2. Die Rezeption des Stoffes ‚Krabat‘
2.3. Zur Rezeption aus dem Märchen
O anticomunismo figura como um valor particularmente caro às Forças Armadas brasileiras, tendo sido incorporado às práticas, discursos e mobilizações militares ao longo do século XX, ganhando força sobretudo em contextos de radicalização política, como a Insurreição Comunista de 1935 e no governo João Goulart.
Dentre as cartas enviadas a DCDP por militares e associações militares e policiais, podemos perceber que o conteúdo de muitas é atravessado por questões político-ideológicas, com a presença de diversos elementos do repertório anticomunista, sendo um dos mais recorrentes a associação da suposta derrocada moral da sociedade à ação do comunismo internacional. Através dos casos analisados, é possível avaliar a amplitude tomada por argumentos desta natureza e compreender melhor de que maneira o discurso de duas importantes instituições – a católica e a militar –, se uniam para dar suporte ao exercício censório. É interessante ressaltar que embora articulados em prol de um objetivo em comum – e aliados contra os mesmos adversários –, o discurso militar aponta a defesa da pátria como um dos principais alvos de ataque da ação comunista internacional, enquanto que no discurso católico os valores familiares e morais figuravam como um dos principais aspectos a serem resguardados contra a ofensiva comunista.
A primeira vez que o tenente-coronel Hugo da Cunha Alves escrevia ao Ministério da Educação, havia sido para tratar da questão do “aproveitamento do cantor Roberto Carlos à nossa causa e sobre o excesso de ‘estrangeirismos’ que invadem nosso país”. Escrevendo de Curitiba em maio de 1971, “integrado nesta corrente pra frente da qual nenhum verdadeiro patriota pode ficar apartado”, o coronel se dirigia novamente ao então Ministro da Educação, Jarbas Passarinho, pedindo que fosse impedida a divulgação das “imoralidades de todas as formas” em peças de teatro, revistas como O Cruzeiro e no programa de televisão Flávio
Cavalcanti. O coronel considerava que suas reivindicações expressavam não apenas uma opinião individual, mas a “opinião de centenas de pessoas de todas as camadas sociais e de elevado gabarito moral” que pensavam como ele, ou seja, “mais de 90% do povo brasileiro” que “também, felizmente, condena a campanha de desmoralização dos costumes, que uma
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minoria desgarrada tenta efetivar, principalmente junto a nossa valorosa juventude”244 . Esta
“minoria desgarrada” estaria
Perdendo terreno em tôdas as frentes, face à vigorosa e eficiente ação do govêrno, através de seus operosos órgãos, os mais diversos, principalmente êsse que V. Exa., com sábia psicologia, vem dirigindo, volta-se o subversivo para a ‘família’ brasileira.
A desagregação desta, sem dúvida, é um dos grandes objetivos intermediários da ‘subversão’, pois, já sentiram a fôrça de um povo que tem sua ‘célula mater’ bem organizada.
Como, para os ‘inimigos ou falsos amigos’, os fins justificam os meios, utilizam-se eles de todas as armas que lhes chegam às mãos245.
No discurso do coronel fica claro que aqueles que estavam “desfechando a guerra revolucionária em todas as frentes” lançavam mão de todas as armas para atingir seus “objetivos espúrios”, como a eliminação de “um dos mais belos e puros atributos das jovens”, o pudor:
Sem pudor, a moça passa de namorado em namorado, adquirindo toda a sorte de ‘experiências’, que, conseguindo casar, talvez lhe sirva para algo. A prostituição aumenta assustadoramente, e os casamentos diminuem, obviamente.
Pergunto, que lares poderão se formar, se não houver providências que destruam algumas das armas que o inimigo está, com sabedoria, se utilizando? Que filhos sairão desses lares, se por acaso forem constituídos?
De acordo com a interpretação do coronel, a ação subversiva age insidiosamente dentro dos lares não apenas através da propagação da imoralidade nos meios de comunicação, mas também, “o que era mais grave”, impedindo a formação de novas famílias. A carta era encerrada com as expressões de cordialidade de quem se despede, acrescida de vocabulário e representações próprias do segmento militar: “Sr. Ministro, é pouco o que tenho, mas tudo estará sempre à disposição dos grandes patriotas como o presidente Médici, ministro Passarinho, e de todos que hoje estão na vanguarda dessa aguerrida tropa que peleia pelo desenvolvimento e grandeza do Brasil”246.
Igualmente apreensivos perante o “contexto da guerra revolucionária” em que se vivia, a Associação de Delegados de Polícia do Estado de São Paulo escrevia, no mesmo ano de 1971,
244 Carta do tenente-coronel Hugo da Cunha Alves ao ministro da Educação, Jarbas Passarinho, encaminhada à
DCDP, 31 de maio de 1971. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
245 Carta do tenente-coronel Hugo da Cunha Alves ao ministro da Educação, Jarbas Passarinho, encaminhada à
DCDP, 31 de maio de 1971. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
246 Carta do tenente-coronel Hugo da Cunha Alves ao ministro da Educação, Jarbas Passarinho, encaminhada à
DCDP, 31 de maio de 1971. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
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ao Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, queixando-se do modo que se representava a figura do delegado de polícia nas novelas Irmãos Coragem e O homem que deve morrer: “de maneira caricata, para não dizer ridícula; é o ignorante, o violento, o corrupto”.
Indignado com tal situação, o presidente da Associação escrevia apresentando a formação profissional da classe, informando que pelos menos em São Paulo todos os delegados seriam formados em Direito, admitidos através de concurso público, submetidos a exame psicotécnico e à investigação social de vida pregressa. O discurso ia além, enaltecendo o “importante” papel desempenhado pela Polícia Civil de São Paulo nos atos “preparatórios e na Revolução de 1964”, afinal, teria sido o DOPS/SP quem
iniciou o desbaratamento da subversão e do terrorismo no território pátrio, inicialmente com os ataques à Vanguarda Popular Revolucionária de Carlos Lamarca, prosseguindo com a destruição do mito Carlos Marighella e de seu sucessor Joaquim Câmara Ferreira, a prisão de Jacob Gorender e Diogenes de Arruda Câmara, e participando, recentemente, das diligências que culminaram com a localização e morte de Carlos Lamarca.247
De acordo com o presidente da Associação dos Delegados, em vista deste “glorioso histórico” de atuação da Polícia Civil do Estado de São Paulo, ficava fácil deduzir qual seria o objetivo por trás da apresentação desfavorável da figura do delegado de polícia na televisão: uma estratégia subversiva. Assim, o discurso dessa entidade de classe associava o modo “pejorativo” com o qual era apresentado o delegado de polícia nas telas a uma ação dos “autores da guerra revolucionária”, que teriam como um dos seus objetivos a “destruição do conceito da autoridade constituída, qualquer que seja ela”. Mobilizando um dos mitos expressivos do repertório anticomunista, a Associação dos Delegados de Polícia alegava que “os meios de comunicação massiva representam o ‘habitat’ preferido dos maus brasileiros adeptos da subversão, que habilmente se utilizam do incontestável progresso de tais meios para, subliminarmente, incutirem suas ideias no seio do povo”248.
Por fim, gostaria de ressaltar na carta o uso de uma estratégia de argumentação bastante recorrente nos discursos anticomunistas: a citação de trechos de falas e pronunciamentos supostamente veiculados por líderes comunistas como meio de reforçar a veracidade da tese da ação do comunismo internacional de propagação da imoralidade nos
247 Carta da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo ao Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid,
encaminhada à DCDP, São Paulo, 04 de outubro de 1971. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
248 Carta da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo ao Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid,
encaminhada à DCDP, São Paulo, 04 de outubro de 1971. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
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meios de comunicação. Já tivemos oportunidade de perceber a presença desse tipo de recurso nos discursos emanados da comunidade de informações do governo militar, mas ele também esteve presente nas cartas enviadas à censura; neste caso, o presidente da Associação citava as palavras supostamente proferidas por Mao-Tsé-Tung em 1967: “a cultura revolucionária é uma poderosa arma revolucionária para as grandes massas populares. Antes do começo da revolução, ela prepara ideologicamente o terreno, e, durante esta, constitui uma frente de combate necessária e importante na frente geral da revolução”249.
O técnico de censura que recebeu o encaminhamento da carta remeteu seu parecer sobre o assunto ao chefe do SCDP, alegando que a reclamação da Associação, “sob certos aspectos, não deixa de ter seus fôros de procedência”. Vale dizer que o técnico de censura ainda aproveitou a oportunidade para lembrar ao chefe um fato que “os doutos representantes da associação de delegados”, ao que parece, não haviam prestado atenção: “a presença constante, no programa Flávio Cavalcanti, do Sr. Nelson Duarte – protótipo do policial desajustado – narrando casos os mais escabrosos, em horário impróprio, ao invés de se ater à sua condição de agente da lei”.250
Desta vez, em uma carta enviada de São Gonçalo em julho de 1974 pela Associação dos
Ex-combatentes do Brasil, o presidente da associação se dirigia à DCDP com o propósito de relatar uma irregularidade, certo de que o fato havia passado despercebido pelos funcionários do serviço de censura. No dia 30 de junho, por volta das 18:50h, no programa Silvio Santos, o presidente teria assistido a um
espetáculo deveras constritador [sic] de absoluta falta de respeito, qual seja, a apresentação em cena de dez môças sumariamente vestidas, sendo que três delas, sem guardarem a reverência e a idolatria a que ela nos merece, segurando-as pelas pontas dos dedos e cobrindo-lhes os colos quase desnudos, portavam o imaculado Pavilhão Auriverde, cada uma.251
A cena que mostrava as mulatas do Sargenteli dançando estrepitosamente ao “som de um ruidoso samba executado na hora” e portando a Bandeira Nacional nas “nuances dos seus imorais e provocantes requebrados” certamente não agradou ao presidente da
249 Ofício 887/71. Carta da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo ao Ministro da Justiça, Alfredo
Buzaid, encaminhada à DCDP, São Paulo, 04 de outubro de 1971. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
250 Parecer do técnico de censura Vicente de Paulo Alencar Monteiro ao chefe do SCDP, Brasília, 30 de
novembro de 1971. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
251 Ofício 230/74. Carta do presidente da Associação dos Ex-combatentes do Brasil para o Diretor da DCDP, 1 de
julho de 1974. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
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associação: era com “imenso desprazer, e por que não dizer, revolta, que vimos, pela primeira vez, a Bandeira Nacional ser transformada em estandarte de escola de samba, [...] aquilo a quem devemos, voltamos a repetir, o máximo e absoluto respeito, que é o nosso querido e imaculado Pavilhão Nacional”252.
Diversas outras reclamações desta natureza chegaram às mãos da DCDP, provenientes de militares indignados com o desrespeito com que eram tratados os símbolos nacionais, principalmente a bandeira do Brasil. São várias denúncias de peças de teatro e programas humorísticos de televisão nos quais os atores se apresentaram com insígnias e peças de uniformes idênticos aos usados nas Forças Armadas e na polícia militar, o que era considerado um desgaste ao “bom conceito e ao respeito” das instituições mantenedoras da ordem pública253.
A maioria das correspondências enviadas por militares ostentam em sua apresentação e encerramento, saudações e despedidas que evocam o dever cívico do cidadão, a devoção à pátria, ao governo e à corporação militar, a exemplo de expressões como “saudações patrióticas” ou “quem não vive para servir, não serve para viver”. É interessante perceber que era baseado na noção de “dever que todo cidadão tem para com sua pátria” que os militares justificavam sua atitude de escrever às autoridades para denunciar as ações do comunismo internacional. Esse aspecto, no entanto, não era exclusivo dos militares; muitas cartas enviadas por indivíduos isolados, entidades religiosas e diversos outros segmentos da sociedade escoravam suas denúncias e reivindicações para a censura na obrigação de um dever patriótico, que todo cidadão exemplar deveria cumprir.
Embora este não seja o único motivo para explicar essa amplitude alcançada pela noção de “dever cívico” na sociedade, vale lembrar que parte da propaganda oficial do governo militar buscava promover a ideia otimista de que a construção de um grande país só seria possível se cada um “cumprisse a sua parte”. Como expresso nas palavras de uma das integrantes da Associação de Viúvas dos militares das Forças Armadas, era “preciso que cada um
252 Ofício 230/74. Carta do presidente da Associação dos Ex-combatentes do Brasil para o Diretor da DCDP, 1 de
julho de 1974. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
253 Ofício 00327, do Comandante-Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro ao diretor-geral do
DPF, de julho. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
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tome decisões de civismo, criando um clima de confiança para combater a crise moral que está influenciando na formação do caráter da nossa juventude”254.
E foi no “cumprimento do seu dever cívico e patriótico” que em 26 de outubro de 1977 a Associação dos Ex-combatentes do Brasil escrevia mais uma vez ao Diretor da DCDP, Rogério Nunes, remetendo para sua apreciação um recorte de reportagem publicada na edição do jornal O São Gonçalo, naquele mesmo dia. Na opinião do presidente da associação, em Heróis drogados e assassinos, artigo redigido pela jornalista Anna Vasconcelos,
a articulista, com rara felicidade, interpreta o sentimento de repúdio de todo o povo brasileiro a essa forma de divulgação, sob todos os aspectos nefasta, anti- social e anti-patriótica, a que está se prestando nossa imprensa escrita e falada, cujos objetivos tanto podem ser mercantis, como também, levar grande parte da juventude contemporânea, pelo exemplo e avidez de imitação, a se desintegrar moral e espiritualmente, tornando-a presa fácil de ideologias espúrias e escravizantes, que contrariam frontalmente nossas convicções e nossa maneira de viver.255
O artigo em questão constituía, de maneira geral, uma crítica à irresponsabilidade com a qual os meios de comunicação exploravam a imagem de assassinos, prostitutas, drogados, do álcool e do cigarro, transformando-os em modelos e atitudes a serem seguidas pela juventude. No entanto, neste trecho do discurso vale chamar atenção para a utilização da expressão “ideologias espúrias e escravizantes”; embora não mencione explicitamente, fica evidente que o presidente da associação se referia ao comunismo, valendo-se de um dos temas centrais das representações anti-soviéticas: a condição de miséria e exploração a que estariam submetidos os povos sob o regime comunista, ou seja, à escravização. Um dos importantes componentes do discurso anticomunista destinava-se a investir contra um dos aspectos caros à propaganda revolucionária, a conquista de transformações sociais. Nesse sentido, as promessas de uma pátria fundada na liberdade e igualdade dos trabalhadores não passaria de um engodo da propaganda comunista, cujas intenções reais eram submeter a população a um regime de trabalho servil e degradante. Vale ressaltar que essa representação do comunismo como uma ideologia exótica avessa aos valores tradicionais da sociedade brasileira e com fins escravizantes também foi expressa nas palavras de um representante da censura, Coriolano Fagundes: “em meio à borrasca, os timoneiros da Revolução de 1964
254 Carta da Associação das Viúvas de militares das Forças Armadas para o chefe do DPF, Romeu Tuma, São Paulo,
12 de março de 1986. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
255 Carta do presidente da Associação dos Ex-combatentes do Brasil a Rogério Nunes, diretor da DCDP, 26 de
outubro de 1977. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
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conseguiram voltar a proa da nave política rumo aos verdadeiros objetivos nacionais permanentes, que se alicerçam na tradição histórica e cultural genuinamente brasileira, sem necessidade de ingerência ideológica alienígena e escravocrata”256.
Em outra carta, enviada de Porto Alegre no ano de 1977, um coronel da Brigada Militar do Rio Grande do Sul escrevia ao Ministro da Justiça, Armando Falcão, em nome da sua “democrática e patriótica inconformidade ante à agressividade dos meios de comunicação em massa”, para protestar contra uma “onda de degradação” que se traduzia tanto pela publicação de artigos de conteúdo excitante sobre sexo, quanto pelo excessivo erotismo de figuras ou cenas de adultério, tônica dominante de determinados programas de televisão e de um grande número de revistas em circulação no país257. O coronel, “convencido das insídias
contra a moral e os costumes que atentam contra a família, a sociedade e até mesmo as leis vigentes no país”, solicitava uma reformulação profunda na censura, órgão que “se tem mostrado atuante, mas o que faz ainda deixa muito a desejar”. Era por isto que vinha
externar aqui minha inconformidade com a licenciosidade de costumes que, além de aviltar a nossa civilização, não deixa de afetar a Segurança Nacional, pelo desfibramento moral da juventude [...]. Aliás, a história nos diz que a crise da família helênica derrubou a Grécia e a crise da família romana derrubou o Império Romano. A imoralidade, que cria a ridicularização do herói, não tem outro escopo que destruir a democracia. Não foi por outro motivo que os EE.UU. foram fragorosamente derrotados na guerra do Sudeste Asiático contra um inimigo cuja maior preocupação era debelar a prostituição de suas hostes258.
Como podemos perceber, os exemplos históricos inseridos na sua fala do coronel servem como um recurso de convencimento que procurava atestar a irrefutabilidade seu argumento, uma vez que já teria sido demonstrado outras vezes ao longo da história que a licenciosidade de costumes teria provocado a instabilidade de regimes políticos.
A passagem também nos remete a uma concepção fundamental presente no conservadorismo cristão: a preservação de um determinado modelo de família, considerada como uma instituição religiosa259. Como podemos perceber, a defesa da moral e dos bons
256 FAGUNDES, Coriolano de Loyola Cabral. Censura & Liberdade de expressão. São Paulo: Editau, 1975,
p. 301.
257 Carta do coronel da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul enviada ao ministro da Justiça,
Armando Falcão, encaminhada à DCDP, 22 de março de 1977. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
258 Carta do coronel da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul enviada ao ministro da Justiça,
Armando Falcão, encaminhada à DCDP, 22 de março de 1977. AN/DF. Fundo DCDP. Seção Administração Geral. Série Correspondência Oficial. Subsérie Manifestações da Sociedade Civil.
259 Vale ressaltar que o missivista, além de ser coronel da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, também era
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costumes contra as investidas revolucionárias se constitui em uma temática frequentemente associada ao moralismo cristão: da perspectiva cristã, os “ateu-comunistas” estavam interessados em corromper os costumes e valores também com o objetivo de destruir a Igreja. O imaginário que povoava as mentes e engendrava ações anticomunistas, protagonizadas por setores conservadores – frequentemente adeptos do catolicismo – era pautado em valores morais que buscavam proteger a estrutura familiar e preservar uma moral sexual.
Essas representações, naturalmente, não eram oriundas de delírios arquitetados pelas forças repressivas com o intuito instrumental de eliminar seus desafetos. A ameaça revolucionária era, muitas vezes, um temor sincero. É possível indicar algumas mudanças