Para Swales (1990:93), o artigo científico é definido como:
(...) um texto escrito (embora freqüentemente contenha elementos não- verbais) geralmente limitado a alguns milhares de palavras, no qual é relatada alguma investigação realizada por um autor ou autores. Além disso, em um artigo científico, em geral, o pesquisador relaciona suas descobertas com as de outros, podendo também examinar tópicos teóricos e/ou metodológicos.56
Nesse mesmo viés de opinião, Berkenkotter & Huckin (1995:2757 apud Kanoksilapatham, 2005) dizem que o artigo científico é fruto da atividade de pesquisa da comunidade de onde foi gerado, e que apresenta como características a alusão a outras pesquisas ou autores que compartilham ou não do mesmo assunto tratado, uma apresentação de objetivos posteriores à identificação de um problema apontado, a citação de outras pesquisas que possam corroborar na apresentação e a generalização dos resultados obtidos. Nesse sentido, o artigo pode ser considerado como meio responsável pela divulgação de um estudo, reunindo etapas que se estendem desde a contextualização de uma pesquisa até a conclusão do estudo realizado.
Segundo pesquisa realizada por Motta-Roth (1995), entre os gêneros discursivos mais utilizados por pesquisadores na leitura e publicação científicas estão os capítulos de livros e artigos de revistas acadêmicas. Nesse contexto, podemos considerar o artigo científico um dos gêneros mais utilizados no ambiente científico como forma de acesso e de produção de conhecimento científico. Além de muito utilizado, é também um dos textos mais antigos da comunidade acadêmica, pois existe desde o ano de 1665, ano em que apareceu a primeira revista acadêmica, The Philosophical Transactions of the Royal Society (Swales, 1990:110; Berkenkotter & Huckin, 1995: 27).
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“(...) a written text (although often containing non-verbal elements), usually limited to a few thousand words, that reports on some investigtaion carried out by its author or authors. In addition, the Research Article will usually relate the findings within it to those of others, and may also examine issues of theory and/or methodology”.
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BERKENKOTTER, C. & HUCKIN, T. N. Genre knowledge in disciplinary communication: cognition/culture/power. Hillsdale: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, 1995.
De acordo com Ard (198358, apud Swales, 1990), o artigo científico teve sua origem nas cartas informativas enviadas para essa revista acadêmica, que os cientistas escreviam e trocavam entre si. No momento em que esse periódico começou a proporcionar um local para discussões, os textos acabaram refletindo as novas situações retóricas diferentes da escrita na forma de carta, dando origem, assim, ao artigo científico que gradualmente se tornou distinto das cartas trocadas entre os pesquisadores das quais se originou. Entre os cientistas que colaboraram para estruturar os primeiros artigos científicos estão Robert Boyle e seus companheiros. De acordo com Shapin (198459 apud Swales, 1990:111), “através da experiência com o fato real, Boyle e seus colegas procuraram transformar reivindicações e especulações em um tipo de conhecimento que fosse mais amplamente aceito”. Para tanto, Boyle desenvolveu estratégias retóricas e estilísticas, as quais consistiam, por exemplo, em usar testemunhas para provar que as experiências realmente foram realizadas, e mostrar ilustrações do aparato em questão na ocasião de sua publicação.
Sobre esse assunto, Swales menciona que não é que as notas tomadas no laboratório não pudessem ser publicadas de maneira linear, nem que a primeira versão de um artigo seria totalmente impublicável, mas o que acontece é que, na construção de um artigo, há um processo de:
(...) crítica técnica e controle social operando tanto no ambiente particular de pesquisa como em um outro mundo imaginado sobre o que os outros cientistas irão pensar (Swales, 1990: 120); pois o artigo publicado é um híbrido com multi-níveis, co-produzido pelos autores e por membros da audiência para o qual é direcionado. (Knorr-Cetina 1981: 10660 apud Swales, 1990)
Podemos perceber, assim, que entre a pesquisa em si e a escrita de um artigo existem muitos fatores operando, os quais podem torná-la difícil e complicada até mesmo para membros experientes das comunidades científicas.
Tal situação tem suscitado investigações sobre o processo e o produto envolvidos no processo de escrita científica, as quais têm gerado importantes revelações. Se considerarmos apenas os estudos que investigam o produto, ou seja, o texto acabado, obteremos ainda duas correntes de investigação: a primeira com pesquisas centradas no estudo de aspectos gramaticais e estilísticos do discurso científico e a segunda com foco de estudo na organização estrutural dos textos científicos (Ozturk, 2006).
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ARD, J. The role of the author in science discourse. Paper given at the annual American Applied Linguistics Meeting, Minneapolis, Minn, December, 1983.
59
SHAPIN, S. Pump and circumstance: Robert Boyle’s literary technology. Social Studies of Science, v. 14, p. 481-520, 1984.
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Entre os fenômenos investigados pela primeira vertente, podem ser citadas pesquisas sobre tempos e aspectos verbais (Hinkel, 2004), o uso e as funções de adjetivos (Soler, 2002), os substantivos (Flowerdew, 2003) e assim por diante. Por sua vez, entre os trabalhos da segunda, pode ser citada a investigação dos componentes da estruturação esquemática das diferentes seções que constituem um texto científico, como a seção “Resumo” (Samraj, 2005; Biasi-Rodrigues, 1998), “Resultados” (Brett, 1994), “Discussões” (Silva, 1999), “Conclusões” (Yang & Allison, 2003), “Metodologia” (Huckin & Olsen, 1991; Oliveira, 2003) e “Introdução” (Swales:1990; Aluísio: 1995; Motta-Roth:1995).
Importante lembrar que não é por ser um texto condicionado por muitos padrões que o artigo científico deixa de ser rico e ter caráter composto por muitas particularidades. Mauranen, por exemplo, dá suporte a essa idéia afirmando que:
(...) assim como faz sentido falarmos sobre a ciência em geral, também faz sentido falar sobre o gênero da ciência e da comunidade acadêmica como objetos culturais. Assim, podemos falar, por exemplo, do ‘artigo científico’ como um gênero no mundo da ciência, apesar do fato de disciplinas particulares diferirem de alguma maneira nas suas realizações convencionais. Se insistíssemos que a comunidade de pesquisa de cada disciplina tem seus próprios gêneros, perderíamos uma importante generalização no que diz respeito à atividade científica. (Mauranen,1993: 561 apud Mirahayuni, 2002)
Motta-Roth (1999:119-28) a esse respeito, diz que por meio de um texto científico pode- se perceber, por exemplo, as seguintes particularidades/habilidades de um pesquisador quanto a: 1. seleção das referências bibliográficas relevantes ao assunto; 2. reflexão sobre estudos anteriores na área (contextualização); 3. delimitação de um problema ainda não totalmente estudado na área; 4. elaboração de uma abordagem para o exame desse problema; 5. delimitação e análise de um conjunto de dados representativo do universo sobre o qual se quer alcançar generalizações; 6. apresentação e discutição dos resultados da análise dos dados; 7. conclusão, elaborando-se generalizações a partir desses resultados, conectando-as aos estudos prévios dentro da área de conhecimento em questão.
Halliday & Martin (1993:124) sustentam que há razões práticas para analisar textos científicos e que a mais óbvia dessas razões é a educacional. Alguns estudantes teriam dificuldades lingüísticas ao lerem textos científicos em língua inglesa, segundo relatórios de pesquisa (Idem:ibidem). Percebe-se então a necessidade de que pesquisadores e professores dessa área entendam como a linguagem desses textos é organizada, no sentido de
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MAURANEN, A. Cultural Differences in Academic Rhetoric: A Textlinguistic Study. Peter Lang, Frankfurt, 1993.
proporcionar aos alunos uma visão mais detalhada do material que está sendo lido. Essa condição deve-se ao fato de que há certas características na maneira como o sentido é organizado e trabalhado nos textos, que podem se tornar problemáticas para os aprendizes, independentemente do seu conhecimento prévio a respeito do assunto abordado. Essas características envolvem questões lexicais (relacionadas aos significados construídos entre as sentenças), questões discursivas (referentes à composição do texto e suas estruturas retóricas), ou ainda questões referentes à ideologia, às crenças e aos valores que constituem o contexto cultural do texto (Idem:ibidem).
Em suma, podemos dizer que a relevância desses tipos de estudo que investigam a organização/composição de um texto científico está no fato de possibilitarem a identificação das peculiaridades discursivas existentes nas diferentes comunidades científicas. Assim sendo, podem contribuir para que pesquisadores em contato com esse tipo de informação atentem para os paradigmas a serem seguidos em suas comunidades, cometendo-se, assim, menos inadequações ao escrever.
A seguir, serão apresentadas essas peculiaridades discursivas referentes à organização/composição de textos científicos, em geral, presentes na maioria dos artigos científicos das diferentes áreas do conhecimento.