Como vimos anteriormente, muitos foram os recordes estabelecidos nos primeiros quinze anos do nosso automobilismo. Alguns deles, naturalmente, foram efectuados uma única vez e depois esquecidos. Contudo, a ligação Lisboa-Madrid teve a antecedê-la um elemento dramático novo: um desafio formulado pelo representante da Napier em Lisboa aos outros importadores da capital.435 Em finais de Janeiro de 1909, um Napier de 40 cv lançou-se à estrada, ligando Cacilhas a Madrid, com um caderno de marcha que se previa relativamente apertado. A máquina estava bem preparada, oferecendo um conjunto de soluções mecânicas fiáveis graças ao seu excelente motor de seis cilindros. Mas qual a lógica por detrás deste desafio? No dia 26 de Janeiro de 1909, no jornal Século, um anúncio de grandes dimensões, publicado estrategicamente na última página, chamava a atenção dos leitores, com o seu título em grandes letras que dizia “MUITA ATENÇÃO – NAPIER” e a seguir fundamentavam-se de uma forma não totalmente explícita as razões que impunham à The British Automobiles436 – representante da marca inglesa entre nós – o lançamento deste particular desafio: “Que havia quem dissesse que a Napier fazia uma comunicação espalhafatosa” e “que havia quem aceitasse qualquer desafio imposto pela Napier, desde que em condições idênticas.”437
Nessas circunstâncias, o representante da Napier anunciava que, tendo uma viatura à disposição para o efeito, propunha um desafio, num percurso de 2.000 km, sem especificar qual, demonstrando que o seu veículo alcançaria maior velocidade gastando menos combustível, menos óleo e menos pneus! Obviamente, não era definido neste anúncio a quem se referiam as afirmações expressas por terceiros. Mas havendo duas empresas de grande dimensão em Lisboa – a Sociedade Portuguesa de Automóveis e a Albert Beauvalet & Cta. – fácil é de entender quem eram os principais visados naquelas expressões. Na realidade, Albert Beauvalet usava na sua comunicação alguma forma de condenação dos anúncios espalhafatosos que falavam exclusivamente dos resultados da competição, afirmando inclusivamente que “as corridas apenas serviam para atirar poeira à cara dos clientes.”438 Mas Beauvalet já estava na fase de trespasse do negócio Peugeot, procurando outra marca para trabalhar – seria a Berliet, com que firmaria contrato alguns meses depois – e, consequentemente, era a SPA o verdadeiro alvo desta operação. Um desafio ao líder fazia todo o sentido e servia para dar notoriedade à marca – que era o que ela precisava nessa altura crucial de relançamento comercial, dando continuidade aos procedimentos de marketing impostos pelo patrão da marca, Sellwyn Francis Edge.439
Na edição seguinte, a Napier dava mais pormenores sobre a natureza do percurso mas, propositadamente, ainda não falava em Madrid, por certo para evitar que eventuais adversários tivessem ocasião de estudar e preparar a viagem. As condições do desafio requeriam que os concorrentes se apresentassem às 15 horas do dia 28 no Largo do Quintela, com destino a Cacilhas seguida de uma viagem de 1.000 a 2.000 km. Os desafiados sabiam, contudo, que o percurso passaria por Espanha pois a empresa afirmava explicitamente: “Também teremos muito prazer em conduzir a qualquer destino, em Espanha, alguém que esteja para comprar um carro e queira saber o que vale um Napier”.440
A forma como o desafio foi colocado revela que à British Automobiles interessava não haver respostas positivas e daí a evidente cortina de fumo em relação às condições do desafio
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proposto. A divulgação desses pressupostos acabou por ser feita pelos jornalistas que recolheram as informações complementares e publicaram-nas nos seus orgãos de comunicação. No jornal O Século do próprio dia 28 surgia assim a pequena local:441
“Parte hoje às 8h da manhã o director da Ilustração Portuguesa que fará a viagem de automóvel, um magnífico carro Napier, de 40 cv, com pneumáticos anti-derrapantes Kempshall, conduzido pelo sr. A. Garcia Rugeroni. O itinerário será Lisboa, Barreiro, Elvas, Badajoz, Merida, Talavera, Navalcarnero e Madrid, contando os excursionistas chegar ainda hoje à capital de Espanha, aproximadamente às 11h da noite, estabelecendo entre as duas cidades um record de excursionismo.“
A operação estava bem montada pelo representante da Napier. A presença do director da Ilustração Portuguesa daria a cobertura necessária ao evento e a notoriedade pretendida. Não foi por isso irrelevante o facto dos anúncios do desafio terem sido publicados em O Século, pois esse plano faria parte do conjunto de contrapartidas mútuas entre a empresa editorial e a The British Automobiles, Lda. A publicação da reportagem do “recorde transformado em passeio”, como lhe chamou Carlos Malheiro Dias – e que só teve lugar na edição de 12 de Abril de 1909 – demonstra claramente que esta operação tinha sido montada, pelo menos, em Outubro e que, em pleno Casino do Monte Estoril, José Garcia Rugeroni terá convidado o jornalista e escritor para o acompanhar a Madrid de automóvel. Malheiro Dias aproveitou e levou também consigo o fotógrafo Arnaldo Fonseca que fez publicar várias fotos da viagem naquela revista.442
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Para a Sociedade Portuguesa de Automóveis, este desafio tal como tinha sido estruturado pela The British Automobiles não era atraente, mas alguns dos seus responsáveis terão pensado numa forma de dar a volta à questão e arranjar uma boa polémica que acabasse por resultar a seu favor. Por essa razão, mantiveram-se calados, não compareceram no Largo do Quintela à hora anunciada, como se pretendia, e terão planificado a viagem Lisboa-Madrid hors concours nos seguintes termos
:
i) escolheram para este desafio o mais acessível e o menos potente dos automóveis disponíveis no seu catálogo, a voiturette da De Dion Bouton, a Populaire, com um motor de um único cilindro e 8 cv de potência, eliminando-se assim eventuais comparações mecânicas com o potente Napier.
ii) elegeram uma viatura usada – e não um automóvel novo – para efectuar o percurso. Acresce que a viatura em questão era bem conhecida dos automobilistas de Lisboa, denominada carinhosamente por “Catarina” pelos funcionários da SPA443 pelo que a atmosfera de sucesso estava de antemão criada: um eventual fracasso da voiturette
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seria compreensível – era um automóvel pequeno, pouco potente, e com uso – enquanto uma vitória seria transformada rapidamente em glória da marca e do representante;
iii) destacaram para esta comissão de serviço dois experimentados elementos da casa: José de Aguiar, que já havia vencido o Quilómetro Lançado da Valada; e Joaquim Correia, que além de chauffeur era um mecânico experimentadíssimo, tendo acompanhado D. António Praia na sua excursão à volta da Europa, entre 1905 e 1906; iv) partiram com algumas horas de atraso, sem alaridos, mas fortemente concentrados na
condução e no ritmo cadenciado da marcha;
v) informaram-se junto do Real Automóvel Club sobre quais os procedimentos necessários à homologação do recorde, os quais exigiam um caderno de marcha carimbado pelas estações dos correios e de telégrafos de algumas das localidades de passagem bem como pelos postos alfandegários.
No dia 31 de Janeiro “estalava a bomba” na imprensa portuguesa com a Sociedade Portuguesa de Automóveis a publicar um anúncio de grandes dimensões, também na última página, com o título “RECORD LISBOA-MADRID” onde de forma aparentemente ingénua, a Sociedade Portuguesa de Automóveis remetia para as comunicações anteriores da Napier, dizendo resumidamente que “sabia que um automóvel Napier novo partiria de Lisboa no dia 28 de Janeiro, às 3 horas da tarde, para estabelecer o record Lisboa-Madrid e que o representante dessa marca desejava o confronto com carros de outras casas”. 444 Sem afirmar explicitamente que tinha aceite o desafio, o anúncio referia ainda o seguinte:445
A Sociedade Portuguesa de Automóveis aproveitou a ocasião para mais uma vez provar de forma prática e indiscutível as qualidades dos carros que recomenda para Portugal. Nessa conformidade escolheu o carro de menor força nas suas garages, uma «voiturette» De Dion Bouton, 8 cv e 1 cilindro, com perto de dois anos de serviço diário e constante, bem conhecida em Lisboa, e que andou fazendo o seu serviço habitual até ao meio-dia de 28 de Janeiro, dia da partida
O anúncio publicava depois as tabelas de marcha dos dois automóveis, sintetizando as horas de partida e chegada de cada um: “Uma voiturette De Dion Bouton saíu de Lisboa 4 horas depois de um automóvel Napier, 40 cavalos – 6 cilindros, e chegou a Madrid meia hora antes do referido carro.”446 Estava instalada a polémica. O Napier da The British Automobiles, guiado pelo condutor inglês Cundy, levava consigo Garcia Rugeroni, Carlos Malheiro Dias e o fotógrafo Arnaldo Fonseca e o propósito da marcha deixara de ser o de obter o melhor tempo possível, pois aparentemente não havia nenhum veículo que tivesse aceite o desafio. José Garcia Rugeroni teria mesmo abandonado a ideia estrita do recorde, convertendo-o numa excursão rápida, pois houve o intuito de recolher informações variadas durante a viagem, conforme o atestam as inúmeras fotografias publicadas, que exigiram paragens no percurso, suficientemente inibidoras de qualquer tentativa séria de recorde.
A Sociedade Portuguesa de Automóveis, naturalmente, continuou a publicar os seus anúncios, sempre na perspectiva de fixação do recorde Lisboa-Madrid, revelando alguns detalhes da viagem, com transcrição de telegramas, pormenores da tabela de marcha dos dois veículos, etc. Uma vez que o jornal O Século havia sido contemplado com o exclusivo da operação desenhada por Rugeroni para a sua marca Napier, o Diário de Notícias tomou claramente o partido da SPA e na sua edição de 4 de Fevereiro era publicada a seguinte notícia, sob o título bem elucidativo “Uma vitória do automobilismo português. De Lisboa a Madrid, uma «voiturette» De Dion Bouton e dois «chauffeurs» portugueses”:447
A caminho de Madrid se puseram no dia 28 de Janeiro, às 9 horas e 10 minutos da noite, dois rapazes que a Sociedade Portuguesa de Automóveis estima afectuosamente pelas suas excelentes qualidades e méritos profissionais, os srs. José de Aguiar, gerente, chefe mecânico da mesma sociedade e Joaquim Correia, chefe dos «chauffeurs» daquele mesmo estabelecimento, um dos que mais honra a capital e que tem à sua frente, Bleck, Peixoto, António Praia e um grupo de homens de uma energia e boa vontade dignas de registo. A pequenina «voiturette» de 8 cavalos e 1 cilindro, marca «De Dion Bouton», propunha-se pois fazer uma marcha de resistência entre Lisboa e a capital do vizinho reino, Madrid, e às 9 horas
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e 10 minutos da noite de 28 largava no vapor «Lisbonense» para Cacilhas, seguindo dali por Vendas Novas a Badajoz, onde chegava pelas 7,45 da manhã seguinte. Outro automóvel havia partido com o mesmo destino, na mesma tarde, em viagem de reprovar a perícia dos seus «chaffeurs» e baseada na velocidade compatível com as suas forças, ver a resistência do seu motor, comprovar a perícia dos seus «chauffeurs» e bater o primeiro record Lisboa- Madrid, 700 e tantos quilómetros.
Por seu turno, O Século manteve uma postura diametralmente oposta neste conflito:448 Sobre o pretendido «match» entre a «voiturette» Dion e o carro Napier, a verdade é que não se pode tomar à conta de «record» a viagem do Napier. O sr. Rugeroni Garcia ignorava que o seu desafio tinha sido aceite. Nessa ignorância estava em Setúbal, onde se demorou seis horas. Demorou também duas horas em Elvas e quatro em Badajoz. Em todas as povoações de Espanha parou para visitar monumentos e tirar fotografias. Em Trujillo, demorou duas horas e vinte minutos. Assim, toda a ideia de «record» deve ser afastada da discussão. O que é evidente é que o carro Napier caminhou pouco mais de catorze horas, desde Cacilhas a Madrid. Consta que o sr. Rugeroni Garcia vai desafiar a Sociedade Portuguesa de Automóveis para decidir o assunto, tomando para base da viagem o período de catorze horas. Para esse «record» o sr. Garcia utiliza um novo carro Napier.
As duas empresas mantiveram ainda durante algum tempo uma acesa troca, quer de acusações quer de novos desafios, para surpresa da generalidade do público que acompanhou esta impressionante contenda. O assunto manteve-se na ordem do dia, sobretudo entre o meio automobilista durante algum tempo mas acabou por cair no esquecimento.