relacionados às drogas (BARBARA BLOOM e MEDA CHESNEY-LIND, 2003; ELENA LARRAURI, 1991; KATHERINE VAN WORMER e BARTOLAS, 2007; STEPHANIE BUSH-BASKETT, 2000),é bastante seletivo, pois se ancora em um funil por onde alguns perfis são mais vulneráveis.
Como o objetivo da pesquisa foi, justamente, evidenciar a heterogeneidade das dinâmicas de inserção e de permanência das mulheres no tráfico de drogas, ressaltando percursos distintos de explicações monocausais como vulnerabilidade econômica ou subserviência em relação a um outro masculino, optou-se por tentar reconstruir trajetórias de vida não só de mulheres presas por este ato criminalizado, mas também daquelas que, mesmo havendo se aproximado e semantido como participantes do tráfico de drogas, não estavam encarceradas. Assim, em boa medida as mulheres encarceradas representariam o passado e o presente; a construção de uma
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trajetória. Enquanto que as mulheres atuantes representariam o presente e o futuro, melhor indicando como funciona a dinâmica do tráfico, suas perspectivas e riscos.
Apesar de esta estratégia metodológica haver sido pensada desde o planejamento da pesquisa, naquele momento acreditou-se ser quase impossível localizar e se aproximar de mulheres atualmente traficantes de drogas para a realização de entrevistas em profundidade. No entanto, no decorrer das primeiras entrevistas com mulheres presas em Brasília-DF, uma delas disse, enquanto respondia à pergunta sobre os lugares em que as mulheres mais traficam, “todo lugar é lugar de correria”.
A constatação de que o tráfico de drogas e as mulheres que o exercem estão em toda parte, mesmo que não fosse novidade, remeteu ao fato de que não existe necessariamente dificuldade em encontrar mulheres traficantes, mas em identificá-las e, principalmente, aproximar-se delas por meio de alguém que se responsabilize pela idoneidade da investigação e pelas consequências do contato com alguém desconhecida/o. Essa certeza incentivou a iniciativa em ao menos tentar entrevistar mulheres traficantes de drogas fora do ambiente prisional, tanto em Brasília-DF como na Cidade do México.
Em ambos os países foram traçadas duas formas de aproximação com estas mulheres. A primeira por meio de pessoas livres ligadas ao tráfico de drogas, como consumidoras/es de drogas, amigas/os, vizinhas/os e familiares das/os traficantes e a segunda por meio das próprias mulheres presas que haviam sido entrevistadas. Às vezes apenas a palavra destas/os informantesera suficiente para criar a possiblidade de uma entrevista, mas na maior parte das vezes o processo era lento e permeado por uma série de testes que pudessem comprovar que este contato não traria riscos às mulheres entrevistadas, tais como a comprovação do vínculo universitário ou a apresentação da investigadora para pessoas que desempenhavam cargos mais altos na rede de tráfico, como uma forma singela de dizer que havia quem pudesse protegê-las.
Por fim, foram realizadas 10 entrevistas com mulheres livres envolvidas com o tráfico de drogas, sendo cinco em cada uma das capitais. Em Brasília-DF, Ana, Daniela, Gabriela, Flávia e Marina. Na Cidade do México, Flora, Jéssica, Jussara, Laura e Vitória.
As entrevistas tiveram particularidades muito especiais, que vão desde a forma como o contato inicial foi tecido até o local onde foram realizadas. Para explicitar, houve entrevistas realizadas enquanto a droga era vendida, outras em bares,
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outras na casa das entrevistadas, outras na casa das/os informantese outras no local de trabalho formal ou de estudo das mulheres entrevistadas.
Essa variedade de situações determinou profundamente o tempo das entrevistas, que duraram entre 01 e 04 horas. Como já imaginado e esperado, também determinou um clima diferenciado em relação às entrevistas realizadas na penitenciária, onde um tom denunciativo ou vitimizador raramente se distanciava dos discursos proferidos. Inclusive a hierarquia entre investigadora e sujeitas de pesquisa pôde ser dissolvida por outras variáveis capazes de equalizar ou até mesmo inverter estas hierarquias. Citando um exemplo, uma grande traficante foi entrevistada em sua casa, uma luxuosa mansão que indicava nitidamente a diferença de estrato social. Por outra parte, o clima em que as entrevistas foram realizadas possibilitou perguntas mais profundas sobre a logística da rede de tráfico de drogas e mais íntimas em relação às questões pessoais.
Além de todas as entrevistas realizadas com mulheres que haviam tido algum tipo de aproximação e/ou permanência no tráfico de drogas, para colaborar na construção de uma compreensão mais ampla do que significa esta rede na América Latina, também foram realizadas 11 entrevistas52 com pessoas que trabalham diretamente com o tema em Brasília-DF, Brasil, 02 na Cidade do México, México e 01 na cidade de Culiacán, no Estado de Sinaloa, no México. Dentre elas, trabalhadoras/es das penitenciárias femininas, como agentes penitenciárias/os, enfermeiras e professoras/es; trabalhadoras/es dos sistemas de justiça e penal, como advogadas/os, delegadas/os e juízes; e, por fim, acadêmicas/os.
Assim, para que se possa ter uma ideia global do trabalho de campo realizado, pode-se verificar abaixo um resumo de quais foram as entrevistas realizadas:
- 07 entrevistas com mulheres envolvidas com o tráfico de drogas em outros estados do México (pesquisa exploratória);
- 14 entrevistas com mulheres envolvidas com o tráfico de drogas em Brasília-DF, Brasil;
- 13 entrevistas com mulheres envolvidas com o tráfico de drogas na Cidade do México, México;
- 14 entrevistas com pessoas que trabalham diretamente com o tema da pesquisa em Brasília-DF, Brasil e na Cidade do México, México.
52 O roteiro das entrevistas em profundidade semiestruturadas realizadas com pessoas que trabalham diretamente com o tema da pesquisa encontra-se disponível no Anexo 04.
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Tabela 02: Entrevistas em profundidade semiestruturadas realizadas por país.
Tipo de entrevista
Lugares onde foram realizadas
as entrevistas
Grupo entrevistado Quantidade Nomes
Pesquisa Exploratória (México)
Culiacán, Estado de Sinaloa
Mulheres privadas de liberdade em regime fechado por tráfico de drogas
02 Elisa e Rosângela
Mulheres livres envolvidas com o tráfico de drogas
01 Sueli
Pessoas que trabalham diretamente com o tema da pesquisa
01 Matamoros,
Estado de Tamaulipas
Mulheres privadas de liberdade em regime fechado por tráfico de drogas
01 Edinarda
Reynosa, Estado de Tamaulipas
Mulheres privadas de liberdade em regime fechado por tráfico de drogas
01 Mônica
Tepotzlán, Estado de Morelos
Mulheres livres envolvidas com o tráfico de drogas
02 Cíntia e Naiara
Pesquisa na capital do Brasil
Brasília-DF Mulheres privadas de liberdade em regime fechado por tráfico de drogas
09 Aline, Cláudia, Cleide, Fernanda, Juliana, Luciana, Morgana, Paula e Taís Mulheres livres envolvidas com o
tráfico de drogas
05 Ana, Daniela,
Gabriela, Flávia e Marina
Pessoas que trabalham diretamente com o tema da pesquisa
11 Pesquisa na capital do México Cidade do México, DF.
Mulheres privadas de liberdade em regime fechado por tráfico de drogas
08 Alice, Ângela,
Antônia, Gertrudes, Helena, Ivone, Raquel e Sílvia
Mulheres livres envolvidas com o tráfico de drogas
05 Flora, Jéssica, Jussara, Laura e Vitória Pessoas que trabalham diretamente
com o tema da pesquisa
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Na Tabela 02 acima, encontra-se uma breve sistematização de todas as entrevistas em profundidade semiestruturadas realizadas em cada um dos países. Vale ressaltar que todas elas foram gravadas e completamente transcritas.