilha ou espalhados pelo mundo, mas sempre a ela ligados, nos três primeiros quartéis do século XX. Para se perceber o presente, esses quadros constituem uma óptima introdução enquanto contexto histórico-social. Por exemplo, as actividades económicas que enquadram a vida dos ilhéus estão, assim, ligadas a mundos, ora extintos, como o regime de colonia e a faina dos pequenos engenhos, ora reformulados, como a indústria do bordado e a emigração, ora em franca expansão, designadamente o do vinho e o do turismo. A leitura da obra bentiana apresenta interesse para os leitores hodiernos, nomeadamente para os madeirenses, pois, entre outros aspectos, permite-lhes compreender com que fios se teceu a actual situação da Madeira e que novos problemas daí decorreram.

Nas primeiras obras, o escritor fala de um povo sofredor, que já não existe, designadamente o dos colonos (I / C, passim), o dos bomboteiros114 (LCM, 59, 150; M, 345), os candeeiros115 (C, 45), ou que perderam visibilidade, tal como o das bordadeiras (LCM, passim) e o dos levadeiros116 (I, 142; AM, passim). Trata também de uma ilha que já foi, com paisagens, muitas vezes, já desaparecidas, mas que os livros souberam resguardar.

Na ficção bentiana, animam-se, por exemplo, os antigos meios de transporte, como o Elevador do Monte (LM, 98, 193; M, 193), o carreireiro que ligava a Madeira ao Porto Santo (LM, 224 e 226), a rede, o palanquim (C, 29; LM, 17) e o carro de bois com estrangeiros a deslizarem pelo Funchal (LM, 213). Tornam-se actuais, ainda, os entretenimentos, como o “belamente”117 (TV, 13), a lanterna mágica que passava “vistas” nas paredes das vendas (LCM, 31) ou, já no âmbito dos costumes da freguesia da Ponta Delgada, o espectáculo das gangorras e a dramatização carnavalesca da “serra da velha”. É, ainda, possível reviver o contornar da montanha e do vale, a bordo do vapor “Gavião” ou do “Bútio”, que fizeram a ligação entre as freguesias rurais e a cidade e, mais tarde, com a abertura de estradas, o atravessar da acidentada orografia da ilha pela força dos “horários” (autocarros).

Em torno de uma problemática social e moral de primeiro plano, há evocações de faits divers que marcaram a história local. Nos três primeiros romances, evoca o incêndio da igreja da Ponta Delgada, em 1908. Em Torna-viagem, o romance da

114 É “o homem que exercia o bombote”, isto é, “a venda a bordo dos vapores estrangeiros de produtos naturais da ilha ou de artigos nela manufacturados” (PESTANA 1970: 44)

115 É o “rapaz que vai adiante da junta de bois que puxa o carro” (PESTANA 1970: 52) 116 É “o homem que faz a distribuição das águas das levadas” (MACEDO 1939: 64)

117 Também se diz “balamento”: “jogo que se pratica durante as sete semanas da Quaresma, até ao sábado da Ressurreição. Consiste em duas pessoas de qualquer idade andarem constantemente apostadas em ser cada uma delas a primeira a dizer à outra, de surpresa: Belamente! Aquela que, ao fim da Quaresma, o tiver conseguido maior número de vezes ganha um prémio, em geral, de amêndoas. Este jogo é mais vulgar na cidade e nalgumas vilas e é praticado com tanto entusiasmo que às vezes dá lugar a relingas [zangas] sérias” (PESTANA 1970: 40)

emigração madeirense, fica registado o trágico acidente de avião da TAP, em 1977118. Em Águas Mansas, narrativa de vida, desenrola-se a “reportagem” acerca da fiscalização apertada da produção de aguardente de cana-de-açúcar que acabou por asfixiar os engenhos de açúcar. No decorrer da história da personagem Luísa Marta, é referenciada a grande guerra e os bombardeamentos do Funchal (Dezembro de 1916 e Dezembro de 1917), por submarinos alemães (LM, 49-50). No mesmo livro de ficção, é referido o desastre da Boaventura, em que uma deslocação de terras, ocorrida em Janeiro de 1979, sepultou o carro do pároco da Ponta Delgada que transportava três paroquianos119. Margareta traz a menção à telenovela brasileira Gabriela, Cravo e Canela (M, 228), ficção televisiva, baseada num romance de Jorge Amado, que marcou a história da televisão em Portugal e a memória da geração do pós-25 de Abril. Além do mais, quem se recordará que a “Quinta Magnólia” era o “Clube Inglês” (M, 318)?

118 Trágico episódio da História da aviação civil em Portugal que enlutou a Madeira. Numa noite de chuva torrencial, a 19 de Novembro de 1977, à terceira tentativa de aterragem, um Boeing 727 da TAP despenhou-se sobre a zona do calhau, para lá da pista, na extremidade virada para Santa Cruz. No dia seguinte, o Diário de Notícias do Funchal noticiava: cento e vinte e três mortos e trinta e nove feridos hospitalizados.

119 Na senda do avô, o neto do “Feiticeiro do Norte” relata o trágico acontecimento em « O Temporal – Ano 1978 a 1979 » do seguinte modo, no livro Versos (Ed. Câmara Municipal de Santana e da Banda Escola Nossa Senhora de Fátima do Arco de S. Jorge, 1995, pp. 53-54):

“No Serrão – Boaventura é o ponto das partidas; tem a Fajã do Penedo que sepultou nove vidas. No lugar assinalado, carro de gente esmagado e seu próprio condutor, um homem Padre formado. No jornal de vinte e seis, Janeiro mês d’agonia, Página oito – de luto; Boaventura tremia, Pároco – Ponta Delgada E outra gente em companhia Lá ficaram sepultados, Debaixo da lama fria, Nessa Fajã do Penedo, De má sorte – a travessia.”

Contudo, Horácio Bento de Gouveia encontra o meio de perspectivar a sua contemporaneidade ou história recente numa ficção e não numa mera reportagem, porque, em vez de se perder na função de documentário, se eleva, pela tensão dramática, a transfigurar a realidade e a atingir uma dimensão literária. Nos recantos do quadro com estórias de vida de gente anónima, que Horácio Bento procura animar, estão os acontecimentos registados nos anais dos historiadores. Ficamos, assim, a conhecer melhor a evolução histórica dos insulanos madeirenses. A leitura da obra, como sublinha Michel Maillard: “permite a qualquer leitor [nacional ou estrangeiro] documentar-se sobre a Madeira e as suas particularidades” (MAILLARD 2002: 69).

Horácio Bento de Gouveia tinha por missão revelar – no sentido fotográfico do termo, ou seja, dar a ver – a Madeira aos madeirenses e ao mundo. Essa preocupação, aliás, recorrente na sua ficção, levou-o a enaltecer os elementos de uma autenticidade madeirense nas obras. Desse ponto de vista, a missão foi, sem sombra de dúvida, cumprida.

2.2. A mundivivência madeirense transfigurada pela escrita: lugares e tipos

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