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5.2 Media reception

5.2.1 Right wing media

A Teoria da Metáfora Conceptual de Lakoff e Johnson (2003[1980]) é o marco inicial nos estudos contemporâneos da metáfora. A popularidade e aceitabilidade da teoria no campo das ciências cognitivas deve-se, principalmente, ao fato de ela asseverar que o ser humano possui um sistema conceptual fundamentalmente metafórico – desse modo, a metáfora não está presente unicamente em nossa linguagem, mas também é subjacente ao nosso pensamento –, e que, uma vez que nosso sistema conceptual é essencialmente metafórico, tudo o que percebemos, como agimos no mundo e como nos relacionamos com as pessoas é estruturado e compreendido por meio das metáforas:

Nosso sistema conceptual ordinário, em termos do qual pensamos e agimos, é essencialmente metafórico por natureza. [...] Nossos conceitos estruturam o que percebemos, como agimos no mundo e como nos relacionamos com as outras pessoas. Nosso sistema conceptual tem, portanto, um papel central em definir nossa realidade cotidiana (LAKOFF; JOHNSON, 2003 [1980], p. 3, tradução nossa)22.

Desse modo, a metáfora é estabelecida como um mecanismo básico de nosso pensamento – uma questão central na cognição humana. Em essência, a metáfora é a compreensão e experienciação de uma coisa em termos de outra. Dito de outro modo, ao caracterizar a natureza da metáfora enquanto um processo mental, Lakoff (2006 [1993]) esclarece que há na metáfora conceptual uma articulação entre ‘domínios’ de experiência, de modo que um domínio (de experiência) alvo é compreendido em termos de um domínio (de experiência) fonte (CIENKI, 2007; ALMEIDA et al., 2013). Assim, a metáfora envolve a compreensão de um domínio de experiência – em geral mais abstrato – em termos de um outro domínio de experiência – em geral mais concreto. O locus da metáfora, portanto, não é a língua, mas a maneira como conceptualizamos um domínio mental em termos de outro. Ela é caracterizada como uma série de mapeamentos sistemáticos – no sentido matemático – de um domino-fonte para um domínio-alvo. Ou seja, há uma ligação sistemática entre dois domínios cognitivos diferentes por meio de um mapeamento. Esse mapeamento é rigorosamente estruturado (LAKOFF, 2006 [1993]).

É pertinente salientar que embora a metáfora seja caracterizada por Lakoff e Jonhson (2003 [1980]) e Lakoff (2006 [1993]) como um mapeamento entre domínios cognitivos23, a

22“ […] our conceptual system, in terms of which we both think and act, is fundamentally metaphorical in nature. […] Our

concepts structure what we perceive, how we get around in the world, and how we relate to people. Our conceptual system plays a central role in defining our everyday realities” (LAKOFF; JOHNSON, 2003 [1980]).

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compreensão do que vem a ser um domínio de experiência não é explicitada; o próprio termo sequer fora usado na obra de 1980 por Lakoff e Johnson (CIENKI, 2007, p.181). Posto isso, convém discorremos, brevemente, a noção de domínio para a Teoria da Metáfora Conceptual: Langacker (1987 apud CIENKI, 1987, p. 182) afirma que um domínio é “uma área coerente

de conceptualização, na qual unidades semânticas podem ser caracterizadas”. Por seu turno, Duque e Costa (2012, p.75) asseveram que domínios conceptuais “são nichos de sentido nos

quais experiências corpóreo-afetivas ficam estocadas desde a infância”. Almeida et al. (2013, p. 70) corroboram essa ideia ao afirmar que, para os efeitos da metáfora, um domínio cognitivo é uma área de experiência humana a qual engloba um conjunto de entidades, objetos, ações, processo e emoções, que lhes confere singularidade e que, em geral, não existem em outros domínios cognitivos. Para melhor compreendermos a ideia de domínio cognitivo, tomemos como exemplo o domínio GASTRONOMIA, fornecido por Almeida et al. (op. cit.). Está inclusa nesse domínio não somente toda a espécie de alimentos, como, por exemplo, peixes, carnes, frutas, doces, bebidas, salgados, etc., mas também cozinheiros com seus ajudantes, os acessórios culinários, como pratos, panelas, tachos, talheres, etc. Estão presentes nesse domínio também as ações, processos entre outras entidades e eventos referentes à gastronomia. Pode-se notar, então, que todos esses elementos – ou, nas palavras de Langacker (op cit.), unidades semânticas – não somente constituem uma área coerente de conceptualização, mas também são caracterizados no interior de tal área, isto é, na área da GASTRONIMIA.

Em vista do foi dito no parágrafo anterior, a metáfora conceptual revela nossa capacidade inata de projetar, por meio de mecanismos da razão, determinados domínios estruturados oriundos da experiência corporal e interativa para domínios de natureza mais abstrata (FELTES, 2007). Assim, profundamente relacionada ao experiencialismo e ao conceito de corporificação, a metáfora permite que significados e inferências de base corporificada sejam estendidos para a elaboração do pensamento abstrato. Destarte, conforme Johnson (2007), a afirmação mais ampla da teoria da metáfora conceptual é que os chamados conceitos abstratos são definidos por mapeamentos sistemáticos de um domínio-fonte sensório-motor sobre um domínio-alvo abstrato24. Consequentemente, a metáfora é um dos

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É importante salientar que, embora haja uma concentração nas bases neurobiológicas de nosso sistema conceptual – e, por consequência, da metáfora –, o enfoque experiencialista proposto por Lakoff e Johnson (2003 [1980]), Lakoff (1987), Johnson (1987) e Feldman (2006) não elimina ou reduz a importância dos fatores interacionais, sociais e culturais na dinâmica da linguagem, posto que abalizado na imprescindível interatividade entre os indivíduos e entre os indivíduos e seu entorno sociocultural está a compreensão do conceito de “mente corporificada” (DUQUE; COSTA, 2012, p. 89). Ou seja, pode-se mobilizar recursos outros, diferentes daqueles oriundos somente do sistema sensório-motor, para estruturar domínios conceptuais mais abstratos, tais como modelos culturais (Cf. Feltes (2007) sobre modelos culturais).

recursos mais importantes que disponibilizamos em nossas tentativas de compreender, pelo menos parcialmente, aquilo que não nos é totalmente compreensível, tal como sentimentos, experiências estéticas, práticas morais (LAKOFF; JOHNSON, 2003 [1980]). E mesmo conceitos mais cotidianos como tempo, estados, causação, mudança e propósito acabam sendo também metafóricos (LAKOFF, 2006 [1993]).

Para ilustrar esse mecanismo metafórico, tomemos como exemplo, fornecido por Johnson (2007), a metáfora ATIVIDADES INTENCIONAIS SÃO TRAJETOS. Por conta

dessa metáfora, conseguimos compreender expressões linguísticas como “temos um longo caminho a percorrer antes de a teoria ser finalizada”. Nota-se que a expressão “um longo caminho a percorrer”, concernente à distância e ao movimento no espaço propriamente ditos,

é usada para falar da completude de um projeto mental – desenvolvimento de uma teoria –, no qual não há movimento espacial algum. Essa metáfora consiste no mapeamento conceptual de entidades e relações do domínio-fonte (o movimento espacial físico) sobre o domínio-alvo (atividades intencionais, que podem ser tanto físicas quanto abstratas):

ATIVIDADES INTENCIONAIS SÃO TRAJETOS

Domínio fonte (movimento no espaço)

→ Domínio alvo

(atividade mental)

Ponto inicial A → Estado inicial Ponto final B → Estado final

Destino → Objetivo a ser realizado

Deslocamento de A para B → Processo de realização do objetivo Obstáculos no deslocamento → Dificuldades em realizar o objetivo Quadro 3 – Fonte: Johnson (2007, p. 177).

Notamos com o quadro acima que há no mapeamento uma correspondência ontológica na qual as entidades do domínio-fonte (ponto inicial A, ponto final B, destino, deslocamento entre os pontos e obstáculo no deslocamento) correspondem sistematicamente às entidades do domínio-alvo (estado inicial, estado final, objetivo a ser realizado, processo de realização e dificuldade de realização do objetivo). Além disso, fica clara a questão do princípio da direcionalidade, alegada por Lakoff e Johnson (2003 [1980]), que caracteriza correspondências epistêmicas de conhecimentos do domínio-fonte para o domínio-alvo. Desse modo, podemos perceber que conceitos abstratos tendem a ser compreendidos em termos de conceitos mais concretos baseados em nossas operações sensoriais e motoras (JOHNSON,

2007). Isso implica, ainda, no fato de a metáfora conceptual, enquanto forma de conceptualização, também estar relacionada à abordagem da mente corporificada:

A hipótese da mente corporificada, portanto, interrompe radicalmente a distinção percepção/concepção. Na mente corporificada, é concebível que o mesmo sistema neural envolvido na percepção (ou no movimento corporal) desempenhe papel central na concepção. Ou seja, os mesmos mecanismos responsáveis pela percepção, movimentos e manipulação de objetos poderiam ser responsáveis pela conceptualização e raciocínio” (LAKOFF; JOHNSON, 1999, p. 37-38, tradução nossa)25.

Então, na medida em que o processo metafórico envolve a estruturação de um domínio-alvo abstrato via mapeamentos de um domínio-fonte cujas bases ancoram-se no sistema sensório-motor, pode-se afirmar que a metáfora é um principio básico que relaciona mente, cérebro e corpo, questão central na abordagem da mente corporificada.

É importante ressaltar que o mapeamento que caracteriza a metáfora não ocorre de qualquer maneira. Ainda que inúmeros elementos sejam mapeados e possa haver várias inferências a partir desses elementos, nem tudo precisa ser mapeado do domínio-fonte para o domínio-alvo. Isso ocorre devido ao fato de o mapeamento metafórico ser regido pelo

princípio da invariância (LAKOFF; TURNER, 1989, p. 99-100). De acordo com esse

princípio “mapeamentos metafóricos preservam a topologia cognitiva (ou seja, a estrutura do esquema de imagem) do domínio-fonte” (LAKOFF, 2006 [1993], p. 199). Sendo assim, as inferências do domínio-fonte referentes à topologia cognitiva serão preservadas no mapeamento, de modo que a metáfora preserva a estrutura inferencial – pelo menos alguns tipos de estrutura. Para ilustrar esse princípio, retomemos a metáfora ATIVIDADES INTENCIONAIS SÃO TRAJETOS, apresentada no quadro 3. O domínio-fonte TRAJETO apresenta uma topologia cognitiva estruturada pelo esquema-imagético FONTE-CAMINHO- META. Logo, a FONTE equivale ao ponto inicial A, o CAMINHO equivale ao deslocamento do ponto A ao ponto final B e a META equivale ao ponto final B. No mapeamento sistemático entre os domínios cognitivos, essa estrutura topológica do domínio-fonte será preservada no domínio-alvo ATIVIDADES INTENCIONAIS. Assim, o ponto inicial A (FONTE) corresponde ao estado inicial da atividade intencionada26, o deslocamento entre o

25“the embodied mind hypothesis therefore radically undercuts the perception/conception distinction. In an embodied mind,

it is conceivable that the same neural system in perception (or in bodily movement) plays a central role in conception. That is, the very mechanisms responsible for perception, movements, and object manipulation could be responsible for conceptualization and reasoning” (LAKOFF, JOHNSON, 1999, p. 37-38).

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Podemos citar como exemplo de atividades intencionadas: escrever um livro, compor uma obra, construir uma casa, estudar, etc.

ponto inicial A e o ponto final B (CAMINHO) corresponde ao processo de realização do objetivo, o qual é o estado final cujo correspondente é o ponto final B (META). Nota-se, portanto, que a estrutura topológica do esquema-imagético FONTE-CAMIHO-META do domínio-fonte TRAJETO foi preservada na estruturação do domínio-alvo ATIVIDIADES INTENCIONAIS. Ainda, segundo Lakoff (2006 [1993]), pode-se afirmar que uma grande parte das inferências abstratas – se não todas elas – são versões metafóricas de inferências espaciais inerentes à estrutura topológica dos esquemas de imagem. Por exemplo, obstáculos presentes no deslocamento (CAMINHO) correspondem à dificuldade em realizar o objetivo da atividade intencional.

É válido ressaltar, conforme enfatiza Lakoff (2006 [1993]), que uma metáfora não é uma palavra ou uma expressão em particular. É, na verdade, um mapeamento ontológico entre domínios conceptuais. Consequentemente, a metáfora não é só uma questão de língua, mas de pensamento e raciocínio: o mapeamento é primário, e a língua, secundária. Desse modo, o uso da linguagem do domino-fonte e seus padrões de inferência são sancionados para estruturar os conceitos do domínio-alvo. Fica evidente a distinção que Lakoff e Johnson (2003 [1980]) fazem entre metáfora conceptual e metáfora linguística. A primeira refere-se a noções abstratas como COMPREENDER É SEGURAR e ATIVIDADES INTENCIONAIS SÃO TRAJETOS, enquanto a segunda, refere-se às instanciações linguísticas que materializam tais noções abstratas, por exemplo, temos respectivamente “não consegui pegar sua ideia” e

“temos um longo caminho pela frente até acabarmos essa teoria”. Portanto, “metáforas

enquanto expressões linguísticas são possíveis precisamente porque existem metáforas no

sistema conceptual das pessoas” (LAKOFF; JOHNSON, 2003[1980], p.6, tradução nossa)27 . Por isso, na teoria contemporânea da metáfora, Lakoff (2006 [1993]) afirma que a palavra metáfora passou a significar um mapeamento entre domínios no sistema conceptual.

A Teoria Contemporânea da Metáfora, em sua tentativa de explicar a ubiquidade das metáforas na fala cotidiana das pessoas, abriu caminhos para uma nova área de investigação na qual inúmeras pesquisas dedicaram-se a investigar outros aspectos da metáfora e fornecer evidências de seu papel na elaboração do pensamento abstrato: a realidade psicológica das metáforas (GIBBS, 1994), suas bases corpóreas (GIBBS, 2005), a relação metáfora e cultura (KÖVECSES, 2005), a multimodalidade das metáforas (FORCEVILLE, 2007, 2008), metáforas e gestos (MCNEIL, 2005; CIENKI; MÜLLER, 2008), metáforas e mudança semântica (SWEETSER, 1990), metáforas e aquisição da linguagem (JOHNSON, 1997) e etc.

27“Metaphors as linguistic expressions are possible precisely because there are metaphors in a person’s conceptual system”

Segundo Johnson (2007), recentemente, novas fontes de evidência surgiram para explicar as possíveis bases neurais para o mapeamento imagético-esquemático que opera nas metáforas conceptuais. Podemos citar os trabalhos de Rohrer (2001), Gallese e Lakoff (2005), Feldman e Narayanan (2004) e etc. Johnson (op. cit.) comenta que estudos como esses não são definitivos, em verdade, são no geral bem especulativos. Entretanto, trazem em gérmen a sugestão de uma possível arquitetura neural que subjaz as metáforas conceptuais.

Convém salientar que uma vez que a metáfora conceptual nos possibilita estruturar e dar coerência às nossas experiências e conceitos abstratos, a Teoria da Metáfora Conceptual revelou-se imprescindível para o propósito de nossa pesquisa, posto que investigamos como a experiência e o conceito de APRENDIZAGEM, entre outros tópicos relacionados a esse conceito, foram conceptualizados por aprendizes de inglês como língua estrangeira. Em nossos dados (cf. Capítulo 4), pudemos identificar muitos domínios experienciais, tais como FORÇAS FÍSICAS, VIAGEM, etc., que foram mobilizados para estruturar a experiência de aprendizagem de inglês como língua estrangeira, licenciando, consequentemente, metáforas como MOTIVAÇÃO É FORÇA COMPULSÓRIA, APRENDIZAGEM DE LÍNGUA INGLESA É UMA VIAGEM, etc.

É de imprescindível importância comentar que, apesar de muita atenção ser dedicada à metáfora nos estudos da Linguística Cognitiva, nos últimos tempos, outro tropo linguístico tem sido estudado profundamente: a metonímia, que também é um mecanismo conceptual como a metáfora (BARCELONA, 2013). Na sessão a seguir, trataremos da metonímia

conceptual e de seu papel na cognição humana.