Santo Agostinho / Machado de Assis e Filosofia da Composição
Este trabalho tinha como proposta inicial presentificar a existência de cinco instâncias discursivas no interior do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas: o discurso do Antigo Testamento, o discurso dos Evangelhos, o discurso dos filósofos estóicos, o discurso dos moralistas franceses e o discurso do teólogo cristão do século IV, Santo Agostinho.
Já constatamos que o texto bíblico do Antigo Testamento atua como uma força centrífuga que leva à fragmentação do enredo, enquanto simultaneamente produz narrativas paralelas, sobre o monoteísmo, reproduzindo cenas dos diálogos entre Deus e os seus escolhidos. Dada essa natureza temática às referências ao Antigo Testamento estão todas associadas ao Pentateuco, e aos livros: Jó, Sabedoria, Provérbios, Números, Livros dos Reis etc.
Em nossa pesquisa constatamos que essa produção discursiva se estabelece através de paródias, alegorias, recriações e sobreposições semânticas. Essa voz que aponta para o reconhecer a Deus e conhecer a si mesmo, conduz a narrativa machadiana a outra instância discursiva, que está associada aos filósofos estóicos e produz aqui uma interação discursiva a qual denominamos “a narrativa do pó”.
Diante desta articulação discursiva, assumimos duas posições: uma de apontar no texto as marcas ainda do Antigo Testamento, ligadas ao livro do Gênesis e vinculada principalmente à maldição Bíblica “Tu és pó” (Gn 3,14-24). Outra posição, associada ao discurso filosófico estóico que tem por máxima “morrer em vida”. Esta articulação discursiva constitui a fase de transição entre a presença do discurso do Antigo Testamento e a presença do discurso dos Evangelhos.
Quanto ao Novo Testamento ou Evangelhos, a presença desse discurso em Memórias Póstumas de Brás Cubas atua como força centrípeta que unifica o enredo. Porém ainda é possível discernir três vertentes temáticas as quais abordamos aqui como: a narrativa da culpa; a narrativa do remorso, e a narrativa da Salvação. Essas três temáticas vão estar articuladas, na produção de significados que unificam o enredo e apontam para duas outras fontes discursivas que atuam como unificadoras do romance. As duas fontes discursivas são: os moralistas franceses na pessoa de Voltaire principalmente, e a outra seria Santo Agostinho.
O discurso dos moralistas e a similitude com a obra Cândido ou Otimista de Voltaire trabalham na unificação do enredo e adicionam mais uma vertente às que aqui já elencamos. O discurso de Voltaire mantém ainda o foco na questão religiosa, que unifica o enredo, porém adiciona o humor que é uma força ligada à fragmentação do enredo.
No discurso dos moralistas quando aponta para o questionamento religioso sobre a natureza de Deus, crítica que está na raiz da obra Cândido ou Otimista como é sabido, trata-se de uma sátira ao discurso do filósofo Leibniz que através de sua tese sobre “mônadas” afirmava que era uma tentativa de comprovar a existência de Deus. Nesse sentido, com esse conteúdo crítico religioso é que afirmo que ele trabalha pela unificação do enredo, ou seja, a construção discursiva
da qual participam os moralistas tem uma dualidade que é intrínseca à sua fonte de origem. Essa dualidade é: o humor que atua pela fragmentação do enredo e a critica religiosa que atua pela unificação.
Já Santo Agostinho é um teólogo que atua na estrutura do texto, como já vimos, constituindo-se em um fundamento para o discurso religioso que permeia todo o romance. Durante a confecção deste trabalho, pude verificar que o Livro Confissões de Santo Agostinho é muito mais do que escopo para o pano de fundo religioso. Na realidade, colocando em paralelo os fragmentos das duas obras, se configurou uma relação de progenitura, isto é, a obra de Santo Agostinho está na gênese criativa da escritura e realização do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas por Machado de Assis.
Este intricado quebra cabeças está associado à filosofia da composição, o que permite afirmar que no processo de criação de Memórias Póstumas de Brás Cubas Machado de Assis utilizou a obra Confissões de Santo Agostinho muito mais do que as formas paródica e alegórica permitem.
Machado de Assis por um processo de composição transformou vários trechos destas confissões e retratou-as num processo de adaptação, que torna Memórias Póstumas de Brás Cubas, parcialmente, uma espécie de biografia não autorizada de Santo Agostinho.
O processo consistia em que de posse da confissão de Santo Agostinho, Machado de Assis criava ou adaptava uma situação, personagens, entrecho dramático, para a respectiva confissão.
Essa percepção fica mais bem exposta, mudando o modo de planificação a que me propus para estas conclusões. Como essa relação de progenitura é uma das conclusões a que cheguei a partir das leituras das vozes religiosas da obra, apresento agora uma tabela onde associo algumas confissões e alguns fragmentos de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Em seguida listo os dois fragmentos em seqüência onde se perceberá que os escritos de Machado de Assis, na maioria dos casos, são textos mais longos, porém ao contrário de diminuir a semelhança fica patente a adaptação da confissão.
Tabela referencial para comparação e constatação da Progenitura Santo Agostinho – Confissões - O Ser
A confissão (A fonte) Capítulos das Confissões
Machado de Assis/Brás Cubas- A imagem A ficcionalizaçao (Apropriação criativa) Capítulos de Brás Cubas
1.A.l CAP. 6. MISTÉRIO DA NATUREZA HUMANA
E SUA FINITUDE DEUS É ETERNO 1.B.1 CAP. XI, O MENINO É O PAI DO HOMEM