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5.5 Data

5.5.2 Independent variables

Do ponto de vista da Lingüística, segundo Eggins e Martin (1997: 236 apud Kauffman, 2005)46, Bakhtin pode ser considerado o responsável pela ampliação do conceito de gênero para além da classificação tradicional herdada de Aristóteles. Para podermos compreender a noção de gênero discursivo por ele proposta, é essencial que se entenda língua como um processo que envolve maneiras múltiplas de realização. Para Bakhtin, o ser humano utiliza a língua em quaisquer esferas de atividades humanas que desempenha e, a partir dos interesses e propósitos específicos contidos em cada uma dessas atividades, realiza os enunciados47 lingüísticos (escritos ou falados) de diferentes maneiras denominadas gêneros.

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EGGINS, S.; MARTIN, J. R. Genres and registers of discourse. In: VAN DIJK, T.A. (Ed.). Discourse as Structure and Process – Discourse Studies: A Multidisciplinary Introduction, v. 1. London, Thousand Oaks, New Delhi: Sage Publications, 1997.

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O(s) enunciado(s) seria(m) a realização da língua, em toda e qualquer esfera das diversas atividades humanas, a partir dos interesses e propósitos específicos existentes em cada uma delas (Bakhtin, 1997).

Segundo a visão bakhtiniana, os enunciados se originam nas diferentes esferas sociais e estão estritamente relacionados aos diferentes tipos de intercâmbios sociais. Assim, para esse autor, as condições de produção do discurso é que modelam a existência dos gêneros, de acordo com as funções que se deseja expressar:

Uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e dadas condições específicas para cada esfera de comunicação verbal geram um dado gênero, ou seja, um dado tipo de enunciado, relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais -, mas também e, sobretudo, por sua construção composicional. (Bakhtin, 1997:279)

Ainda segundo esse autor, cada uma dessas esferas de atividade sócio-discursivas (cotidianas ou especializadas) desenvolve tipos de enunciados relativamente estáveis e diversos, que passam a ser comumente associados a cada uma delas, formando-se, assim, os gêneros do discurso (Bakhtin 1997: 301). Ou seja, os gêneros são marcados pela predominância de blocos seqüenciais, que constituem o texto como um todo. Essa constatação de relativa estabilidade é interessante para o nosso estudo, pois confirma por um viés teórico o pressuposto que queremos demonstrar na prática: que existem expressões textuais no artigo científico que são freqüentes e sistemáticas e que poderiam, portanto, ser tratadas do ponto de vista computacional. Esse tipo de tratamento favoreceria a colaboração das mesmas, por exemplo, enquanto recursos lingüísticos em ferramentas de suporte à escrita: ora como base de casos de estruturas retóricas, componentes da estrutura esquemática e marcadores discursivos, ora como córpus de treinamento de categorizadores de componentes esquemáticos (para mais detalhes ver Capítulo 4 – Etapa E2).

Um outro ponto do texto de Bakhtin interessante para nosso estudo afirma que o domínio de um dado gênero discursivo se dá pela vivência das situações de comunicação e também pelo contato com os diferentes gêneros que surgem na vida cotidiana. Segundo o autor, esse tipo de domínio discursivo é determinado pela capacidade do indivíduo de prever as regras de conduta e pela seleção vocabular e de estrutura de composição que estão sendo utilizadas no contexto de produção da comunidade da qual o texto (oral ou escrito) a ser produzido deverá fazer parte. Em outras palavras, esse tipo de conhecimento permite a um indivíduo prever as relações de sentido e de comportamento necessárias. E ainda, quanto mais competente e experiente for o indivíduo, isto é, quanto mais conhecimento ele possuir sobre um gênero, mais proficiente ele será na diferenciação de determinados gêneros e mais

facilidade terá para reconhecer as estruturas, por exemplo, lexicais, retóricas, sintáticas e de sentido que o compõe. Essa parte da teoria de Bakhtin é importante para o nosso trabalho, uma vez que ao conhecer o funcionamento de um texto científico, o pesquisador-escritor poderá adaptar sua produção textual ao contexto do qual faz parte. Em outras palavras, conhecendo as idiossincrasias existentes nas diferentes áreas do conhecimento como também os esquemas relativamente estáveis de estruturação e de escolha de conteúdos desse tipo de gênero, o escritor poderá adquirir condições adequadas para a produção de textos que correspondam às expectativas da comunidade acadêmica.

A Estilística é outro fato observado por Bakhtin, e que também é interessante para nosso estudo. Para ele, o estilo está unido ao enunciado e aos gêneros (formas típicas do enunciado), uma vez que o enunciado é individual, ele pode refletir essa individualidade, sendo alguns gêneros mais propícios para essa reflexão do que outros. Porém, é o estilo lingüístico que está indissociavelmente ligado ao gênero:

(...) o estilo lingüístico ou funcional nada mais é senão o estilo de um gênero peculiar a uma dada esfera da atividade e da comunicação humana. Cada esfera conhece seus gêneros, apropriados à sua especificidade, aos quais correspondem determinados estilos. (...) o estilo é indissociavelmente vinculado a unidades temáticas determinadas e, o que é particularmente importante, a unidades composicionais: tipo de estruturação e conclusão de um todo, tipo de relação entre o locutor e os outros parceiros da comunicação verbal. (Bakhtin, 1997: 284)

Relacionando com nossa pesquisa, podemos dizer que as expressões formulaicas, os marcadores discursivos e as os componentes da estrutura esquemática e as estratégias retóricas fazem parte da especificidade do gênero discursivo artigo científico e do estilo que essa esfera de atuação (no caso, a grande comunidade científica internacional e, em um segundo plano, não menos importante, a comunidade internacional de uma dada área específica) condiciona ou à qual os autores estão condicionados.

Importante ainda é ressaltar que a noção de gêneros do discurso nesse texto de Bakhtin se presta a uma reflexão muito mais ampla do que as questões até então apresentadas neste trabalho. Os gêneros do Discurso é elaborado por uma teoria sobre linguagem (baseada nas noções de enunciado e gênero) completa e inovadora, ao trazer à luz uma reflexão diferente sobre gêneros, principalmente com as noções de esfera de atividade e relativa estabilidade dos gêneros e, claro, também com a consideração de um interlocutor como requisito fundamental na atividade de comunicação (Bakhtin, 1997:324).