Em ―O parasita II‖, o cronista discorre sobre o vazio dos fanqueiros literários, e aí surge a alusão ao Sermão da Montanha presente no versículo 3 do capítulo V de S. Mateus.
Mas, por compensação, há a modéstia nas palavras ou certo abatimento, que faz lembrar esse ninguém elogiado da comedia. Mas ainda assim vem a afetação; o parasita é o primeiro que está cônscio de que é alguma coisa, apesar da sinceridade com que procura pôr-se abaixo de zero.
Pobre gente!
Podiam ser homens de bem, fazer alguma coisa para a sociedade, honrar a musa nacional, contendo-se na sua esfera própria; mas nada, saem uma noite da sua nulidade e vão por aí matando a ferro frio...
É que têm o evangelho diante dos olhos... Bem-aventurados os pobres de espírito.
O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade. Entra na Igreja, na política e na diplomacia; há laivos dele por toda a parte.
Na Igreja, sob o pretexto do dogma, estabelece a especulação contra a piedade dos incautos, e das turbas. Transforma o altar em balcão e a âmbula em balança. Regala-se à custa de crenças e superstições, de dogmas ou preconceitos, e lá vai passando uma vida de rosas.
A história é uma larga tela dessas torpezas cometidas à sombra do culto. O parasita da Igreja, toda a Idade Média o viu, transformado em papa vendeu as absolvições, mercadejou as concessões, lavrou as bulas. Mediante o ouro, aplanou as dificuldades do matrimônio quando existiam; depois levantou a abstinência alimentar, quando o crente lhe dava em troca uma bolsa.
É um desmoronamento social. O parasita teve uma famosa idéia em embrenhar-se pela Igreja. A dignidade sacerdotal é uma capa magnífica para a estupidez, que toma o altar como um canal de absorver ouro e regalias.
Assim colocado no centro da sociedade, desmoraliza a Igreja, polui a fé, rasga as crenças do povo. Entra, todos o consentem, no centro das famílias, sem haver sacudido o pó das torpezas que lhe nodoa as sandálias. Dominou imoralmente as massas, os espíritos fracos, as consciências virgens. (ASSIS, 1959, p. 965, grifos nossos).
Observamos que neste fragmento há uma única frase do sermão da montanha ―bem aventurados os pobres de espírito‖ que cria toda uma ressonância de inversão irônica com o original por meio de uma estratégia dupla de sentido literal-figurativo, além de ser uma citação truncada, representada pelas reticências, que indicam interrupção ou supressão de um texto. A respeito do parasita, o cronista faz reflexões sobre a natureza dele, o parasita, ao usar o verbo ―poder‖ no pretérito imperfeito ―podiam‖, embora o tempo verbal adequado seja o futuro do pretérito, o autor usa o imperfeito, conotando como sentido a interrupção da formação de uma índole, de um caráter de homem de bem. O tempo verbal no pretérito imperfeito indica que nunca houve qualquer menção por parte do parasita de ser diferente do que ele se apresenta à sociedade.
Com relação às estratégias usadas nesta crônica, temos duas: num primeiro instante, parece se tratar da alusão ao evangelho de São Mateus tão caro na tessitura de uma tradição escritural machadiana. Entendemos que seja alusão, pois
Machado não indica de qual fonte retirou a frase bíblica; por outro lado, temos o versículo 3 do capítulo V de S. Mateus reproduzido parcialmente ―Bem-aventurados os pobres de espírito‖, mas, ainda assim, não se trata de uma citação direta, pois falta o restante do versículo, que indica como recompensa desta bem-aventurança o céu. O efeito deste recurso provoca um distanciamento do sentido original e o rebaixamento da mensagem sacra, uma vez que a descontextualização do fragmento citado aliado à frase anterior criam um sentido agressivo ao parasita religioso. Observemos que antes da citação do texto bíblico há uma expressão que retoma, de certa forma, o evangelho, porém o efeito provocado é o da ironia, como podemos notar no excerto transcrito abaixo.
Podiam ser homens de bem, fazer alguma coisa para a sociedade, honrar a musa nacional, contendo-se na sua esfera própria; mas nada, saem uma noite da sua nulidade e vão por aí matando a ferro frio...
É que têm o evangelho diante dos olhos... Bem-aventurados os pobres de espírito. (ASSIS, 1959, p. 965, grifos nossos).
Por que não podem ser ―homens de bens‖? Por que não podem contribuir para a sociedade? Por que ―têm o evangelho diante dos olhos‖, ora isso denota que os parasitas não são pessoas de boa índole, porque o evangelho lhes faculta não sê-las, uma vez que há os pobres de espírito, porque ser homens de bens, não há motivo para uma mudança. O cronista deixa claro que os parasitas são seres nulos, que nada têm a oferecer à sociedade, e ainda podem cometer crimes, talvez no texto machadiano citado, a interpretação de crime subentendida por nós se dê no sentido de enganar, aproveitando-se da pobreza de espírito dos crédulos.
O sentido figurado atribuído pelo cronista à expressão ―pobre de espírito‖, para nós, revela-se como estupidez, como falta de moral, como torpeza; ou ausência de bens materiais, todavia, para que isso seja possível, seria necessário que houvesse uma inversão sintática na estrutura frasal, passando de ―pobre de espírito‖ para ―de espírito pobre‖. A troca da posição do adjetivo ―pobre‖ na língua portuguesa provoca uma alteração que interfere na apreensão do sentido. A inversão realizada por M. de Assis não se deu na estrutura sintática, mas na contextualização da frase citada, tornando a compreensão do que o cronista quis fazer ao usar o fragmento do
fonte e sobre o contexto original, além deste conhecimento bíblico, que muitos não o têm. Há ainda o conhecimento histórico sobre as indulgências cobradas pelo clero medieval. Caracteriza-se um jogo inversivo pela dupla possibilidade de leitura: não se sabe se a expressão ―pobre de espírito‖ refere-se aos chamados parasitas ou aos fiéis que se deixam levar pela fala sedutora do clero. A ambiguidade desloca o leitor de um lado a outro na leitura deste texto machadiano. Como podemos notar, a partir desta citação do Sermão da Montanha, exige-se um leitor que vasculhe os detalhes, o miúdo, visto que a construção do sentido ―total‖ das crônicas machadianas deve ser feito na junção de todos os elementos indiciais: a citação e a alusão se prestam a este serviço, serem norteadoras da leitura do leitor.
Tomemos, por exemplo, a interpretação de que os parasitas da igreja estejam sendo chamados de ―pobres de espírito‖, portanto, ao observarmos os dois possíveis significados para pobreza, a ironia fortalece esta crítica à ―pobreza espiritual‖ da igreja como denúncia de uma máscara que encobre uma série de ações desviantes destes ―parasitas‖. Nesse sentido, a ironia se põe como arma para operar a crítica a certos membros do clero. Tem-se nesta crônica um versículo do
Sermão da Montanha deslocado do seu contexto, provocando, assim, duplo jogo
de sentido na cena enunciativa. Numa segunda leitura em que a expressão ―pobres de espírito‖ é direcionada aos fiéis, é possível perceber um comentário crítico em relação aos fiéis e à falta de capacidade para discernirem o engodo em que se lançarão, caso acreditem nas promessas religiosas.
A citação do texto bíblico assume um teor sócio-político ao ser usada como metáfora do esvaziamento de caráter dos religiosos medievais desta classe que inaugura, segundo Machado de Assis, a categoria social dos fanqueiros religiosos, tornando-se sinônimo de parasita. O escritor também subverte o próprio termo fanqueiro, já que o sentido literal significa comerciante de tecido. (HOUAISS, 2001, p. 1306).
O que faz Machado? Apropria-se do sentido figurado da expressão fanqueiro, a partir da ideia de que ―o fanqueiro‖ é um comerciante, portanto, o comércio passa a ser a referência para a subversão, isto é, com a ideia de compra e venda, de trocas por uma margem de lucro, que é inerente à pratica comercial.
A âmbula é o vaso em que se guardam os óleos litúrgicos, portanto, um lugar dedicado às praticas religiosas, relacionadas à tradição sacra do rito católico, porém, no contexto do texto machadiano, este recipiente assume o lugar da balança que
frauda o cliente, o altar é o balcão e por uma relação metonímica, tem-se a igreja como comércio, lugar de compra e venda das indulgências, logo, o clero assume o papel do comerciante que vende o perdão ao pecador.
Machado toma emprestado o versículo 3 do capítulo V de S. Mateus, provocando um desvio sutil no sentido canônico do Sermão. Ao usar a locução adjetiva ―pobre de espírito‖, promove uma reviravolta ao atribuir o duplo sentido de pobreza para os clérigos: aquele vinculado à exploração dos fiéis e, no sentido literal, para os ingênuos que se deixam enganar: ―Na Igreja, sob o pretexto do dogma, estabelece a especulação contra a piedade dos incautos, e das turbas. Transforma o altar em balcão e a âmbula em balança [...]‖. (ASSIS, 1959, p. 965).
No sermão bíblico, a bem aventurança para os justos é o reino dos céus, mas no texto machadiano o sentido subliminar é outro: é o motivo pelo qual os pobres de espírito podem ser convencidos a pagarem pela absolvição dos pecados. Machado usa o texto bíblico com a função dessacralizadora da ironia, no sentido de um desvio, pois inverte o sentido do versículo do ―Sermão da Montanha‖. Além desta alusão irônica ao Sermão da Montanha, outro aspecto que aproxima esta estratégia discursiva à tradição da menipeia luciânica é a temática do ―parasita‖. Luciano havia feito um encômio, um texto laudatório à arte de se viver do parasitismo social (REGO, 1989), que é a tônica desta crônica machadiana.
O versículo do evangelho de S. Mateus trata da humildade como princípio básico dogmático da salvação da alma pela tradição cristã, todavia, no uso feito pelo cronista, refere-se à pobreza moral e à falta de escrúpulos, argumentando contra o vazio moral e religioso do fanqueiro, que como o próprio nome já diz, trata-se de um comerciante, isto é, aquele que negocia o perdão pelos pecados. Nesse sentido, Machado coloca a igreja como um balcão de negócios, em que a hipocrisia é o código do avesso da ética e da moral religiosa. O ceticismo machadiano é latente neste texto por meio da figura-chave da ironia.