As primeiras manifestações a respeito dos Estudos Culturais surgem no final da década de 1950 na Inglaterra. O campo de estudos se organiza como prática intelectual institucionalizada no Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS) para criticar a contestação empreendida pela denominada alta cultura em relação à cultura popular.
Nas palavras de Escosteguy (2011, p. 22), “é justamente contra a oposição entre o cânone e seu outro, a cultura popular, que os estudos culturais vicejaram”. A autora destaca ainda que o surgimento dos Estudos Culturais enquanto campo de conhecimento coincide em
3 As orientações curriculares da Secretaria da Educação do estado de São Paulo desdobram-se em cadernos do
professor e do aluno, elaborados por especialistas de cada área de conhecimento, organizados por disciplina/ série (ano)/ bimestre e que constituem-se em princípios para auxiliar o trabalho do professor e a aprendizagem do aluno em sala de aula.
um momento de impacto do capitalismo nas formas culturais britânicas, causando como consequência, uma crise de identidade nacional.
Para Hall (2003), os livros de autores como Richard Hoggart, Raymond Williams e Edward Palmer Thompson, fundadores do CCCS, contribuíram para o surgimento dos Estudos Culturais britânicos. No entanto, destaca que os Estudos Culturais não possuem uma origem simples, ao contrário, possuem uma diversidade de trajetórias e mesmo antes da contribuição dos autores citados, os Estudos Culturais já se encontravam presentes na obra de outros autores.
Uma das obras marcantes do início dos Estudos Culturais britânicos é a obra Cultura e
Sociedade, de Williams (2011), que destaca a historicização do vocabulário, em especial, da
palavra cultura, que não é neutra e acaba modificando sua origem com o tempo. O autor ressalta o movimento no pensamento e no sentimento que traz a palavra cultura presente na tradição britânica entre os séculos XVIII e XX.
O objetivo é mostrar que ao longo do período analisado, é construído e formulado um conceito de cultura. Essa construção se dá por uma reação a uma série de modificações por conta do início da sociedade industrial inglesa, que determinaram mudanças fundamentais nas condições da vida em comum. Para demonstrar essas mudanças, Raymond Williams analisa diferentes pontos de vista de alguns autores ingleses, entre eles, poetas, analistas políticos, críticos literários, entre outros. Os discursos desses autores constituem uma crítica em relação à sociedade no contexto da época: convulsão pela democracia política e progresso industrial.
Após as análises históricas do conceito de cultura, destaca que o conceito é importante para compreender a sociedade como um todo, uma maneira de abordar as desigualdades sociais provocadas pelo industrialismo. A Modernidade nos individualiza, o que não permite uma cultura em comum, daí a busca de uma cultura a partir da coletivização, com objetivo de acesso de todos ao conhecimento e meios de produção cultural. Apesar desse posicionamento, Raymond Williams compreende a complexidade da proposta de uma sociedade baseada na solidariedade, possível através de uma cultura comum.
Em oposição à ideia de uma minoria que decide o que é cultura e depois difunde entre as “massas”, Williams propõe a comunidade de cultura em que a questão central é facilitar o acesso ao conhecimento e aos meios de produção cultural. A ideia de uma cultura comum é apresentada como uma crítica e uma alternativa à cultura dividida e fragmentada que vivemos. Trata-se de uma concepção baseada não no princípio burguês de relações sociais radicadas na supremacia do indivíduo, mas o princípio alternativo da solidariedade que Williams identifica com a classe trabalhadora. Esse o
ponto de superação da tradição de cultura e sociedade [...] (CEVASCO, 2003, p. 20).
A cultura do ponto de vista da classe trabalhadora une os representantes notáveis da tradição de Cultura e Sociedade. Além do próprio Raymond Williams, autores como Richard Hoggart e Edward Palmer Thompson (CEVASCO, 2003). Segundo Hall (2003), para os autores fundadores dos Estudos Culturais britânicos, a cultura não é mais vista como o que de melhor se tenha pensado e produzido, mesmo a cultura que sempre possuiu uma posição de destaque, é vista apenas como uma produção social.
A partir de 1960, ocorre nova mudança no conceito de cultura, substituída por culturas no plural, o objetivo não é a busca de uma cultura em comum, mas um embate entre as culturas, sob influência das modificações “na organização social de um mundo conectado pelos meios de comunicação de massa”, numa época denominada de “pós-moderna, como se tudo tivesse ultrapassado o contemporâneo” (CEVASCO, 2003, p. 24).
Hall (2003, p. 211) também pontua as importantes contribuições do feminismo e do estudo das questões raciais para a formação dos Estudos Culturais, além da “virada linguística”4, que reconfigura as teorias e o pensamento das questões referentes à cultura “através das metáforas da linguagem e textualidade”.
Na América Latina, os Estudos Culturais emergem atrelados ao processo de redemocratização e de intensas alterações na vida social a partir da década de 1970, como nas lutas sociais contra repressão de governos ditatoriais, nos processos de democratização da comunicação e na influência da política econômica internacional, especialmente nos trabalhos de Jesús Martín-Barbero e Néstor Garcia Canclini, tidos como expoentes dos Estudos Culturais latino-americanos (ESCOSTEGUY, 2010).
Na visão de Hall (2005a, p. 16), os Estudos Culturais estão atualmente em toda parte, preocupados com questões de pensamento, conhecimento, argumento e debate de uma sociedade e de sua cultura, e “constituem um dos pontos de tensão e mudança nas fronteiras da vida intelectual e acadêmica, levando a novas questões, novos modelos e novas formas de estudo, testando as linhas tênues entre o rigor intelectual e a relevância social”.
No entanto, Nelson, Treichler e Grossberg (2011, p. 24) alertam que a expressão Estudos Culturais passou a ser utilizada em muitos trabalhos de maneira indiscriminada,
4 Para Hall (2003, p. 211) a virada linguística de certa forma provocou um deslocamento no trajeto dos Estudos
Culturais ao analisar a cultura através da “expansão da noção do texto e da textualidade, quer como fonte de significado, quer como aquilo que escapa e adia o significado”, além do “reconhecimento da heterogeneidade e da multiplicidade dos significados” [...].
“muitas pessoas simplesmente renomeiam aquilo que elas já estavam fazendo” apenas para se aproveitar da ascensão do campo de conhecimento.
Os Estudos Culturais constituem um campo de conhecimento interdisciplinar e até mesmo antidisciplinar, no entanto, apesar da abrangência de atuação, partilham sempre de um compromisso de examinar as práticas culturais do ponto de vista das relações de poder (NELSON; TREICHLER; GROSSBERG, 2011). Para Neira e Nunes (2009, p. 187), os Estudos Culturais contribuíram para abalar a concepção de conhecimento naturalizado da história ou explicações acadêmicas mais eficazes da realidade, alertando para “a complexidade das relações sociais, a que todos atravessam, em todas as direções e em permanente movimento, permeando os vários níveis da existência social”.
O conceito de cultura determinado pelas elites incorpora novos significados com os Estudos Culturais, que “perde sua condição maiúscula e singular e ganha à pluralidade das culturas”, como a cultura negra, étnica, juvenil, esportiva etc. (NEIRA; NUNES, 2009, p. 188). Dentre as diversas instituições sociais analisadas pelos Estudos Culturais está o sistema de ensino. As análises influenciadas pelos pressupostos dos Estudos Culturais revelam que a escola acaba difundindo o conhecimento da classe dominante, com o discurso de levar a verdadeira cultura para o povo, não corroborando com esse discurso, os Estudos Culturais propõe a incorporação ao currículo dos saberes originários dos grupos culturais minoritários nas relações de poder.
Como projeto político, os Estudos Culturais não pretendem ser imparciais ou neutros. Sua proposta constituinte é tomar partido dos grupos desprivilegiados nas relações de poder em sua luta pela significação. Os Estudos Culturais sempre estão do lado mais fraco. Suas analises tencionam funcionar como forma de intervenção social. Seu compromisso é examinar qualquer pratica cultural baseando-se em sua constituição e seu envolvimento com e no interior das relações de poder (NEIRA; NUNES, 2009, p. 192).
Como colocam Neira e Nunes (2011, p. 678), o campo curricular da Educação Física pode se beneficiar das contribuições dos Estudos Culturais para melhor compreensão do privilégio de certos grupos culturais, que difundem determinada visão de mundo e de práticas corporais. Com o apoio de Stuart Hall, os autores destacam que a “cultura é um sistema simbólico que atribui significado as coisas”, contribuindo, desse modo, para “estabilizar as relações na medida em que se criam fronteiras para excluir o que está fora do lugar e da ordem e, assim, criar homogeneidade”. Dessa forma, qualquer incômodo na ordem culturalmente estabelecida é prontamente rejeitada.
Em relação aos artefatos da cultura corporal, citam o exemplo da capoeira, que após muito tempo de marginalização atualmente adentra os currículos escolares, além de outros espaços sociais, como clubes e academias. “Isso não foi obra do acaso, mas sim, por meio de lutas por significação. Como artefato cultural, a capoeira fez mais do que ampliar seus espaços de atuação, ela propiciou uma ação política da cultura negra” (NEIRA; NUNES, 2011, p. 679). No entanto, mesmo quando incorporados pelos setores dominantes, os artefatos culturais costumam sofrer modificações. Novamente os autores se valem do exemplo da capoeira, alertando para o apagamento de sua história quando incluída no currículo escolar devido ao benefício à saúde ou ainda como contributo para o desenvolvimento motor dos alunos.
Para Costa (2002), toda teorização curricular é um conjunto de discursos e saberes. As narrativas sobre esse conjunto de conhecimentos acabam os instituindo como “verdade”, uma estratégia para o governo e regulação dos sujeitos. Dessa forma, os Estudos Culturais e sua multiplicidade de análises contribuem para o questionamento dos textos culturais presentes nos currículos escolares tidos como verdade e que acabam forjando nossas identidades e visões de mundo, acentuando atitudes discriminatórias e preconceituosas.
De acordo com Moreira (2003), os pressupostos dos Estudos Culturais podem auxiliar na capacidade dos professores analisarem criticamente as mensagens veiculadas no contexto educacional. Na ótica de Silva (2011a), as contribuições dos Estudos Culturais para análise do currículo se dá no concebimento do currículo como artefato cultural e campo de luta onde diferentes grupos tentam a hegemonia em torno da significação e da identidade.
Outra vantagem é que os Estudos Culturais, ao compreender todo conhecimento como cultural, possibilita uma equiparação dos conhecimentos tradicionalmente concebidos como escolares ao conhecimento popular. Além disso, questiona os critérios de inclusão de determinados conhecimentos no currículo em detrimento de outros. Contudo, Silva (2011a) salienta que a influência dos Estudos Culturais na elaboração de políticas curriculares ainda é mínima.