“O que eu vou ganhar com esta pesquisa?”. Pergunta realizada em distintos momentos pelas mulheres participantes desta investigação. Essa pode parecer apenas uma prova de ação interesseira de quem colabora com uma pesquisa. Entretanto, representa bem mais, tal como a relação de hierarquia existente entre quem realiza um estudo e as pessoas que são suas fontes. Dita de forma jocosa, afrontosa ou humilde, demonstra o desconhecimento por parte de quem colabora (e provavelmente também de quem realiza a pesquisa) em relação ao que se faz com o material recolhido. Simultaneamente, poder demonstrar o medo em relação às consequências que uma pessoa desconhecida pode trazer para a vida da/o informante, consequências estas por vezes inimaginadas pela/o própria/o pesquisadora/r.
Ninguém sai deste encontro ilesa/o (CRISTINA RIVERA GARZA, 2008), pois sempre o contato entre estas duas partes afeta a todas as envolvidas, tanto na dimensão corporal27, quanto afetiva e sentimentalmente e até mesmo de forma mais profunda, existencialmente. Há um dos lados, é certo, que está em posição de maior vulnerabilidade e, por isso, pode ser mais afetado. Segundo Alba Zaluar (1986), a/o cientista social não deve esquecer que a relação estabelecida entre quem observa e a pessoa observada é sempre uma relação social e política. Assim, a forma como a/o investigadora/r se posiciona diante da relação que estabelece com as pessoas com quem está trabalhando durante uma pesquisa remete a determinadas posturas políticas.
É principalmente em torno do tipo de relação que se estabelece entre investigadora/r e sujeitas/os de pesquisa que a teoria crítica feminista repensa as lógicas de uma ciência que objetiviza pessoas ou comunidades, sobretudo pessoas que estão em situação de vulnerabilidade (ROSALDO, 1989). Logo, refletir sobre este encontro é, em si, uma das formas de se assumir uma postura ética ao se reconhecer as mulheres que colaboraram com esta investigação como sujeitas em oposição a uma
27 Realizar um trabalho de campo com pessoas criminalizadas em espaços escondidos ou estatalmente vigiados perpassa desde o tangenciamento com sensações não previstasem uma pesquisa, como medo, nojo e felicidade, até a reprodução de sentimentos já esperados, como surpresa, curiosidade, assombro... A forma como estes encontros podem ser intensos e criadores de intersubjetividades passa, muitas vezes, pelo próprio corpo, dando materialidade a uma afetação que, obviamente, também é mentalizada. Assim, ânsia de vômito, alergias cutâneas e intensas dores de cabeça foram algumas das sensações presentes ao longo deste trabalho. Esta é mais uma possibilidade de cruzamento de fronteiras e, principalmente, de registro de ambiguidades.
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metodologia positivista que subalterniza ainda mais as pessoas nesta relação já desigual entre investigadora/r e investigada/o.
Se, como já dito, o conhecimento é situado (CHELA SANDOVAL, 2000; DONNA HARAWAY, 1988 e GLORIA ANZALDÚA, 1987), quem o produz diz mais que o que está escrito, pois ao mesmo tempo fala de si. Tudo o que é produzido está sendo construído a partir de um lugar, o lugar que a/o pesquisadora/r ocupa, não só no mundo, mas em relação a quem está sendo sujeita/o de estudo do trabalho em questão.
Provavelmente, há várias subjetividades compartilhadas entre quem investiga e quem está sendo investigada/o. No entanto, esta relação é mais de discrepâncias do que de semelhanças. Ainda que as dinâmicas situacionais criadas nos distintos encontros realizados com cada uma das mulheres envolvidas com o tráfico de drogas entrevistadas para esta pesquisa tenham sido diferentes entre si, justamente porque elas não são um todo homogêneo, há um lugar ocupado único: o de cientista.
Assim, todos os questionamentos críticos sobre a metodologia nesta investigação passam não só por aspectos estritamente técnicos, mas também por uma intensa reflexão de situacionalidade. Essa reflexividade buscou pensar o local de onde se produz a/o investigadora/r e, ao mesmo tempo, a intersubjetividade latente das relaçõesas quais são estabelecidas entre os indivíduos que compõem o amálgama da investigação e a pessoa que pesquisa.
Geralmenteos depoimentos de experiências publicados por pesquisadoras/es sociais representam o produto de diálogos interculturais nos quais poucas vezes são explicitados seus termos e não há preocupação sobre as hierarquias inerentes a estes diálogos, assim como com a pesquisa social como um todo (MARIE FRANCE LABREQUE, 1998). Por isso, faz-se necessário reconhecer que, ainda que a investigadora e as sujeitas de investigação sejam mulheres, há uma série de outros significantes que as demarcam e as diferenciam. Especialmente no caso das mulheres que estão aprisionadas por tráfico de drogas, devido à seletividade do sistema penal, estas marcas são gritantes, pois geralmente perpassam questões de classe e raça/cor28 e de escolaridade que, se não admitidas, podem tornar-se ainda mais ressaltadas e hierarquizantes.
28 A utilização desta nomenclatura para esta variável, bem como uma discussão mais pertinente à complexidade desta categoria será realizada na análise dos dados relacionados ao tema.
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Sobre as marcações individuais que posicionam uma pesquisadora em relação às mulheres presas que estão colaborando para um trabalho investigativo, conta sua experiência Elisa Matos (2013, p. 42):
Nací en una tierra que fue territorializada por la colonización y en este proceso la llamaron Brasil. Alguien, de un lado de mi familia, vino de Italia hace cerca de cien años, facilitados\as por una política de ‘emblanquecimiento’ del país y, desde entonces, sus descendentes recibieron apoyos institucionalizados por el Estado para que se desarrollasen debidamente en ese nuevo territorio. Desde ahí escribo, desde el lugar de una mujer que experimenta el mundo con accesos específicos debido a su ‘blanquitud’ y transita por un continente en el cual el racismo ordena el progreso, dicta las normas, documenta la historia. Mi feminismo es también localizado, estoy en lo que llamaron Latinoamérica, aunque en las lenguas originarias ni siquiera existiera la palabra “latín”. Por aquí tengo pensado, desde esa multiplicidad de lugares en los que estoy, desde los lugares en que soy; no porque así me parece más bonito (ya que ser acusada de esencialista se volvió una ofensa académica), sino porque lo que me circunscribe me informa. Blanca, lesbiana, flaca, brasileña (o extranjera en México), latinoamericana, joven, escolarizada... Todas esas categorías no tendrían sentido si dependieran del mundo al que utópicamente quiero llegar, pero dicen demasiado sobre las posiciones del mundo en el cual tengo que despertar.
Há diferenças estruturais que atravessam os indivíduos envolvidos na relação entre pesquisadora/r e pesquisadas/os. Estas diferenças precisam ser admitidas, contextualizadas e evidenciadas, pois só no confronto honesto com as dinâmicas de poder que perpassam as relações entre estas duas partes é possível construir uma escuta ética do que é falado por cada uma das pessoas que colabora para uma investigação. Por isso, houve, durante toda a investigação, uma busca no sentido de se manter um diálogo permanente sobre a importância da investigação e dos testemunhos, o que permitiu que as desigualdades estruturais fossem minimamente compensadas pelo processo de auto-representação, ou seja, pela tentativa de as próprias mulheres envolvidas com tráfico de drogas se auto identificassem.
Realizar uma investigação com mulheres que tiveram envolvimento e se mantiveram no tráfico de drogas não vai mudar a vida pregressa de nenhuma delas. No entanto, a construção do conhecimento científico sobre fenômenos sociais relegados ao (menosprezo) esquecimento tem o mesmo efeito de um litígio
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estratégico29, ainda que não traga ganhos diretos para as pessoas envolvidas, traz resultados somente por existir, ao dar visibilidade e legitimidade a determinados temas que antes haviam sido relegados ao esquecimento ou ao senso comum. Ambas as estratégias têm o intento de fazer com que os direitos coletivos sejam vistos como tão importantes quanto os direitos individuais do ser humano universal. E essa dimensão me parecer fundamental.
Além disso, há um ganho real que, às vezes, não é percebido por não ser quantificável, qual seja a possibilidade de sujeitos antes silenciados terem a oportunidade de falar. Não que indivíduos historicamente silenciados precisem de alguém externo, ainda mais uma pessoa originária da academia, para lhes escutar/dar voz, como se a investigação em si fosse um processo de resgate de alguém que sequer sabia que precisava ser resgatada/o. E não que necessariamente seja a/o pesquisadora/r a pessoa capaz de realizar tal façanha. Afinal, a voz de quem é silenciada/o precisa ser tomada e não dada por outra/o. Sobre este aspecto comenta Aranguren (2010, p. 17- 18):
En la idea de recompilación de la memoria del dolor y en su divulgación existe la concepción de que se está ante el mayor logro de la solidaridad y el respecto por el otro: dar voz a quienes no la tiene. Qué autoriza a otro a dar voz a la víctima? No hay algo de violencia epistémica y de subalternización en este proceso? (…) Lo que se pierde en este proceso, es, en principio, el mismo camino que va de una experiencia a un escrito, y por lo tanto se trata del mismo recorrido que va de la entrevista al libro, o de la historia oral a la monografía de investigación. En uno u otro caso se puede aludir al hecho de que lo que lo que se pierde en el tránsito del encuentro con el “otro” al texto escrito, es el cuerpo y la presencia de ese “otro” en el texto.
O que ocorre é que, por vezes, o sujeito fala, de fato, somente quando é escutado e não apenas quando pronuncia palavras (GAYATRI SPIVAK, 2010). Muitas das mulheres que participaram desta investigação nunca haviam sido escutadas e somente neste contexto puderam dizer o indizível e o inaudível em outros espaços.
Entretanto, sabe-se que existe uma intrínseca assimetria entre o “falar”, extraordinário e ao mesmo tempo doloroso, e o “escutar”, interessado e crédulo
29 O litígio estratégico busca, por meio do uso do Judiciário e de casos paradigmáticos, alcançar mudanças sociais. Os casos são escolhidos como ferramentas para transformação da jurisprudência dos tribunais e formação de precedentes, para provocar mudanças legislativas ou de políticas públicas (EVORAH CARDOSO, 2012, p. 41).
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(LÉVINAS, 1987). O primeiro sempre solicita credibilidade, enquanto que o segundo oferece a dúvida. Refletindo sobre as contribuições de Lévinas, Ortega (2008) argumenta que para conceder credibilidade a alguém, é necessário esmiuçar o que é e o que significa crer. Assim, o exercício de escuta (cultura auditiva) de um testemunho é um ato ético na medida em que, para um enunciado ser transformado em testemunho, precisa ser distanciado da dúvida. Portanto, é permitir a tomada de voz por quem está enunciando. Pensar a escuta ética da voz é justamente realizar a consideração não objetiva do enunciado, dispor-se para a própria escuta.
Há, ainda, casos em que a emergência da palavra da/o outra/o só pode existir em colaboração coletiva e, em algumas ocasiões, a/o investigador/a pode ocupar um lugar nesta colaboração. Obviamente qualquer aliança entre diferentes (e, neste caso, evidentemente desiguais) só pode ocorrer a partir do reconhecimento das situações de privilégio que uma das partes ocupa. Mas existe algo radical e potente na aliança entre as/os que ocupam lugares diversos no espaço social e, por isso, sofrem também de maneiras distintas. É como se somente no encontro fosse possível dotar de humano aquilo que havia sido dele despojado, mas que ainda está lá, pronto para ser visto, gritar e se fazer ouvir.