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Revisando la estética de Cuentos de barro

2. Estado de la cuestión 15

2.3. Revisando la estética de Cuentos de barro

Na atualidade, para a categoria lugar foram atribuídos valores fundamentais, o que ampliou sua análise e concepção. Santos (2002) discorre que as experiências manifestadas dentro dessa categoria decorrem "de um cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas, firmas, instituições-cooperação e conflito são à base da vida em comum." Essa afirmação remete a uma compreensão crítica de como as relações sociedade e meio natural são articuladas e desenvolvidas tanto em escala “local-local” como em escala “local-global”. Nesse prisma, Santos (2002, p. 258), ao referir-se sobre lugar, esclarece que:

No lugar, nosso próximo, se superpõe dialeticamente ao eixo das sucessões, que transmite os tempos externos das escalas superiores e o eixo dos tempos internos, que é o eixo das coexistências, onde tudo se funde, enlaçando definitivamente, as noções e as realidades de espaço e tempo.

O autor, ao contextualizar o conceito de lugar, fortalece as novas abordagens geográficas do espaço vivido, seja ele local ou global, impregnado de interações objetivas que se articulam com as subjetivas e verticalmente resultam do exercício do poder conectado com as relações horizontais. Essas últimas consistem na coexistência e resistência dos significados e símbolos do território.

Cavalcanti (2006) descreve que o lugar, na ciência geográfica, ultrapassa a ideia de uma simples “localização espacial absoluta”. Aos poucos, o lugar perde sua alusão arcaica, passando a consistir, na Cartografia, apenas em uma dimensão pontual. No discurso da autora, são abordadas três perspectivas que serão analisadas a seguir.

A primeira perspectiva está fundamentada na Geografia Humanística – espaço

vivido é resultado das experiências nele desenvolvidas, é íntimo, singular e restrito ao indivíduo. As relações humanas com o ambiente natural caracterizam o comportamento geográfico (sentimentos, ideias, respeito ao lugar). A concepção histórico-dialética corresponde à segunda perspectiva que reflete o contexto da

globalização que pressupõe análise das particularidades dos lugares e é “encarada”

em âmbito mundial. “O problema local é problema global”; portanto existe um “deslocamento” das inter-relações socioespaciais. Os impactos das transformações

globais são particulares em função das possibilidades locais e da “materialidade dos

lugares” que, com certeza, provocarão resistências frente à “identidade, ao coletivo e ao subjetivo.”

Carlos (1993, p. 303), ao anteceder aos estudos de Cavalcanti (2006), definiu e teceu análises sobre lugar:

O lugar se produz na articulação contraditória entre o mundial que se anuncia e a especificidade histórica do particular. Deste modo o lugar se apresentaria como o ponto de articulação entre a mundialidade em constituição e o local enquanto especificidade concreta, enquanto momento. Só é possível o entendimento do mundo moderno a partir do lugar na medida em que este for analisado num processo mais amplo. (CARLOS, 1993, p. 303).

A última perspectiva proposta por Cavalcanti (2006) é a de que a geografia, como ciência, na visão do pensamento pós-moderno, discute a ideia de totalidade para traçar novos paradigmas que expliquem a essência da materialidade do lugar sem perder as marcas da sua identidade. A sociedade nele contida possui dinâmicas próprias que se interagem e movimentam. Assim sendo, os lugares estão sujeitos a exclusões, conflitos, choques culturais, principalmente quando os valores simbólicos e significativos são alijados do processo.

Para Tuan (1983, p.198), o lugar também possui um viés psicológico, pois tem a ver com a afetividade, relação tão importante para o ser humano. O autor expressa que o sujeito só se familiariza com o lugar no decorrer do tempo, pois isso implica anos de vivência e experiências ocorridas e apropriadas por ele indiferente do espaço e tempo. A partir daí, o homem apodera-se do lugar: "O lugar é um mundo de significado organizado”. Também infere que espaço e lugar possuem perspectivas da experiência humana.

Essas duas categorias geográficas interagem-se, ou seja, não se compreende uma sem entender a outra, “um espaço transforma-se em lugar à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor. [...] Quando o espaço nos é inteiramente familiar torna-se lugar. [...] Centro aos quais atribuímos valor e onde são satisfeitas

as necessidades biológicas, de comida, água, descanso e apropriação.” (TUAN,

1983, p. 198). Esse autor afirma ainda que espaço é transformado em lugar à medida que o acolhemos e o valorizamos. "Lugar é uma mistura singular de vistas, sons e cheiros, uma harmonia ímpar de ritmos naturais e artificiais, [...] sentir um lugar é registrar pelos nossos músculos e ossos." (TUAN, 1983, p. 203).

O conceito de espaço é aqui enfatizado como um “metaconceito”, naquilo que é relativo às ações do homem. Enquanto no materialismo histórico, o lugar é singular. Já na Geografia Humanística, lugar é compreendido como parte do espaço onde se desenvolvem as experiências individuais e coletivas que permitem o desenvolvimento da afetividade, “centro de significados construídos pela experiência.” (TUAN, 1983, p. 198). Para o autor, o conceito de lugar é mais concreto para o homem do que o de espaço, pois nele se realiza uma simbiose entre o indivíduo e o ambiente, materializada nos processos de participação, percepção e intervenções desse com o meio.

No campo da fenomenologia, a compreensão de lugar tem como ponto de partida a experiência humana. O lugar é existencial, local de afeição e de obrigações a serem cumpridas socialmente, é fonte de autoconhecimento. Para Tuan (1983), é lócus das diversas inter-relações com o meio particular, âmago da sua existência.

Santos (1997, p.115) confirma o legado de Tuan (1983) quando escreve que a existência do lugar desenvolve-se no cotidiano das pessoas através das atividades por elas executadas entre seus pares e instituições, ao cooperar e administrar conflitos na “base da vida em comum.” Também que os limites socioespaciais estão contextualizados no lugar, uma vez que a cultura, hábitos, modos de vida, símbolos e relações comunitárias estão nele incorporados. Segundo Tuan (1980, p.114), a “familiaridade engendra afeição ou desprezo” e é inerente de resultados das experiências emocionais vividas nos lares, nos bairros, nas casas, “símbolos próprios da familiaridade” que protege o ser humano das “perplexidades do mundo exterior”.

Assim pensando, o referido autor ressalta que existe um sentimento ”topofílico”, ou seja, existem laços afetivos desenvolvidos pelos seres humanos no meio natural em que vivem. A topofilia “é o veículo de acontecimentos emocionalmente fortes” é percebida “como um símbolo”. (TUAN, 1980, p.107). Oportuniza sentimentos de bem-estar físico, de envolvimento com o lugar e amigos, de paz e felicidade, de contemplação com a “beleza da existência que nos rodeia”, de desfrutar do “bem do mundo”, (TUAN, 1980, p.113). Dessa forma, está subentendido que o lugar faz parte do espaço, o território e a territorialidade estão contextualizados na topofilia do lugar. Portanto, nos estudos dos territórios da saúde, os sentimentos e as identidades locais são imprescindíveis no sucesso da execução dos ditames propostos para as ESFs.