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KAPITTEL 3 - LITTERATUR

3.2 Risikoanalyseprosessen

3.2.2 Risikovurderingprosessen

Irene é filha de um casal de agricultores do Vale do Assú e começou sua luta pela sobrevivência com apenas cinco anos de idade, na mesma profissão dos pais. Hoje, aos 52 anos, é casada, mãe de um filho e trabalha como professora na EJA. Assim como a vida na roça, sua história escolar e profissional foi marcada por várias dificuldades.

Eu não escolhi ser professora! Não foi assim por vontade, né? Foi é... a necessidade ... as condições financeiras que eu não tinha. Eu morava num sítio e trabalhava de agricultura/... [frase interrompida por um choro bastante carregado de emoção]. Era muito pesado, né? Cinco anos... era pequena!... Minha mãe me levava pro serviço porque não tinha quem trabalhasse com ela. Dava as sementes pra plantar... os grãozinhos... aí a gente plantava, né? Não sabia... não tinha nem noção de quantidade, de nada. Então, eu trabalhei muito... eu cansei! Eu comecei a estudar, minha mãe não tinha dinheiro pra comprar farda pra mim, nem livro! E a agricultura não dava, né? Ai, quando foi um dia eu saí de casa e disse: - “Eu vou arranjar um serviço, seja qual for!” (IRENE, 2009).

Como é possível depreender no discurso de Irene, sua determinação apontava para o objetivo de livrar-se daquele sofrimento que era trabalhar na agricultura. Além disso, chama- me a atenção o fato de que, para atingir esse objetivo, a entrevistada se propôs a assumir qualquer “serviço”, sem pensar, de imediato, na natureza dessa ocupação.

Qualquer outro trabalho lhe parecia mais dignificante do que a dura realidade do campo. Por isso, a referida professora se sentia motivada a enfrentar os mais diversos desafios que sua decisão pudesse ocasionar, até mesmo aqueles que ela jamais imaginara.

Um dia, eu fui passando em frente à Prefeitura e uma amiga falou: - ‘Tão fazendo inscrição do concurso da Prefeitura pra professor’. Aí, eu disse: - ‘Mas, não dá pra mim não porque eu só tenho o científico, não dá’. Aí, ela disse: - ‘Não, mulher, mas vamos fazer assim mesmo. Eu disse: - É, vamos tentar!’ Aí, eu fui, né? Fiz e consegui... a aprovação. Mas só que quando me chamaram pra eu vim trabalhar, eu não quis, eu não aceitei... Porque eu não tinha vocação, eu não sabia nem por onde começar! Porque a minha vida foi totalmente diferente! Eu não era da cidade, eu vivia no mato! Aí, a minha amiga disse: - ‘Não, mulher, mas vai dar certo. Eu vou lhe ajudar no que for preciso’. Aí, eu disse: - ‘Então, tá bom!’ Aí, eu fui e aceitei, né?. Mas, não foi dizer assim... Porque eu tinha amor. Entendeu? Eu não tava preparada não! De jeito nenhum! Então, eu aceitei. Aí, eu vim... morar na cidade e comecei, é... sem..., assim, desnorteada, sem saber nem por onde começar (IRENE, 2009).

Pelo relato da entrevistada, a decisão de prestar concurso para o cargo de professor foi uma eventualidade. Em adendo, sua disposição para o desafio pode ser analisada com base na influência de pessoas amigas, as quais, além de incentivar a inscrição, comprometeram-se a ajudá-la nos primeiros momentos de sua nova ocupação.

Logo que eu vim pra cidade, encontrei umas amigas que começaram a me dar a mão! Mas, aí, eu tive de estudar de novo! Eu disse: - ‘Vou ter que fazer o pedagógico’. Fui! Aí, fui fazer o... o... assim... tipo um supletivo, que era o ‘Logus II’. Eu disse: - ‘Tenho que terminar num ano e seis meses porque eu quero fazer o concurso do Estado’. Eu tinha que ‘emburacar’ também. Aí, eu comecei a estudar, né? Mas, era muito pesado! Olha! eu ia pro banheiro com os módulos nas mãos! Eu dormia com os módulos debaixo do travesseiro... que era pra eu dar conta! Aí, eu sei que graças a Deus, deu certo! Comecei a trabalhar, o tempo foi passando, né? e eu fui me apegando, assim,... agora, eu estou amando meus alunos! (IRENE, 2009).

Nesse trecho da entrevista, a professora citada fala da necessidade de voltar a estudar, a qual é sentida, em especial, a partir do confronto com a cotidianidade da sala de aula. Como é possível perceber, ela entende que não deveria continuar na dependência da ajuda de suas amigas, mesmo considerando a importância desse fator naquele momento.

Assim como destaquei em relação às outras entrevistadas, a necessidade de retornar ou avançar na formação foi inevitável. O interessante é notar que as motivações que gravitam em torno dessa necessidade sofrem variações de sentido, devido, especialmente, aos objetivos de cada uma delas. No caso de Irene, passar no concurso promovido pelo Estado do Rio Grande do Norte (RN) significava para ela, além de um avanço na melhoria de sua vida, antes tão sofrida, uma maneira de se sentir capaz, tanto ou quanto os outros professores que já tinham sido aprovados em outros concursos. A expressão “Eu tinha que ‘emburacar’ [entrar] também” é reveladora dessa significação e de seu desejo de pertencer ao grupo dos professores da rede estadual de ensino, pois, como diz Charlot (2000, p. 72), “[...] toda relação com o saber comporta [...] uma dimensão relacional que é parte integrante da dimensão identitária.”

Com efeito, não se pode esquecer ainda que as exigências determinadas pelo próprio fazer da atividade de ensinar se configuram como uma motivação a mais para Irene, e que parece ser comum a todas as outras professoras.

Eu tinha que ir mais além, porque a gente não pode parar! E se você diz assim: - ‘Eu tou preparada!’ Ah! Ninguém está preparada! Você tem que ir mais além... mais além... Aí, então, eu disse: - ‘Vou fazer agora... o vestibular par inglês, seja lá como for, porque eu quero mais... sabe?’ Aí, eu fiz... veio a aprovação aí, graças a Deus eu fui aprovada, né? Terminei... e até queria fazer a Especialização, mas... eu acho que vou parar por aqui porque já faz vinte e oito anos que eu trabalho, já estou muito cansada. Entendeu? Mas que foi uma experiência... Olhe! Foi das maiores... essa experiência foi das aventuras... uma das maiores que eu já fiz na minha vida... foi essa: a de trabalhar com educação! Porque, pra mim, era um bicho, assim... eu não me achava preparada pra fazer essas coisas... eu... eu... não sei, era muito complicado pra mim, sabe? (IRENE, 2009).

Nessa fala, percebo o quanto a professora compreende sua condição humana de incompletude. Ao dizer que deve “ir além” porque “não pode parar”, ela expressa sua certeza de que o sujeito é uma construção sempre em processo de acabamento, como inacabadas são sempre suas relações (GUARESCHI, 2002). No contexto de seu discurso, isto significa ainda ultrapassar os limites demarcados pela profissão de agricultora e adentrar no terreno de uma nova condição existencial, a de professora.

Dessa forma, as opções que se sucederam à “escolha” da docência como profissão foram sempre gerenciadas por ela, a partir da necessidade de se sentir apta a assumir aquela nova função. Por isso, do mesmo modo que outros professores produziram em si mesmas muitas diferenças em relação ao que eram antes, Irene exerce uma tomada de posição,

igualmente, individualizada em relação a sua condição anterior de vida. Nessa perspectiva, cada “degrau” ultrapassado na escalada de sua formação representou também, para a professora, mais um episódio dentro da grande aventura que foi para ela o trabalho na educação.

Essa significação não ocorre de toda sorte gratuita, posto que assumir uma sala de aula sem nenhum acompanhamento sistemático é, sem dúvidas, uma aventura. Em relação a esse fato, tenho duas observações a fazer. A primeira delas está atrelada ao aspecto negativo dessa “aventura”, haja vista os muitos alunos que hoje podem estar sofrendo as consequências do despreparo dessa professora. No entanto, se praticarmos uma “leitura positiva” (CHARLOT, 2000) do que essa história representou para a professora Irene, a segunda observação que faço caminha em direção ao grande desafio que a ela foi imposto e para o qual ela não mediu esforços no transcorrer do seu enfrentamento. Portanto, se de um lado tivemos perdas, do outro, não podemos deixar de contabilizar os ganhos, já que as pessoas sempre terão o direito de desejar uma vida melhor.

De um modo ou de outro, a aventura vivida por Irene ficou registrada em sua memória e se transformou em uma experiência, no sentido de Benjamin (1996), por meio da qual ela construiu muitos saberes. Por meio das experiências que viveu, ela foi percebendo a necessidade e a possibilidade de dar sempre um passo a mais em sua escalada. Estudar foi, então, para ela, assim como foi para Eliete, a saída encontrada para não mais voltar às privações vividas na infância e para poder assumir, com o mínimo de “tranquilidade”, os desafios impostos pela atividade docente.