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Quando o mundo humano torna-se foco da pesquisa científica, importantes aspectos do homem53 relacionados à sua condição específica de sujeito são mais bem investigados pela abordagem qualitativa, cuja característica mais evidente é a descrição, compreensão e interpretação de fatos e fenômenos (SEVERINO, 2007; MARTINS, 2006). Dado seu caráter naturalista, há na abordagem qualitativa um enorme cuidado no tocante às condições que compõem o contexto no qual certo fato ou fenômeno acontece. Destarte, o estudo de caso se insere no paradigma qualitativo: por seu estilo também naturalista, ele é particularmente adequado às investigações dos fenômenos humanos, pois envolve um estudo profundo e exaustivo de algum fenômeno em seu contexto real – de como tal fenômeno acontece naturalmente – visando a obter seu amplo e detalhado conhecimento (PINHEIRO, 2010; GILLHAM, 2000). Segundo Cameron (2003), Cameron et al. (2009) e Cameron (2010b), para fazermos uma investigação apropriada da metáfora, é imprescindível que esta esteja inserida num contexto de uso real da língua, de modo que todas as suas dimensões sejam consideradas durante a análise. Por esta razão, adotamos o método do estudo de caso, uma vez que analisamos o fenômeno da metáfora em seu contexto real (PINHEIRO, 2010; GILLHAM, 2000), isto é, de como ela emerge naturalmente num evento discursivo, visando a obter detalhado conhecimento acerca dos falantes que fazem uso dela, tais como seus pensamentos, valores e crenças.

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Conforme Nunan (1992), decidir se um estudo é um ‘caso’, ou não, é algo difícil. O

próprio termo ‘estudo de caso’, segundo o autor, é definido de inúmeras maneiras. Gillham

(2000) sugere que, para entender o que é um estudo de caso, devemos primeiramente nos

perguntar o que é ‘um caso’: “(i) uma unidade da atividade humana inserida no mundo real;

(ii) a qual só pode ser estudada ou compreendida dentro do contexto; (iii) que existe no aqui e agora; e (iv) que deve se fundir ao seu contexto, de modo que limites precisos são difíceis de delinear54” (GILLHAM, 2000, p. 1, tradução nossa). Nunan (1992) assevera que um caso pode ser um indivíduo, um grupo (uma família, por exemplo), uma instituição (como uma escola) ou mesmo uma comunidade (uma cidade), contanto que se constitua como uma unidade cujos limites sejam bem definidos (DÖRNIEY, 2007). Desse modo, considerando os pontos (i) a (iv) elencados por Gillham (2000), a unidade de análise desta pesquisa constitui- se de dois eventos discursivos, os grupos focais55, compostos por seis participantes em cada evento.

Para Gillham (2000) um estudo de caso é o tipo de estudo que procura investigar os quatro pontos – mencionados no parágrafo anterior – referentes a um caso para responder perguntas específicas de pesquisa, baseando-se em uma gama de evidências variadas presentes no cenário do caso. A propósito disso, Stake (1995 apud Dörniey 2007) diz que um estudo de caso é a investigação da complexidade e particularidade de um caso. Tal ideia fica clara nas palavras de Martins (2006), ao definir o estudo de caso como:

uma investigação empírica que pesquisa fenômenos dentro de seu contexto real (pesquisa naturalística), onde o pesquisador não tem controle sobre eventos e variáveis, buscando apreender a totalidade de uma situação e, criativamente, descrever, compreender e interpretar a complexidade de um caso concreto. Mediante um mergulho profundo e exaustivo em um objeto delimitado – problema da pesquisa –, o Estudo de Caso possibilita a penetração na realidade social, não conseguida plenamente na avaliação quantitativa (MARTINS, 2006, p. xi).

Percebe-se, com as palavras de Martins (2006), que nessa intrínseca relação entre o objeto investigado e seu contexto, o estudo de caso, em seu estilo naturalista, permite chegar a compreensões que vão além da natureza do fenômeno em si, mas às motivações, sentidos e

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“[...] a unit of human activity embedded in the real world; which can only be studied or understood in context; which exists the here and now; that emerges in with its context so that boundaries are difficult to draw” (GILLHAM, 2000, p. 1).

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Cameron e Maslen (2010, p.98) consideram a discussão em grupo focal (ou, simplesmente, grupo focal) como um evento discursivo. Em nota, Cameron (2010, p.92) define ‘evento discursivo’ como “uma atividade humana coerente e demarcada que envolve o uso da língua / a bounded and coherent human activity involving the use of language”. Sendo assim, conforme essa definição, o grupo focal é uma atividade humana coerente e demarcada, no sentido de evento único, com delimitações temporais precisas, que envolve o uso da língua. Como exemplos de eventos discursivos tem-se ainda: uma aula, um entrevista, um programa de rádio, uma consulta médica, e etc.

significados latentes do fenômeno, fornecendo entendimento aprofundado da complexidade e dinamismo próprio do fenômeno em foco (FLICK, 2013; ANDRÉ, 1995). Para a investigação do fenômeno da metáfora na língua em uso, portanto, esse paradigma de pesquisa científica que é o estudo de caso é, sobremaneira, apropriado, haja vista que a metáfora não deve ser separada de seu contexto discursivo56. Sendo assim, uma investigação adequada do fenômeno metafórico precisa descrever e explicar as conexões entre o contexto discursivo e o uso da metáfora (CAMERON, 2010, p. 79). Logo, o método de estudo de caso possibilita ao pesquisador realizar uma investigação empírica da metáfora em seu contexto real de uso – no qual as ações linguísticas e as variáveis não estão sob o seu controle57 – que, no tocante, principalmente, ao fenômeno da metáfora sistemática, busca, ao elaborar uma metáfora sistemática, apreender a totalidade das ideias, sentimentos e valores dos participantes de um evento discursivo – o caso sob investigação – que fazem uso sistemático de expressões metafóricas.

Como já dito, pelo fato de termos adotado o método de estudo de caso, nossa pesquisa insere-se no paradigma qualitativo-interpretativista. Conforme Bortoni-Ricardo (2008):

[s]ob a denominação interpretativismo, podemos encontrar um conjunto de métodos e práticas empregados na pesquisa qualitativa, tais como: pesquisa etnográfica, observação participante, estudo de caso [grifo nosso], interacionismo simbólico, pesquisa fenomenológica e pesquisa construtivista, entre outros. Interpretativismo é uma boa denominação geral porque todos esses métodos têm em comum um compromisso com a

interpretação [grifo da autora] das ações sociais e com o significado que as

pessoas conferem a essas ações na vida social (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 33-34).

Pesquisas cujos fenômenos em foco concernem o campo das ciências sociais e humanas não podem descuidar do contexto sócio-histórico (BORTONI-RICARDO, 2008). Em relação à investigação da metáfora no âmbito social, por exemplo, conforme Cameron e Maslen (2010), especificamente, no tocante ao uso que as pessoas fazem dela, o pesquisador pode mais adequadamente compreender as emoções, atitudes e conceptualizações de tais

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Cameron (2010b), em nota, deixa em aberto a discussão acerca de o discurso ser o único local da metáfora (como acreditam alguns psicólogos discursivos como Edwards (1997) ), ou de a metáfora poder existir na mente, fora do discurso (como defendem os teóricos cognitivistas como Lakoff e Johnson (1980, 1999)). Na opinião da autora, retirar a metáfora de seu contexto pode ocasionar a transformação da metáfora em algo diferente (Cf. Cameron, 2010b, p. 79). Entretanto, a autora deixa em cargo do pesquisador o posicionamento teórico que ele deseja assumir na hora de investigar a metáfora.

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Gibbs e Cameron (2008), em sua investigação, procuram ilustrar a estabilidade e variabilidade no uso da metáfora, para tanto, os autores mostram que várias forças (variáveis) entram em (inter)ação quando a metáfora é produzida e compreendida, tais como a existência de conceitos metafóricos, enunciados metafóricos previamente compreendidos, movimentos corporais e gestos, gênero e ocupação, especificidade culturais e linguísticas, etc. Sendo assim, a metáfora é um fenômeno dinâmico que extrapola o controle do pesquisador.

pessoas, seja enquanto indivíduos, seja enquanto participantes de uma vida social. Assim, a pesquisa qualitativa buscar entender, interpretar fenômenos sociais dentro de um contexto (BORTONI-RICARDO, 2008). Nessa perspectiva, o pesquisador com base em sua

capacidade de observação “tem de estar consciente das molduras de interpretação daqueles a quem observa e de suas próprias molduras de interpretação” (BORTONI-RICARDO, 2008, p.

58). A propósito, essa capacidade de observação do pesquisador é muito relevante no âmbito da pesquisa da metáfora no discurso. Sobre isso, Cameron e Maslen (2010) comentam que encontrar sistematicidade nas metáforas identificadas nos dados da língua em uso, além do cuidado e rigor científicos, certamente, envolve imaginação e criatividade por parte do pesquisador.

Sendo assim, a análise dos dados em nosso estudo de caso foi de cunho descritivo e interpretativo, orientada sob uma perspectiva interativa e recursiva característica da análise do discurso à luz da metáfora. Ademais, adotamos um ponto de vista êmico, isto é, um ponto de vista que se baseia nas percepções e valores de um membro da comunidade que experiencia um fato (TURNER; BRUNER, 1986), para investigar as metáforas emergentes nos discursos dos participantes. Desse modo, as metáforas conceptuais identificadas – e principalmente as metáforas sistemáticas elaboras – foram analisadas mediante os indícios das percepções e opiniões dos participantes dos grupos focais.

Em suma, por usar o método de estudo de caso e a técnica de grupo focal para coleta de dados, isto é, por sua natureza metodológica e técnica de coleta de dados, e dado seu caráter explanatório, descritivo e interpretativo para a abordagem do objeto que analisamos, esta pesquisa se insere no paradigma qualitativo-interpretativo. Na seção a seguir, detalhamos as características do contexto da pesquisa, bem como dos participantes envolvidos nela.