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3.5 Methodology of data analysis

4.1.5 Summary

Johnson (1987, 2007) assevera que nossa experiência é estruturada significativamente por meio de estruturas básicas, corporificadas e pré-conceptuais; estruturas que estão abaixo do nível da consciência e, evidentemente, são anteriores à formulação do pensamento conceptual abstrato. Essas estruturas básicas são chamadas de esquemas imagéticos.

O termo “esquema imagético” (doravante EI) foi, simultaneamente, elaborado por

Johnson (1987) e Lakoff (1987), sendo a peça-chave para a explicação das origens corporificadas do significado e pensamento humanos15. Ao cunhar o termo esquema imagético, tanto Johnson (1987) quanto Lakoff (1987) quiseram enfatizar, primeiramente, a natureza corpórea, sensório-motora multimodal, de várias estruturas de nossa conceptualização e raciocínio. Por conseguinte, os esquemas imagéticos são definidos como padrões recorrentes de nossa experiência sensório-motora por meio dos quais podemos tanto fazer sentido de nossas experiências quanto raciocinar sobre elas. Eles podem igualmente ser recrutados para estruturar conceitos abstratos e realizar inferências sobre domínios abstratos do pensamento (JOHNSON, 2005, p. 18-19).

Os esquemas imagéticos emergem como estruturas significativas para nós, em particular, no nível sensório-motor, ou seja, no nível de nossos movimentos corpóreos no espaço, com nossa manipulação dos objetos e interações perceptuais. Desse modo, segundo Johnson (1987), se afirmarmos que um esquema de imagem ‘existe’, significa dizer que algumas de nossas experiências têm uma estrutura recorrente pela qual podemos compreender tais experiências. Por exemplo, compreendemos uma determinada situação como envolvendo o aspecto CONTÊINER em função de tal situação estar organizada de uma maneira específica que manifesta o padrão que chamamos abstratamente de esquema CONTÊINER. Em outras

15

Johnson (2005), em nota de rodapé, chama atenção para o fato de que, embora o termo fosse novo na época em que foi criado, a ideia básica sobre os esquemas imagéticos fora antecipada, parcialmente, nos trabalhos de Immanuel Kant (1968 [1781]), Maurice Merleau-Ponty (1962 [1945]), William James (1950 [1890]) e John Dewey (1958 [1925]).

palavras, em nossas experiências físicas, os aspectos de contenção (containment) e de limite (boundedness) são muito presentes: temos profunda consciência de nosso corpo como um contêiner tridimensional no qual inserimos coisas – tais como comida, água, ar –, e do qual também eliminamos coisas – detritos de alimentos, líquidos, fluidos. Experienciamos física e sensorialmente a contenção também em nossos arredores, com coisas que nos envolvem, que nos cercam: quando entramos e saímos de lugares como salas, quartos, etc., ao vestirmos roupas, ao entrarmos em veículos, entre muitos outros espaços limitados, e até mesmo quando manipulamos objetos e/ou os colocamos em contêineres, como caixas, copos, bolsas, experienciamos a contenção. Pode-se notar que existem, em cada uma dessas instanciações, organizações espaciais e temporais que se repetem, ou seja, há esquemas típicos para a experienciação de contenção física.

Vale ressaltar que os esquemas imagéticos são flexíveis, de tal sorte que eles podem tomar inúmeras instanciações nos mais variados contextos. Eles são relativamente maleáveis, de modo que podem ser modificados para caberem em situações semelhantes, porém diferentes, que manifestam uma estrutura subjacente recorrente (JOHNSON, 1987). Por conseguinte, essa natureza dinâmica da estruturação dos esquemas imagéticos resulta na emergência do significado a partir de tais padrões sensório-motores recorrentes da interação organismo-ambiente. Sendo assim, no tocante ao papel dos esquemas imagéticos na construção do significado, Johnson (2007) elenca três aspectos importantes envolvidos: o primeiro é que, enquanto estruturas provenientes do nível sensório-motor, os esquemas imagéticos operam abaixo do nível de nossa consciência, no chamado inconsciente cognitivo (LAKOFF; JOHNSON, 1999). Isso significa que, para compreender que algo está dentro de um contêiner, o indivíduo não precisa refletir ou pensar sobre isso. Ele pode partir de sua experiência direta com um contêiner – de vê-lo, de manipulá-lo, etc. –, ou ainda, de ouvir ou

ler a palavra “em” para ativar o esquema CONTÊINER, ou seja, a ativação ocorre de maneira

automática, sem que haja necessidade, como já dito, de reflexão sobre o esquema de contêiner.

Miranda (2013, p. 36) comenta que o termo “inconsciente cognitivo” pode gerar uma

interpretação errônea de que não existe uma lógica na estruturação dos esquemas imagéticos. Isso nos leva ao segundo aspecto enumerado por Johnson (2007), de que há, em verdade, uma lógica na estrutura dos esquemas imagéticos. Se considerarmos, por exemplo, uma situação em que nos locomovemos em uma trajetória linear rumo a um destino, no meio do caminho estaremos no tempo T1. Ao avançarmos nesse caminho e atingirmos o tempo T2, estaremos

mais próximos do nosso destino em T2 do que em T1. Isso é parte da lógica do esquema ORIGEM-CAMINHO-META: se vamos de uma origem a uma meta ao longo de um caminho, então deveremos passar por pontos intermediários nesse caminho; ademais, quanto mais longe avançamos no caminho, tanto mais tempo terá se passado desde o começo da trajetória e mais perto estaremos da meta (LAKOFF, 1987). Tomemos, ainda, uma situação corriqueira: as chaves do carro estão na sua mão, você coloca a mão no bolso; por meio da lógica transitiva de contenção, as chaves do carro acabaram no seu bolso. Essa lógica espacial não é tão trivial quanto aparenta; pelo contrário, conforme afirma Johnson (2007), é essa lógica corporal e espacial que nos possibilita dar sentido e agir em nossas experiências rotineiras. É importante salientar que essa lógica na estruturação dos esquemas imagéticos reforça a ideia, sempre enfatizada por Johnson (1987), de que eles têm estrutura suficiente que se conectam a aspectos de nossas experiências e nos levam a inferências em nosso sistema conceptual, as quais são a base das projeções metafóricas (para mais detalhes sobre projeções metafóricas ver seção 1.3).

O terceiro e último aspecto que Johnson (2007) indica concerne ao fato de que os esquemas imagéticos não devem ser entendidos somente como “mentais” ou unicamente

como “corpóreos”, mas como contornos “mente-corpo” (DEWEY, 1929). A expressão “mente-corpo” refere-se à continuidade subjacente que conecta nossas interações físicas no

mundo com nossa imaginação e nosso pensamento, isto é, o que acontece quando um corpo

vivo está envolvido em situações de discurso, comunicação e participação. O termo “corpo”,

conforme explica Dewey (1929), designa a operação de fatores constantes com o restante da natureza, que pode ser tanto animada quanto inanimada. Essa operação é contínua, conservada, registrada e cumulativa. Enquanto que o termo “mente” designa características e consequências, que são diferenciais e indicativas, de traços que emergem quando o corpo está engajado numa situação mais abrangente, complexa e interdependente. Em síntese, considerar os esquemas imagéticos como contornos mente-corpo ressalta a ideia de que a cognição humana evoluiu contiguamente com as superfícies sensório-motoras, isto é, a mente emerge

de “um processo contínuo que vai do nível mais simples, envolvendo nosso sistema sensório- motor, ao nível mais complexo, envolvendo o sistema de racionalização abstrata”

(MIRANDA, 2013, p. 29).

Portanto, os esquemas imagéticos são alguns dos padrões básicos do fluxo contínuo de nossa experiência cotidiana, que não é simplesmente mental nem simplesmente corporal, que não é só cognitivo, nem só emocional, nem um pensamento sozinho ou uma emoção

isolada. Todas essas dimensões estão inexoravelmente ligadas aos padrões perceptuais e motores de padrões de interação organismo-ambiente, os quais provem a base para nossos padrões de compreensão e pensamento (JOHNSON, 2005).

Consoante a isso, vemos que os esquemas imagéticos são onipresentes, bem- definidos e com estrutura interna suficiente para balizar nossa cognição. Assim, eles se sobrepõem a nós, de modo que desenvolvemos uma miríade de estruturas complexas de significado centrais as nossas experiência e compreensão. Logo, o mundo assume o formato de um reino altamente estruturado, carregado de valores e personalizado de tal sorte que o sentimos atrair nossos interesses, impelindo-nos à ação: “nós pensamos para agir e agimos

como parte de nosso pensamento” (JOHNSON, 2007, p. 126, tradução nossa)16

. Para ilustrar a ideia da imensidão de esquemas imagéticos que subjaz nosso raciocínio, Johnson (1987, p. 126) elaborou a seguinte lista:

CONTÊINER EQUILÍBRIO COMPULSÃO

BLOQUEIO FORÇA CONTRÁRIA CONTENÇÃO-REMOÇÃO

HABILIDADE ATRAÇÃO MASSA-CONTEÚDO

TRAJETÓRIA LIGAÇÃO CENTRO-PERIFERÍA

CICLO PERTO-LONGE ESCALA

PARTE-TODO FUSÃO DIVISÃO

CHEIO-VAZIO COMBINAÇÃO SURPERIMPOSIÇÃO

ITERAÇÃO CONTATO PROCESSO

SUPERFÍCIE OBJETO COLEÇÃO

Quadro 1 – Fonte: Johnson (1987, p.126).

A lista acima, segundo Johnson (1987), é breve e muito seletiva, porém inclui o que o autor considerou como sendo os esquemas imagéticos mais importantes. No entanto, se

alguém considerar o termo “esquema” em um sentido mais amplo do que o autor considera,

então tal lista pode ser alargada.

É importante salientar que os esquemas imagéticos podem ser estendidos e elaborados metaforicamente para nos auxiliar na compreensão de domínios experienciais mais abstratos (JOHNSON, 1987). Johnson (2007) comenta que é muito difícil visualizarmos nossos conceitos mais abstratos, isto é, dos conceitos para entidades não físicas, instituições, ações, relações, valores, etc., como realmente corporificados. Posto isso, o autor propõe que,

por meio de projeções metafóricas, conseguimos estruturar conceitos mais abstratos em termos de entidades e eventos físicos. Corroborando essa ideia, Lakoff (1987) também salienta as extensões metafóricas, ao apontar dois papeis para os esquemas imagéticos no que concerne a compreensão de conceitos:

são conceitos que têm em si mesmas estruturas diretas de compreensão [ou seja, emergem diretamente de nossa interação com o meio], e são usados metaforicamente para estruturar outros conceitos mais complexos17 (LAKOFF, 1987, p.283, tradução nossa)18.

É em virtude de uma projeção metafórica dos esquemas imagéticos que conseguimos compreender e pensar sobre conceitos abstratos. Ou seja, usamos metáforas conceptuais (ver próxima sessão 1.3) como um de nossos principais mecanismos imaginativos para elaborarmos o pensamento abstrato com base em nosso sistema sensório-motor (JOHNSON, 2007). Para ilustrar, tomemos como exemplo o ato da “compreensão de uma ideia”. Costumamos conceptualizar esse ato com a metáfora conceptual COMPREENDER É SEGURAR19, a qual consiste no seguinte mapeamento:

COMPREENDER É SEGURAR

Domínio fonte (segurar)

→ Domínio alvo (compreender)

Objeto segurado → Ideia/conceito compreendido Segurar um objeto → Compreender uma ideia Firmeza no aperto do objeto → Profundidade de compreensão Perda da posse do objeto → Falha ao compreender

Objeto fora do alcance → Ideia que não pode ser compreendida Quadro 2 – Fonte: Johnson (2007, p. 166)

Nota-se na metáfora acima uma lógica, ou estrutura inferencial, no mapeamento

entre o conceito concreto, mais físico, “segurar”, e o conceito abstrato, não físico, “compreender”. No domínio-fonte – ato físico de segurar –, se um objeto está fora de alcance,

não é possível que você o segure. Pelo mapeamento conceptual, se uma ideia está “além de”

17

O autor refere-se à elaboração dos Modelos Cognitivos Idealizados – MCIs – discorremos sobre os MCIs nas seções 1.3 e 1.4.

18“they are concepts that have directly-understood structures of their own, and they are used metaphorically to structure other

complex concepts” (LAKOFF, 1987, p. 283).

19

você, não será possível que você a compreenda. Se seu ato de segurar o objeto não é bem sucedido, você derrubará ou perderá o objeto. Então, analogamente, se a sua “captura” intelectual falhar, você não compreenderá a ideia – você não vai “pegar” a ideia.

Conforme Johnson (2007), a hipótese do significado corporificado sugere que, quando conceptualizamos o ato de compreender algo, por meio da metáfora conceptual COMPREENDER É SEGURAR, ativamos o esquema SEGURAR20. É esse esquema, quando ativado, que nos permite raciocinar e realizar inferências sobre o que significa compreender uma ideia, uma sentença ou uma teoria. Toda a estrutura interna do esquema SEGURAR fica disponível para a formação de sentido do ato de entender.

Vimos, até então, o papel fundamental dos esquemas imagéticos na estruturação de nossa experiência no/com mundo. Eles nos permitem dar sentido ao nosso mundo. Em outras

palavras, “eles são as estruturas pelas quais nós existimos de modo a ‘termos um mundo’”

(VARELA et. al, 1991, p. 150, tradução nossa)21. Ademais, por meio da projeção metafórica dos esquemas imagéticos, que caracteriza as metáforas conceptuais, podemos compreender domínios conceptuais mais abstratos.

É importante salientar que o conceito dos esquemas-imagéticos aqui apresentado é basilar, uma vez que, como visto na introdução, nos indagamos acerca de quais esquemas- imagéticos subjazem as expressões linguísticas presentes em nossos dados (cf. capítulo 4). Notamos, a propósito, que alguns esquemas-imagéticos (e.g.: FORÇA, OBJETO, CONTATO, ORIGEM-CAMINHO-META e CONTÊINER), via projeção metafórica, conferiram estrutura e coerência à experiência de aprendizagem de inglês como língua estrangeira dos participantes de nossa pesquisa.

Convém destacar que a importância epistêmica da metáfora parece repousar em seu papel como um processo experiencial no qual a estrutura de nossas interações no/com o mundo é gerada e projetada sobre nossa compreensão (JOHNSON, 1987). Por meio dela, nossa experiência é ordenada e estruturada, conferindo-lhe sentido. Em suma, a metáfora é o cerne do mito experiencialista, bem como reforça a noção dos esquemas imagéticos. Posto isso, passemos, portanto, à próxima sessão que tratará da Teoria das Metáforas Conceptuais e sua onipresença no nosso cotidiano.

20

Para uma descrição detalhada da ativação desse esquema, conferir Gallese e Lokff (2005).