Na crônica de 22 de agosto de 1864 na seção ―Ao acaso‖, Machado cita o
Sermão da Montanha inscrito no Evangelho de S. Mateus, capítulo V, versículos de
1 a 4. O autor se vale da fonte bíblica de maneira integral, para denunciar a conduta dupla do clero envolvido também no jogo social entre o ser e o parecer. O cronista
usa o espaço jornalístico para chamar a atenção da sociedade sobre uma prática comum: fazer caridade e anunciar na imprensa.
―A repartição da caridade da irmandade da candelária distribuiu pelas suas 600 pobres a quantia de 7:000$000 durante este último trimestre.‖
Leram, não? Pois bem: diz agora o evangelho de S. Matheus, capítulo V, versículos 2, 3 e 4:
―- Quando derdes alguma esmola, não façais tocar diante de vós a trombeta, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo, esses já têm o devido prêmio.
―- Mas quando derdes alguma esmola, que a vossa mão esquerda não saiba o que fez a vossa mão direita.
―- A fim de que a vossa esmola seja em segredo, e vosso pai, que vê em segredo, vos dará a recompensa‖. (ASSIS, 1937, p.121).
O que ocorre nesta crônica já não é apenas a citação deslocada da fonte, como na de 1859, ou a simples alusão ao sermão pelo ato de pregar e pela referência à montanha, mas a presença do texto bíblico como fonte para a apropriação paródica. Este gesto do cronista provoca o leitor ao colocá-lo diante do texto citado quase integralmente, com marcas textuais que o convidam a conferir a veracidade das palavras aqui reproduzidas, muito embora o recurso gráfico das aspas induza-o a crer na autenticidade do texto-fonte.
Antes de analisarmos a crônica e o devido desvio da fonte, bem como a apropriação do discurso bíblico e seu caráter paródico, observemos, pois, como se dá a apresentação deste texto machadiano.
Num primeiro momento, o cronista estabelece um diálogo com o leitor, pergunta se o leitor havia lido a notícia veiculada no jornal católico chamado A cruz, para, num segundo instante, citar literalmente partes do Sermão da Montanha extraído de S. Mateus capítulo V, versículos, 2, 3 e 4. Esta pergunta cria uma aproximação com o leitor, torna-o íntimo do cronista e serve de ponto de partida para se tecer a matéria da crônica: a indignação diante da propaganda da distribuição de 7 mil contos de réis durante o trimestre de 1864.
Se colocarmos lado a lado o texto sobre os parasitas sociais e os religiosos de 1859, poderemos notar que o discurso usado por Machado de Assis é o mesmo:
a cobrança feita à sociedade sobre seus atos, denunciando a hipocrisia latente no interior da sociedade burguesa de finais do século XIX.
Um recurso frequente nas crônicas, mas de maneira mais sutil, é o diálogo. Trata-se de um expediente utilizado com amenidade, porque o leitor é inquirido sobre a leitura da matéria publicada no jornal católico A Cruz, contudo não tem sua voz representada, apenas intuída na continuidade da crônica. Por este procedimento, o cronista age como um narrador intruso, que se coloca na cena narrada e, ao mesmo tempo, força o leitor a fazer o mesmo. Apesar disso, não podemos dizer que se trata aqui do diálogo de tradição luciânica, todavia, trata-se de uma estratégia de aproximação com o leitor, demonstrando certa intimidade que posiciona o leitor na cena apresentada pela crônica. O indicativo de que o leitor responde ou dá de ombros é quando o cronista diz ―pois bem‖ logo depois da pergunta, quer dizer, ―você leu, sim ou não, pois bem, vou ler então‖. O cronista desconsidera a resposta ou a possível resposta, pois representa o papel de um arguidor cuja voz se coloca acima daquelas que só poderiam se manifestar no mesmo meio que o dele: o jornal. Daí a entender o porquê do cronista se interpor como difusor da verdade, uma verdade unilateral, alicerçada em um conhecimento de mundo que passa do texto bíblico a elementos históricos.
Esta verdade pode ser uma verdade construída, parcial, presa a certos critérios sociais, cabendo ao leitor decifrá-la e entendê-la nos meandros de sua leitura.
Notamos que a citação usada pelo cronista teria o efeito de autoridade argumentativa para reprovar a falta de humildade diante do gesto da doação. É uma citação truncada no sentido de que não corresponde ao original, nem a estrutura textual, que é alterada sob a pena machadiana para se passar por autoridade de crítica aos religiosos e é deslocada, porque a fonte mencionada não corresponde ao original. O texto bíblico a que o cronista cita truncadamente está localizado em Mateus capítulo VI, versículos 1, 2, 3 e 4 e não em Mateus capítulo V, versículos 2, 3 e 4 como cita o cronista.
1º Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles. Do contrário, não recebereis recompensa junto ao vosso Pai que estais nos céus.
2º Por isso, quando deres esmola, não te ponhas a trombetear em público, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, com o propósito de serem glorificados pelos homens. Em verdade eu vos digo já receberam a sua recompensa.
3º Tu, porém, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita,
4º para que a tua esmola fique em segredo; e o teu pai, que vê no segredo, te recompensará. (BÍBLIA SAGRADA, 2006, p. 568).
Machado de Assis não cita com o intuito de exibir erudição, mas a citação tende a ser vista de outra forma, deve ser olhada pelos procedimentos de uso da paródia como um sistema de produção de sentido e criação literária.
Notamos que o circuito do Sermão da Montanha está presente em todas as crônicas analisadas até aqui, mas em cada uma delas, o procedimento de apropriação e o seu efeito são diferentes, o que revela o método machadiano de escritura-leitura: parte de um texto consagrado e o desloca para um universo profano, transformando-o num novo texto, tanto em termos de escritura quanto de leitura.
Há um movimento que arquiteta uma escritura em torno no circuito do
Sermão da Montanha, que se inicia pela citação truncada no versículo 3 do capítulo
V de S. Mateus e alude ao Sermão da Montanha como um todo; depois na crônica de 12 de junho de 1864 presentifica-se a cena bíblica do evangelizador na pele do cronista representado pelo folhetim e, por fim, na crônica de 22 de agosto de 1864 o
Sermão da Montanha retorna pela citação truncada do livro de S. Mateus, capítulo
V, versículos 2, 3 e 4. Este movimento preparatório anuncia a hora da profanação maior que acontecerá na crônica de 4 de setembro de 1892, conforme veremos adiante.