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John M. Swales é um pesquisador que se destaca, há mais de dezesseis anos, na tradição norte-americana de Lingüística Aplicada direcionada aos estudos de gêneros textuais. Embora haja algumas ressalvas quanto ao caráter generalizador de seu modelo formal/funcional de linguagem acadêmica, ainda assim, permanece como fonte confiável para a realização de estudos atuais no Ensino de Inglês com Propósitos Específicos (ESP). Podemos dizer que o principal tributo que se deve a esse pesquisador é o abandono das extensas discussões gramaticais que não davam conta de ensinar a modalidade escrita de língua inglesa para estrangeiros e a busca por uma análise textual mais global (Augusto-Navarro: 2002), ou seja, ele partiu de investigações baseadas em textos de pesquisas científicas em inglês, para compor seus estudos sobre as estruturas de gêneros subjacentes aos textos científicos de diferentes áreas do conhecimento.

Antes de se apresentar o conceito de gênero sob a óptica de Swales, temos necessariamente que considerar sua origem: a comunidade discursiva da qual o gênero provém. O conceito de comunidade discursiva adotado por Swales é o mesmo definido por Herzberg, com a ressalva de ser utilizado enquanto o centro de um conjunto de idéias que endossam os seus pressupostos de ensino de língua:

(...) o discurso opera dentro de convenções definidas por comunidades, sejam elas disciplinas acadêmicas ou grupos sociais. (...) O uso da língua em um grupo é uma forma de comportamento social, o discurso ali produzido é um meio de manter e expandir o conhecimento do grupo e de introduzir novos membros no grupo, sendo esse discurso epistêmico ou constitutivo do conhecimento do grupo.48 (Herzberg, 1986: 149 apud Swales, 1990:21)

Assim, segundo Swales (1990), para um dado grupo de indivíduos se constituir enquanto uma comunidade discursiva deve possuir as seguintes características:

(1) Apresentar objetivos comuns: que podem ser públicos, ou seja, de conhecimento de todos os membros, como o contrato de uma escola, ou implícitos. Entretanto, não significa dizer que todos os membros resolveram se afiliar porque possuem os mesmos objetivos, pois as pessoas podem se associar por razões diversas;

48

Texto original: “(...) discourse operates within conventions defined by communities, be the academic disciplines or social groups. (…) language use in a group is a form of social behavior, that discourse is a means of maintaining and extending the group’s knowledge and of initiating new members into the group, and that discourse is epistemic or constitutive of the group’s knowledge”.

49

HERZBERG, B. The politics of discourse communities. Paper presented at the CCC Convention, New Orleans, LA, March, 1986.

(2) Possuir mecanismos de intercomunicação entre seus membros: esses mecanismos de intercomunicação (reuniões, atas, e-mails, etc.) podem variar conforme a comunidade discursiva, e parte-se do pressuposto que seu alcance se estenda a toda a comunidade;

(3) Utilizar seus mecanismos de participação para realizar trocas de informações: ou seja, os membros de uma comunidade utilizam os mecanismos de participação existentes em seu contexto discursivo com o objetivo principal de fornecer informações e comentários avaliativos;

(4) Possuir gêneros específicos para a realização da intercomunicação em uma dada comunidade: uma comunidade discursiva possui um ou mais gêneros textuais em acordo com seus objetivos comunicativos, os quais são responsáveis pela comunicação e transmissão de informações entre seus membros;

(5) Possuir um léxico altamente especializado: além de possuir gêneros textuais específicos e em acordo com seus propósitos comunicativos, uma comunidade discursiva também tem um léxico característico, preferencial, que pode incluir jargões, siglas, termos técnicos, etc. Esse léxico é reconhecido pelos membros, como também é o responsável pela efetiva comunicação entre eles e;

(6) Possuir um número alto e oscilante de membros especialistas na área: ter um número de membros, com certo grau de conhecimento da área e proficiência discursiva, que oscila. Em outras palavras, assim como em quaisquer comunidades, novos membros são inseridos e outros são afastados por variados motivos. Sendo assim, a sobrevivência de uma comunidade discursiva depende de um número constante de membros, sejam eles novatos ou experientes. Motta-Roth endossa essa última característica ao afirmar:

Para se engajar em uma determinada comunidade, um indivíduo aprende os gêneros e as convenções normalmente integradas pelos membros mais experientes do grupo, através de iniciação profissional, em um processo denominado aculturação. (Motta-Roth, 1995: 47-8)

No entanto, essa primeira definição de comunidade discursiva levantou várias críticas e questionamentos, que motivaram Swales (1992; 1993; 1998) a rever sua idéia de comunidade discursiva, mostrando as limitações desse conceito e a amplitude de sua nova visão. O autor cria uma definição mais precisa de comunidade que se adapta à realidade atual, pois não havia considerado, em sua primeira versão, fatores como conflitos que podem existir dentro das comunidades. Os exemplos de comunidades discursivas apresentadas não eram adequados para representar a realidade, pois mostravam comunidades atípicas, validavam grupos já formados e não ofereciam a possibilidade de analisar seus processos de formação.

Swales faz uma redefinição desses seis critérios apresentados acima, justificando que os anteriores manifestam um caráter reducionista, utópico e estático do conceito por eles abordado:

(1) Apresentar objetivos comuns: a comunidade discursiva aceita os objetivos, formula-os ou os estabelece. Esses objetivos podem ser consensuais, mas também podem ser distintos e se relacionar;

(2) Possuir mecanismos de intercomunicação entre seus membros: não houve alterações, pois segundo Swales (1990), podem variar de acordo com a comunidade;

(3) Utilizar seus mecanismos de participação para realizar trocas de informações: acrescenta que uma comunidade discursiva utiliza mecanismos de participação para diferentes propósitos e não apenas para informação e feedback.

(4) Possuir gêneros específicos para a realização da intercomunicação em uma dada comunidade: em vez de utilizar um ou mais gêneros para alcançar seus objetivos, uma comunidade discursiva utiliza uma seleção crescente de gêneros no alcance dos mesmos.

(5) Também possuir um léxico altamente especializado: uma comunidade discursiva adquire e continua sempre buscando uma terminologia específica.

(6) Possuir um número alto e oscilante de membros especialistas na área: uma comunidade discursiva tem uma estrutura hierárquica explícita ou implícita que orienta os processos de admissão e de progresso dentro dela.

Nota-se que o conceito de comunidade discursiva foi ampliado, abarcando mais elementos e ficando mais flexível, no sentido de que há assim uma tentativa de “(...) representar um mundo mais complexo e um tanto obscuro” (Swales: 1992).Mas, afinal, o que esse autor entende por gênero?

Para formular sua própria noção de gênero, Swales considerou as noções de gêneros existentes nas áreas do folclore, da literatura, da lingüística e da retórica, a qual deseja que seja aplicada apenas aos propósitos de ensino e aprendizado de língua estrangeira. Ele diz que ainda que a definição que propõe não seja totalmente adequada, ela representou um avanço nas próprias formulações anteriores que havia feito:

Um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos, cujos membros compartilham um conjunto de propósitos comunicativos. Esses propósitos são reconhecidos pelos membros da comunidade discursiva que trabalha com eles e, portanto, constituem a lógica subjacente aos gêneros. Essa lógica modela a estrutura esquemática do discurso influenciando e restringindo a escolha do conteúdo e o estilo. Além do propósito, os exemplares de um gênero exibem vários padrões de similaridade em termos de estrutura, estilo conteúdo e público- alvo. (Swales, 1990: 58)50

Nesses termos, o gênero pode ser entendido como um modo de interação de uma dada comunidade discursiva, que possui propósito(s) comunicativo(s) específico(s), os quais determinam os componentes da estrutura esquemática do discurso, restringindo, portanto, as escolhas de conteúdo e estilo. Dessa maneira, textos de um mesmo gênero possuem em comum o propósito comunicativo, a estrutura, o estilo e o público-alvo.

Porém, um evento comunicativo envolve mais do que a comunicação em si, pois abrange: (a) a linguagem, (b) as funções que essa linguagem desempenhará segundo seus usuários e, também, (c) o modo como é produzida e/ou recebida por seus usuários. Em suma, podemos dizer que a comunicação para Swales se daria por meio do gênero, que possui as características do grupo social (contexto social) do qual se origina.

Conforme Santos sintetiza:

Para Swales, o conceito de gênero privilegia o caráter/propósito comunicativo de uma situação, suas convenções e regras lingüísticas e discursivas compartilhadas pela comunidade discursiva que convive, atua e interage em uma dada situação, dominando gêneros do discurso articulado e intencionado (a quem se destina: público-alvo) por ela mesma. Uma vez configurada as expectativas, uma manifestação genérica pode ser considerada como prototípica pela comunidade geradora. (Santos, 1996:18)

Bhatia (1993:13) traduz a visão de Swales sobre gênero como:

um evento comunicativo reconhecido e caracterizado por um conjunto de propósito (s) comunicativo (s) identificados e mutuamente compreendidos pelos membros de uma comunidade profissional ou acadêmica na qual ele regularmente ocorre.

50

Original: “A genre comprises a class of communicative events, the members of which share some set of communicative purposes. These purposes are recognized by the expert members of the parent discourse community, and thereby constitute the rationale for the genre. This rationale shapes the schematic structure of the discourse and influences and constrains choice of content and style. Communicative purpose is both a privileged criterion and one that operates to keep the scope of a genre as here conceived narrowly focused on comparable rhetorical action. In addition to purpose, exemplars of a genre exhibit various patterns of similarity in terms of structure, style, content and intended audience”. (Swales, 1990:58)