Entre Agosto de 1905 e Abril de 1906 um grupo de três portugueses lançou-se numa fantástica aventura. Um aristocrata, D. António Medeiros (Praia e Monforte) e o seu amigo, Augusto d'Ornellas Bruges, juntamente com o chauffeur Joaquim Correia efectuaram, durante aproximadamente oito meses, uma extraordinária excursão em automóvel que os fez percorrer praticamente todas as grandes cidades da Europa, ligando Lisboa a Constantinopla. Com efeito, D. António Praia resolveu em pleno Verão de 1905 preparar um automóvel De Dion Bouton com o objectivo de unir por estrada as principais capitais e cidades da Europa. O plano inicial não contemplava as ilhas britânicas, a Escandinávia e o Império Russo. Porém, o traçado definido pelos dois aventureiros era ambicioso: Madrid, Paris, Bruxelas, Amsterdão, Berlim, Viena, Budapeste, Belgrado, Sofia, Bucareste e Constantinopla, na primeira etapa – ou
seja o percurso de ida – estando o regresso previsto com passagem por Atenas, Nápoles, Roma, Milão, Turim, Berne, Nice, Barcelona, Sevilha e Lisboa.
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Não existem hoje registos sobre a origem da ideia desta excursão. Terá sido o aristocrata a propor à Sociedade Portuguesa de Automóveis este périplo europeu, pedindo-lhe apoio logístico e técnico, ou terá sido aquela empresa, importador oficial da marca De Dion Bouton a aliciar D. António Borges de Medeiros a empreender semelhante maratona? Há detalhes que indiciam que a Sociedade Portuguesa de Automóveis terá tido um papel importante no apoio técnico a esta expedição. Em primeiro lugar, o automóvel escolhido, um De Dion Bouton 15 cv, de quatro cilindros, tinha matrícula francesa (416-E6) o que faz supor que este veículo terá sido importado, com o apoio da fábrica, para este objectivo. Por outro lado, aparece como inesperado terceiro elemento da equipa um funcionário da SPA, o chauffeur Joaquim Correia,512 que, para além de dominar a condução dos automóveis deste tempo, tinha também conhecimentos mecânicos suficientes para poder eliminar alguns percalços na estrada de forma a não necessitassem de recorrer a uma oficina.
A prova disso é que o De Dion Bouton foi carregado com mais de 400 kg de peças e componentes, considerados suficientes para a grande maioria das eventuais reparações que fossem necessárias para qualquer contrariedade registada ao longo percurso. A imprensa confirmará, no final da viagem, que a inclusão de Joaquim Correia na comitiva tinha sido determinada por razões técnicas e que a sua presença “foi, incontestavelmente, pela sua dedicação e competência, um valioso auxiliar dos excursionistas.”513 Por outro lado, convirá ter em conta que a De Dion Bouton já estava habituada a este tipo de raides pois de forma directa ou indirecta, a marca já tinha efectuado, até esse momento, expedições com larga distância, nomeadamente a Volta a França, em 1901, uma Volta à Europa em 1902 e um circuito euro- africano em 1903, com 6.250 km,514 liderado pelo experiente piloto Cormier.515
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A união de grandes cidades europeias com um veículo motorizado era já o leit-motiv das célebres corridas de automóveis do princípio do século e o seu paradigma seria a realização da impressionante maratona “Paris-Pequim”. Porém, já em 1902 dois espanhóis uniram Gijon a Moscovo, em automóvel, perfazendo 12 000 quilómetros e a imprensa nacional também não deixou passar sem uma referência especial viagens semelhantes realizadas no continente americano, anunciando no verão de 1903 o novo recorde da travessia dos Estados Unidos, costa a costa, em 61 dias, num automóvel de 12 cv, feito cometido por Thomas Fitch e Marcus Krarup.516
As ligações do Atlântico ao Pacífico na América do Norte constituíram, aliás um bom pretexto para se efectuarem longas viagens de automóvel, mas neste caso, claramente, com um pretexto de tempo mínimo – e eventualmente com um carácter comercial para as marcas de automóveis utilizadas – e, portanto, sem qualquer objectivo turístico.517
No princípio do ano de 1905, o francês Jules Rasson – engenheiro mecânico da marca Clément – empreendeu uma iniciativa semelhante ao volante de um automóvel Bayard- Clément de 24 cv. Partiu em Abril de 1905 tendo percorrido toda a periferia mediterrânica. Foi a Coimbra, onde estava localizado o importador da marca, a Empresa Automobilista Portuguesa, tendo sido recebido com pompa e circunstância no dia 29 de Outubro.518 Esteve em Lisboa nos primeiros dias de Novembro desse ano519 e terá percorrido um somatório de 25.000 quilómetros, o que não deixa de ser uma performance notável.
Como vimos anteriormente, estas viagens, efectuadas no princípio do século XX, embora se demarcassem por utilizar automóveis como instrumento único de mobilidade, não tinham todas o mesmo denominador comum. Certas expedições tinham um objectivo exclusivo de marketing dos respectivos construtores de automóveis que pretendiam promover os seus produtos e demonstrar as suas catacterísticas de conforto, fiabilidade e, nalguns casos, de rapidez. Outras constituíam adaptações bem sucedidas das viagens pioneiras, com objectivos puramente turísticos assumindo em exclusivo uma “forma privilegiada de lazer e ampliação dos conhecimentos sobre a história, a sociedade ou o património dos diferentes espaços geográficos”.520
A viagem de D. António Praia tinha, por isso, uma vertente diferente pois assimilava a dicotomia entre uma necessidade comercial definida por uma marca de automóveis e uma certa sedução pelas grandes excursões, realizadas nos séculos anteriores, tendo como objectivo a Europa Continental, conhecidas por “Grand Tour”. A Sociedade Portuguesa de Automóveis não se eximiu assim a publicar anúncios a anunciar a viagem bem como, depois, a congratular-se com o resultado obtido pelos automobilistas portugueses.521
O que terá levado este titular a avançar para tão temerosa epopeia é difícil de explicar522 mas uma pequena notícia publicada no Tiro e Sport de Dezembro de 1904 em que se reportava uma aposta efectuada entre dois franceses, Fournier e Dertelle – em que o primeiro terá assegurado que conseguiria efectuar uma viagem pela Europa em apenas um mês, num automóvel – poderá ter tido um efeito potenciador no espírito do aristocrata.523
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A partida deu-se no dia 30 de Agosto de 1905, sem grandes ecos na imprensa da época. Porém, as notícias foram aparecendo, sobretudo nos meios onde o automobilismo tinha um tratamento natural de destaque como eram os casos das revistas Tiro e Sport e A Caça. Na primeira revista, o assunto é enquadrado na rubrica “Excursões”524 e é um pretexto para justificar esta moda das viagens automobilísticas como uma “modificação de carácter”:
“ (…) O que é certo e bem certo é que o nosso sangue tem sofrido uma radical modificação. De morosos e calmos que éramos tornamo-nos fogosos e irrequietos, e não será para admirar se um dia, em vez das rápidas rodas dum automóvel que nos arrastem em vertiginosa carreira por montes e vales, nos pusermos a fantasiar as velozes asas dum Ícaro para fendermos o ar em busca de desconhecidas regiões. (…)”
Na realidade, as excursões turísticas em automóvel tinham já enorme aceitação entre os privilegiados automobilistas portugueses do início do século XX. A possibilidade de efectuar grandes distâncias de uma só vez, sem as paragens inevitáveis para descansar os animais como sucedia num vulgar veículo hipomóvel, trouxe a esses novos turistas um conjunto inusitado de sensações, ”vendo com os seus olhos, palpando com as suas mãos as exóticas
maravilhas que outrora só pintadas ou descritas se podiam admirar”.525 As primeiras notícias são telegráficas, talvez porque a excitação da viagem ainda não disponibilizasse tempo necessário para grandes reflexões e descrições pormenorizadas dos locais visitados: “De Badajoz, em 31 de Agosto, às 11h e 25 minutos da manhã – Chegámos optimamente. Partimos hoje. De Madrid, no dia imediato, às 11 e 50 da tarde – Chegámos bem”.526 Na revista A Caça só alguns meses depois527 a viagem é aflorada com o detalhe que merece:
É com o mais legítimo orgulho que nos ocupamos hoje da sensacional excursão automobilista do nosso distinto compatriota e sportman enragé, o Sr. António Borges de Medeiros (Praia e Monforte) que no seu magnífico automóvel De Dion Bouton, de 15 cavalos, percorre a Europa há mais de quatro meses. O automóvel de 4 cilindros, com a nova embraiagem metálica, ia munido de pneumáticos de tipo de corrida da fábrica Dunlop, considerados hoje como os mais resistentes e superiores às outras marcas. (…) Hoje que a sua viagem vai já bastante adiantada, procuraremos tanto quanto possível dar uma notícia mais desenvolvida da digressão automobilista mais sensacional que se conhece e levada a efeito por um nosso compatriota, tanto mais que, com a sua realização, bate o record na Europa. António Praia saiu de Lisboa, da garage da Sociedade Portuguesa de Automóveis, com sede na rua de Jardim do Regedor, no dia 30 de Agosto, pelas 3 horas da madrugada, em companhia do seu particular amigo e excelente companheiro de viagem, Sr. Augusto Bruges, levando, como «chauffeur», Joaquim Correia, «chauffeur» daquela casa. Além dos três passageiros o automóvel levava em bagagens, ferramentas e sobressalentes um peso superior a 450 kg.
No dia seguinte à partida, a comitiva, no seu De Dion Bouton, chegava a Badajoz e a 1 de Setembro cumpria-se a chegada à primeira capital que constava do plano inicial: Madrid. Sem compromissos de espécie alguma, o trio automobilista tem apenas como preocupação maior cumprir minimamente o seu plano diário de quilometragem. O caminho até Paris decorreu normalmente e a partir da “cidade luz” a comitiva é confrontada com cenários diferentes e estradas que provocam alguma admiração, ora pela negativa como no percurso Paris-Bruxelas devido aos seus “pavées em péssimo estado”, ora pela positiva como as “larguíssimas e em geral boas estradas alemãs”.528
Em Novembro, D. António Praia atravessava o coração da Europa Central sendo particularmente bem recebidos em Viena – uma das capitais do Império Austro-Húngaro. À passagem pelo vasto território do Império Otomano correm perigo de vida, nomeadamente na Sérvia e na Bulgária, nessa altura vivendo períodos de grande agitação. Salteadores húngaros, herzegovinos e búlgaros sucedem-se em frustradas tentativas para impedirem a marcha dos aventureiros portugueses. A imprensa, que a pouco e pouco começou a acompanhar a viagem com redobrado interesse, antecipava as dificuldades que os portugueses iriam encontrar nas etapas seguintes, ligeiramente atenuadas pelo facto de à sua frente viajar o inglês Jefferson que ia “aplanando algumas destas dificuldades”.529
Também a revista A Caça focou com particular detalhe a travessia desse “barril de pólvora” que sempre constituíram as regiões inquietas e inseguras dos Balcãs, relatando a traição do guia local que acompanhava os portugueses o qual se preparava “de acordo com os bandidos da Macedónia (...) lhes entregar os excursionistas que se veriam na dura contingência de pagar pelo seu resgate a importância de 180 contos”.530 A chegada à capital do Império Otomano acabou por se fazer sem mais percalços utilizando os serviços logísticos do “Expresso Oriente”. Por telegrama são expedidas as impressões sobre o bastião oriental da Europa:531
Panorama admirável, mas tudo o que se pode imaginar de mais imundo e duma extraordinária pobreza. O hotel é ordinaríssimo e com respeito a preços podemos também servir-nos do superlativo caríssimo. O que mais nos deu no goto foi ver os soldados de galochas, chapéus-de- chuva e «pardessus» à moda da Europa. O viajante não pode abandonar nem o revólver nem o passaporte e, se quer visitar Scutari, Stambul ou Pera, precisa requisitar tropa que o acompanhe. À porta do hotel estão dois guardas armados dos pés à cabeça.
Traumatizado com a viagem através da zona balcânica, D. António Praia resolve alterar o seu plano inicial, não arriscando uma nova passagem pelos países dessa região. Parte da
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viagem de regresso é então efectuada por via marítima, num barco que os conduz a Trieste onde chegam no dia 24 de Dezembro, provenientes de Atenas.532
A alteração do plano inicial de visita a diversas ciadades italianas não retirou nem briho nem capacidade de observação à caravana portuguesa que retomou a sua toada turística, parando em diferentes cidades e, nalguns casos, contactando as comunidades portuguesas aí instaladas.533 A travessia da península itálica é, então, redefinida para recuperar o percurso inicial. Depois de se lançarem para o sul, em direcção a Nápoles, começam a subir para cumprirem a passagem, de alguma forma protocolar, por Roma e acompanham a costa até Nice onde se acomodam durante alguns dias para presenciarem, nessa cidade, as famosas festas do Entrudo.
Se na ida as dificuldades tinham sido corporizadas pelos saqueadores eslavos, o regresso conheceria também alguns obstáculos importantes, embora de outra natureza. Na verdade, durante a travessia dos Pirinéus, abateu-se sobre a expedição uma enorme tempestade de neve, que obrigou os portugueses a abandonarem a viatura e a recolhê-la algumas horas mais tarde com a ajuda de camponeses catalães e de bestas de carga:534
Uma das etapas mais difíceis e árduas da audaciosa jornada, já hoje célebre nos anais do sport automobilista foi, sem dúvida, a travessia dos Pirinéus. (...) Quando o automóvel chegou porém a 1300 metros acima do nível do mar, desencadeou-se uma tormenta de neve. O automóvel caminhava com extrema dificuldade. As rodas traseiras do veículo resvalavam constantemente na neve. A certa altura, o carro ficou encravado no gelo, em plena montanha num sítio ermo, à beira de um precipício e a quatro quilómetros da povoação onde os viajantes projectavam descansar. Tornava-se necessário tomar uma resolução. O Sr. Augusto Bruges partiu a pé para Mont-Louis, de onde mandou, algumas horas depois, quatro cavalos para arrancar o automóvel do fundo do atoleiro de neve. (…). Foram necessários quatro cavalos para arrancar o automóvel ao seu cárcere de gelo. E esses pobres animais de carga conduziram a passo, até Ribas, onde já não havia neve, aquela maravilha da mecânica, orgulho da civilização contemporânea, que desde Lisboa, através de toda a Europa, vinha devorando 38 000 quilómetros com o único impulso do seu motor de gasolina. (…)
Depois do último esforço empreendido na travessia dos Pirenéus, “a comitiva fez o aprovisionamento de água e gasolina em Ribas, continuando a viagem até Barcelona, atravessando Vigne, Granollers, Montmelò, sempre por estradas intransitáveis. De Barcelona a Sevilha e desta cidade a Lisboa a viagem correu sem incidente algum digno de registo.”535 No dia 23 de Abril de 1906, D. António Praia, Vasco d'Ornellas Bruges e Joaquim Correia chegavam a Lisboa, estando uma importante comitiva a aguardá-los no local reservado pela capital a este tipo de cometimentos relacionados com o automóvel: o Campo Grande. As notícias da sua chegada foram unânimes no enaltecimento da tenacidade e resiliência do magnífico trio de automobilistas que mostraram uma enorme complementaridade entre si. A chegada, ao contrário da partida, foi amplamente coberta pela imprensa da época e praticamente todos os meios da época se referiram ao assunto:536
De regresso da sua interessantíssima viagem em automóvel chegou ontem à tarde a Lisboa, o Sr. António Borges de Medeiros (Praia e Monforte) acompanhado do Sr. Vasco Bruges, seu companheiro em toda a viagem. Foi em fins de Setembro que o Sr. António Praia saiu de Lisboa, tendo o «Século» publicado algumas curiosas notícias dessa longa viagem.
Em Lisboa, preparava-se uma entusiástica recepção ao Sr. António Praia mas como a sua chegada foi antecipada dois dias e como não houve tempo de avisar os automobilistas que a preparavam, apenas quatro ou cinco automóveis foram ao Campo Grande aguardar a chegada do De Dion Bouton do Sr. António Praia. Eram 4h 40m quando o Sr. António Praia chegou à entrada do Campo Grande, recebendo uma calorosa ovação das pessoas presentes.
Ao contrário de outros episódios importantes do automobilismo nacional, a viagem de D. António Praia foi profusamente documentada com fotografias e textos – enviados por carta ou telegrama – facto que permite reconstituir com grande detalhe o percurso e a generalidade das
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aventuras vividas. Mas o projecto de um livro de memórias, aparentemente, nunca deve ter saído dos inúmeros rascunhos efectuados pelos excursionistas.
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O Real Automóvel Clube de Portugal não fez qualquer referência a esta excursão nas suas actas relativas às reuniões de Direcção – no período em que ocorre a excursão, a direcção do Clube apenas reuniu por três vezes, duas em Janeiro e outra em Fevereiro de 1906 – mas o Relatório de Gerência desse ano tem uma menção extensa à epopeia empreendida pelos três portugueses:537
Depois de realizada a corrida do quilómetro, chegava a Lisboa, de regresso da sua interessantíssima viagem em automóvel, através a Europa, o nosso consócio e hoje colega de Direcção, o Sr. António Borges Coutinho Medeiros. Um grupo de sócios do RACP promoveu em sua honra um banquete, entendemos do nosso dever associarmo-nos oficialmente a essa
festa e oferecer-lhe uma plaquette de prata e ouro. Esse objecto de arte, entregue em sessão magna presidida por Sua Alteza o Senhor Infante D. Afonso, que mais uma vez quis honrar- nos com a sua presença, como o mais distinto automobilista português e um dos maiores amigos do nosso Clube.
O jantar teve lugar em Maio, no Hotel Avenida Palace538 e a entrega da plaquette pelo Duque do Porto encerrava assim a fantástica aventura empreendida pelos portugueses que calcorrearam a Europa continental num automóvel durante quase oito meses. D. António Praia foi um homem discreto539 e a sua conduta antes, durante e após a sua viagem pautou-se pelo recato e pela ausência de declarações susceptíveis de o tornarem numa personalidade pública. Foi director do Real Automóvel Clube a partir de 1906, nomeado logo após a sua chegada,540 e a sua devoção ao automobilismo manteve-se viva durante muito tempo. Mas antes da excursão não se conhece qualquer envolvimento seu com as questões candentes do automobilismo, excepto a sua admissão como sócio do Automóvel Clube. Porém, a vontade de empreender grandes viagens de automóvel não terminou aí. Depois de ter realizado a volta à Europa continental e de ter participado e vencido o Concurso de Excursionismo Lisboa- Coimbra-Lisboa, D. António Praia meteu-se, ainda nesse ano de 1906, em nova aventura, embora mais limitada em que realizou uma outra excursão, desta feita por terras portuguesas:541
Regressaram anteontem a Lisboa os senhores António Praia e Artur Barbosa, que percorreram vários pontos do país numa «voiturette» De Dion Bouton, indo de Lisboa a Elvas, Badajoz, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Mangualde, Luso, Coimbra, Caldas, Mafra e Sintra. A viagem efectuou-se sem o menor incidente, afirmando os excursionistas terem encontrado no Alto Alentejo e nas Beiras óptimas estradas.
Três anos mais tarde, o comendador José Pacini, empresário do teatro S. Carlos, juntamente com o chauffeur Artur Capristano, empreenderia também uma extensa viagem, embora com ambições francamente mais comedidas nos seus objectivos, que eram puramente turísticos e restringidos aos países latinos. Essa excursão foi efectuada no mês de Maio de 1909 mas só em Outubro a imprensa deu conta dos seus pormenores:542
À nossa Revista foram oferecidos os principais detalhes referentes à grande viagem que o Sr. Comendador José Pacini fez há pouco no seu explêndido automóvel FIAT de força de 15/20 cv. (…) A partida de Lisboa teve lugar no dia 27 de Maio do corrente ano, pelas 7 horas e meia da manhã, sendo o itinerário seguido o seguinte: Lisboa, Leiria, Coimbra, Buçaco, Figueira de Castelo Rodrigo, Barca d’Alva, Viladoginho, Salamanca, Valldolid, Burgos, Vitoria, San Sebastian, Biarritz, Bordéus, Angoulême, Poitiers, Tours, Paris, Avalon, Monte S. Bernardo (2.200 metros), descida ao Vale d’Aosta, Streza, Peglie, Arona, Allegio, Novara, Murtara, Alessandria, Valencia, Novi Sarroval, Ronco Serivia, Génova, Pelie, San Remo, Savona, Nice, Palonza, Bourbon e Paris.
No universo restrito das grandes viagens é historicamente interessante também fixar que na corrida New York-Paris, que se disputou no ano de 1908, um português, o Visconde de Cabrela, esteve inscrito mas, por razões desconhecidas, não chegou a participar.543
Finalmente, no âmbito daquilo das grandes viagens domésticas, dever-se-á igualmente destacar a viagem empreendida pelo importador da Ford no Porto, Albino Moura, que com